{"id":27547,"date":"2013-09-12T11:25:00","date_gmt":"2013-09-12T11:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27547"},"modified":"2013-09-12T11:25:00","modified_gmt":"2013-09-12T11:25:00","slug":"violencia-policial-atenta-contra-direito-a-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27547","title":{"rendered":"Viol\u00eancia policial atenta contra direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A cena vem se tornando corriqueira: jornalistas, fot&oacute;grafos, rep&oacute;rteres cinematogr&aacute;ficos, midialivistras ou qualquer pessoa, com uma c&acirc;mera ou smartphone, que presencie ou questione algum a&ccedil;&atilde;o desproporcional da pol&iacute;cia, tem sido agredida. As ferramentas s&atilde;o in&uacute;meras: spray de pimenta, balas de borracha, ordens de pris&atilde;o sem justificativa plaus&iacute;vel, etc. As justificativas do comando policial tamb&eacute;m repetem o mesmo script: &quot;a pol&iacute;cia agiu dentro da normalidade&quot;, &quot;eventuais exageros ser&atilde;o minuciosamente apurados&quot;.<\/p>\n<p>Durante atos realizados em meio &agrave;s comemora&ccedil;&otilde;es do 7 de setembro, fui uma das in&uacute;meras pessoas agredidas pelo &quot;crime&quot; de cobrir os eventos. Em Bras&iacute;lia, testemunhei policiais da Tropa de Choque atirarem uma bomba de g&aacute;s lacrimog&ecirc;neo contra a cabe&ccedil;a de um manifestante que criticava a a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia. Ao tentar apurar o ocorrido, mesmo me apresentando como rep&oacute;rter, fui agredido por tr&ecirc;s policiais com spray de pimenta e v&aacute;rios empurr&otilde;es.<\/p>\n<p>Os policiais claramente queriam evitar que eu identificasse o policial que cometeu a viol&ecirc;ncia. E esse n&atilde;o foi um fato isolado. Colegas de profiss&atilde;o, em v&aacute;rias cidades, tamb&eacute;m foram atacados\/as, o que foi condenado por organiza&ccedil;&otilde;es como a Rep&oacute;rteres sem Fronteiras (RSF), o Sindicato do Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC). At&eacute; mesmo a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert) criticou a a&ccedil;&atilde;o truculenta da pol&iacute;cia (embora n&atilde;o tenha deixado de igual&aacute;-la aos atos dos manifestantes).<\/p>\n<p>Os fatos que assistimos tornam ainda mais necess&aacute;ria a discuss&atilde;o sobre a a&ccedil;&atilde;o dos aparelhos de repress&atilde;o do Estado, pois s&atilde;o agentes p&uacute;blicos que assumem o papel de violadores de direitos humanos.&nbsp; Pesa contra o Estado, ainda, a aprova&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es. Segundo o comandante-geral da Pol&iacute;cia Militar do DF, Jooziel Freire, os ataques decorreram da dificuldade dos &quot;militares distinguirem rep&oacute;rteres na multid&atilde;o de mascarados. Rep&oacute;rteres sem identifica&ccedil;&atilde;o, usando m&aacute;scaras e capacetes, podem estar sujeitos &agrave; abordagem policial&quot;, disse. Para a corpora&ccedil;&atilde;o, parece que a quest&atilde;o se restringe ao uso ou n&atilde;o de equipamentos de prote&ccedil;&atilde;o, de modo que possam distinguir os profissionais da imprensa dos outros manifestantes.<\/p>\n<p>&Eacute;, neste ponto, que reside a armadilha. Ao propor este tipo de pr&aacute;tica, o aparato de seguran&ccedil;a p&uacute;blica objetiva restringir o direito de qualquer cidad&atilde;o de buscar e difundir informa&ccedil;&otilde;es, princ&iacute;pios basilares do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Pode-se dizer que a &quot;solu&ccedil;&atilde;o&quot; tem endere&ccedil;o certo: os diferentes grupos de comunicadores, blogueiros e midialivristas que acompanham as manifesta&ccedil;&otilde;es e que fazem um excelente contraponto &agrave; cobertura dos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o. O que est&aacute; havendo, portanto, &eacute; a banaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia, conforme mostra v&iacute;deo que circula na Internet, no qual policiais militares aparecem impedindo um grupo de manifestantes de seguir marcha. O integrante do Batalh&atilde;o de Choque da PM aparece na grava&ccedil;&atilde;o agredindo os manifestantes com spray de pimenta, sem raz&atilde;o aparente. Perguntado sobre o porqu&ecirc; do feito, responde sorridente, ciente da impunidade: &ldquo;Porque eu quis. Pode ir l&aacute; denunciar&rdquo;.<\/p>\n<p>Por outro lado, h&aacute; registros de viol&ecirc;ncia contra profissionais de imprensa praticada por manifestantes, sob o argumento de insatisfa&ccedil;&atilde;o com a forma como as not&iacute;cias veiculadas pelos grandes ve&iacute;culos. Nestes casos, confundem jornalista com a empresa e descarregam a insatisfa&ccedil;&atilde;o na pessoa. Um tipo de viol&ecirc;ncia que tamb&eacute;m tem que se repudiada, uma vez que atenta contra trabalhadores que est&atilde;o exercendo a sua fun&ccedil;&atilde;o. Mas que tem que ser percebida desde suas origens: as cr&iacute;ticas &agrave; cobertura feita pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Isso evidencia a necessidade de se promover mudan&ccedil;as no setor, com vista &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Ademais, levantamento da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) aponta que, das vinte agress&otilde;es registradas contra jornalistas nos protestos, 85% foram cometidas pela PM.<\/p>\n<p>Essa situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia n&atilde;o se restringe ao contexto das manifesta&ccedil;&otilde;es. Em janeiro, a RSF apresentou um relat&oacute;rio a respeito da liberdade de imprensa. Entre os elementos analisados para avaliar o grau de liberdade dos ve&iacute;culos de imprensa est&atilde;o a viol&ecirc;ncia contra jornalistas e at&eacute; a legisla&ccedil;&atilde;o do setor. O levantamento mostra que o Brasil perdeu nove posi&ccedil;&otilde;es no ranking mundial de liberdade de imprensa, em 2013, passando da 99&ordf; posi&ccedil;&atilde;o, em 2012, para a 108&ordf; posi&ccedil;&atilde;o da lista, que &eacute; composta por 179 pa&iacute;ses. Ano passado, o pa&iacute;s j&aacute; havia ca&iacute;do 41 posi&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o a 2011.<\/p>\n<p>Estudo similar realizado pelo Comit&ecirc; para a Prote&ccedil;&atilde;o dos Jornalistas (CJP) indica que, em 2012, o Brasil ocupava o terceiro lugar nas Am&eacute;ricas, atr&aacute;s da Col&ocirc;mbia e do M&eacute;xico, e o 11&ordm; no mundo, no ranking de impunidade de crimes praticados contra jornalistas. S&atilde;o casos como os dos jornalistas Mauri K&ouml;nig e Andr&eacute; Caramante, que foram obrigados a deixar o pa&iacute;s devido &agrave;s amea&ccedil;as sofridas no exerc&iacute;cio da atividade profissional. Ambos investigavam a participa&ccedil;&atilde;o de agentes de seguran&ccedil;a em organiza&ccedil;&otilde;es criminosas.<\/p>\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o atenta contra a pr&oacute;pria democracia, conforme assevera o Plano de A&ccedil;&atilde;o sobre a Seguran&ccedil;a dos Jornalistas e a Quest&atilde;o da Impunidade, da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas , que advoga que &quot;sem a liberdade de express&atilde;o e, particularmente, sem a liberdade de imprensa, &eacute; imposs&iacute;vel haver uma cidadania informada, ativa e engajada&quot;. E essa liberdade deve ser garantida a todos\/as: jornalistas profissionais e aqueles\/as que querem exercer livremente o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, pois a sociedade n&atilde;o pode ter violado seu direito fundamental de produ&ccedil;&atilde;o e acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>Luciano Nascimento &eacute; jornalista da Ag&ecirc;ncia Brasil e integrante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante atos realizados em meio &agrave;s comemora&ccedil;&otilde;es do 7 de setembro, a agress&atilde;o pelo &quot;crime&quot; de cobrir eventos p&uacute;blicos representou viola&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o por parte do Estado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1772],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27547"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27547\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}