{"id":27504,"date":"2013-07-22T14:03:14","date_gmt":"2013-07-22T14:03:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27504"},"modified":"2013-07-22T14:03:14","modified_gmt":"2013-07-22T14:03:14","slug":"nova-lei-de-comunicacao-no-equador-empresariado-perde-a-linha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27504","title":{"rendered":"Nova Lei de Comunica\u00e7\u00e3o no Equador: empresariado \u201cperde a linha\u201d"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Lei morda&ccedil;a!&rdquo;, grita hist&eacute;rico o empresariado de comunica&ccedil;&atilde;o equatoriano ao ver ser aprovada pela Assembleia Nacional, em junho, a Lei Org&acirc;nica de Comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. E ressoa ao longo das cordilheiras, florestas e pampas latino-americanos o alerta. N&atilde;o &eacute; pra menos. Os sistemas nacionais de comunica&ccedil;&atilde;o erguidos na Am&eacute;rica Latina como instrumentos de mando e desmando de Marinhos, Chat&ocirc;s, Mestres, Azcarragas, Cisneros e alguns poucos outros v&ecirc;m sofrendo duros golpes nos &uacute;ltimos anos. E o quadro n&atilde;o &eacute; nada agrad&aacute;vel para quem est&aacute; acostumado a ser &ldquo;dono da bola&rdquo;. Logo, o empresariado, desde sempre mimado por essas paragens, faz soar o alarme nos seus autofalantes.<\/p>\n<p>A Argentina, em uma ebuli&ccedil;&atilde;o da sociedade civil incomum se tratando do tema , j&aacute; aprovou sua Lei de Meios e enfrentou a f&uacute;ria do &ldquo;El Clar&iacute;n&rdquo;. A nova norma conseguiu um amplo reconhecimento internacional por sua capacidade de ampliar o acesso &agrave; m&iacute;dia e diversificar o seu car&aacute;ter. A Venezuela, na outra ponta, peitou a &ldquo;RCTV&rdquo; e decidiu que havia motivos suficientes para n&atilde;o renovar sua concess&atilde;o. N&atilde;o atraiu a mesma simpatia dos argentinos, mas provou que a irrevogabilidade das concess&otilde;es dadas &agrave;s grandes empresas privadas n&atilde;o passava de um mito. O Equador, em 2008, j&aacute; havia aprovado em sua constitui&ccedil;&atilde;o que os bancos n&atilde;o poderiam ser acionistas de empresas de comunica&ccedil;&atilde;o: um calafrio assomou a espinha do onipotente capital financeiro.<\/p>\n<p>Como disse uma vez o presidente Rafael Correa, &ldquo;se os c&atilde;es ladram, &eacute; sinal de que estamos avan&ccedil;ando&rdquo;. E esses latem alto, pois s&atilde;o donos de quase todos os &aacute;udios potentes do continente. No final de 2012, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), reunida em S&atilde;o Paulo, declarou que os presidentes do Equador, Argentina e Venezuela encabe&ccedil;ariam uma ofensiva para silenciar os meios &ldquo;independentes&rdquo;. Dessa vez, afirmou que a Lei Org&acirc;nica de Comunica&ccedil;&atilde;o do Equador oficializa uma s&eacute;rie de &ldquo;delitos de imprensa&rdquo;.<\/p>\n<p>Todavia, o que realmente apavora os empres&aacute;rios n&atilde;o diz respeito &agrave; liberdade de express&atilde;o &ndash; tanto que os donos da m&iacute;dia na Am&eacute;rica Latina sempre foram apoiadores ou fizeram vista grossa para as ditaduras que arrasaram as possibilidades democr&aacute;ticas no continente ao longo do s&eacute;culo XX. O problema, para eles, &eacute; que o governo equatoriano limitou o alcance da propriedade privada. Segundo o relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o de Auditoria de Concess&otilde;es de Frequ&ecirc;ncias de R&aacute;dio e Televis&atilde;o, institu&iacute;da em 2008 por mandato da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, cerca de 90% do espectro equatoriano &eacute; ocupado pelo setor privado-comercial. Hipertrofia comum no continente, que seguiu (de forma distorcida) o padr&atilde;o estadunidense de organiza&ccedil;&atilde;o do sistema nacional de comunica&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, foi capital norte-americano que financiou quase todos os magnatas da m&iacute;dia abaixo do Rio Grande.<\/p>\n<p>Frente a isso, a nova lei estabelece a redistribui&ccedil;&atilde;o das frequ&ecirc;ncias radiof&ocirc;nicas, com 33% para meios privados, 33% para meios p&uacute;blicos e 34% para meios comunit&aacute;rios, e determina a elimina&ccedil;&atilde;o de monop&oacute;lios (n&atilde;o mais do que uma concess&atilde;o de frequ&ecirc;ncia para emissoras de r&aacute;dio AM e FM e uma para emissoras de TV). A lei impede tamb&eacute;m concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o em uma mesma prov&iacute;ncia para familiares diretos at&eacute; o segundo grau de parentesco.<\/p>\n<p>Ideias como essas tiram do s&eacute;rio a burguesia radiodifusora. Como de praxe, ao ver amea&ccedil;ado o modelo comercial de sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o imposto na Am&eacute;rica Latina, o empresariado grita &ldquo;olha a censura!&rdquo;, e tenta disfar&ccedil;ar o sequestro da liberdade de express&atilde;o pelo poder econ&ocirc;mico privado, que restringe o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o da esmagadora maioria da popula&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido, a express&atilde;o &ldquo;maioria silenciosa&rdquo; se torna mais verdadeira do que nunca. E sobre ela repousam os guardi&otilde;es da &ldquo;liberdade de express&atilde;o comercial&rdquo;.<\/p>\n<p>Outro ponto criticado pelo empresariado equatoriano &eacute; o artigo 26 da nova lei, que pro&iacute;be o &ldquo;linchamento midi&aacute;tico&rdquo;. De acordo com o texto, &ldquo;fica proibida a difus&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o que, de maneira direta ou atrav&eacute;s de terceiros, seja produzida de forma concertada e publicada reiterativamente atrav&eacute;s de um ou mais meios de comunica&ccedil;&atilde;o com o prop&oacute;sito de desprestigiar uma pessoa f&iacute;sica ou jur&iacute;dica ou reduzir sua credibilidade p&uacute;blica&rdquo;.<\/p>\n<p>Inserida no cap&iacute;tulo sobre &ldquo;direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, a determina&ccedil;&atilde;o &eacute; pol&ecirc;mica. Embora seja compreens&iacute;vel em sua inten&ccedil;&atilde;o, visando neutralizar uma artimanha t&iacute;pica das tradicionais elites latino-americanas, a medida pode ser tamb&eacute;m o calcanhar de aquiles da norma, ao fragilizar qualquer oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica (seja pela direita ou pela esquerda) impondo a fragmenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quem disse que a democracia seria f&aacute;cil? Pode n&atilde;o ser a lei dos sonhos, mas ela &eacute; fruto de uma discuss&atilde;o p&uacute;blica, aberta e cont&iacute;nua h&aacute; pelo menos quatro anos no Equador, e que prop&otilde;e a amplia&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o, com novos crit&eacute;rios de divis&atilde;o do espectro eletromagn&eacute;tico e garantia de direitos, baseados na diversidade sociocultural. Debate semelhante no Brasil o governo federal, coadunado com o empresariado, se nega a fazer.<\/p>\n<p>A imprensa brasileira n&atilde;o deu tanta aten&ccedil;&atilde;o ao caso equatoriano, se compararmos com a cobertura do que se passou na Venezuela e na Argentina. O Equador est&aacute; longe de ser uma das grandes pot&ecirc;ncias sul-americanas. Sua nova Lei Org&acirc;ncia de Comunica&ccedil;&atilde;o representa, por&eacute;m, mais um passo &agrave; frente na transforma&ccedil;&atilde;o de sistemas comerciais em sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o efetivamente democr&aacute;ticos em nosso continente. N&atilde;o &agrave; toa o empresariado est&aacute; preocupado.<\/p>\n<p><em>*Bruno Marinoni &eacute; rep&oacute;rter do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o e doutor em sociologia pela UFPE.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Donos da m&iacute;dia equatoriana partem pro ataque &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o que representa um passo &agrave; frente na transforma&ccedil;&atilde;o de sistemas comerciais em sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o efetivamente democr&aacute;ticos no continente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1772],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27504"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27504"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27504\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}