{"id":27501,"date":"2013-07-18T17:52:11","date_gmt":"2013-07-18T17:52:11","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27501"},"modified":"2013-07-18T17:52:11","modified_gmt":"2013-07-18T17:52:11","slug":"por-que-a-concentracao-monopolica-da-midia-e-a-negacao-do-pluralismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27501","title":{"rendered":"Por que a concentra\u00e7\u00e3o monop\u00f3lica da m\u00eddia \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do pluralismo"},"content":{"rendered":"<p>Nos &uacute;ltimos meses, vem crescendo a mobiliza&ccedil;&atilde;o de dezenas de entidades da sociedade civil em torno de duas iniciativas convergentes na luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil: a campanha &ldquo;Para expressar a liberdade&rdquo;[1], que defende uma nova e abrangente lei geral de comunica&ccedil;&otilde;es; e o Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunica&ccedil;&otilde;es[2], cuja finalidade &eacute; regulamentar os artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 que impedem monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa e estabelecem princ&iacute;pios para a radiodifus&atilde;o sob concess&atilde;o p&uacute;blica (r&aacute;dio e televis&atilde;o).<\/p>\n<p>S&atilde;o propostas fundamentais que t&ecirc;m como pressuposto a necessidade de se p&ocirc;r fim &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica da m&iacute;dia. Por que a concentra&ccedil;&atilde;o favorece as ambi&ccedil;&otilde;es mercantis de grupos midi&aacute;ticos, afeta a diversidade informativa e cultural e representa a nega&ccedil;&atilde;o do pluralismo? Este artigo prop&otilde;e-se a lan&ccedil;ar luzes sobre a quest&atilde;o, que tem a ver com a garantia constitucional da liberdade de express&atilde;o e com o aprofundamento dos direitos democr&aacute;ticos no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>As &uacute;ltimas d&eacute;cadas acentuaram, no Brasil e na Am&eacute;rica Latina, o tra&ccedil;o hist&oacute;rico de concentra&ccedil;&atilde;o de expressiva parcela dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o nas m&atilde;os de um reduzido n&uacute;mero de megagrupos. A moldura de concentra&ccedil;&atilde;o prospera em meio &agrave; digitaliza&ccedil;&atilde;o de sistemas, redes e plataformas de produ&ccedil;&atilde;o, transmiss&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o de dados, imagens e sons. As infotelecomunica&ccedil;&otilde;es (palavra que utilizo para designar a converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica entre os setores de inform&aacute;tica, telecomunica&ccedil;&otilde;es e m&iacute;dia) asseguram as condi&ccedil;&otilde;es objetivas para o crescimento exponencial da oferta de canais, produtos, servi&ccedil;os e conte&uacute;dos. S&oacute; que essa voca&ccedil;&atilde;o expansiva se consolida sob controle, influ&ecirc;ncia e lucratividade de poucas corpora&ccedil;&otilde;es, via de regra globais, ou nacionais e regionais em alian&ccedil;as estrat&eacute;gicas ou parcerias com gigantes transnacionais.<\/p>\n<p>O ciclo de concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica est&aacute; intimamente associado &agrave; diversifica&ccedil;&atilde;o produtiva apoiada em tecnologias de ponta e na capacidade de inovar em prazos curt&iacute;ssimos e a custos reduzidos. Os focos das pol&iacute;ticas de comercializa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o a diminui&ccedil;&atilde;o de custos industriais e enormes ganhos de produtividade com a economia de escala. Para preservar poderes monop&oacute;licos, as corpora&ccedil;&otilde;es recorrem a duas manobras principais, segundo David Harvey: uma ampla centraliza&ccedil;&atilde;o do capital em megaempresas, que busca avidamente o dom&iacute;nio por meio do poder financeiro, economias de escala e posi&ccedil;&atilde;o de mercado, e dos direitos monop&oacute;licos da propriedade privadas por meio de direitos de patente, leis de licenciamento e direitos de propriedade intelectual&rdquo;[3].<\/p>\n<p>Significa concentrar nas mesmas m&atilde;os todas as etapas dos processos tecnoprodutivos, com vistas a garantir lideran&ccedil;a na cadeia de fabrica&ccedil;&atilde;o, processamento, comercializa&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o dos produtos. O lastro financeiro, a capacidade log&iacute;stica, a infraestrutura tecnol&oacute;gica e o controle de inova&ccedil;&otilde;es e patentes conferem aos conglomerados multim&iacute;dias vantagens competitivas incompar&aacute;veis, j&aacute; que empresas nacionais de menor porte n&atilde;o t&ecirc;m recursos nem suportes para gerir investimentos de vulto[4]. &Agrave;s pequenas e m&eacute;dias firmas restam nichos de mercado ou o fornecimento de insumos e servi&ccedil;os especializados, sempre que &eacute; mais vantajoso para as grandes companhias terceirizar a produ&ccedil;&atilde;o ou adquirir itens cuja fabrica&ccedil;&atilde;o seria dispendiosa.<\/p>\n<p>Os monop&oacute;lios midi&aacute;ticos s&atilde;o determinantes porque interferem na conforma&ccedil;&atilde;o do imagin&aacute;rio coletivo e em valores consensualmente aceitos e assimilados. No Brasil e na Am&eacute;rica Latina, tanto no &acirc;mbito p&uacute;blico quanto na esfera privada, h&aacute; fatores que contribuem, em graus variados mas n&atilde;o menos substanciais, para agravar a concentra&ccedil;&atilde;o. O d&eacute;ficit de investimentos setoriais, as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas inconsistentes e a in&eacute;rcia regulat&oacute;ria afastaram o Estado, nos &uacute;ltimos dec&ecirc;nios, do protagonismo nas &aacute;reas de informa&ccedil;&atilde;o, entretenimento e telecomunica&ccedil;&otilde;es. Em contrapartida, grupos transnacionais ocuparam vorazmente os v&aacute;cuos abertos, favorecidas por legisla&ccedil;&otilde;es fr&aacute;geis, anacr&ocirc;nicas e permissivas, que lhes permitem acumular licen&ccedil;as de r&aacute;dio e televis&atilde;o &ndash; as joias da coroa em termos de faturamento e proje&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, ideol&oacute;gica e cultural.<\/p>\n<p>Esse quadro nos leva a convergir com N&eacute;stor Garc&iacute;a Canclini quando avalia que a desigualdade na produ&ccedil;&atilde;o, na distribui&ccedil;&atilde;o e no acesso aos bens culturais &ldquo;n&atilde;o se explica como simples imperialismo ou colonialismo cultural (ainda que subsistam esses comportamentos), e sim pela combina&ccedil;&atilde;o de processos expansivos, exerc&iacute;cios de domina&ccedil;&atilde;o e discrimina&ccedil;&atilde;o, in&eacute;rcias nacionalistas e pol&iacute;ticas culturais incapazes de atuar na nova l&oacute;gica dos interc&acirc;mbios&rdquo;.[5]<\/p>\n<p>Com as desregulamenta&ccedil;&otilde;es e privatiza&ccedil;&otilde;es durante os anos 1980 e 1990, os megagrupos alastraram-se sem maiores restri&ccedil;&otilde;es legais na Am&eacute;rica Latina. Eles adotam uma estrat&eacute;gia centrada em mercados mais seguros e rent&aacute;veis, estabelecendo par&acirc;metros de produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o, difus&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos que lhes proporcionem crescente rentabilidade.<\/p>\n<p>A estrat&eacute;gia &eacute; oportunista porque, constantemente, as majors abandonam segmentos arriscados em termos de investimentos (cinema e m&uacute;sica) para operar prioritariamente em &aacute;reas com retornos mais imediatos (telenovelas, seriados, jogos eletr&ocirc;nicos) e nos meios de massa que atraem publicidade e patroc&iacute;nios (imprensa, r&aacute;dio, televis&atilde;o). Aliam-se ainda a s&oacute;cios ou parceiros globais e regionais que lhes ofere&ccedil;am log&iacute;sticas s&oacute;lidas, financiamentos assegurados e inser&ccedil;&atilde;o mercadol&oacute;gica.[6]<\/p>\n<p>Em fun&ccedil;&atilde;o da recess&atilde;o econ&ocirc;mica p&oacute;s-2008 na Europa e nos Estados Unidos, as corpora&ccedil;&otilde;es transnacionais incrementaram a corrida por lucros compensat&oacute;rios na Am&eacute;rica Latina. A regi&atilde;o converteu-se em um dos mercados mais cobi&ccedil;ados para o escoamento de produtos e servi&ccedil;os. O vasto potencial de consumo, o espanhol como segundo idioma da globaliza&ccedil;&atilde;o, a car&ecirc;ncia por tecnologias avan&ccedil;adas e a aus&ecirc;ncia de legisla&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;lio motivaram corpora&ccedil;&otilde;es, sobretudo norte-americanas, a incrementar os neg&oacute;cios, expandindo marcas, patentes e conte&uacute;dos no maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pra&ccedil;as. News Corporation, Viacom, Time Warner, Disney, Bertelsmann, Sony e Prisa adquiriram ativos de m&iacute;dia e\/ou sedimentaram acordos com grupos regionais. Com isso, ampliaram exponencialmente suas atua&ccedil;&otilde;es multissetoriais e os mercados, com as vantagens adicionais de reduzir e repartir custos e contornar fatores de risco &ndash; em especial os decorrentes da instabilidade econ&ocirc;mica e do encolhimento da vida &uacute;til das mercadorias. Para os grupos regionais, tais associa&ccedil;&otilde;es representam a possibilidade de entrecruzar neg&oacute;cios e estabelecer alian&ccedil;as com atores de maior peso no cen&aacute;rio internacional.<\/p>\n<p>Os quatro maiores conglomerados de m&iacute;dia latino-americanos &ndash; Globo do Brasil; Televisa do M&eacute;xico; Cisneros da Venezuela; e Clar&iacute;n da Argentina &ndash;, juntos, ret&ecirc;m 60% do faturamento total dos mercados latino-americanos. Para se ter uma ideia dos n&iacute;veis recordes de concentra&ccedil;&atilde;o, basta saber que Clar&iacute;n controla 31% da circula&ccedil;&atilde;o dos jornais, 40,5% da receita da TV aberta e 23,2% da TV paga; Globo responde por 16,2% da m&iacute;dia impressa, 54% da TV aberta e 44% da TV paga; Televisa e TV Azteca formam um duop&oacute;lio, acumulando 69% e 31,37% da TV aberta, respectivamente.[7]<\/p>\n<p>No Brasil, &eacute; aguda a concentra&ccedil;&atilde;o na televis&atilde;o aberta. De acordo com levantamento do projeto Os Donos da M&iacute;dia, seis redes privadas (Globo, SBT, Record, Band, Rede TV e CNT) dominam o mercado de televis&atilde;o no Brasil. Essas redes privadas controlam, em conjunto, 138 dos 668 ve&iacute;culos existentes (TVs, r&aacute;dios e jornais) e 92% da audi&ecirc;ncia televisiva. A Globo, al&eacute;m de metade da audi&ecirc;ncia, segue com ampla supremacia na capta&ccedil;&atilde;o de verbas publicit&aacute;rias e patroc&iacute;nios.[8]<\/p>\n<p>Cabe salientar ainda que, no Brasil e na Am&eacute;rica Latina, a concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica se estabelece, h&aacute; d&eacute;cadas, sob a &eacute;gide de dinastias familiares propriet&aacute;rias dos principais grupos midi&aacute;ticos. Entre tais fam&iacute;lias est&atilde;o Marinho, Civita, Frias, Mesquita, Sirotsky, Saad, Abravanel, Sarney, Magalh&atilde;es e Collor (Brasil), Cisneros e Zuloaga (Venezuela), Noble, Saguier, Mitre, Fontevecchia e Vigil (Argentina), Slim e Azc&aacute;rraga (M&eacute;xico), Edwards, Claro e Mosciatti (Chile), Rivero, Monast&eacute;rios, Daher, Carrasco, Dueri e Tapia (Bol&iacute;via), Ardila Lulle, Santo Domingo e Santos (Col&ocirc;mbia), Verci e Zuccolillo (Paraguai), Chamorro e Sacasa (Nicar&aacute;gua), Arias e Gonz&aacute;lez Revilla (Panam&aacute;), Picado Cozza (Costa Rica), Ezerski, Dutriz e Altamirano (El Salvador), Marroqu&iacute;n (Guatemala) e Canahuati, Roshental, Sikaffy, Willeda Toledo e Ferrari (Honduras).[9]<\/p>\n<p>Entre os impactos mais graves da concentra&ccedil;&atilde;o, podemos apontar: as pol&iacute;ticas de pre&ccedil;os predat&oacute;rias destinadas a eliminar ou a restringir severamente a concorr&ecirc;ncia; os controles oligop&oacute;licos sobre produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o dos conte&uacute;dos; e a acumula&ccedil;&atilde;o de parentes e direitos de propriedade intelectual por cart&eacute;is empresariais. Mart&iacute;n Becerra chama a aten&ccedil;&atilde;o ainda para o alto risco de unifica&ccedil;&atilde;o das linhas editoriais e a preval&ecirc;ncia das ambi&ccedil;&otilde;es empresariais sobre os interesses do conjunto da sociedade. E acrescenta:<\/p>\n<p>&ldquo;A concentra&ccedil;&atilde;o vincula os neg&oacute;cios do espet&aacute;culo (estrelas exclusivas), dos esportes (aquisi&ccedil;&atilde;o de direitos de transmiss&atilde;o), da economia em geral (inclus&atilde;o de entidades financeiras e banc&aacute;rias) e da pol&iacute;tica (pol&iacute;ticos transformados em magnatas da m&iacute;dia ou em s&oacute;cios de grupos midi&aacute;ticos) com &aacute;reas informativas, o que gera repercuss&otilde;es que alteram a pretensa &lsquo;autonomia&rsquo; dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.&rdquo;[10]<\/p>\n<p>Os impactos negativos da transnacionaliza&ccedil;&atilde;o cultural se refletem na ocupa&ccedil;&atilde;o oligopolizada e na desnacionaliza&ccedil;&atilde;o das ind&uacute;strias de entretenimento. Os dois principais mercados editoriais, Brasil e Argentina, est&atilde;o majoritariamente nas m&atilde;os de grupos estrangeiros. As majors dominam as cadeias de distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;ficas, com supremacia de lan&ccedil;amentos de filmes estrangeiros. O mercado fonogr&aacute;fico apresenta desequil&iacute;brios semelhantes. No Brasil as gravadoras independentes produzem 70% da m&uacute;sica nacional, mas s&oacute; conseguem 8% de espa&ccedil;o de difus&atilde;o nas emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o. Ao mesmo tempo, as majors gravam apenas 9% com repert&oacute;rio nacional e, no entanto, ficam com 90% dos espa&ccedil;os de divulga&ccedil;&atilde;o.[11]<\/p>\n<p>Sem contar que, no &acirc;mbito da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio, os Estados Unidos tentam sempre impedir protecionismos nas ind&uacute;strias audiovisuais (na forma de subs&iacute;dios e fomentos), para favorecer os neg&oacute;cios de suas corpora&ccedil;&otilde;es. Os recursos de distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o audiovisuais est&atilde;o subordinados &agrave;s estrat&eacute;gias tra&ccedil;adas pelas majors norte-americanas. &ldquo;Conseguem isso com o apoio de pol&iacute;ticas protecionistas e os privil&eacute;gios impositivos que o governo norte-americano reserva &agrave; sua ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica, bem como atrav&eacute;s da press&atilde;o internacional sobre as demais na&ccedil;&otilde;es para que favore&ccedil;am a expans&atilde;o de seu cinema&rdquo;.[12] O resultado &eacute; que 85,5% das importa&ccedil;&otilde;es audiovisuais da Am&eacute;rica Latina prov&ecirc;m dos Estados Unidos. Mensalmente, 150 mil horas de filmes, seriados e eventos esportivos norte-americanos s&atilde;o apresentadas nas emissoras de TV latino-americanas.[13]<\/p>\n<p>A concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica da produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica guarda estreita proximidade com a comercializa&ccedil;&atilde;o em grandes quantidades lucrativas. As conveni&ecirc;ncias corporativas se fixam em estrat&eacute;gias de maximiza&ccedil;&atilde;o de lucros e de manuten&ccedil;&atilde;o da hegemonia mercadol&oacute;gica, sem demonstrar maior interesse com a forma&ccedil;&atilde;o educacional e cultural das plat&eacute;ias, muito menos com sentimentos de pertencimento e valores que configuram identidades nacionais, regionais e locais. A preval&ecirc;ncia das l&oacute;gicas comerciais manifesta-se no reduzido mosaico interpretativo dos fatos sociais; na escassa variedade argumentativa, em raz&atilde;o de enfoques ajustados a diretivas ideol&oacute;gicas das empresas; na supremacia de g&ecirc;neros sustentados por altos &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia e patroc&iacute;nios (telenovelas, reality shows, esportes); nas baixas influ&ecirc;ncias do p&uacute;blico nas linhas de programa&ccedil;&atilde;o; no desapre&ccedil;o pelos movimentos sociais e comunit&aacute;rios nas pautas jornal&iacute;sticas; na incontorn&aacute;vel disparidade entre o volume de enlatados adquiridos nos Estados Unidos e a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual nacional. Em face da concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica, a possibilidade de interfer&ecirc;ncia do p&uacute;blico (ou de fra&ccedil;&otilde;es dele) nas programa&ccedil;&otilde;es depende n&atilde;o somente da capacidade reativa dos indiv&iacute;duos, como tamb&eacute;m, e sobretudo, de se garantirem direitos coletivos e controles sociais democr&aacute;ticos sobre a produ&ccedil;&atilde;o e a circula&ccedil;&atilde;o de dados, sons e imagens.<\/p>\n<p>&Agrave; luz do exposto, podemos concluir que se torna insuper&aacute;vel a exig&ecirc;ncia de legisla&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;licas de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo na radiodifus&atilde;o sob concess&atilde;o p&uacute;blica, em fun&ccedil;&atilde;o da penetra&ccedil;&atilde;o social e dos requisitos de interesse coletivo que as empresas concession&aacute;rias de canais de r&aacute;dio e televis&atilde;o devem cumprir para desempenhar suas fun&ccedil;&otilde;es de informar, esclarecer e entreter. Imposs&iacute;vel imaginar uma democratiza&ccedil;&atilde;o efetiva da vida social, com livre circula&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e pluralismo, diante do desmedido poder dos imp&eacute;rios midi&aacute;ticos. S&atilde;o urgentes mecanismos legais para coibir a concentra&ccedil;&atilde;o e a oligopoliza&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de permitir lisura e transpar&ecirc;ncia aos mecanismos de concess&atilde;o, regula&ccedil;&atilde;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o das licen&ccedil;as de r&aacute;dio e televis&atilde;o. H&aacute; exemplos inspiradores na Am&eacute;rica Latina: as novas leis de comunica&ccedil;&atilde;o da Argentina[14] e do Equador[15], que resultaram de processos participativos de discuss&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o e s&atilde;o reconhecidas por organismos internacionais como marcos regulat&oacute;rios avan&ccedil;ados.<\/p>\n<p>S&atilde;o essenciais, tamb&eacute;m, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que reorientem fomentos, financiamentos e patroc&iacute;nios, de modo a valorizar meios alternativas de comunica&ccedil;&atilde;o (como r&aacute;dios e televis&otilde;es comunit&aacute;rias, ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias independentes, m&iacute;dias digitais), bem como apoiar a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual nacional e preservar o patrim&ocirc;nio e as tradi&ccedil;&otilde;es culturais. Pol&iacute;ticas debatidas entre segmentos representativos da sociedade e o poder p&uacute;blico, e formuladas com realismo, considerando as muta&ccedil;&otilde;es da era digital e seus efeitos nas atividades comunicacionais. Pol&iacute;ticas que protejam a diversidade frente &agrave; transnacionaliza&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e favore&ccedil;am a manifesta&ccedil;&atilde;o de vozes ignoradas ou exclu&iacute;das dos canais midi&aacute;ticos. Que estimulem a compreens&atilde;o e a interpreta&ccedil;&atilde;o dos fatos de maneira plural, avaliando os m&uacute;ltiplos aspectos sociais, econ&ocirc;micos, culturais e pol&iacute;ticos envolvidos. Iniciativas, enfim, que possam intensificar a diversidade cultural e fazer prevalecer o direito humano &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o como bem comum dos povos.<\/p>\n<p>* Desenvolvo quest&otilde;es abordadas neste artigo nos meus livros M&iacute;dia, poder e contrapoder: da concentra&ccedil;&atilde;o monop&oacute;lica &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o, em parceria com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano (S&atilde;o Paulo, Boitempo\/Faperj, 2013), e Vozes abertas da Am&eacute;rica Latina: Estado, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o (Rio de Janeiro, Mauad\/Faperj, 2011).<\/p>\n<p>Notas<br \/>[1] Mais detalhes sobre a campanha &ldquo;para expressar a liberdade&rdquo; aqui.<\/p>\n<p>[2] Sobre o Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunica&ccedil;&otilde;es, aqui.<\/p>\n<p>[3] David Harvey. &ldquo;A arte de lucrar: globaliza&ccedil;&atilde;o, monop&oacute;lio e explora&ccedil;&atilde;o da cultura&rdquo;, em D&ecirc;nis de Moraes (org.), Por uma outra comunica&ccedil;&atilde;o: m&iacute;dia, mundializa&ccedil;&atilde;o cultural e poder, Rio de Janeiro: Record, 2003 (6a. ed., 2013), p. 148.<\/p>\n<p>[4] Omar L&oacute;pez e Sylvia Amaya. Panorama de las industrias culturales en Latinoam&eacute;rica. Dimensiones econ&oacute;micas y sociales de las industrias culturales. Texto apresentado no II Seminario de Econom&iacute;a y Cultura, Montevid&eacute;u, 2004.<\/p>\n<p>[5] N&eacute;stor Garc&iacute;a Canclini, La sociedad sin relato: antropolog&iacute;a y est&eacute;tica de la inmanencia, Buenos Aires: Katz, 2010, p. 95.<\/p>\n<p>[6] Enr&iacute;que Bustamante,&nbsp; &ldquo;Industrias culturales y cooperaci&oacute;n iberoamericana en la era digital&rdquo;, Pensamiento Iberoamericano, Madri, n. 4, junho de 2009, p. 79-80.<\/p>\n<p>[7] Mart&iacute;n Becerra e Guillermo Mastrini, Los due&ntilde;os de la palabra: acceso, estructura y concentraci&oacute;n de los medios en la Am&eacute;rica Latina del siglo XXI. Buenos Aires: Prometeo, 2009.<\/p>\n<p>[8] O estudo realizado pelo projeto Os Donos da M&iacute;dia pode ser consultado aqui.<\/p>\n<p>[9] D&ecirc;nis de Moraes, Vozes abertas da Am&eacute;rica Latina: Estado, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, Rio de Janeiro, Mauad\/Faperj, 2011, p. 40.<\/p>\n<p>[10] Mart&iacute;n Becerra, &ldquo;Mutaciones en la superficie y cambios estructurales. Am&eacute;rica Latina en el Parnaso informacional&rdquo;, em D&ecirc;nis de Moraes (org.), Mutaciones de lo visible: comunicaci&oacute;n y procesos culturales en la era digital. Buenos Aires: Paid&oacute;s, 2010, p. 104.<\/p>\n<p>[11] Beto Almeida. &ldquo;Por telefone, perigosa desnacionaliza&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o amea&ccedil;a soberania brasileira&rdquo;, Brasil de Fato, S&atilde;o Paulo, n. 274, 29 de maio-4 de junho de 2008.<\/p>\n<p>[12] N&eacute;stor Garc&iacute;a Canclini, La sociedad sin relato: antropolog&iacute;a y est&eacute;tica de la inmanencia, Buenos Aires: Katz, 2010, p. 87.<\/p>\n<p>[13] D&ecirc;nis de Moraes, Cultura medi&aacute;tica y poder mundial. Buenos Aires: Norma, 2006, p. 46.<\/p>\n<p>[14] A &iacute;ntegra da Ley de Servicios de Comunicaci&oacute;n Audiovisual da Argentina est&aacute; dispon&iacute;vel aqui.<\/p>\n<p>[15] A Ley Org&aacute;nica de Comunicaci&oacute;n do Equador pode ser consultada aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se torna insuper&aacute;vel a exig&ecirc;ncia de legisla&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;licas de  comunica&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o  da penetra&ccedil;&atilde;o social e dos requisitos de interesse coletivo que as  empresas de r&aacute;dio e televis&atilde;o devem cumprir  para desempenhar suas fun&ccedil;&otilde;es de informar, esclarecer e entreter.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1775],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27501"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27501"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27501\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27501"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27501"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27501"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}