{"id":27480,"date":"2013-06-27T11:19:50","date_gmt":"2013-06-27T11:19:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27480"},"modified":"2013-06-27T11:19:50","modified_gmt":"2013-06-27T11:19:50","slug":"midia-e-crise-de-representacao-tudo-a-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27480","title":{"rendered":"M\u00eddia e crise de representa\u00e7\u00e3o, tudo a ver"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito sobre a import&acirc;ncia das novas TICs (tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o) para as manifesta&ccedil;&otilde;es de junho, ao mesmo tempo aparentemente an&aacute;rquicas e organizadas. Procuro, ao contr&Aacute;rio, identificar quest&otilde;es espec&iacute;ficas relativas ao papel da grande (velha) m&iacute;dia em todo esse complexo processo.<\/p>\n<p><strong>Redes sociais vs. grande (velha) m&iacute;dia<\/strong><\/p>\n<p>Em texto anterior (ver &ldquo;As manifesta&ccedil;&otilde;es de junho e a m&iacute;dia&rdquo;) chamei aten&ccedil;&atilde;o para um paradoxo que se observa nas manifesta&ccedil;&otilde;es que pipocam por todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Apesar de &ldquo;conectados&rdquo; pelas redes sociais na internet e, portanto, de n&atilde;o se informarem, n&atilde;o se divertirem e n&atilde;o se expressarem (prioritariamente) atrav&eacute;s da grande (velha) m&iacute;dia, os milhares de jovens que detonaram os protestos dela dependem para alcan&ccedil;ar a visibilidade p&uacute;blica, isto &eacute;, para serem inclu&iacute;dos no espa&ccedil;o formador da opini&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>&Eacute; a grande (velha) m&iacute;dia, sobretudo a televis&atilde;o, que (ainda) controla e det&eacute;m o monop&oacute;lio de &ldquo;tornar as coisas p&uacute;bicas&rdquo; &ndash; e assim, al&eacute;m de dar visibilidade, ela &eacute; indispens&aacute;vel para &ldquo;realimentar&rdquo; o processo e permitir a continuidade das manifesta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Vale dizer, as TICs (sobretudo as redes sociais virtuais acessadas via telefonia m&oacute;vel) n&atilde;o garantem a inclus&atilde;o dos jovens &ndash; e de v&aacute;rios outros segmentos da popula&ccedil;&atilde;o brasileira &ndash; no debate p&uacute;blico cujo monop&oacute;lio &eacute; exercido pela grande (velha m&iacute;dia). A voz deles n&atilde;o &eacute; ouvida publicamente.<\/p>\n<p><strong>Crise de representa&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Emerge, ent&atilde;o, um indicador novo da crise de representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que, como se sabe, n&atilde;o &eacute; exclusiva da democracia brasileira, mas um sinal de esgotamento de institui&ccedil;&otilde;es tradicionais das democracias representativas no mundo contempor&acirc;neo.<\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia de sintonia crescente ou o descolamento da grande (velha) m&iacute;dia da imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira vem sendo diagnosticada faz tempo. Al&eacute;m disso &ndash; ao contr&aacute;rio do que ocorre em outras democracias &ndash;, no Brasil a grande (velha) m&iacute;dia praticamente n&atilde;o oferece espa&ccedil;o para o debate de quest&otilde;es de interesse p&uacute;blico. Ali&aacute;s, salvo rar&iacute;ssimas exce&ccedil;&otilde;es na m&iacute;dia impressa, n&atilde;o oferece nem mesmo um servi&ccedil;o de ouvidoria (ombudsman) que acolha a voz daqueles que se considerem n&atilde;o representados.<\/p>\n<p>Dessa forma, a ampla diversidade de opini&otilde;es existente na sociedade n&atilde;o encontra canais de express&atilde;o p&uacute;blica e n&atilde;o tem como se fazer representar no debate p&uacute;blico formador da opini&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>N&atilde;o estariam criadas condi&ccedil;&otilde;es para alimentar a violenta hostilidade revelada nas manifesta&ccedil;&otilde;es contra jornalistas, equipes de reportagem e ve&iacute;culos identificados com emissoras de TV da grande (velha) m&iacute;dia?<\/p>\n<p><strong>Peculiaridades brasileiras<\/strong><\/p>\n<p>Em entrevista recente, o professor Wanderley Guilherme dos Santos chamava aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que &ldquo;as classes C e D t&ecirc;m uma representa&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria na sociedade em diversos sindicatos, entidades etc., mas s&atilde;o minorit&aacute;rias na representa&ccedil;&atilde;o parlamentar de seus interesses. Ou seja, (&#8230;) elas tem menos capacidade de articula&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito das institui&ccedil;&otilde;es [pol&iacute;ticas] do que as classes A e B&rdquo; (<a href=\"http:\/\/www.insightinteligencia.com.br\/60\/PDFs\/pdf1.pdf\">cf. Insight Intelig&ecirc;ncia, fev-mar 2013<\/a> ).<\/p>\n<p>Esse d&eacute;ficit na representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do Parlamento, acrescido da exclus&atilde;o hist&oacute;rica de vozes no debate p&uacute;blico e a consequente corrup&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica talvez nos ajude a compreender, pelo menos em parte, a explos&atilde;o das ruas nas &uacute;ltimas semanas.<\/p>\n<p><strong>Mudan&ccedil;a radical<\/strong><\/p>\n<p>O que se observa, no entanto, na cobertura que a grande (velha) m&iacute;dia tem oferecido das manifesta&ccedil;&otilde;es &eacute; uma mudan&ccedil;a radical. O que come&ccedil;ou com veemente condena&ccedil;&atilde;o se transformou, da noite para o dia, n&atilde;o s&oacute; em tentativa de coopta&ccedil;&atilde;o, mas de instigar e pautar as manifesta&ccedil;&otilde;es, introduzindo bandeiras aparentemente alheias &agrave; motiva&ccedil;&atilde;o original dos manifestantes.<\/p>\n<p>Aparentemente a grande (velha) m&iacute;dia identificou nas manifesta&ccedil;&otilde;es &ndash; iniciadas com um objetivo espec&iacute;fico, a redu&ccedil;&atilde;o das tarifas de &ocirc;nibus na cidade de S&atilde;o Paulo &ndash; a oportunidade de disfar&ccedil;ar o seu papel hist&oacute;rico de bloqueadora do acesso p&uacute;blico &agrave;s vozes &ndash; n&atilde;o s&oacute; de jovens, mas da imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. Mais do que isso, identificou tamb&eacute;m uma oportunidade de &ldquo;descontruir&rdquo; as ineg&aacute;veis conquistas sociais dos &uacute;ltimos dez anos em rela&ccedil;&atilde;o ao combate &agrave; desigualdade, &agrave; mis&eacute;ria e &agrave; pobreza.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; a primeira vez em nossa hist&oacute;ria pol&iacute;tica recente que a grande (velha) m&iacute;dia se autoatribui o papel de formadora e, simultaneamente, de express&atilde;o da vontade das ruas &ndash; vale dizer, da &ldquo;opini&atilde;o p&uacute;blica&rdquo;.<\/p>\n<p>Embora consiga disfar&ccedil;ar com compet&ecirc;ncia suas inten&ccedil;&otilde;es, tudo indica que, ao proceder assim, a grande (velha) m&iacute;dia na verdade agrava &ndash; e n&atilde;o atenua &ndash; a crise de representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Se n&atilde;o existem as condi&ccedil;&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o de uma opini&atilde;o p&uacute;blica democr&aacute;tica &ndash; de vez que a maioria da popula&ccedil;&atilde;o permanece exclu&iacute;da e n&atilde;o representada no debate publico &ndash; n&atilde;o pode haver legitimidade nos canais institucionalizados (partidos pol&iacute;ticos) atrav&eacute;s dos quais se escolhe os representantes da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ademais, tudo isso ocorre no contexto hist&oacute;rico de uma cobertura pol&iacute;tica sistematicamente adversa que tem, ao longo dos anos, ajudado a construir uma cultura pol&iacute;tica que desqualifica tanto a pol&iacute;tica como os pol&iacute;ticos (ver &ldquo;As manifesta&ccedil;&otilde;es de junho e a m&iacute;dia&rdquo;).<\/p>\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Na semana em que o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es do governo Dilma Rousseff concede duvidosa entrevista e &eacute; celebrado pela revista Veja, s&iacute;mbolo de resist&ecirc;ncia a qualquer inciativa de regulamenta&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s, talvez uma das consequ&ecirc;ncias da atual crise seja a ades&atilde;o dos manifestantes &agrave; coleta de assinaturas para &ldquo;uma lei para expressar a liberdade&rdquo; promovida pelo FNDC &ndash; F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (<a href=\"http:\/\/www.paraexpressaraliberdade.org.br\/\">ver aqu<\/a>i).<\/p>\n<p>&Eacute; inadi&aacute;vel que uma reforma pol&iacute;tica inclua a regula&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es e exista condi&ccedil;&otilde;es para forma&ccedil;&atilde;o de uma opini&atilde;o p&uacute;blica onde mais vozes sejam ouvidas e participem do debate p&uacute;blico &ndash; vale dizer, para que mais brasileiros sejam democraticamente representados.<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; jornalista e soci&oacute;logo, professor titular de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e autor de Pol&iacute;tica de Comunica&ccedil;&otilde;es: um Balan&ccedil;o dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aus&ecirc;ncia de sintonia crescente ou o descolamento da grande (velha)  m&iacute;dia da imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira vem sendo diagnosticada  faz tempo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27480"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27480\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}