{"id":27457,"date":"2013-05-24T17:41:51","date_gmt":"2013-05-24T17:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27457"},"modified":"2013-05-24T17:41:51","modified_gmt":"2013-05-24T17:41:51","slug":"novo-curriculo-do-curso-de-jornalismo-escamoteia-poder-do-oligopolio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27457","title":{"rendered":"Novo curr\u00edculo do curso de jornalismo escamoteia poder do oligop\u00f3lio"},"content":{"rendered":"<p>Est&atilde;o prestes a ser homologadas pelo ministro da Educa&ccedil;&atilde;o as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Gradua&ccedil;&atilde;o em Jornalismo, aprovadas pela C&acirc;mara de Educa&ccedil;&atilde;o Superior do Conselho Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o (CNE) em 20\/2\/2013. O Parecer 39\/2013 CNE\/CES pouco alterou o relat&oacute;rio final da chamada Comiss&atilde;o Marques de Melo. O est&aacute;gio obrigat&oacute;rio de 200 horas foi mantido, apesar da posi&ccedil;&atilde;o inicial desfavor&aacute;vel do relator.<\/p>\n<p>A meu ver, a aus&ecirc;ncia mais aguda nas Diretrizes Curriculares &eacute; a do Capital. Um conjunto de pesquisadores acad&ecirc;micos de alto quilate conseguiu a proeza de reunir-se para tratar do Curso de Jornalismo tendo chegado ao final de seu trabalho sem se pronunciar sobre como se configura no Brasil o sistema empresarial, oligop&oacute;lico, firmado sobre a propriedade cruzada de diferentes meios de comunica&ccedil;&atilde;o, que d&aacute; as cartas na m&iacute;dia e no jornalismo brasileiros. Dizendo de outra forma, o sistema respons&aacute;vel pela produ&ccedil;&atilde;o da maior parte do jornalismo brasileiro, di&aacute;rio ou semanal, seja ele impresso, televisivo, radiof&ocirc;nico ou digital, &eacute; ignorado no documento.<\/p>\n<p>Desse modo, n&atilde;o h&aacute; uma avalia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do papel desempenhado no jornalismo pelos empregadores de importante parcela dos atuais e dos futuros jornalistas, empregadores esses dotados de not&aacute;vel poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico na sociedade brasileira, habituados a moldar o jornalismo que praticam de acordo com seus interesses. Eles deixaram de ser criticados pelos especialistas da &ldquo;Comiss&atilde;o Marques de Melo&rdquo;, que, no entanto, preocuparam-se em atender suas demandas, por exemplo por meio da figura do est&aacute;gio obrigat&oacute;rio (&ldquo;possibilitando a intera&ccedil;&atilde;o da universidade com o setor produtivo&rdquo;) ou do Mestrado Profissional (recomenda&ccedil;&atilde;o felizmente ignorada pelo CNE\/CES), que permitiria a &ldquo;forma&ccedil;&atilde;o de profissionais especializados, pleito hist&oacute;rico das organiza&ccedil;&otilde;es jornal&iacute;sticas&rdquo; (leia-se: empresas de jornalismo).<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no tocante &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o entendida como sistema global, mundial, o relat&oacute;rio que embasou as novas Diretrizes Curriculares valorizou excessivamente as redes sociais e a converg&ecirc;ncia digital, bem como os &ldquo;novos sujeitos&rdquo;, sem levar em conta que prossegue c&eacute;lere o processo de concentra&ccedil;&atilde;o e fus&atilde;o das corpora&ccedil;&otilde;es gigantes de m&iacute;dia, ou seja, dos capitais que atuam no setor. Por exemplo, afirmam os especialistas: &ldquo;Os conte&uacute;dos da atualidade, veiculados pelos g&ecirc;neros jornal&iacute;sticos s&atilde;o, em esmagadora maioria, a&ccedil;&otilde;es discursivas de sujeitos que agem no mundo e sobre o mundo por meio de acontecimentos, atos, falas e\/ou sil&ecirc;ncios. Valorizados pelas t&eacute;cnicas e pela identidade &eacute;tica, esses conte&uacute;dos s&atilde;o socializados no tempo e no espa&ccedil;o do Jornalismo, pelos instrumentos da difus&atilde;o instant&acirc;nea universal. E assim, pelas vias confi&aacute;veis do Jornalismo, se globalizam id&eacute;ias, a&ccedil;&otilde;es, mercados, sistemas, poderes, discuss&otilde;es, interesses, antagonismos, acordos&rdquo; (Relat&oacute;rio, p. 4). Tudo parece, assim, muito difuso e et&eacute;reo, quando a realidade &eacute; bem outra, mesmo na Internet, onde a presen&ccedil;a das grandes corpora&ccedil;&otilde;es, bem como a a&ccedil;&atilde;o de grandes Estados, &eacute; avassaladora.<\/p>\n<p>Quando cita o mercado ou as empresas, o relat&oacute;rio final da &ldquo;Comiss&atilde;o Marques de Melo&rdquo; o faz acriticamente, como se o protagonismo desse setor nada tivesse a ver com o jornalismo que se pratica hoje (no Brasil e no mundo) ou com a forma&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica. O jornalista, assim, apesar da ret&oacute;rica human&iacute;stica do texto, ao fim e ao cabo &eacute; apenas for&ccedil;a de trabalho para as empresas de jornalismo. Mas o Relat&oacute;rio n&atilde;o se limita a escamotear, na abordagem geral pr&eacute;via, o oligop&oacute;lio da m&iacute;dia e do jornalismo. Ele tamb&eacute;m deixa de incluir esse t&oacute;pico nos pr&oacute;prios conte&uacute;dos curriculares sugeridos. E o CNE\/CES aprovou integralmente tais conte&uacute;dos.<\/p>\n<p>O objetivo principal do relat&oacute;rio final parece ser subordinar a forma&ccedil;&atilde;o oferecida aos imperativos do mercado. &Eacute; isso que explica os ataques presentes, no relat&oacute;rio, a um tipo de forma&ccedil;&atilde;o mais reflexiva, mais cr&iacute;tica dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, por exemplo: a teoria &ldquo;passou a n&atilde;o reconhecer legitimidade no estudo voltado ao exerc&iacute;cio profissional, desprestigiando a pr&aacute;tica, ridicularizando os seus valores e se isolando do mundo do jornalismo&rdquo; (Relat&oacute;rio, p. 12); ou: &ldquo;A &ecirc;nfase na an&aacute;lise cr&iacute;tica da m&iacute;dia, quando feita sem compromisso com o aperfei&ccedil;oamento da pr&aacute;tica profissional, abala a confian&ccedil;a dos estudantes em sua voca&ccedil;&atilde;o, destr&oacute;i seus ideais e os substitui pelo cinismo&rdquo; (idem).<\/p>\n<p>Observe-se, por&eacute;m, a seguinte recomenda&ccedil;&atilde;o da Unesco, presente em publica&ccedil;&atilde;o recente sobre os curr&iacute;culos de jornalismo: &ldquo;Uma boa forma&ccedil;&atilde;o deve fornecer aos estudantes conhecimento e treinamento suficientes para que reflitam sobre a &eacute;tica do jornalismo, suas boas pr&aacute;ticas e sobre o papel do jornalismo na sociedade. Eles tamb&eacute;m devem aprender sobre a hist&oacute;ria do jornalismo, a legisla&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da informa&ccedil;&atilde;o e sobre a economia pol&iacute;tica da m&iacute;dia (incluindo t&oacute;picos como propriedade dos meios, estrutura organizacional e competi&ccedil;&atilde;o)&rdquo; (Modelo curricular da Unesco para o ensino do Jornalismo, Unesco, Brasil, 2010; p&aacute;gina 6). Mais adiante, mesmo ressaltando que o curso pensado n&atilde;o se destina a formar pesquisadores acad&ecirc;micos, o texto diz: &ldquo;Pretendemos, igualmente, preparar os estudantes para que sejam cr&iacute;ticos a respeito do seu pr&oacute;prio trabalho e em rela&ccedil;&atilde;o ao de outros jornalistas&rdquo; (idem, p. 7).<\/p>\n<p>A &ldquo;Comiss&atilde;o Marques de Melo&rdquo; fechou seu relat&oacute;rio em 2009 e cita apenas a vers&atilde;o anterior (2007) do Modelo curricular da Unesco&#8230; Mas &eacute; importante assinalar que h&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o da Unesco com essa quest&atilde;o (para quem trabalhamos? quem det&eacute;m o poder no jornalismo?) que &eacute; simplesmente dilu&iacute;da, no documento dos especialistas, em considera&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas sobre a &eacute;tica e a responsabilidade do jornalista.<\/p>\n<p>Em nenhum dos seis Eixos de Conte&uacute;do que constam do item 5 do Relat&oacute;rio (Conte&uacute;dos Curriculares) e foram aprovados in totum pelo CNE\/CES consta algo consistente sobre o tema, exceto por uma vaga refer&ecirc;ncia, no Eixo III, &agrave; &ldquo;regulamenta&ccedil;&atilde;o dos sistemas midi&aacute;ticos, em fun&ccedil;&atilde;o do mercado potencial&rdquo; (sic). Basta conferir isso nas p&aacute;ginas 11 e 12 do Parecer CNE\/CES 39\/2013.<\/p>\n<p>Por fim, &eacute; bastante deplor&aacute;vel que o CNE\/CES tenha mantido o est&aacute;gio obrigat&oacute;rio, sob a forma de Est&aacute;gio Curricular Supervisionado. Isso legitima e amplia a enorme press&atilde;o das empresas sobre os estudantes e sobre os cursos. O est&aacute;gio em jornalismo tem sido um dos mais importantes fatores de aviltamento do mercado de trabalho dos jornalistas brasileiros, funcionando como instrumento de substitui&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a de trabalho qualificada. Do ponto de vista simb&oacute;lico, ele refor&ccedil;a a propaganda das empresas de que s&oacute; elas dominam o saber jornal&iacute;stico, e dilui a press&atilde;o sobre as escolas de jornalismo para que ofere&ccedil;am laborat&oacute;rios de boa qualidade e corpo docente qualificado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores conseguiram a proeza de  propor as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo sem se pronunciar sobre como se configura o  sistema empresarial, oligop&oacute;lico, firmado sobre a propriedade cruzada<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1557],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27457"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27457"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27457\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}