{"id":27417,"date":"2013-04-02T15:47:05","date_gmt":"2013-04-02T15:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27417"},"modified":"2013-04-02T15:47:05","modified_gmt":"2013-04-02T15:47:05","slug":"iii-forum-mundial-de-midia-livre-coloca-liberdade-de-expressao-no-centro-do-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27417","title":{"rendered":"III F\u00f3rum Mundial de M\u00eddia Livre coloca liberdade de express\u00e3o no centro do debate"},"content":{"rendered":"<p>TUNIS &ndash; Em sua terceira edi&ccedil;&atilde;o mundial, o F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre chegou a Tunis com uma dupla miss&atilde;o. Inserido na programa&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Social Mundial 2013, o FMML tinha como objetivo, em primeiro lugar, integrar os in&uacute;meros atores, ativistas, organiza&ccedil;&otilde;es e m&iacute;dias alternativas e independentes da regi&atilde;o do norte da &Aacute;frica e Oriente M&eacute;dio &ndash; que est&atilde;o no centro das revolu&ccedil;&otilde;es ainda em curso no Magreb-Mackreck &ndash; ao movimento internacional em defesa do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Em segundo, dar visibilidade &agrave;s suas demandas e mais urgentes necessidades, como parte de uma din&acirc;mica de solidariedade internacional, sem a qual nenhuma luta pode, se fato, ser vitoriosa. <\/p>\n<p>O desafio n&atilde;o era pequeno. Dois anos depois do pontap&eacute; dado &agrave; Primavera &Aacute;rabe, a Tun&iacute;sia passa atualmente por um processo complexo, conflituoso e, por vezes, contradit&oacute;rio. Ap&oacute;s a queda do ditador Ben Ali, o novo governo conservador isl&acirc;mico n&atilde;o rompeu totalmente com a pol&iacute;tica anterior e segue sendo questionado pela popula&ccedil;&atilde;o, que clama por liberdade, dignidade e justi&ccedil;a social, e que combate permanentemente nas ruas a hegemonia cultural e os valores das elites dirigentes. Num contexto de perda de confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es e forte confronta&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica, o principal l&iacute;der da oposi&ccedil;&atilde;o, Chokri Belaid, foi assassinado a dois meses do in&iacute;cio do FSM, numa tentativa de calar a voz daqueles que buscam transforma&ccedil;&otilde;es reais e o estabelecimento da democracia no pa&iacute;s. Neste cen&aacute;rio, a luta pela liberdade de express&atilde;o e pela constru&ccedil;&atilde;o de uma m&iacute;dia livre, alternativa e independente se mostra cada vez mais estrat&eacute;gica na regi&atilde;o. <\/p>\n<p>O F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre se constituiu ent&atilde;o num espa&ccedil;o de trocas e constru&ccedil;&atilde;o de conhecimento em torno desta agenda global. Depois de duas edi&ccedil;&otilde;es no Brasil (Bel&eacute;m 2009 e Rio de Janeiro 2012), onde o centro do debate foram as experi&ecirc;ncias de marcos regulat&oacute;rios democratizantes na Am&eacute;rica Latina, o FMML desta vez conheceu e deu voz a um novo ciclo de lutas e revolu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&quot;A repress&atilde;o continua mesmo ap&oacute;s a queda de Ben Ali&quot;, contou Bessen Krifa, da Associa&ccedil;&atilde;o Tunisiana de Blogueiros, que foi preso duas vezes durante a ditadura e uma vez depois da queda do antigo regime. &quot;A censura existe na internet, inclusive sobre os jornalistas profissionais, principalmente contra o jornalismo de investiga&ccedil;&atilde;o. Precisamos urgentemente de informa&ccedil;&otilde;es verdadeiras. Nosso dever &eacute; defender a verdade, para que o nosso chamado seja ouvido&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>&ldquo;Num pa&iacute;s como o meu, em que a democracia &eacute; apenas uma palavra, as pessoas t&ecirc;m medo de se expressar. Enfrentar o medo de ser atacado por dizer o que pensamos &eacute;, portanto, nosso primeiro desafio&rdquo;, acrescentou Victor Nzuzi, do Congo.<\/p>\n<p>Nas novas ou antigas m&iacute;dias, o desafio &eacute; enorme. No Mali, a r&aacute;dio comunit&aacute;ria Kayira, criada pelos l&iacute;deres da revolu&ccedil;&atilde;o de 1991, que transformou o pa&iacute;s, &eacute; o testemunho de 20 anos de persegui&ccedil;&otilde;es contra aqueles que se erguem contra o poder dominante. No ano passado, salas da associa&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel pela r&aacute;dio foram queimadas. Dia 3 de janeiro deste ano, um jornalista da emissora foi atingido por um tiro de fuzil caseiro. Em fevereiro, depois de receber amea&ccedil;as, o produtor da r&aacute;dio foi apunhalado na cabe&ccedil;a e n&atilde;o resistiu.<\/p>\n<p>&quot;Claramente foi um assassinato pol&iacute;tico&quot;, conta Mahamadou Diarra, tamb&eacute;m criminalizado e em liberdade provis&oacute;ria. &quot;Nossa r&aacute;dio trabalha com o movimento campesino e de mulheres. Fazemos atividades de forma&ccedil;&atilde;o e encorajamos as pessoas a criarem associa&ccedil;&otilde;es locais&quot;, explica. Tudo isso incomoda. Neste momento, por exemplo, a Kayira se op&otilde;e publicamente &agrave; interven&ccedil;&atilde;o francesa no Mali. &quot;Uma solu&ccedil;&atilde;o importada n&atilde;o ser&aacute; sustent&aacute;vel. Queremos um di&aacute;logo e uma negocia&ccedil;&atilde;o com todos os grupos para resolver o problema internamente&quot;, diz Diarra. A luta maior da emissora, no entanto, &eacute; pela pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia. &quot;Precisamos de diversidade de informa&ccedil;&atilde;o, algo que v&aacute; al&eacute;m da RFI e da France 24 [r&aacute;dios francesas transmitidas no pa&iacute;s]. A tradi&ccedil;&atilde;o oral &eacute; muito importante no Mali, ent&atilde;o temos que discutir como preservar nossas m&iacute;dias locais, e a r&aacute;dio &eacute; importante para a sobreviv&ecirc;ncia dessa cultura&quot;, afirma. <\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o da presidenta da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias, a chilena Maria P&iacute;a Matta, a primeira miss&atilde;o dessas emissoras &eacute; promover a democratiza&ccedil;&atilde;o da palavra, cada dia mais concentrada em poucas m&atilde;os. Em Tunis, P&iacute;a lembrou que a concentra&ccedil;&atilde;o dos meios inibe a exist&ecirc;ncia de leis que garantam sistemas democr&aacute;ticos de comunica&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Na pr&oacute;pria Tun&iacute;sia, onde a m&iacute;dia alternativa foi amplamente utilizada no processo revolucion&aacute;rio, n&atilde;o h&aacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o que garanta a liberdade de express&atilde;o, e a fam&iacute;lia de Ben Ali continua controlando os grandes meios. Ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es em 2011, tr&ecirc;s projetos de lei passaram a tratar do tema: um focado no acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, outro na liberdade de imprensa e, por fim, um tratando de um sistema de regula&ccedil;&atilde;o independente de radiodifus&atilde;o. Somente o primeiro avan&ccedil;ou. No Egito, apesar de oito novas emissoras de TV terem sido criadas ap&oacute;s a queda de Hosni Mubarak, o espa&ccedil;o p&uacute;blico segue controlado pelas grandes corpora&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas. &quot;Muitos governos n&atilde;o reconhecem a comunica&ccedil;&atilde;o como um direito humano. Mas &eacute; o direito &agrave; palavra que possibilita nos manifestarmos e termos direito a outras coisas&quot;, lembrou Maria P&iacute;a Matta.<\/p>\n<p>Na Palestina ocupada, um dos temas centrais nesta edi&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Social Mundial, a comunica&ccedil;&atilde;o alternativa se mostra fundamental para desmistificar o que a grande m&iacute;dia relata de forma homog&ecirc;nea. &quot;Um mundo &aacute;rabe uniforme, onde s&oacute; h&aacute; terroristas, b&aacute;rbaros que n&atilde;o se desenvolveram e onde as mulheres s&atilde;o submissas. Mas a realidade &eacute; outra. O protagonismo das mulheres na luta contra a ocupa&ccedil;&atilde;o e para ter uma m&iacute;dia livre e independente &eacute; hist&oacute;rico. Israel tem refor&ccedil;ado as pris&otilde;es e h&aacute; dezenas de jornalistas detidos por defenderem a liberdade de express&atilde;o. Neste sentido, a solidariedade internacional da m&iacute;dia livre &eacute; fundamental na luta palestina&quot;, avalia Soraya Misleh, do Movimento Palestina para Todos.<\/p>\n<p><strong>Mem&oacute;ria e conhecimentos livres<\/strong><\/p>\n<p>Em um de seus momentos mais simb&oacute;licos, o III F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre homenageou, num memorial idealizado pela Ciranda Internacional da Comunica&ccedil;&atilde;o Compartilhada, aqueles\/as que tombaram exercendo sua liberdade de express&atilde;o em todo o mundo. Um dos nomes &eacute; o de Fidan Dogan, do Curdist&atilde;o. A ativista chegou a participar do II F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre, realizado em junho passado na C&uacute;pula dos Povos da Rio+20, buscando visibilidade para a luta do povo curdo, ignorada pela imprensa tradicional. Fidan era respons&aacute;vel pelo Centro de Informa&ccedil;&atilde;o do Curdist&atilde;o em Paris, onde foi executada em janeiro deste ano, ao lado de outras duas militantes da luta do povo sem estado, por reconhecimento pol&iacute;tico e liberdade.<\/p>\n<p>Na exposi&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;ria, ao lado de Fidan Dogan, o retrato de Aaron Swartz, ciberativista americano que se suicidou em janeiro, aos 26 anos. Aaron estava sendo julgado e poderia ser condenado a US$ 1 milh&atilde;o em multas e a at&eacute; 35 anos de pris&atilde;o por baixar artigos cient&iacute;ficos de um peri&oacute;dico do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), cujo acesso defendia ser livre. Sua assinatura est&aacute; presente em in&uacute;meras ferramentas de compartilhamento de conte&uacute;do na internet.&nbsp; Swartz ajudou a criar o sistema RSS e foi um dos fundadores da rede social Reddit &ndash; site de compartilhamento de informa&ccedil;&otilde;es &ndash; e da organiza&ccedil;&atilde;o ativista Demand Progress, que promove campanhas online sobre quest&otilde;es sociais. <\/p>\n<p>Ap&oacute;s sua morte, a promotoria federal em Boston retirou as acusa&ccedil;&otilde;es contra Aaron Swartz. Mas as amea&ccedil;as &agrave; liberdade na internet seguem crescentes em todo o mundo, e tamb&eacute;m foram temas de in&uacute;meros debates no F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre em Tunis. O esfor&ccedil;o &eacute; aproximar movimentos sociais que utilizam solu&ccedil;&otilde;es corporativas e ativistas do software, redes e tecnologias livres, para que trabalhem juntos pela transforma&ccedil;&atilde;o social. <\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; preciso buscar a coer&ecirc;ncia entre a id&eacute;ia que queremos transmitir e os meios que usamos para transmiti-la. E, quando falamos de m&iacute;dia, desconhecer as ferramentas que utilizamos &eacute; um fator negativo para n&oacute;s. Cada a&ccedil;&atilde;o que praticamos impacta no mundo de hoje e na constru&ccedil;&atilde;o do mundo em que viveremos no futuro&rdquo;, alerta o uruguaio Luis Anibal, do coletivo Hipatia. &ldquo;Nossos dados e mem&oacute;rias s&atilde;o muito importantes para serem controlados pela empresa de Zuckerberg [dono do Facebook]&rdquo;, acrescentou Alexia Hach&eacute;, do coletivo Lorea, da Catalu&ntilde;a, que promoveu uma s&eacute;rie de oficinas no Hacklab &ndash; o laborat&oacute;rio hacker do F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre.<\/p>\n<p>Na Venezuela de Hugo Ch&aacute;vez, o processo de nacionaliza&ccedil;&atilde;o do petr&oacute;leo correu o risco de ser bloqueado pela a&ccedil;&atilde;o das empresas americanas que detinham a propriedade intelectual dos softwares de explora&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera. A a&ccedil;&atilde;o de hackers e o desenvolvimento de softwares livres virou o jogo e possibilitou a soberania tecnol&oacute;gica e energ&eacute;tica do pa&iacute;s. O epis&oacute;dio ficou conhecido como o resgate do c&eacute;rebro da PDVSA.<\/p>\n<p>&ldquo;O ministro venezuelano do Desenvolvimento, Felipe Perez Marti, entendeu que, se havia algo que poderia resolver o problema da Venezuela, seria o software livre. Em uma semana, hackers quebraram o c&oacute;digo propriet&aacute;rio e foi feita toda a migra&ccedil;&atilde;o da tecnologia da ind&uacute;stria do petr&oacute;leo para o software livre&rdquo;, contou Juan Carlos Gentile Fagundez, tamb&eacute;m do Hipatia e assessor de Ch&aacute;vez neste processo. Assim como os blogueiros e radialistas do Maghreb-Machrek, Gentile&nbsp; sofreu sabotagens e recebeu amea&ccedil;as de morte por ter colocado o acesso ao conhecimento acima da mercantiliza&ccedil;&atilde;o de um bem p&uacute;blico. <\/p>\n<p>&ldquo;No final das contas, n&atilde;o se trata de um debate restrito a plataformas, mas de valores que queremos para o mundo&rdquo;, explica Rita Freire, da Ciranda. &ldquo;Mais do que ferramentas, o software livre tem princ&iacute;pios e um modelo de cria&ccedil;&atilde;o baseado no bem comum. &Eacute; importante ent&atilde;o olhar, para al&eacute;m da apropria&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, para o potencial de transforma&ccedil;&atilde;o desses valores. &Eacute; isso que buscamos aqui&rdquo;, concluiu o canadense Stephane Couture, do coletivo Koombit.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Realizado  de 24 a 30 de mar&ccedil;o como parte das atividades do F&oacute;rum Social Mundial  2013, na Tun&iacute;sia, o encontro deu visibilidade &agrave; repress&atilde;o sofrida por  comunicadores da regi&atilde;o ber&ccedil;o da Primavera &Aacute;rabe<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[311],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27417"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27417"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27417\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27417"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27417"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27417"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}