{"id":27405,"date":"2013-03-21T11:46:38","date_gmt":"2013-03-21T11:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27405"},"modified":"2013-03-21T11:46:38","modified_gmt":"2013-03-21T11:46:38","slug":"governo-dilma-prepara-nova-privatizacao-das-telecomunicacoes-o-que-restou-de-fhc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27405","title":{"rendered":"Governo Dilma prepara nova privatiza\u00e7\u00e3o das telecomunica\u00e7\u00f5es: o que restou de FHC"},"content":{"rendered":"<p>A hist&oacute;ria nos prega pe&ccedil;as. O Ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es do Governo Dilma, ligado ao Partido dos Trabalhadores, cogita a possibilidade de doar bilh&otilde;es em bens considerados p&uacute;blicos &agrave;s teles em troca de investimentos em redes de fibra &oacute;ptica das pr&oacute;prias empresas. A infraestrutura essencial para os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es, minimamente preservada na privatiza&ccedil;&atilde;o de FHC, ser&aacute; entregue &agrave;s mesmas operadoras para que estas fa&ccedil;am aquilo que deveria ser obriga&ccedil;&atilde;o da presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Quando o Sistema Telebras foi vendido em 1998, a telefonia fixa passou a ser prestada por concession&aacute;rias. Essas empresas receberam da estatal toda a infraestrutura necess&aacute;ria &agrave; opera&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o, a qual foi comprada por alguns bilh&otilde;es de reais. Definiu-se um prazo para as concess&otilde;es e os bens a ela relacionados foram regulados como revers&iacute;veis, isto &eacute;, devem voltar &agrave; Uni&atilde;o ao final dos contratos de concess&atilde;o para nova licita&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o bens submetidos ao interesse p&uacute;blico, que retornam &agrave; posse do Poder P&uacute;blico para que, terminada a concess&atilde;o, a Uni&atilde;o defina com quem e como deve se dar continuidade &agrave; presta&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que &eacute; ela a respons&aacute;vel pelo servi&ccedil;o de acordo com a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal.<\/p>\n<p>Esse modelo de concess&atilde;o foi adotado em raz&atilde;o de uma escolha crucial do Governo FHC, a aplica&ccedil;&atilde;o de regime jur&iacute;dico ao servi&ccedil;o de telefonia fixa condizente com sua essencialidade &ndash; o regime p&uacute;blico. Ele permite ao Estado exigir metas de universaliza&ccedil;&atilde;o e modicidade tarif&aacute;ria das empresas concession&aacute;rias, al&eacute;m de regular as redes do servi&ccedil;o como revers&iacute;veis.<\/p>\n<p>Antes da privatiza&ccedil;&atilde;o, de 1995 a 1998, foram investidos bilh&otilde;es de recursos p&uacute;blicos para preparar as empresas para os leil&otilde;es. A planta da telefonia fixa quase dobrou. Posteriormente &agrave; venda, as redes revers&iacute;veis se desenvolveram para cumprir metas de universaliza&ccedil;&atilde;o previstas nos contratos de concess&atilde;o a serem conclu&iacute;das at&eacute; 2005. A amplia&ccedil;&atilde;o da cobertura foi viabilizada pela tarifa da assinatura b&aacute;sica, reajustada durante muitos anos acima da infla&ccedil;&atilde;o e at&eacute; hoje com valor injustificadamente elevado.<\/p>\n<p>Al&eacute;m desse incremento dos bens da concess&atilde;o, a infraestrutura da telefonia fixa se tornou suporte fundamental para a oferta de acesso &agrave; banda larga no pa&iacute;s. Mesmo as redes que eventualmente n&atilde;o tenham rela&ccedil;&atilde;o direta com o telefone, apresentam liga&ccedil;&atilde;o financeira com ele. Afinal, tamb&eacute;m durante anos, e ainda hoje, houve subs&iacute;dio cruzado ilegal da concess&atilde;o &agrave;s redes privadas de acesso &agrave; Internet. A telefonia que deveria ter tarifas menores passou a se constituir na garantidora da expans&atilde;o da banda larga conforme crit&eacute;rios de mercado e de interesse econ&ocirc;mico das operadoras.<\/p>\n<p>Assim, a medida cogitada pelo Ministro Paulo Bernardo aponta ao menos dois graves problemas. Primeiro, ela significa a transfer&ecirc;ncia definitiva ao patrim&ocirc;nio das teles de bilh&otilde;es em bens que constitucional e legalmente deveriam retornar &agrave; Uni&atilde;o, pedindo em troca que essas empresas invistam em si mesmas, ou seja, em redes que ser&atilde;o para sempre delas. Segundo, a doa&ccedil;&atilde;o bilion&aacute;ria envolveria grande parte da espinha dorsal das redes de banda larga no pa&iacute;s, enfraquecendo ainda mais o Estado na condu&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas digitais. Como se n&atilde;o bastasse, essa medida significaria o suspiro final do regime p&uacute;blico nas telecomunica&ccedil;&otilde;es, com a presta&ccedil;&atilde;o da telefonia fixa passando exclusivamente ao regime privado.<\/p>\n<p>Diante do desafio de especificar quanto das redes atuais de telecomunica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o ligadas &agrave; telefonia fixa ou resultado de suas tarifas, o arranjo em avalia&ccedil;&atilde;o sem d&uacute;vida simplifica o processo em favor das operadoras. N&atilde;o s&oacute; isso, minimiza as vergonhosas consequ&ecirc;ncias de at&eacute; agora j&aacute; ter sido vendido um n&uacute;mero consider&aacute;vel de bens revers&iacute;veis sem autoriza&ccedil;&atilde;o ou conhecimento da Anatel, que deveria t&ecirc;-los controlado desde as licita&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o o fez efetivamente.<\/p>\n<p>Se aprovada tal proposta, o nosso saldo ser&aacute; a privatiza&ccedil;&atilde;o do que resta de p&uacute;blico nas telecomunica&ccedil;&otilde;es e o profundo desprezo pelo car&aacute;ter estrat&eacute;gico da infraestrutura de um servi&ccedil;o essencial como a banda larga. Estaremos diante do desrespeito violento &agrave; determina&ccedil;&atilde;o constitucional de que a Uni&atilde;o &eacute; a respons&aacute;vel pelos servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es, na medida em que perder&aacute; o direito de interferir na gest&atilde;o de redes que passar&atilde;o a ser exclusivamente privadas.<\/p>\n<p>A justificativa ensaiada para essa opera&ccedil;&atilde;o &eacute; a de que, por um lado, os bens da concess&atilde;o est&atilde;o se desvalorizando e, por outro, de que &eacute; preciso disseminar fibra &oacute;ptica pelo pa&iacute;s e n&atilde;o h&aacute; como obrigar as empresas a investirem onde n&atilde;o existe interesse econ&ocirc;mico. Por&eacute;m, o que o Governo quer &eacute; encontrar novo subterf&uacute;gio para n&atilde;o enfrentar sua falha central nesse campo: o n&atilde;o reconhecimento da banda larga como servi&ccedil;o essencial.<\/p>\n<p>A necess&aacute;ria tarefa de levar banda larga e redes de fibra &oacute;ptica a todo o Brasil poderia ser realizada sem a transfer&ecirc;ncia de bens de interesse p&uacute;blico &agrave; iniciativa privada se o Governo garantisse a presta&ccedil;&atilde;o da banda larga tamb&eacute;m em regime p&uacute;blico. Como visto, esse regime confere ao Estado maiores prerrogativas para exigir o cumprimento de obriga&ccedil;&otilde;es por parte das empresas. Paralelamente, o modelo regulat&oacute;rio atualmente desenhado prev&ecirc; mecanismos p&uacute;blicos de subs&iacute;dio para parte dos investimentos impostos.<\/p>\n<p>O principal deles &eacute; o Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (FUST), com recursos constantemente contingenciados pelo Governo Federal. De acordo com a lei que o instituiu, o FUST s&oacute; pode ser utilizado para o cumprimento de metas de universaliza&ccedil;&atilde;o, obriga&ccedil;&atilde;o que se refere apenas a servi&ccedil;os prestados em regime p&uacute;blico. Nesse caso, o financiamento p&uacute;blico para a amplia&ccedil;&atilde;o das redes das operadoras se justifica pelos seguintes motivos: (i) o dinheiro se destina somente &agrave; parte dos investimentos que n&atilde;o pode ser recuperada com a explora&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o; (ii) os valores das tarifas s&atilde;o controlados para que o servi&ccedil;o seja acess&iacute;vel &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, contemplando-se tamb&eacute;m acessos gratuitos; e (iii) a rede constru&iacute;da n&atilde;o &eacute; patrim&ocirc;nio definitivo das operadora, pois sua posse volta &agrave; Uni&atilde;o ao final da concess&atilde;o. Com tais garantias, outros subs&iacute;dios poderiam ser estudados e aplicados sem significar favorecimento das teles.<\/p>\n<p>Entretanto, o Governo mant&eacute;m a presta&ccedil;&atilde;o da banda larga exclusivamente em regime privado, criando alternativas ilegais e bastante complicadas para lidar com a demanda de ampliar as conex&otilde;es &agrave; Internet no pa&iacute;s e, ao mesmo tempo, evitar o enfrentamento com os poderosos interesses privados. Ao inv&eacute;s de submeter as grandes empresas do setor &agrave;s obriga&ccedil;&otilde;es do regime p&uacute;blico, opta pela frouxa negocia&ccedil;&atilde;o da oferta de planos de banda larga popular, por empr&eacute;stimos pouco transparentes do BNDES, pela desonera&ccedil;&atilde;o de tributos na ordem de 6 bilh&otilde;es de reais para a constru&ccedil;&atilde;o de redes privadas, pela defesa da utiliza&ccedil;&atilde;o do FUST tamb&eacute;m em regime privado e, agora, considera admiss&iacute;vel a doa&ccedil;&atilde;o &agrave;s teles dos bens que restaram da privatiza&ccedil;&atilde;o para que elas invistam em redes pr&oacute;prias, n&atilde;o revers&iacute;veis.<\/p>\n<p>Nunca antes na hist&oacute;ria desse pa&iacute;s se tratou com tamanha leviandade servi&ccedil;os essenciais e redes estrat&eacute;gicas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> O Ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es do Governo Dilma, ligado ao Partido dos  Trabalhadores, cogita a possibilidade de doar bilh&otilde;es em bens  considerados p&uacute;blicos &agrave;s teles em troca de investimentos em redes de  fibra &oacute;ptica das pr&oacute;prias empresas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1604],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27405"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27405\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}