{"id":27403,"date":"2013-03-18T17:24:22","date_gmt":"2013-03-18T17:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27403"},"modified":"2013-03-18T17:24:22","modified_gmt":"2013-03-18T17:24:22","slug":"recuos-nas-politicas-publicas-de-comunicacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27403","title":{"rendered":"Recuos nas pol\u00edticas p\u00fablicas de comunica\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Passados mais de 10 anos de uma grande expectativa criada quanto a mudan&ccedil;as efetivas na condu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica e da economia em nosso pa&iacute;s, algumas &aacute;reas de foco de a&ccedil;&atilde;o governamental s&atilde;o mais evidentes por n&atilde;o apresentarem as transforma&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias e esperadas. Dentre elas, o setor de comunica&ccedil;&otilde;es talvez seja um dos que mais concentram as energias da frustra&ccedil;&atilde;o e da desesperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Parcela significativa das mat&eacute;rias sob jurisdi&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es &eacute; composta de temas e processos associados ao conceito de &ldquo;bens e servi&ccedil;os p&uacute;blicos&rdquo;, a serem explorados diretamente pelo Estado ou transferidos, sob a forma de concess&atilde;o, ao setor privado. As emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o s&oacute; podem funcionar se obtiverem a autoriza&ccedil;&atilde;o oficial do Estado brasileiro para faz&ecirc;-lo. As empresas de telefonia tamb&eacute;m operam uma modalidade espec&iacute;fica de servi&ccedil;o p&uacute;blico e s&oacute; podem funcionar se forem portadoras de concess&atilde;o para esse fim. A opera&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de internet e banda larga tamb&eacute;m exigem autoriza&ccedil;&atilde;o, regulamenta&ccedil;&atilde;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica federal.<\/p>\n<p><strong>Perspectiva de mudan&ccedil;as e frustra&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Para quem imaginava que 2003 significaria um momento de revers&atilde;o da tend&ecirc;ncia anterior de consolida&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas neoliberais no setor, os anos que se seguiram foram bastante desanimadores. A partir de meados do primeiro mandato de Lula, a op&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica foi feita e o recado foi transmitido com todas as cores, para que n&atilde;o pairassem d&uacute;vidas a respeito da verdadeira inten&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do governo dirigido pelo Partido dos Trabalhadores. Assim como a condu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica foi entregue ao ex presidente internacional do Bank of Boston, a pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&otilde;es foi entregue a um fiel servidor dos interesses das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e das grandes corpora&ccedil;&otilde;es do setor. Depois da nomea&ccedil;&atilde;o de Henrique Meirelles para a Presid&ecirc;ncia do Banco Central em 2003, Lula nomeia o Senador Helio Costa para o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es em 2005. Enquanto o imp&eacute;rio de Meirelles durou os exatos 8 anos dos dois mandatos de Lula, Helio Costa ficou &ldquo;apenas&rdquo; 5 anos no cargo.<\/p>\n<p>Se ocorreu alguma diferen&ccedil;a com a chegada da presidenta Dilma na preocupa&ccedil;&atilde;o em atenuar a ortodoxia da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica com tinturas heterodoxas, o mesmo n&atilde;o pode ser dito no dom&iacute;nio das comunica&ccedil;&otilde;es. Ali a op&ccedil;&atilde;o foi pelo aprofundamento da pol&iacute;tica voltada ao atendimento dos pleitos do mundo empresarial. A nomea&ccedil;&atilde;o de Paulo Bernardo para o Minist&eacute;rio antes ocupado por Helio Costa n&atilde;o significou nenhuma mudan&ccedil;a expressiva em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; estrat&eacute;gia anterior para o setor.<\/p>\n<p><strong>Telefonia e internet: empresas intoc&aacute;veis<br \/><\/strong><br \/>A agenda da telefonia n&atilde;o representou grandes avan&ccedil;os em termos de melhoria da qualidade dos servi&ccedil;os ou de redu&ccedil;&atilde;o das tarifas elevadas, mesmo para padr&otilde;es de compara&ccedil;&atilde;o internacional. As autoriza&ccedil;&otilde;es concedidas para a fus&atilde;o das grandes empresas do setor n&atilde;o foi revertida. Muito pelo contr&aacute;rio, houve a continuidade dos n&iacute;veis de concentra&ccedil;&atilde;o e centraliza&ccedil;&atilde;o entre os conglomerados que operavam a telefonia convencional e a telefonia celular. A configura&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas de oligop&oacute;lio n&atilde;o recebeu tratamento mais efetivo por parte da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) e tampouco do Minist&eacute;rio. Para se ter uma ideia, as empresas de telefonia fixa e celular sempre estiveram impunemente &agrave; frente do desrespeito &agrave;s regras e direitos dos usu&aacute;rios. Confirmando a tradi&ccedil;&atilde;o, foram as campe&atilde;s de reclama&ccedil;&otilde;es junto aos &oacute;rg&atilde;os de defesa do consumidor em 2012, registrando o dobro das notifica&ccedil;&otilde;es de bancos ou cart&otilde;es de cr&eacute;dito. No quesito da reivindica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica pela revoga&ccedil;&atilde;o da assinatura b&aacute;sica, tampouco o governo se movimentou para viabilizar a aprova&ccedil;&atilde;o de algum dentre os Projetos de Lei que tramitam no interior do Congresso Nacional h&aacute; v&aacute;rios anos sobre o tema.<\/p>\n<p>Os processos envolvendo a amplia&ccedil;&atilde;o e o aprofundamento da inclus&atilde;o digital tamb&eacute;m foram sendo tocados a um ritmo bastante abaixo do desej&aacute;vel. A coniv&ecirc;ncia dos &oacute;rg&atilde;os reguladores com o desleixo a que os usu&aacute;rios dos sistemas de acesso &agrave; internet s&atilde;o tratados pelas empresas do setor chega a ser escandalosa. Um dos exemplos mais gritantes &eacute; o direito assistido &agrave;s empresas para que n&atilde;o cumpram nem mesmo o contratado quanto &agrave; velocidade e capacidade de transmiss&atilde;o na rede de banda larga. Por outro lado, pouco se exige em termos de contrapartida das empresas operadoras, no sentido de ampliar a rede de acesso &agrave; internet e tornar o sinal acess&iacute;vel em munic&iacute;pios e localidades distantes dos centros urbanos mais adensados.<\/p>\n<p>J&aacute; se foram mais de dez anos e o potencial de uso do estoque de fibra &oacute;tica da Telebr&aacute;s permaneceu inutilizado. Isso porque o governo federal tinha condi&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas de fazer valer sua condi&ccedil;&atilde;o de acionista majorit&aacute;rio para ampliar a rede f&iacute;sica por todo o territ&oacute;rio nacional. Mas a op&ccedil;&atilde;o foi pela postura passiva da espera e de n&atilde;o contrariar os interesses dos grandes grupos privados atuantes no setor. Como a maioria dos grupos privatizados pertence a conglomerados americanos e europeus, as diretrizes empresariais determinam a redu&ccedil;&atilde;o dr&aacute;stica de recursos aplicados em reinvestimentos e o aumento da remessa de lucros para ajudar as matrizes a resolveram a falta de perspectiva pela crise internacional. E os &oacute;rg&atilde;os reguladores do Estado brasileiro assistem calados a tal movimento, que na pr&aacute;tica tem o sentido de um lento e silencioso sucateamento desse novo e estrat&eacute;gico setor da economia.<br \/><strong><br \/>Lei do Marco Regulat&oacute;rio: recuo pat&eacute;tico<br \/><\/strong><br \/>A outra &aacute;rea de comunica&ccedil;&otilde;es, tamb&eacute;m essencial para um governo que se pretenda transformador, n&atilde;o est&aacute; exatamente sob o dom&iacute;nio de Paulo Bernardo. Trata-se das decis&otilde;es do Estado relativas &agrave; sua pr&oacute;pria pol&iacute;tica e estrutura de comunica&ccedil;&atilde;o. Essa vasta agenda inclui temas t&atilde;o diversos e essenciais quanto: i) as emissoras p&uacute;blicas de r&aacute;dio e TV; ii) a descentraliza&ccedil;&atilde;o e a democratiza&ccedil;&atilde;o das vultosas despesas com publicidade do governo e das empresas estatais; iii) a proibi&ccedil;&atilde;o de forma&ccedil;&atilde;o de conglomerados t&iacute;picos das oligarquias, cruzando imprensa escrita, falada e televisionada; iv) a responsabiliza&ccedil;&atilde;o por abusos de poder, seja na &aacute;rea pol&iacute;tica, econ&ocirc;mico-financeira ou outras; entre tantos assuntos similares. A sensibilidade e a import&acirc;ncia da mat&eacute;ria remetem &agrave; necessidade da Casa Civil, junto com a Presidenta, se envolver diretamente com a mat&eacute;ria. A Ministra Gleisi Hoffmann, esposa de Paulo Bernardo, n&atilde;o pareceu se entusiasmar muito com o projeto elaborado ainda na gest&atilde;o de Franklin Martins. Tampouco a atual titular da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o, Helena Chagas, deu mostras de batalhar pela aprova&ccedil;&atilde;o do novo marco regulador da imprensa e das comunica&ccedil;&otilde;es em geral. O resultado foi a declara&ccedil;&atilde;o pat&eacute;tica, onde a equipe governamental oficialmente joga a toalha e lava as m&atilde;os: n&atilde;o mais se compromete com a regulamenta&ccedil;&atilde;o do setor<\/p>\n<p>Em sentido inverso ao processo levado a cabo na Argentina, Uruguai, Equador e Venezuela, o governo brasileiro resolveu recuar e n&atilde;o mais se envolver com o projeto em tramita&ccedil;&atilde;o no Congresso Nacional. Pressionada pelos grandes grupos empresariais do amplo setor de comunica&ccedil;&atilde;o, Dilma voltou atr&aacute;s na estrat&eacute;gia ainda definida no governo Lula e deixou essa &aacute;rea estrat&eacute;gica da economia e da sociedade sem qualquer tipo de controle ou regulamenta&ccedil;&atilde;o. Em nome da hipocrisia da defesa da &ldquo;liberdade de imprensa e de opini&atilde;o&rdquo;, os empres&aacute;rios recusam qualquer tipo de normativa ou a&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico para coibir abusos e para fazer valer a vontade da maioria da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, v&aacute;rios pa&iacute;ses disp&otilde;em de instrumentos para viabilizar esse tipo de a&ccedil;&atilde;o regulamentadora. Ao contr&aacute;rio da acusa&ccedil;&atilde;o irrespons&aacute;vel de &ldquo;lei da morda&ccedil;a&rdquo;, trata-se de mecanismo de defesa da democracia da sociedade contra os abusos do chamado &ldquo;quarto poder&rdquo;. Est&atilde;o a&iacute; in&uacute;meros exemplos como o de Rupert Murdoch na Inglaterra, onde fica evidente a necessidade da a&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico. O caso do &ldquo;News of the World&rdquo; e os excessos cometidos s&oacute; refor&ccedil;am a justeza dos dispositivos da Lei de Meios, por impedir a centraliza&ccedil;&atilde;o do poder econ&ocirc;mico em diversos segmentos das comunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Infelizmente, o receio de avan&ccedil;ar pelo caminho da transforma&ccedil;&atilde;o social mais efetiva &eacute; marca tamb&eacute;m do setor de comunica&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o bastassem os recuos em termos de aspectos da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica, na quest&atilde;o agr&aacute;ria, na quest&atilde;o ambiental, nas benesses concedidas aos conglomerados da infraestrutura, entre outros, o governo perde mais uma oportunidade de se legitimar junto a amplos setores da sociedade. Para isso, bastaria se empenhar pela aprova&ccedil;&atilde;o do Projeto de Lei no Congresso Nacional, como faz sistematicamente com outros textos de seu interesse.<br \/><em><\/p>\n<p>Paulo Kliass &eacute; Especialista em Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas e Gest&atilde;o Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Assim como a condu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica foi entregue ao ex  presidente internacional do Bank of Boston, a pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&otilde;es  foi entregue a um fiel servidor dos interesses das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e  das grandes corpora&ccedil;&otilde;es do setor <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1557],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27403"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}