{"id":27383,"date":"2013-02-28T15:57:05","date_gmt":"2013-02-28T15:57:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27383"},"modified":"2013-02-28T15:57:05","modified_gmt":"2013-02-28T15:57:05","slug":"coroneis-eletronicos-midia-e-politica-em-sergipe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27383","title":{"rendered":"Coron\u00e9is eletr\u00f4nicos, m\u00eddia e pol\u00edtica em Sergipe"},"content":{"rendered":"<p>Pol&iacute;ticos usam r&aacute;dio e TV em benef&iacute;cio pr&oacute;prio<br \/>&#8211; Senador, o microfone &eacute; todo seu.<\/p>\n<p>Com essas palavras um rep&oacute;rter da R&aacute;dio Rural de Conc&oacute;rdia, em Santa Catarina, iniciou uma entrevista, em 1965, com o ent&atilde;o senador At&iacute;lio Fontana.<\/p>\n<p>A resposta do &agrave; &eacute;poca parlamentar catarinense foi simples e direta:<br \/>&#8211; N&atilde;o s&oacute; o microfone, meu rapaz, mas a r&aacute;dio toda.<\/p>\n<p>Mais que c&ocirc;mica ou folcl&oacute;rica, a declara&ccedil;&atilde;o de At&iacute;lio Fontana &#8211; 48 anos depois &#8211; continua emblem&aacute;tica do que representa o controle dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o por pol&iacute;ticos no Brasil.<\/p>\n<p>Enraizado na cultura e na pr&aacute;tica pol&iacute;tica nacional, o v&iacute;nculo entre propriedade de m&iacute;dia e pol&iacute;ticos &eacute; um fen&ocirc;meno que permanece atual. Historicamente, meios de comunica&ccedil;&atilde;o, em especial r&aacute;dio e televis&atilde;o, s&atilde;o controlados por poucos grupos familiares. N&atilde;o coincidentemente, essas fam&iacute;lias s&atilde;o tamb&eacute;m os mesmos grupos olig&aacute;rquicos da pol&iacute;tica local e regional.<\/p>\n<p>Com base em dados oficiais, o projeto Donos da M&iacute;dia revelou que mais de 270 pol&iacute;ticos s&atilde;o s&oacute;cios ou diretores de ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o em todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&Eacute; a&iacute; que surge uma das principais caracter&iacute;sticas da pol&iacute;tica brasileira atual: o coronelismo eletr&ocirc;nico, pr&aacute;tica em que pol&iacute;ticos utilizam-se de concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio e TV para promover interesses pr&oacute;prios e construir uma boa imagem perante a sociedade. Assim como no velho coronelismo, a moeda de troca continua sendo o voto. S&oacute; que n&atilde;o mais com base na posse da terra, mas no controle da informa&ccedil;&atilde;o, na capacidade de influenciar na forma&ccedil;&atilde;o das opini&otilde;es.<\/p>\n<p>Como no Brasil todo ano &eacute; eleitoral ou pr&eacute;-eleitoral, ou seja, as disputas eleitorais sempre est&atilde;o em jogo, os coron&eacute;is eletr&ocirc;nicos utilizam os meios de comunica&ccedil;&atilde;o para promover seus aliados, hostilizar os advers&aacute;rios e cercear qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria aos seus interesses. Iniciam-se verdadeiras guerras particulares com armas p&uacute;blicas (afinal, &eacute; sempre bom lembrar que r&aacute;dio e TV s&atilde;o concess&otilde;es p&uacute;blicas, que t&ecirc;m prazo de validade e princ&iacute;pios constitucionais a seguir).<\/p>\n<p>Uma verdadeira afronta ao C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, de 1962, e &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988. Tanto o C&oacute;digo, que regula o r&aacute;dio e a TV no Brasil, quanto a Carta Magna pro&iacute;bem que pol&iacute;ticos desempenhem a fun&ccedil;&atilde;o de diretor ou gerente em empresas de r&aacute;dio e TV, ou ainda que mantenham contratos, exer&ccedil;am cargos ou emprego remunerado nestas empresas.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, Sergipe &eacute; um estado que ilustra com fidelidade esta situa&ccedil;&atilde;o. Velhas e nem t&atilde;o velhas assim lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas locais (ou grupos familiares, se preferir) s&atilde;o conhecidas, dentre outras coisas, por terem o controle da propriedade de grupos de comunica&ccedil;&atilde;o, tanto de radiodifus&atilde;o quanto de m&iacute;dia impressa.<\/p>\n<p>Os mais antigos foram &ldquo;beneficiados&rdquo; na farra da distribui&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es em troca de apoios pol&iacute;tico-eleitorais, que teve o seu auge no final dos anos 1980, quando o Ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es era ningu&eacute;m menos que o baiano Ant&ocirc;nio Carlos Magalh&atilde;es, um dos maiores controladores de r&aacute;dio e TV da hist&oacute;ria do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Outros, a partir do poder econ&ocirc;mico do qual desfrutam, perceberam na comunica&ccedil;&atilde;o um instrumento estrat&eacute;gico de conquista de poder pol&iacute;tico. E t&ecirc;m conquistado.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; os pol&iacute;ticos que s&atilde;o s&oacute;cios ou diretores de empresas de r&aacute;dio e TV usam dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o para autopromo&ccedil;&atilde;o. Basta ter um programa de r&aacute;dio ou um espa&ccedil;o m&iacute;nimo na televis&atilde;o e ser aliado do propriet&aacute;rio da emissora.<\/p>\n<p>Exemplo disso &eacute; o suplente de deputado estadual, Gilmar Carvalho, que, na semana passada, teve uma Representa&ccedil;&atilde;o impetrada pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Eleitoral por &ldquo;promover propaganda eleitoral antecipada&rdquo; em seu programa de r&aacute;dio matinal. O suplente de deputado veiculou uma m&uacute;sica, com letra de sua pr&oacute;pria autoria, em que exalta as suas &ldquo;qualidades&rdquo; e a&ccedil;&otilde;es &ldquo;p&uacute;blicas&rdquo;, numa clara indu&ccedil;&atilde;o a uma poss&iacute;vel candidatura em 2014.<\/p>\n<p>Mas o uso pol&iacute;tico de uma emissora de r&aacute;dio ou TV (concess&atilde;o p&uacute;blica) nem sempre acontece de forma escancarada como fez Gilmar Carvalho. Se analisarmos com aten&ccedil;&atilde;o os temas que est&atilde;o em destaque neste in&iacute;cio de ano em Sergipe &ndash; como Proinveste, situa&ccedil;&atilde;o financeira da capital, vota&ccedil;&otilde;es na C&acirc;mara de Aracaju, disputas na Assembleia Legislativa e articula&ccedil;&otilde;es e di&aacute;logos com vistas &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es de 2014 &ndash; perceberemos que as abordagens das mat&eacute;rias e os focos das an&aacute;lises variam de acordo com a orienta&ccedil;&atilde;o e opini&atilde;o do pol&iacute;tico que est&aacute; &agrave; frente da rede de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Sai perdendo o jornalismo independente. Sai perdendendo o p&uacute;blico, que tem direito a uma informa&ccedil;&atilde;o isenta de colora&ccedil;&atilde;o partidi&aacute;ria. Sai perdendo a democracia.<\/p>\n<p>Com a proximidade das elei&ccedil;&otilde;es no pr&oacute;ximo ano, essas tend&ecirc;ncias nas coberturas sobre pol&iacute;tica e pol&iacute;ticos se aprofundar&atilde;o e a popula&ccedil;&atilde;o poder&aacute; observar com maior nitidez como se materializa o coronelismo eletr&ocirc;nico em Sergipe.<br \/><em><br \/>Paulo Victor Melo &eacute; jornalista, mestrando em Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade na Universidade Federal de Sergipe. Tem experi&ecirc;ncia com jornalismo sindical, m&iacute;dias p&uacute;blicas e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de comunica&ccedil;&atilde;o. Coordenador do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a proximidade das elei&ccedil;&otilde;es no pr&oacute;ximo ano, essas tend&ecirc;ncias nas  coberturas sobre pol&iacute;tica e pol&iacute;ticos se aprofundar&atilde;o e a popula&ccedil;&atilde;o  poder&aacute; observar com maior nitidez como se materializa o coronelismo  eletr&ocirc;nico em Sergipe.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1755],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27383"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27383"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27383\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}