{"id":27377,"date":"2013-02-22T17:47:36","date_gmt":"2013-02-22T17:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27377"},"modified":"2013-02-22T17:47:36","modified_gmt":"2013-02-22T17:47:36","slug":"carta-aberta-ao-senador-renan-calheiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27377","title":{"rendered":"Carta aberta ao senador Renan Calheiros"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp; Para o Doutor Renan Calheiros, senador da Rep&uacute;blica e presidente do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Superadas as longas tratativas pr&eacute;vias, realizadas as elei&ccedil;&otilde;es para a nova Mesa Diretora do Senado Federal, iniciado o ano legislativo e passado o Carnaval, agora que tudo come&ccedil;a a funcionar de verdade, decidi escrever-lhe esta carta aberta.<\/p>\n<p>Primeiro, cumprimento V. Excia. por haver sido reconduzido &agrave; Presid&ecirc;ncia do Congresso Nacional. Todos nos lembramos dos constrangimentos p&uacute;blicos que teve que enfrentar quando renunciou a essa mesma Presid&ecirc;ncia para salvar o mandato, em 2007.<\/p>\n<p>Segundo, cumprimento V. Excia. pelo compromisso que assumiu &ndash; tanto no dia da elei&ccedil;&atilde;o como no seu discurso de posse &ndash; com a democracia e com a liberdade de express&atilde;o, um de seus &ldquo;quatro vetores&rdquo; de a&ccedil;&atilde;o na presid&ecirc;ncia do Senado Federal (aqui, o seu discurso; acesso em 13\/2\/2013).<\/p>\n<p>H&aacute;, no entanto, pontos importantes que n&atilde;o ficaram inteiramente claros. Tomei a liberdade de selecionar alguns desses pontos, referentes apenas ao quarto vetor &ndash; &ldquo;uma vacina definitiva contra qualquer tentativa de controle da liberdade de express&atilde;o&rdquo; &ndash;, fazer cita&ccedil;&otilde;es textuais de trechos e, em seguida, formular indaga&ccedil;&otilde;es que seria do interesse geral, creio, fossem esclarecidas por V. Excia.<br \/><em><br \/>1. &ldquo;Temos que nos engajar e assumir uma firme posi&ccedil;&atilde;o em defesa da democracia e seu mais importante reflexo, a liberdade de express&atilde;o. Haveremos de interditar qualquer ensaio na tentativa de controlar o livre debate no pa&iacute;s. Trata-se de um ant&iacute;doto contra pretens&otilde;es que v&ecirc;m ocorrendo em alguns pa&iacute;ses. Temos que nos inspirar sim, nas brisas de uma primavera democr&aacute;tica e criar uma barreira contra os calafrios provocados pelo inverno andino. Vamos criar uma trincheira s&oacute;lida, se preciso legal, a fim de impedir, de barrar a passagem destes ares g&eacute;lidos e soturnos.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>As li&ccedil;&otilde;es de geografia identificam seis pa&iacute;ses andinos: Bol&iacute;via, Peru, Equador, Col&ocirc;mbia, Chile e Venezuela. N&atilde;o seria interessante que V. Excia. especificasse a quais est&aacute; se referindo? E, mais importante, quais s&atilde;o os &ldquo;ares g&eacute;lidos e soturnos&rdquo; que precisam de um &ldquo;ant&iacute;doto&rdquo;, provocam &ldquo;calafrios&rdquo; e amea&ccedil;am a democracia?<\/p>\n<p>O setor de m&iacute;dia &eacute; historicamente oligopolizado em toda Am&eacute;rica Latina, e n&atilde;o somente na regi&atilde;o andina. Em alguns pa&iacute;ses andinos, governos democraticamente eleitos e\/ou reeleitos, tem buscado aprovar legisla&ccedil;&atilde;o que discipline o mercado das empresas privadas que exploram comercialmente esse servi&ccedil;o p&uacute;blico, por meio de projetos de lei submetidos &agrave; devida tramita&ccedil;&atilde;o nas respectivas Casas Legislativas. Trata-se, portanto, de permitir que mais vozes encontrem o caminho da participa&ccedil;&atilde;o e do debate p&uacute;blico que lhes tem sido tolhido desde o per&iacute;odo colonial.<\/p>\n<p>Quais s&atilde;o os pa&iacute;ses a que V. Excia. se refere?<\/p>\n<p><strong>Direito abolido<\/strong><br \/><em><br \/>2. &ldquo;Vamos preservar este modelo [democr&aacute;tico brasileiro] que se op&otilde;e ao pensamento &uacute;nico e monocr&aacute;tico, inserv&iacute;veis &agrave; democracia. Vamos respeitar a diverg&ecirc;ncia, conviver com o contradit&oacute;rio e at&eacute; com os excessos. Isso &eacute; democracia.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>Aqui V. Excia toca num ponto fundamental:&ldquo;o pensamento &uacute;nico e monocr&aacute;tico&rdquo;. Nada mais nocivo &agrave; democracia do que o pensamento &uacute;nico, a posi&ccedil;&atilde;o monocr&aacute;tica. &Eacute; exatamente para evitar esse tipo de pensamento que os pilares doutrin&aacute;rios da &ldquo;m&iacute;dia livre&rdquo; s&atilde;o a diversidade e o pluralismo. A quest&atilde;o &eacute; saber se de fato &ldquo;o modelo que se op&otilde;e ao pensamento &uacute;nico e monocr&aacute;tico&rdquo;, vale dizer, a diversidade e o pluralismo, corresponde &agrave; pr&aacute;tica hist&oacute;rica da m&iacute;dia no Brasil. A fala de V. Excia sugere que sim. &Eacute; isso mesmo?<br \/><em><br \/>3. &ldquo;Do ponto de vista conceitual, a liberdade de manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento, al&eacute;m de ser direito natural do homem, &eacute; premissa elementar &agrave;s demais liberdades, pol&iacute;tica, econ&ocirc;mica, de associa&ccedil;&atilde;o e de credo religioso. N&atilde;o por outra raz&atilde;o as na&ccedil;&otilde;es livres n&atilde;o mexem nesse alicerce, mestre de todas as liberdades. &Eacute; preciso frisar ainda que a imprensa precisa ser independente n&atilde;o s&oacute; da tutela estatal, mas das for&ccedil;as econ&ocirc;micas.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>Nesta passagem V. Excia. parece confundir os conceitos de &ldquo;liberdade de manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento&rdquo; e de &ldquo;liberdade da imprensa&rdquo;. Deve ter sido um descuido.<\/p>\n<p>A liberdade de pensamento nasce com os homens e a liberdade da imprensa &ndash; que, sim, precisa ser independente tanto da tutela estatal como das for&ccedil;as econ&ocirc;micas &ndash; implica a exist&ecirc;ncia do papel, da tinta, da tipografia, de um p&uacute;blico leitor e de jornais. Tudo isso s&oacute; vai ocorrer junto no mundo moderno.<\/p>\n<p>Nas sociedades contempor&acirc;neas, a liberdade das empresas e dos conglomerados midi&aacute;ticos se justifica em torno da media&ccedil;&atilde;o do debate p&uacute;blico democr&aacute;tico alicer&ccedil;ado, como j&aacute; mencionei, na diversidade e na pluralidade. Dito de outra forma, a liberdade da imprensa se fundamenta na universaliza&ccedil;&atilde;o da liberdade de express&atilde;o.<br \/><em><br \/>4. &ldquo;A pretens&atilde;o de abolir o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o, a qualquer pretexto, inclusive administrativo, &eacute; totalmente impr&oacute;pria, at&eacute; mesmo insana. N&atilde;o pode e n&atilde;o deve haver.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>Aqui V. Excia insinua que existe entre n&oacute;s for&ccedil;a pol&iacute;tica que pretende abolir o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o. N&atilde;o serviria ao interesse p&uacute;blico nomear que for&ccedil;a pol&iacute;tica pretende essa medida &ldquo;impr&oacute;pria e insana&rdquo;?<\/p>\n<p>Desde os tempos do padre Antonio Vieira, no long&iacute;nquo s&eacute;culo 17, uma das carater&iacute;sticas do Brasil, segundo o jesu&iacute;ta, &eacute; exatamente o &ldquo;tolher-se-lhe a fala&rdquo;. Nossa sociologia hist&oacute;rica &ndash; e V. Excia., como graduado em Ci&ecirc;ncias Sociais, disso bem sabe &ndash; ao longo de s&eacute;culos identificou o Brasil como uma sociedade sem povo, sem voz. Temos uma d&iacute;vida hist&oacute;rica no que se refere &agrave; participa&ccedil;&atilde;o, &agrave; inclus&atilde;o social, &agrave; voz de milh&otilde;es de brasileiros que s&oacute; recentemente come&ccedil;a a ser resgatada pela implanta&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas compensat&oacute;rias.<\/p>\n<p>Na verdade, V. Excia. sabe que o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o da maioria dos brasileiros tem sido &ldquo;abolido&rdquo; historicamente. H&aacute; hoje alguma for&ccedil;a pol&iacute;tica que pretende aprofundar a desigualdade de acesso ao debate p&uacute;blico. Qual &eacute; ela?<br \/><strong><br \/>A conveni&ecirc;ncia das cita&ccedil;&otilde;es<br \/><\/strong><em><br \/>5. &ldquo;Quem regula, gosta, rejeita ou critica &eacute; o consumidor da informa&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; quem faz isso e somente ele. Como j&aacute; foi dito, o &uacute;nico controle toler&aacute;vel &eacute; o controle remoto. E o controle remoto n&atilde;o deve ficar na m&atilde;o do Estado, mas nas m&atilde;os dos cidad&atilde;os.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>Esse trecho me obriga a fazer duas indaga&ccedil;&otilde;es separadas.<\/p>\n<p>&gt;&gt; (a) Primeiro, V. Excia. coloca o verbo &ldquo;regular&rdquo; fora do lugar. Explico. V. Excia. discorda de que, nas democracias representativas liberais, &eacute; o povo que &ldquo;regula&rdquo; atrav&eacute;s de seus representantes eleitos no Parlamento?<\/p>\n<p>Infelizmente, no que se refere &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o Social, a tarefa de &ldquo;regular&rdquo; praticamente n&atilde;o tem sido exercida pelo Congresso Nacional, nos &uacute;ltimos 24 anos.<\/p>\n<p>V. Excia. certamente n&atilde;o desconhece que se encontra no Supremo Tribunal Federal, desde 2010, a A&ccedil;&atilde;o Direta de Inconstitucionalidade por Omiss&atilde;o [ADO] n&ordm; 10 pedindo que se declare &ldquo;a omiss&atilde;o inconstitucional do Congresso Nacional em legislar sobre as mat&eacute;rias constantes dos artigos 5&deg;, inciso V [direito de resposta]; 220, &sect; 3&ordm;, II [meios legais que garantam &agrave; pessoa e &agrave; fam&iacute;lia defesa contra programas de RTV e propaganda de produtos nocivos &agrave; sa&uacute;de]; 220, &sect; 5&deg; [oligop&oacute;lio ou monop&oacute;lio]; 221 [princ&iacute;pios para a produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o de RTV]; 222, &sect; 3&ordm; [observ&acirc;ncia do art. 221], todos da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, dando ci&ecirc;ncia dessa decis&atilde;o &agrave;quele &oacute;rg&atilde;o do Poder Legislativo, a fim de que seja providenciada, em regime de urg&ecirc;ncia, na forma do disposto nos arts. 152 e seguintes da C&acirc;mara dos Deputados e nos arts. 336 e seguintes do Senado Federal, a devida legisla&ccedil;&atilde;o sobre o assunto&rdquo;.<\/p>\n<p>Acrescente-se ainda o &ldquo;princ&iacute;pio da complementaridade&rdquo; entre os sistemas privado, p&uacute;blico e estatal (artigo 223), cuja observ&acirc;ncia deveria ser feita nas outorgas e renova&ccedil;&otilde;es de concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p>V. Excia. n&atilde;o desconhece que tamb&eacute;m se encontra no Supremo Tribunal Federal, desde 2011, a Argui&ccedil;&atilde;o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF n&ordm; 246) com o objetivo de &ldquo;reparar les&atilde;o aos preceitos fundamentais&rdquo;, dentre outros aquele relativo &agrave; n&atilde;o regulamenta&ccedil;&atilde;o do artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o que tem permitido &ldquo;a aprova&ccedil;&atilde;o, pelo Poder Legislativo, da outorga ou da renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es, permiss&otilde;es e autoriza&ccedil;&otilde;es de radiodifus&atilde;o a pessoas jur&iacute;dicas que possuam pol&iacute;ticos titulares de mandato eletivo como s&oacute;cios ou associados&rdquo;.<\/p>\n<p>No caso da ADPF n&ordm; 246, ali&aacute;s, V. Excia. seria interessado direto de vez que, em 2007, seu conterr&acirc;neo Jo&atilde;o Lyra confirmou ser seu s&oacute;cio em sociedade, entre 1999 e 2005, incluindo um jornal e duas concess&otilde;es de emissoras de r&aacute;dio (ver aqui) e, mais recentemente, seu filho, o deputado federal Renan Filho, afirmou ser s&oacute;cio de uma emissora de r&aacute;dio que est&aacute; em nome de funcion&aacute;rio do seu gabinete, Carlos Ricardo Nascimento Santa Ritta, nos registros do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. O deputado Renan Filho, tamb&eacute;m se apresenta como cotista da R&aacute;dio Correio de Alagoas, embora essa emissora n&atilde;o exista no cadastro do MiniCom (ver aqui).<\/p>\n<p>&gt;&gt; (b) A outra indaga&ccedil;&atilde;o se refere &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o &ndash; exclu&iacute;do o verbo regular &ndash; de que &ldquo;quem gosta, rejeita ou critica &eacute; o consumidor da informa&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; quem faz isso e somente ele.&rdquo;<\/p>\n<p>V. Excia. sabe muito bem que quando se fala em liberdade de express&atilde;o h&aacute; muito mais envolvido do que t&atilde;o-somente o &ldquo;consumo de informa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O cidad&atilde;o, por &oacute;bvio, n&atilde;o &eacute; um simples consumidor e a liberdade de express&atilde;o vai muito al&eacute;m dos mecanismos de mercado.<\/p>\n<p>Por outro lado, reduzir a responsabilidade da regula&ccedil;&atilde;o &agrave; dimens&atilde;o &uacute;nica do &ldquo;gosto&rdquo; individual ignora toda a complexa quest&atilde;o cultural da forma&ccedil;&atilde;o do gosto e do enorme papel que a pr&oacute;pria m&iacute;dia nela desempenha.<\/p>\n<p>Como se formam, desenvolvem e consolidam os h&aacute;bitos culturais, incluindo os de assistir a determinados canais e\/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e\/ou jornais?<\/p>\n<p>O &ldquo;argumento do controle remoto&rdquo; ignora o fato elementar de que n&atilde;o se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que n&atilde;o se conhece ou cujas chances de se conhecer s&atilde;o extremamente reduzidas. Ademais, pressup&otilde;e um mercado de m&iacute;dia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade brasileira. Esse mercado existe no Brasil?<br \/><em><br \/>6. &ldquo;A liberdade de express&atilde;o revela o grau de civilidade e amadurecimento de uma coletividade. T&atilde;o importante quanto a liberdade de imprensa &eacute; a responsabilidade no manuseio da informa&ccedil;&atilde;o, que ser&aacute; consumida e reproduzida por milh&otilde;es de pessoas na presun&ccedil;&atilde;o da verdade. A imprensa &eacute; insubstitu&iacute;vel e tem papel inquestion&aacute;vel nas democracias modernas, especialmente nas mais jovens, como a nossa. Ningu&eacute;m quer a imprensa que se agacha, como aconteceu sob os sorrisos p&aacute;lidos e acumpliciados na ditadura que eu combati na juventude. A liberdade de express&atilde;o &eacute; pedra angular da democracia.&rdquo;<br \/><\/em><br \/>Neste trecho, novamente h&aacute; um uso indiscriminado de conceitos diferentes como se eles tivessem o mesmo significado: &ldquo;liberdade de express&atilde;o&rdquo; n&atilde;o &eacute; equivalente a &ldquo;liberdade da imprensa&rdquo;.<br \/><em><br \/>7. &ldquo;Para corrigir os excessos da imprensa, mais liberdade de express&atilde;o. (&#8230;) O ensinamento de Thomas Jefferson, um expoente democr&aacute;tico, merece ser lembrado, compreendido e respeitado: &lsquo;Onde a imprensa &eacute; livre, e todo homem &eacute; capaz de ler, tudo est&aacute; seguro&rsquo;.&rdquo;<\/em><\/p>\n<p>Uma vez mais se repete a confus&atilde;o entre os conceitos de liberdade de express&atilde;o e liberdade da imprensa. Todavia, fa&ccedil;o aqui n&atilde;o uma indaga&ccedil;&atilde;o, mas uma observa&ccedil;&atilde;o referente &agrave; cita&ccedil;&atilde;o de Thomas Jefferson.<\/p>\n<p>Quando se utiliza de um personagem que viveu s&eacute;culos atr&aacute;s, &eacute; enorme o risco de graves anacronismos hist&oacute;ricos. A frase citada foi escrita por Jefferson em 1816. A &ldquo;imprensa livre&rdquo; a que ele se referia era a partisan press &ndash; jornais partid&aacute;rios que expressavam explicitamente a posi&ccedil;&atilde;o de partidos pol&iacute;ticos. Essa imprensa praticamente desapareceu nos Estados Unidos a partir do surgimento da penny press na metade do s&eacute;culo 19 &ndash; jornais-empresas produzidos para atender prioritariamente a interesses de anunciantes e do mercado.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, n&atilde;o &eacute; segredo a ambiguidade pol&iacute;tica de Jefferson e, por consequ&ecirc;ncia, a oportunidade que suas &ldquo;cita&ccedil;&otilde;es&rdquo; oferecem para referendar diferentes posi&ccedil;&otilde;es. Para comprovar o fato cito outra frase, escrita por ele quando estava na presid&ecirc;ncia dos Estados Unidos j&aacute; por seis anos, em carta dirigida a John Norvell, em 1807:<\/p>\n<p><em>&ldquo;N&atilde;o se pode agora acreditar no que se v&ecirc; num jornal. A pr&oacute;pria verdade torna-se suspeita se &eacute; colocada nesse ve&iacute;culo polu&iacute;do. A verdadeira extens&atilde;o deste estado de falsas informa&ccedil;&otilde;es &eacute; somente conhecida daqueles que est&atilde;o em posi&ccedil;&atilde;o de confrontar os fatos que conhecem com as mentiras do dia. Encaro realmente com comisera&ccedil;&atilde;o o grande grupo de meus concidad&atilde;os que, lendo jornais, vive e morre na cren&ccedil;a de que souberam algo do que se passou no mundo em seu tempo, ao passo que os relatos que leram nos jornais s&atilde;o uma hist&oacute;ria t&atilde;o verdadeira quanto a de qualquer outro per&iacute;odo do mundo, s&oacute; que os nomes de figuras da atualidade a elas s&atilde;o apostos. [&#8230;] O homem que n&atilde;o l&ecirc; jornais est&aacute; mais bem informado que aquele que os l&ecirc;, porquanto o que nada sabe est&aacute; mais pr&oacute;ximo da verdade que aquele cujo esp&iacute;rito est&aacute; repleto de falsidades e erros&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><strong>Caminho oposto<\/strong><\/p>\n<p>Senhor senador:<\/p>\n<p>A imensa maioria dos brasileiros certamente prefere &ldquo;o barulho da imprensa livre ao sil&ecirc;ncio das ditaduras&rdquo;, como reiteradas vezes tem afirmado a presidenta Dilma Rousseff e agora repete V. Excia. Essa posi&ccedil;&atilde;o, todavia, n&atilde;o exime os poderes Executivo e Legislativo de trabalhar pela regulamenta&ccedil;&atilde;o dos artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o relativos &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o social em nome da democracia e da liberdade de express&atilde;o.<\/p>\n<p>Em artigo recentemente publicado na Folha de S.Paulo, o deputado Rui Falc&atilde;o, presidente do PT, partido da presidenta Dilma e de dois de seus colegas na Mesa Diretora do Senado Federal, afirmou: &ldquo;Vamos tamb&eacute;m manter nossa luta pela amplia&ccedil;&atilde;o da liberdade de express&atilde;o, focando principalmente na regulamenta&ccedil;&atilde;o dos artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o que tratam do assunto&rdquo; (ver aqui).<\/p>\n<p>Essa &eacute; tamb&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o da Frente Parlamentar pela Liberdade de Express&atilde;o e o Direito a Comunica&ccedil;&atilde;o com Participa&ccedil;&atilde;o Popular (Frentecom), criada em abril de 2011 e composta por 194 deputados federais e mais de cem entidades da sociedade civil.<\/p>\n<p>O discurso de posse de V. Excia. parece indicar o caminho oposto: a manuten&ccedil;&atilde;o do status quo no que se refere &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o das normas e princ&iacute;pios constitucionais da Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/p>\n<p>Estaria equivocada a leitura que fa&ccedil;o das posi&ccedil;&otilde;es de V. Excia.?<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; jornalista e soci&oacute;logo, pesquisador visitante no Departamento de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica da UFMG (2012-2013), professor de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado) e autor de Pol&iacute;tica de Comunica&ccedil;&otilde;es: um Balan&ccedil;o dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Superadas as longas tratativas pr&eacute;vias, realizadas as elei&ccedil;&otilde;es para a  nova Mesa Diretora do Senado Federal, iniciado o ano legislativo e  passado o Carnaval, agora que tudo come&ccedil;a a funcionar de verdade, decidi  escrever-lhe esta carta aberta.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27377"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}