{"id":27367,"date":"2013-02-15T10:24:43","date_gmt":"2013-02-15T10:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27367"},"modified":"2013-02-15T10:24:43","modified_gmt":"2013-02-15T10:24:43","slug":"nelson-motta-o-piadista-de-araque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27367","title":{"rendered":"Nelson Motta, o piadista de araque"},"content":{"rendered":"<p>A hegemonia do &ldquo;pensamento Globo&rdquo; &eacute; t&atilde;o forte que arrasta para o seu campo uma s&eacute;rie de intelectuais progressistas (ou que sup&uacute;nhamos que o fossem) que mant&ecirc;m v&iacute;nculos simb&oacute;licos ou materiais com o principal grupo de m&iacute;dia do pa&iacute;s. O jornalista Nelson Motta, excelente cr&iacute;tico de m&uacute;sica, e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, ultimamente vem se aplicando na tarefa de tornar-se um intelectual reacion&aacute;rio, sempre pronto a espica&ccedil;ar a esquerda por erros reais ou imagin&aacute;rios.<\/p>\n<p>No artigo &ldquo;Piadas no Sal&atilde;o&rdquo;, publicado na edi&ccedil;&atilde;o de 8\/2 do Estad&atilde;o (p. A7) e dispon&iacute;vel tamb&eacute;m em <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/pais\/noblat\/posts\/2013\/02\/08\/piadas-no-salao-por-nelson-motta-485583.asp\">http:\/\/oglobo.globo.com\/pais\/noblat\/posts\/2013\/02\/08\/piadas-no-salao-por-nelson-motta-485583.asp<\/a>, Nelson Motta trata da quest&atilde;o da democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com uma leviandade espantosa. Ao fazer refer&ecirc;ncia a uma declara&ccedil;&atilde;o do ex-ministro Jos&eacute; Dirceu, condenado na AP 470, em que este denuncia o &ldquo;monop&oacute;lio da comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, o colunista pergunta: &ldquo;&Ecirc;pa! Que monop&oacute;lio de araque &eacute; esse com tantas empresas competindo num dos maiores mercados publicit&aacute;rios do mundo?&rdquo; <\/p>\n<p>A rigor, n&atilde;o se trata mesmo de monop&oacute;lio, mas de oligop&oacute;lio, como advertia o saudoso jornalista Jair Borin, professor da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes (ECA-USP). O que n&atilde;o refresca nada. Porque, ainda que n&atilde;o seja uma &uacute;nica empresa a controlar sozinha o conjunto dos meios chamados de &ldquo;comunica&ccedil;&atilde;o de massa&rdquo;, s&atilde;o algumas poucas que concentram, reunidas, algo em torno de 90% do sistema! Portanto, temos um oligop&oacute;lio em que cerca de uma dezena de grandes grupos empresariais controla as principais emissoras de TV, r&aacute;dio, jornais e revistas impressos de maior circula&ccedil;&atilde;o, portais da Internet e outras m&iacute;dias. Tamb&eacute;m integram o sistema, em maior ou menor grau, oligop&oacute;lios e monop&oacute;lios de escala regional e local.<\/p>\n<p>Portanto, &ldquo;monop&oacute;lio&rdquo; ou oligop&oacute;lio, o fato &eacute; que um pequeno grupo de poderosas empresas determina, em grande medida, a qualidade e o formato daquilo que a maior parte dos brasileiros l&ecirc;, ouve e assiste. A propriedade cruzada &mdash; o controle simult&acirc;neo de redes de r&aacute;dio e TV, publica&ccedil;&otilde;es impressas, meios digitais, distribuidoras, produtoras de filmes e discos e at&eacute; transmiss&atilde;o de dados via sat&eacute;lite &mdash; confere enorme poder a essas empresas. <\/p>\n<p>Motta devia saber disso, afinal de contas ele trabalha para a TV Globo e tem seus escritos publicados no G1, portal do mesmo grupo. O supergrupo da fam&iacute;lia Marinho &eacute; a estrela de maior brilho dentro do oligop&oacute;lio e o &ldquo;campe&atilde;o&rdquo; em mat&eacute;ria de propriedade cruzada da m&iacute;dia no Brasil. <\/p>\n<p>Mesmo com audi&ecirc;ncia em queda na TV, o grupo Globo ainda &eacute;, de longe, o maior conglomerado de m&iacute;dia do pa&iacute;s, com receitas anuais superiores a R$ 10 bilh&otilde;es nos &uacute;ltimos anos. Segundo a revista Forbes, somente com a novela &ldquo;Avenida Brasil&rdquo; a Globo obteve receita de R$ 2 bilh&otilde;es em 2012!<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o podemos permitir que o Z&eacute; Dirceu tente cercear a palavra da imprensa independente, que n&atilde;o depende de favores do governo e vive de anunciantes privados que pagam para divulgar e promover seus produtos e servi&ccedil;os nos ve&iacute;culos que atingem o maior p&uacute;blico com mais credibilidade&rdquo;, exclama o indignado Motta no seu texto.<\/p>\n<p>Ora, o que o articulista chama de &ldquo;imprensa independente&rdquo; s&atilde;o exatamente esses grandes grupos que integram o oligop&oacute;lio da m&iacute;dia. Afirmar que essa turma vive de anunciantes privados e que &ldquo;n&atilde;o depende de favores do governo&rdquo; &eacute; contar apenas parte da hist&oacute;ria (e falsear a outra parte). Tem sido fartamente noticiado que os governos estaduais de S&atilde;o Paulo (Alckmin, Serra) repassaram centenas de milh&otilde;es de reais, durante anos, para os grupos Abril, Globo, Folha e Estado, mediante contratos sem licita&ccedil;&atilde;o para aquisi&ccedil;&atilde;o de publica&ccedil;&otilde;es impressas. <\/p>\n<p>Mesmo o governo federal, duramente combatido por alguns desses grupos de m&iacute;dia que resolveram assumir ostensivamente o papel de oposi&ccedil;&atilde;o, tem contribu&iacute;do generosamente para sustent&aacute;-los. Todos receberam fartas verbas publicit&aacute;rias da Uni&atilde;o em 2012. Mas Carta Capital, uma revista comercial que faz jornalismo de qualidade (e que apoiou a elei&ccedil;&atilde;o de Dilma, sem abrir m&atilde;o do direito de criticar erros do governo), recebeu pouco mais de R$ 100 mil.<\/p>\n<p>Por outro lado, a opini&atilde;o do ex-ministro Jos&eacute; Dirceu importa bem pouco nesta quest&atilde;o. Para falar a verdade, enquanto esteve &agrave; frente da m&aacute;quina partid&aacute;ria, e depois na Casa Civil, ele nunca se preocupou efetivamente em combater o oligop&oacute;lio da m&iacute;dia. &Eacute; bom que se diga que a bandeira da democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia pertence a movimentos sociais, grupos, partidos e entidades da sociedade civil que conseguiram viabilizar politicamente a I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, realizada em Bras&iacute;lia em 2009. Embora tenha sido convocada pelo pr&oacute;prio governo federal, e contado com expressiva participa&ccedil;&atilde;o do empresariado, as principais medidas aprovadas na Confer&ecirc;ncia para tornar a comunica&ccedil;&atilde;o mais democr&aacute;tica e pluralista jamais foram implantadas.<\/p>\n<p>Utilizando-se de um linguajar que seria mais apropriado num texto de Arnaldo Jabor, diz ainda Motta em seu artigo: &ldquo;Um dos relinchos (sic!) mais estridentes nos blogs pol&iacute;ticos &eacute; exigir que Dilma corte toda a publicidade estatal da TV Globo, por criticar o governo. Devem achar que a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobras anunciam na Globo, que tem mais audi&ecirc;ncia do que todas as outras juntas, n&atilde;o por necessidade de competir no mercado, mas para comprar apoio. Para eles tudo na vida &eacute; mensal&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Criticar o governo &eacute; necess&aacute;rio e importante, sempre que houver erros, omiss&otilde;es e ilicitudes que precisem ser apontadas. Por&eacute;m, o que os grupos de m&iacute;dia (Globo &agrave; frente) t&ecirc;m feito frequentemente &eacute; inventar e distorcer fatos, com a finalidade de proteger seus pr&oacute;prios interesses (e os de seus aliados). O alvo dessa m&iacute;dia nem sempre &eacute; o governo Dilma: muitas vezes s&atilde;o os movimentos sociais, os benefici&aacute;rios de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas (como os sem-terra, os povos ind&iacute;genas, os quilombolas), as centrais sindicais (como a CUT), os movimentos grevistas etc. Ou os governos de pa&iacute;ses como Venezuela, Argentina e Equador, atacados como se fossem &ldquo;ditaduras&rdquo; e constantemente ridicularizados por comentaristas e apresentadores.<\/p>\n<p>Motta deveria refletir sobre o que ele mesmo escreve: que a TV Globo &ldquo;tem mais audi&ecirc;ncia do que todas as outras juntas&rdquo;. Ser&aacute; que isso &eacute; bom? Ser&aacute; que caiu do c&eacute;u? Ser&aacute; que se deve apenas ao &ldquo;padr&atilde;o Globo de qualidade&rdquo;? Ou tem a ver com os benef&iacute;cios que a Globo recebeu da Ditadura Militar, que lhe permitiram crescer rapidamente, enriquecendo a fam&iacute;lia Marinho?<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que Caixa, Petrobras e BB anunciam na Globo por causa de sua maior audi&ecirc;ncia? Em parte, sim. Mas tamb&eacute;m &eacute; verdade que n&atilde;o &eacute; &agrave; toa que o Brasil &eacute; &ldquo;um dos maiores mercados publicit&aacute;rios do mundo&rdquo;. Aqui gerou-se, historicamente, uma enorme rela&ccedil;&atilde;o de promiscuidade entre gestores p&uacute;blicos e interesses privados, em torno exatamente da publicidade oficial. Portanto &eacute; importante rever as estrat&eacute;gias de publicidade do governo, inclusive como parte do processo de desconcentra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. Al&eacute;m disso, n&atilde;o custa lembrar um inc&ocirc;modo detalhe: as TVs s&atilde;o uma concess&atilde;o do poder p&uacute;blico! O governo paga para usar algo que &eacute; patrim&ocirc;nio da na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por fim, n&atilde;o foi o pr&oacute;prio Motta que garantiu que a &ldquo;imprensa independente&rdquo;, ou seja, o oligop&oacute;lio da m&iacute;dia, &ldquo;vive de anunciantes privados&rdquo;? Bem, se &eacute; assim, devemos entender que n&atilde;o deve lhe fazer falta a publicidade de empresas estatais como a Petrobras, o BB e a Caixa&#8230;<br \/>Motta tripudia dos defensores da democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, que ele v&ecirc; como &ldquo;piadistas de sal&atilde;o&rdquo;. Mas sua defesa do oligop&oacute;lio &eacute; ou n&atilde;o &eacute; uma piada de mau gosto?<\/p>\n<p><em>Pedro Pomar &eacute; jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalista conhecido por sua cr&iacute;tica musical cumpre papel de intelectual reacion&aacute;rio defendendo o poder dos oligop&oacute;lios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1751],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27367"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27367\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}