{"id":27360,"date":"2013-01-31T16:44:08","date_gmt":"2013-01-31T16:44:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27360"},"modified":"2013-01-31T16:44:08","modified_gmt":"2013-01-31T16:44:08","slug":"por-uma-midia-que-ouse-ser-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27360","title":{"rendered":"Por uma m\u00eddia que ouse ser \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma vez o que me motiva a sair da in&eacute;rcia para escrever &eacute; a nossa m&iacute;dia, aquela mesma de sempre, &aacute;vida pelo lucro e cheia de vaidades. A m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; um ser inanimado, ela &eacute; feita de pessoas. A m&iacute;dia &eacute; feita, principalmente, de jornalistas que devem receber uma forma&ccedil;&atilde;o para saber, antes de tudo, o que &eacute; not&iacute;cia e o que &eacute; espetaculariza&ccedil;&atilde;o. Jornalistas que devem sempre optar pela not&iacute;cia.<\/p>\n<p>&Eacute; uma pena que, em todas as trag&eacute;dias, n&oacute;s tenhamos p&eacute;ssimos exemplos da nossa imprensa. As coberturas s&atilde;o traum&aacute;ticas. A grande maioria tenta logo de sa&iacute;da fazer das trag&eacute;dias grandes espet&aacute;culos. Procuram por parentes, procuram por v&iacute;timas, procuram por testemunhas. Pessoas que, por t&atilde;o intensamente envolvidas, podem n&atilde;o querer colocar mais uma vez o dedo na ferida. Pessoas que est&atilde;o tendo que prestar depoimentos na pol&iacute;cia e assim por diante. (Esse tipo de fonte deve ser usada com muita cautela e parcim&ocirc;nia; eu diria que em doses homeop&aacute;ticas. Nunca podem ser o foco da cobertura). Os jornalistas procuram tamb&eacute;m por fotos, imagens de qualquer tipo, mas que de prefer&ecirc;ncia mostre desespero, mostre afli&ccedil;&atilde;o e, na maioria das vezes, que mostrem corpos. Corpos estendidos no ch&atilde;o, amontoados, enfim, corpos. Cenas dos familiares recebendo as not&iacute;cias, se despedindo dos entes, em momentos de profunda dor e de uma dor familiar, privada e n&atilde;o p&uacute;blica. E essas hist&oacute;rias se repetem a exaust&atilde;o, por v&aacute;rios e intermin&aacute;veis dias.<\/p>\n<p>Convido todos os jornalistas, mas em especial os das emissoras e ve&iacute;culos p&uacute;blicos para pensar sobre a cobertura das trag&eacute;dias. Estes &uacute;ltimos em destaque porque, por princ&iacute;pio, deve ousar e fazer diferente. Primeiramente, vou pedir para que voc&ecirc;s n&atilde;o pensem na audi&ecirc;ncia, o que pode ou n&atilde;o &ldquo;trazer gente para mat&eacute;ria&rdquo;. N&atilde;o pensem em alavancar audi&ecirc;ncia para ve&iacute;culo A ou B, n&atilde;o vejam isso como t&aacute;buas de salva&ccedil;&atilde;o para o &ldquo;sucesso&rdquo; de voc&ecirc;s.<\/p>\n<p>Convido voc&ecirc;s a pensar ent&atilde;o na not&iacute;cia. Ser&aacute; que todas as imagens &#8211; sejam fotos, sejam v&iacute;deos na internet que voc&ecirc;s colocaram na mat&eacute;ria &#8211; t&ecirc;m, de fato, o prop&oacute;sito de contribuir com a informa&ccedil;&atilde;o? J&aacute; sei que voc&ecirc; vai me responder que todo mundo clica no v&iacute;deo e na imagem, que todo mundo quer ver sim aquelas imagens. E eu vou refazer a pergunta destacando a ideia principal do questionamento que &eacute;: a imagem tem relev&acirc;ncia para aquela informa&ccedil;&atilde;o que voc&ecirc; est&aacute; dando como not&iacute;cia? &Eacute; essa rela&ccedil;&atilde;o muito t&ecirc;nue do que voc&ecirc; precisa dar com o que as pessoas &ldquo;querem ver&rdquo; que precisa ser repensada. &Eacute; nela que reside a audi&ecirc;ncia como preciosidade e, muitas vezes, n&atilde;o &eacute; s&oacute; o lucro em si que move esse interesse, &eacute; a audi&ecirc;ncia mesmo, &eacute; mostrar que est&aacute; bem, &eacute; fazer sucesso. &Eacute; dizer que bateu o site A, B ou C, &eacute; dizer que teve mais Ibope que o programa tal e o programa tal.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o &eacute; a seguinte: se jornalista colocar as imagens vai ter sim quem veja e muita gente mesmo vai querer ver. A diferen&ccedil;a de um jornalista respons&aacute;vel para um vaidoso &eacute; justamente saber diferenciar o que &eacute; de interesse p&uacute;blico e o que &eacute; de interesse do p&uacute;blico. A comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um modelo informal de educa&ccedil;&atilde;o, cabe ao jornalista saber que tipo de sociedade ele quer ajudar a formar a partir do que ele decide veicular. Isso &eacute; o princ&iacute;pio da responsabilidade, caro ao jornalista comprometido. O processo de sele&ccedil;&atilde;o &eacute; um eterno conflito e s&atilde;o nos conflitos, nos dilemas, que se avaliam a reserva &eacute;tica e moral de um cidad&atilde;o, bem como de um jornalista. &Eacute;, portanto, a&iacute; que reside um dos principais problemas, que n&atilde;o &eacute; s&oacute; da m&iacute;dia, mas &eacute; tamb&eacute;m do jornalista, das equipes: a vaidade!<\/p>\n<p>O que pode ser mais importante na trag&eacute;dia de Santa Maria, por exemplo, do que mostrar as imagens das pessoas tentando salvar as vidas ou tirando os corpos da boate? O que &eacute; mais importante do que mostrar a dor das fam&iacute;lias? Os momentos de desespero e os momentos de profunda particularidade das pessoas? De sa&iacute;da, afirmo que &eacute; tentar compreender as causas e consequ&ecirc;ncias das trag&eacute;dias. O que ainda pode e, principalmente, o que deve ser feito. Como as pessoas devem se voluntariar. Onde est&atilde;o os respons&aacute;veis, quem s&atilde;o as autoridades envolvidas? Deve-se tamb&eacute;m n&atilde;o querer encontrar de cara um culpado, seja o poder p&uacute;blico, sejam pessoas particularmente. Essa &eacute; uma informa&ccedil;&atilde;o que merece ser dada com precis&atilde;o. Estamos trabalhando com pessoas, com vidas, com emo&ccedil;&otilde;es. Vale sempre lembrar que o papel da pol&iacute;cia, das per&iacute;cias e das investiga&ccedil;&otilde;es deve ser respeitado.<\/p>\n<p>Gosto sempre de lembrar aos jornalistas que eles n&atilde;o t&ecirc;m na faculdade nenhuma disciplina pericial ou de investiga&ccedil;&atilde;o criminal. Portanto, pol&iacute;cia &eacute; pol&iacute;cia e jornalista &eacute; jornalista. O que n&atilde;o o impede de apurar de forma muito s&eacute;ria e aguerrida os fatos, as causas. Um bom jornalista trabalha em parceria com a pol&iacute;cia e sabe os &oacute;rg&atilde;os s&eacute;rios com quem pode contar.<\/p>\n<p>Ao inv&eacute;s de mostrar os corpos ou as imagens, pode-se falar quem s&atilde;o as v&iacute;timas, o que estavam fazendo no local da trag&eacute;dia, o que faziam da vida. N&atilde;o &eacute; preciso apostar em dramatizar a vida das pessoas. Sejam s&eacute;rios e serenos. Num momento como esse, pense nos entes que ficaram, que ir&atilde;o ver a sua mat&eacute;ria, o que ele ir&atilde;o sentir? Sejam respons&aacute;veis com a vida e o sentimento das pessoas, sejam humanos, sejam coerentes. Ser um bom jornalista &eacute; poder deitar a cabe&ccedil;a no travesseiro &agrave; noite e dormir tranquilo.<\/p>\n<p>Convido ent&atilde;o os jornalistas a ousarem fazer uma cobertura mais humana, menos ref&eacute;m da audi&ecirc;ncia, diferente de tudo que acontece sempre, preocupado com as causas e com as consequ&ecirc;ncias dos fatos. Preocupem-se n&atilde;o apenas em chocar a sociedade, isso acaba banalizando a t&aacute;tica, procurem fazer com que as pessoas se movimentem, saiam tamb&eacute;m da sua in&eacute;rcia, exer&ccedil;am a sua cidadania, mas tamb&eacute;m a sua solidariedade. Contribuam efetivamente para que as pessoas n&atilde;o aceitem mais crimes impunes, que se sintam parte das hist&oacute;rias e possam ter instrumentos para constru&iacute;rem um mundo melhor a partir do aprendizado, que, mesmo de forma dolorosa, as trag&eacute;dias podem nos trazer.<br \/><em><\/p>\n<p>Mariana Martins &eacute; jornalista, mestra e doutoranda em Comunica&ccedil;&atilde;o. Foi professora substituta da Universidade de Bras&iacute;lia. Professora de &eacute;tica na comunica&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convido ent&atilde;o os jornalistas a ousarem fazer uma cobertura mais humana,  menos ref&eacute;m da audi&ecirc;ncia, diferente de tudo que acontece sempre,  preocupado com as causas e com as consequ&ecirc;ncias dos fatos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27360"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27360\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}