{"id":27353,"date":"2013-01-25T19:07:28","date_gmt":"2013-01-25T19:07:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27353"},"modified":"2013-01-25T19:07:28","modified_gmt":"2013-01-25T19:07:28","slug":"rede-globo-tem-medo-da-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27353","title":{"rendered":"\u201cRede Globo tem medo da internet\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Um dos espa&ccedil;os mais fortes de contraponto &agrave; hegemonia dos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o os blogs de jornalistas e ativistas espalhados pela internet. A velocidade da rede e a capacidade de dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m provocado rea&ccedil;&otilde;es que revelam o verdadeiro compromisso dos empres&aacute;rios da m&iacute;dia com a liberdade de express&atilde;o.<\/p>\n<p>Na mais recente investida contra blogueiros, na semana passada, o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, venceu em segunda inst&acirc;ncia o processo que move contra Rodrigo Vianna, rep&oacute;rter da TV Record e dono do blog Escrevinhador, que chega a ter mais de 30 mil acessos diretos por dia. O blogueiro, que foi rep&oacute;rter da Globo e saiu justamente por discordar da cobertura parcial da emissora nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2006 &ndash; em favorecimento &agrave; candidatura do PSDB &ndash; pode ser obrigado a pagar uma salgada indeniza&ccedil;&atilde;o apenas porque exerceu o &ldquo;sagrado&rdquo; direito constitucional da livre opini&atilde;o. O problema &eacute; que foi contra a Globo.<\/p>\n<p>Vianna publicou em seu blog que o jornalismo da emissora comandada por Kamel era algo &ldquo;pornogr&aacute;fico&rdquo;, em alus&atilde;o a uma infeliz coincid&ecirc;ncia: um ator porn&ocirc; dos anos 1980 tamb&eacute;m usava o mesmo nome do manda chuva do jornalismo da Globo. Ao se apropriar da informa&ccedil;&atilde;o como met&aacute;fora, para produzir uma cr&iacute;tica, o jornalista atingiu o alvo.<\/p>\n<p>&ldquo;O que me interessava era a homon&iacute;mia entre o ator porn&ocirc; e o diretor da Globo, e n&atilde;o dizer que um era o outro, como afirma meu acusador. Tratou-se do exerc&iacute;cio da liberdade de opini&atilde;o, ou seja, usar uma met&aacute;fora para criticar o jornalismo pornogr&aacute;fico que a Globo pratica. A&iacute; n&atilde;o pode, porque met&aacute;fora s&oacute; quem pode fazer &eacute; o Arnaldo Jabor, que escreveu um livro chamado Pornopol&iacute;tica. Eu recorri ao Tribunal de Justi&ccedil;a do Rio de Janeiro e perdi. O que eu vou fazer agora &eacute; recorrer aos tribunais em Bras&iacute;lia e seguir protestando, mostrando a hipocrisia dos caras que falam em liberdade de express&atilde;o, mas s&oacute; para eles. &Eacute; como os liberais do s&eacute;culo XIX, que reivindicavam o liberalismo para serem donos de escravos porque abolir a escravid&atilde;o, na vis&atilde;o de alguns desses liberais, atentava contra a propriedade privada, que eram os pr&oacute;prios escravos&rdquo;, desfere o escrevinhador.<\/p>\n<p>Rodrigo Vianna n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico. Outros blogueiros bastante conhecidos como Luiz Carlos Azenha &ndash; tamb&eacute;m ex-rep&oacute;rter da TV Globo, Luiz Nassif, Cloaca News e Paulo Henrique Amorim colecionam no curr&iacute;culo a&ccedil;&otilde;es criminais impetradas pelo diretor da v&ecirc;nus platinada. &ldquo;Ent&atilde;o, n&atilde;o pode fazer pol&iacute;tica, n&atilde;o pode brincar, criticar atrav&eacute;s do humor. Nem os militares fizeram isso com o Pasquim. &Eacute; incr&iacute;vel como um sujeito como o Ali Kamel, que controla os notici&aacute;rios da principal emissora de TV do pa&iacute;s, que acaba influenciando outros ve&iacute;culos das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, quer processar um blogueiro como eu. &Eacute; porque eles est&atilde;o dando muita import&acirc;ncia para a blogosfera&rdquo;, desabafa Vianna.<\/p>\n<p>&ldquo;A m&iacute;dia n&atilde;o aceita ser questionada. E as brincadeiras que a Globo faz com a Dilma no Zorra Total, por exemplo? Eles s&atilde;o &oacute;timos para defender a liberdade deles, dos monop&oacute;lios. Quando a brincadeira &eacute; com eles, n&atilde;o gostam e revelam um DNA fascista muito forte. Outro caso diz respeito ao jornal Folha de S. Paulo. Quando a turma fez uma cr&iacute;tica, como foi o blog Falha de S. Paulo, o jornal reagiu com a&ccedil;&atilde;o judicial para tirar o site do ar&rdquo;, aponta o jornalista Altamiro Borges, do Blog do Miro e presidente do Centro de Estudos de M&iacute;dia Alternativa Bar&atilde;o de Itarar&eacute;. Miro &eacute; um dos organizadores do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, que j&aacute; teve tr&ecirc;s edi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Desvendando o jogo<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; faz um tempo que a liberdade de express&atilde;o na internet tem incomodado os maiores conglomerados de m&iacute;dia do pa&iacute;s. Em 2006, durante as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, o acirramento da disputa produziu um dos epis&oacute;dios mais constrangedores do jornalismo contempor&acirc;neo. &Agrave;s v&eacute;speras do primeiro turno, com todas as indica&ccedil;&otilde;es que o ent&atilde;o presidente Lula confirmaria a vit&oacute;ria sem a necessidade de novas elei&ccedil;&otilde;es, nasce um esc&acirc;ndalo que daria sobrevida para a candidatura do PSDB, na figura de Geraldo Alckmin. Opera&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal, duas semanas antes, tinha desbaratado a tentativa de duas pessoas ligadas ao PT em comprar, com R$ 1,7 milh&atilde;o, um suposto dossi&ecirc; contra Jos&eacute; Serra e outros tucanos gra&uacute;dos.<\/p>\n<p>A den&uacute;ncia n&atilde;o teve o efeito pr&aacute;tico desejado. Faltava a bala de prata para sensibilizar o eleitorado. Foi a&iacute; que surgiu Edm&iacute;lson Pereira Bruno, o delegado da PF que havia comandado a opera&ccedil;&atilde;o contra os &ldquo;aloprados&rdquo; &ndash; alcunha que teria sido dita por Lula ao se referir &agrave;s figuras que tentaram adquirir o dossi&ecirc; e acabaram prejudicando o pr&oacute;prio presidente. Bruno convidou quatro jornalistas para uma conversa reservada e repassou os CDs com as fotos do montante do dinheiro que havia sido flagrado nas m&atilde;os dos compradores do tal dossi&ecirc;. A conversa foi inteiramente gravada e nela se p&ocirc;de ouvir os apelos excitantes do delegado para que as imagens fossem parar na edi&ccedil;&atilde;o do Jornal Nacional (JN) do mesmo dia, 29 de setembro. Dito e feito. Os jornais do dia seguinte estamparam a manchete com as fotos e o JN dedicou quase toda sua edi&ccedil;&atilde;o para mostrar as imagens da montanha de dinheiro. O uso pol&iacute;tico das fotos ficou ainda mais evidenciado pelo fato das mat&eacute;rias, todas elas, omitirem a conversa com o delegado, em que ele claramente condiciona a divulga&ccedil;&atilde;o dos fotos para atingir a candidatura petista. Os pr&oacute;prios jornais difundiram a informa&ccedil;&atilde;o mentirosa de que as fotos teriam sido roubadas, quando, na verdade, tinham sido repassadas a eles pelo mesmo delegado.<\/p>\n<p>No caso do JN, o uso pol&iacute;tico p&ocirc;de ser constatado porque, na mesma noite em que se exibiram as fotos sem a contextualiza&ccedil;&atilde;o de como foram obtidas, ocorreu a trag&eacute;dia com o avi&atilde;o da Gol, em que morreram 154 passageiros no impressionante choque a&eacute;reo com o jato executivo Legacy, comandado por dois pilotos norte-americanos. Nada sobre o acidente foi informado, mesmo com a not&iacute;cia repercutindo no mundo inteiro ainda durante a edi&ccedil;&atilde;o ao vivo do jornal.<\/p>\n<p>Toda a a&ccedil;&atilde;o orquestrada pela m&iacute;dia nesse fat&iacute;dico dia 29 de setembro de 2006 foi depois denunciada em reportagem da revista Carta Capital, assinada pelo jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. Ocorre que a mat&eacute;ria, por sua vez, foi incrivelmente espalhada atrav&eacute;s de sites e correntes de emails pela internet e gerou uma onda de indigna&ccedil;&atilde;o que ecoou na reda&ccedil;&atilde;o da TV Globo. &ldquo;Foi naquele momento das elei&ccedil;&otilde;es que eu percebi o papel da internet&rdquo;, relata Rodrigo Vianna, &agrave; &eacute;poca rep&oacute;rter da Globo em S&atilde;o Paulo. &ldquo;Primeiro, porque as informa&ccedil;&otilde;es que foram colocadas por um colega de TV Globo na &eacute;poca, o Luiz Carlos Azenha, serviram de base para uma mat&eacute;ria da revista Carta Capital&rdquo;. Azenha havia transcrito para o seu blog, o Viomundo, a &iacute;ntegra da conversa com o delegado da Pol&iacute;cia Federal que vazou fotos da apreens&atilde;o do dinheiro no esc&acirc;ndalo dos aloprados.<\/p>\n<p>&ldquo;Os jornalistas que participaram da conversa com o delegado fizeram de conta que o encontro nunca existiu. A mat&eacute;ria da Carta teve uma repercuss&atilde;o muito grande na internet, nos blogs, tanto que a Globo teve que responder. O Ali Kamel admitiu que teriam que responder. Nem tanto por causa da revista, mas principalmente pela repercuss&atilde;o na rede. Foi a&iacute; que eu percebi que a Globo tem medo da for&ccedil;a internet&rdquo;, calcula. Foi em decorr&ecirc;ncia desse epis&oacute;dio que Rodrigo Vianna se desligou da emissora. Meses mais tarde, o pr&oacute;prio Luiz Carlos Azenha tamb&eacute;m desembarcaria do grupo de comandados de Kamel. Atualmente, ambos s&atilde;o rep&oacute;rteres da TV Record e mant&ecirc;m, de forma aut&ocirc;noma, alguns dos blogs mais prestigiados da internet quando o assunto &eacute; pol&iacute;tica, jornalismo e temas da conjuntura, batendo a casa dos milh&otilde;es de acesso\/m&ecirc;s.<\/p>\n<p><strong>M&iacute;dia que incomoda<\/strong><\/p>\n<p>De l&aacute; para c&aacute;, o debate p&uacute;blico, especialmente nos per&iacute;odos eleitorais, tem ficado um pouco menos desigual. &ldquo;Quando h&aacute; a centralidade do modelo eleitoral, como tem sido no Brasil, a luta de classes se exacerba e as contradi&ccedil;&otilde;es ficam mais vis&iacute;veis, a&iacute; a m&iacute;dia alternativa cumpre um papel mais relevante e incomoda&rdquo;, avalia Miro Borges, do Centro de Estudos da M&iacute;dia Alternativa Bar&atilde;o de Itarar&eacute;. Tr&ecirc;s epis&oacute;dios recentes est&atilde;o entre os mais emblem&aacute;ticos: a hist&oacute;ria da bolinha de papel &eacute; o campe&atilde;o de prefer&ecirc;ncia na internet. &ldquo;N&atilde;o fosse a m&iacute;dia alternativa, a bolinha de papel teria virado um m&iacute;ssil na cabe&ccedil;a do Serra&rdquo;, brinca Miro, em refer&ecirc;ncia a bolinha de papel que atingiu a cabe&ccedil;a do tucano durante uma atividade de campanha no Rio de Janeiro. Ele alegou que tinha sido atingido por um objeto pesado e duro e criou toda uma cena, comprada pela maioria dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, inclusive e novamente, o Jornal Nacional. A hist&oacute;ria virou piada.<\/p>\n<p>Outro epis&oacute;dio foi a guinada conservadora da campanha de Jos&eacute; Serra durante o segundo turno das elei&ccedil;&otilde;es. Come&ccedil;ou-se a espalhar um boato de que Dilma Rousseff seria defensora do aborto. Uma das porta-vozes do discurso obscurantista foi a pr&oacute;pria esposa do candidato, M&ocirc;nica Serra. &ldquo;At&eacute; que uma aluna dela, atrav&eacute;s do facebook, escreveu uma mensagem dizendo estranhar a postura da M&ocirc;nica Serra porque ela j&aacute; tinha confessado ter feito aborto para as alunas, durante uma aula de dan&ccedil;a. A&iacute; eles tiveram que calar a boca e encerrar esse assunto imediatamente porque ficava evidente que era pura hipocrisia eleitoreira&rdquo;, conta Miro.<\/p>\n<p>N&atilde;o &agrave; toa, tamb&eacute;m nessa &eacute;poca, Jos&eacute; Serra cunhou a express&atilde;o blogueiros sujos, ao discursar para militares de pijama durante uma reuni&atilde;o na sede do Clube Militar, no Rio. Uma historia menos conhecida foi o clipe que a Globo preparou, em 2010, para comemorar o seu anivers&aacute;rio de 45 anos. &ldquo;Por pura coincid&ecirc;ncia, justamente nos seus 45 anos de funda&ccedil;&atilde;o, a Globo usou o mesmo refr&atilde;o da campanha do Serra, o tal do &lsquo;Queremos Mais&rsquo;, utilizando, claro, atores globais e nas mesmas cores da campanha tucano. O clipe terminava com um n&uacute;mero 45 gigante na tela&rdquo;, ironiza Miro Borges. No dia seguinte, a blogosfera n&atilde;o deu sossego e a Globo, ap&oacute;s uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou se tratar de propaganda irregular, acabou tendo que tirar o clipe do ar em menos de 48 horas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blogueiros sofrem implac&aacute;vel persegui&ccedil;&atilde;o judicial do diretor de jornalismo da maior emissora do pa&iacute;s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[1749],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27353"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27353\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}