{"id":27350,"date":"2013-01-25T18:45:51","date_gmt":"2013-01-25T18:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27350"},"modified":"2013-01-25T18:45:51","modified_gmt":"2013-01-25T18:45:51","slug":"aaron-swartz-guerrilheiro-da-internet-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27350","title":{"rendered":"Aaron Swartz, guerrilheiro da internet livre"},"content":{"rendered":"<p>O (suposto) suic&iacute;dio do g&ecirc;nio da programa&ccedil;&atilde;o e ativista Aaron Swartz n&atilde;o &eacute; somente uma trag&eacute;dia, mas um sinal da enorme dimens&atilde;o do conflito pol&iacute;tico e ideol&oacute;gico envolvendo defensores de uma Internet livre e emancipat&oacute;ria, de um lado, e grupos organizados dentro do sistema que pretendem privatizar e limitar o acesso &agrave; produ&ccedil;&atilde;o intelectual humana, de outro. Neste s&aacute;bado (12\/01), colunistas de cultura digital de diversos jornais escreveram sobre a morte do jovem Swartz, aos 26 anos, encontrado morto em um apartamento de Nova Iorque (ler os textos de John Schwartz, para o New York Times; Glenn Greenwald, para o The Guardian; Virginia Heffernan, para o Yahoo News; e Tatiana Mello Dias, para o Estad&atilde;o). Diante da turbulenta vida do jovem Swartz e seu projeto pol&iacute;tico de luta pela socializa&ccedil;&atilde;o do conhecimento, dif&iacute;cil crer que o suic&iacute;dio tenha motiva&ccedil;&otilde;es estritamente pessoais, como uma crise depressiva. A morte de Swartz pode significar um alarme para uma amea&ccedil;a in&eacute;dita ao projeto emancipat&oacute;rio da revolu&ccedil;&atilde;o informacional. O sistema jur&iacute;dico est&aacute; sendo moldado por grupos de interesse para limita&ccedil;&atilde;o da liberdade de cidad&atilde;os engajados com a luta de uma Internet livre. Tais cidad&atilde;os s&atilde;o projetados midiaticamente como inimigos desestabilizadores da ordem (hackers). Os usu&aacute;rios da Internet, sedados e dominados pela nova ind&uacute;stria cultural, pouco sabem sobre o que, de fato, est&aacute; acontecendo mundo afora.<\/p>\n<p><strong>A vis&atilde;o p&uacute;blica da Internet do wiz-kid Swartz: os anos de forma&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em novembro de 1986 em Chicago, Aaron Swartz passou a inf&acirc;ncia e juventude estudando computa&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o por influ&ecirc;ncia de seu pai, propriet&aacute;rio de uma companhia de software. Aos 13 anos de idade, foi vencedor do pr&ecirc;mio ArsDigita, uma competi&ccedil;&atilde;o para websites n&atilde;o-comerciais &ldquo;&uacute;teis, educacionais e colaborativos&rdquo;. Com a vit&oacute;ria no pr&ecirc;mio, Swartz visitou o Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde conheceu pesquisadores da &aacute;rea de Internet. Aos 14 anos, ingressou no grupo de trabalho de elabora&ccedil;&atilde;o do vers&atilde;o 1.0 do Rich Site Summary (RSS), formato de publica&ccedil;&atilde;o que permite que o usu&aacute;rio subscreva conte&uacute;dos de blogs e p&aacute;ginas (feeds), lendos-o atrav&eacute;s de computadores e celulares.<\/p>\n<p>Aos 16 anos frequentou e abandonou a Universidade de Stanford, dedicando-se a funda&ccedil;&atilde;o de novas companhias, como a Infogami. Aos 17 anos, Aaron ingressou na equipe do Creative Commons, participando de importantes debates sobre propriedade intelectual e licen&ccedil;as open-sources (ver a participa&ccedil;&atilde;o de Swartz em um debate de 2003). Em 2006, ingressou na equipe de programadores da Reddit, plataforma aberta que permite que membros votem em hist&oacute;rias e discuss&otilde;es importantes. No mesmo ano, tornou-se colaborador da Wikipedia e realizou pesquisas importantes sobre o modo de funcionamento da plataforma colaborativa (ler &lsquo;Who Writes Wikipedia?&lsquo;). Em 2007, fundou a Jottit, ferramenta que permite a cria&ccedil;&atilde;o colaborativa de websites de forma extremamente simplificada (aqui). Em pouco tempo, Swartz tornou-se uma figura conhecida entre os programadores e grupos de financiamento dedicados a start-ups de tecnologia. Entretanto, sua intelig&ecirc;ncia e o brilhantismo pareciam n&atilde;o servir para empreendimentos capitalistas. Tornar-se rico n&atilde;o era seu objetivo, mas sim desenvolver ferramentas e instrumentos, atrav&eacute;s da linguagem de programa&ccedil;&atilde;o virtual, para aprofundar a experi&ecirc;ncia colaborativa e de coopera&ccedil;&atilde;o da sociedade.<\/p>\n<p>Aos 21 anos, Aaron ingressou em c&iacute;rculos acad&ecirc;micos (como o Harvard University&rsquo;s Center for Ethics) e n&atilde;o-acad&ecirc;micos de discuss&atilde;o sobre as transforma&ccedil;&otilde;es sociais e econ&ocirc;micas provocadas pela Internet, tornando-se, aos poucos, uma figura p&uacute;blica e um expert no debate sobre a &ldquo;sociedade em rede&rdquo;. O v&iacute;deo abaixo, gravado em S&atilde;o Francisco em 2007, mostra o racioc&iacute;nio r&aacute;pido e preciso de Swartz sobre a arquitetura do poder na rede e as mudan&ccedil;as fundamentais da transi&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia antes e depois da Internet.<\/p>\n<p><strong>Ativismo c&iacute;vico e projetos pol&iacute;ticos na rede: para al&eacute;m de empresas e lucros<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 2008, Aaron Swartz &ndash; um &ldquo;soci&oacute;logo aplicado&ldquo;, como ele se autodenominava &ndash; engajou-se em uma s&eacute;rie de projetos de cunho pol&iacute;tico, voltados ao ativismo c&iacute;vico de base (grassroots) e ao compartilhamento de conte&uacute;do on-line. Dentre eles, destacam-se tr&ecirc;s projetos espec&iacute;ficos: (i) Watchdog, (ii) Open Library e (iii) Demand Progress.<\/p>\n<p>O Watchdog &eacute; um website que permite a cria&ccedil;&atilde;o de peti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas que possam circular on-line. Trata-se de um projeto n&atilde;o lucrativo, cujo mote &eacute; Win your campaign for change. O objetivo &eacute; fomentar a pr&aacute;tica cidad&atilde; de monitoramento de condutas il&iacute;citas, como se todos fossem &ldquo;c&atilde;es de guarda&rdquo; da democracia. O segundo projeto, Open Library, pretende criar uma p&aacute;gina da web para cada livro j&aacute; publicado no mundo. O objetivo &eacute; criar uma esp&eacute;cie de &ldquo;biblioteca universal&rdquo; com bibliotec&aacute;rios volunt&aacute;rios, sendo poss&iacute;vel o empr&eacute;stimo on-line de e-books. Trata-se de um projeto sem fins lucrativos, nos quais programadores s&atilde;o respons&aacute;veis pelo registro e cria&ccedil;&atilde;o das p&aacute;ginas (em c&oacute;digos abertos) para todos os livros (como diz o site: &ldquo;Open Library &eacute; um projeto aberto: software, dados e documenta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o abertos, e sua contribui&ccedil;&atilde;o &eacute; bem-vinda. Voc&ecirc; pode corrigir um erro, acrescentar um livro ou escrever um widget [programa complementar]. Temos uma equipe de programadores fant&aacute;stico, que avan&ccedil;aram muito, mas n&atilde;o podemos fazer tudo sozinhos!&rdquo; (1) . O terceiro e mais interessante projeto &eacute; o Demand Progress, plataforma criada por Swartz para conquistar mudan&ccedil;as progressistas em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas (envolvendo liberdades civis, direitos civis e reformas governamentais) para pessoas comuns atrav&eacute;s do lobbying organizado de base. A atua&ccedil;&atilde;o do DP se d&aacute; de duas formas: atrav&eacute;s de campanhas on-line para chamar aten&ccedil;&atilde;o das pessoas e contatar l&iacute;deres do Congresso, e atrav&eacute;s do trabalho de advocacia p&uacute;blica em Washington &ldquo;nas decis&otilde;es por tr&aacute;s das salas que afetam nossas vidas&rdquo;.<\/p>\n<p>Em 2008, indignado com a passividade dos cientistas com rela&ccedil;&atilde;o ao controle das informa&ccedil;&otilde;es por grandes corpora&ccedil;&otilde;es, Swartz publicou um manifesto intitulado Guerilla Open Access Manifesto (Manifesto da Guerrilha pelo Acesso Livre). Trata-se de um texto altamente revolucion&aacute;rio, que encerra-se com um chamado: &ldquo;N&atilde;o h&aacute; justi&ccedil;a em seguir leis injustas. &Eacute; hora de vir &agrave; luz e, na grande tradi&ccedil;&atilde;o da desobedi&ecirc;ncia civil, declarar nossa oposi&ccedil;&atilde;o a este roubo privado da cultura p&uacute;blica. Precisamos levar informa&ccedil;&atilde;o, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas c&oacute;pias e compartilh&aacute;-la com o mundo. Precisamos levar material que est&aacute; protegido por direitos autorais e adicion&aacute;-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e coloc&aacute;-los na Web. Precisamos baixar revistas cient&iacute;ficas e subi-las para redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pela Guerilla Open Access. Se somarmos muitos de n&oacute;s, n&atilde;o vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento &ndash; vamos transformar essa privatiza&ccedil;&atilde;o em algo do passado&rdquo; (cf. &lsquo;Aaron Swartz e o manifesto da Guerrila Open Acess&lsquo;).<\/p>\n<p>A for&ccedil;a criadora do jovem Aaron Swartz residia em um profundo esp&iacute;rito cr&iacute;tico e questionador. Nesta entrevista abaixo (sobre o Progressive Change Campaign), Swartz explica como seu ativismo come&ccedil;ou: &ldquo;Eu sinto fortemente que n&atilde;o &eacute; suficiente simplesmente viver no mundo como ele &eacute; e fazer o que os adultos disseram o que voc&ecirc; deve fazer, ou o que a sociedade diz o que voc&ecirc; deve fazer. Eu acredito que voc&ecirc; deve sempre estar questionando. Eu levo muito a s&eacute;rio essa atitude cient&iacute;fica de que tudo que voc&ecirc; aprende &eacute; provis&oacute;rio, tudo &eacute; aberto ao questionamento e &agrave; refuta&ccedil;&atilde;o. O mesmo se aplica &agrave; sociedade. Eu cresci e atrav&eacute;s de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas s&atilde;o naturalmente como s&atilde;o &eacute; falso. Elas n&atilde;o s&atilde;o naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: h&aacute; coisas que s&atilde;o erradas e devem ser mudadas. Depois que eu percebi isso, n&atilde;o havia como voltar atr&aacute;s. Eu n&atilde;o poderia me enganar e dizer &lsquo;Ok, agora vou trabalhar para uma empresa&rsquo;. Depois que percebi que havia problemas fundamentais os quais eu poderia enfrentar, eu n&atilde;o podia mais esquecer isso&rdquo;. Nesta entrevista, Aaron (aos 22 anos), esclarece que livros como Understanding Power (de Noam Chomsky) foram fundamentais para compreender os problemas sist&ecirc;micos da sociedade contempor&acirc;nea. Todavia, a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; imodific&aacute;vel. O primeiro passo &eacute; acreditar que &eacute; poss&iacute;vel fazer algo.<\/p>\n<p><strong>A luta e a resposta do sistema: do movimento Anti-SOPA &agrave; batalha judicial do JSTOR<\/strong><\/p>\n<p>No final de 2010, Aaron Swartz identificou uma anomalia procedimental com rela&ccedil;&atilde;o a uma nova lei de copyright, proposta por integrantes dos partidos republicanos e democratas em setembro daquele ano. A lei havia sido introduzida com apoio majorit&aacute;rio, com um lapso de poucas semanas para vota&ccedil;&atilde;o. Obviamente, segundo o olhar cr&iacute;tico de Swartz, havia algo por tr&aacute;s desta lei. O objetivo camuflado era a censura da Internet.<\/p>\n<p>A partir da uni&atilde;o de tr&ecirc;s amigos, Swartz formulou uma peti&ccedil;&atilde;o on-line para chamar a aten&ccedil;&atilde;o dos usu&aacute;rios da Internet e de grupos pol&iacute;ticos dos Estados Unidos. Em dias, a peti&ccedil;&atilde;o ganhou 10 mil assinaturas. Em semanas, mais de 500 mil. Com a circula&ccedil;&atilde;o da peti&ccedil;&atilde;o, os democratas adiaram a vota&ccedil;&atilde;o do projeto de lei para uma analise mais profunda do documento. Ao mesmo tempo, empresas da Internet como Reddit, Google e Tumblr iniciaram uma campanha maci&ccedil;a para conscientiza&ccedil;&atilde;o sobre os efeitos da legisla&ccedil;&atilde;o (a lei autorizaria o &ldquo;Departamento de Justi&ccedil;a dos Estados Unidos e os detentores de direitos autorais a obter ordens judiciais contra sites que estejam facilitando ou infringindo os direitos de autor ou cometendo outros delitos e estejam fora da jurisdi&ccedil;&atilde;o estadunidense. O procurador-geral dos Estados Unidos poderia tamb&eacute;m requerer que empresas estadunidenses parem de negociar com estes sites, incluindo pedidos para que mecanismos de busca retirem refer&ecirc;ncias a eles e os dom&iacute;nios destes sites sejam filtrados para que sejam dados como n&atilde;o existentes&rdquo;, como consta do Wikipedia).<\/p>\n<p>Em outubro de 2011, o projeto foi reapresentado por Lamar Smith com o nome de Stop Online Piracy Act. Em janeiro de 2012, ap&oacute;s um intenso debate promovido na rede, a mobiliza&ccedil;&atilde;o de base entre ativistas chamou a aten&ccedil;&atilde;o de diversas organiza&ccedil;&otilde;es, como Facebook, Twitter, Google, Zynga, 9GAG, entre outros. Em 18 de janeiro, a Wikipedia realizou um blecaute na vers&atilde;o angl&oacute;fona, simulando como seria se o website fosse retirado do ar (cf. &lsquo;Quem apagou as luzes em protesto &agrave; SOPA?&lsquo; e &lsquo;O apag&atilde;o da Wikipedia&lsquo;). A rea&ccedil;&atilde;o no Congresso foi imediata e culminou na suspens&atilde;o do projeto de lei. Vit&oacute;ria do novo ativismo c&iacute;vico? Para Swartz, sim. Uma vit&oacute;ria in&eacute;dita que mostrou a for&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o e da mobiliza&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel na Internet. Mas n&atilde;o por muito tempo. Em um discurso feito em maio de 2012 &mdash; que merece ser visto com muita aten&ccedil;&atilde;o &ndash;, Aaron foi claro: o projeto de lei para controlar a Internet ir&aacute; voltar, com outro nome e outro formato, mas ir&aacute; voltar&hellip;<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi somente atrav&eacute;s da lideran&ccedil;a no movimento de peticionamento on-line que culminou nos protestos contra o SOPA que Swartz chamou a aten&ccedil;&atilde;o das autoridades estadunidenses. Em 2008, ele foi investigado pelo FBI por ter baixado milh&otilde;es de documentos p&uacute;blicos do Judici&aacute;rio mantidos pela empresa Pacer (que cobra pelo acesso a documentos p&uacute;blicos!). A investiga&ccedil;&atilde;o, entretanto, n&atilde;o resultou em processo criminal ou civil.<\/p>\n<p>O processo kafkiano que pode estar relacionado com a morte de Swartz teve in&iacute;cio em julho de 2011, quando o ativista foi processado por &ldquo;fraude eletr&ocirc;nica, fraude de computador, de obten&ccedil;&atilde;o ilegal de informa&ccedil;&otilde;es a partir de um computador protegido&rdquo;, a partir de uma acusa&ccedil;&atilde;o da companhia JSTOR &#8211; uma das maiores organiza&ccedil;&otilde;es de compila&ccedil;&atilde;o e acesso pago a artigos cient&iacute;ficos. Aaron programara um dos computadores p&uacute;blicos do Massachussets Institute of Technology (MIT) para acessar o banco de dados da JSTOR e fazer download de artigos cient&iacute;ficos de diversas &aacute;reas do conhecimento. Em poucos dias, baixou mais de 4 milh&otilde;es de artigos cient&iacute;ficos (e n&atilde;o se sabe qual era seu plano inicial, ou seja, de que modo ele pretendia publicar esses documentos de acordo com a tese do open acess movement). Pelo fato de Swartz ter feito o download de muitos documentos ao mesmo tempo (mas o acesso pelo computador da institui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o permite isso?), foi processado por fraude eletr&ocirc;nica e obten&ccedil;&atilde;o ilegal de informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O sentido de um processo kafkiano (referente ao Processo da obra liter&aacute;ria de Franz Kafka) deve ser melhor explicado. A quest&atilde;o &eacute; que Aaron Swartz n&atilde;o cometeu, a princ&iacute;pio, nenhum ato il&iacute;cito (ele poderia fazer o download de artigos cient&iacute;ficos como qualquer acad&ecirc;mico logado a uma m&aacute;quina com acesso ao JSTOR pode). E mesmo depois de acusado, entregou-se &agrave; Justi&ccedil;a e afirmou que n&atilde;o tinha inten&ccedil;&atilde;o de lucrar com o ato. Diante do aviso de que a distribui&ccedil;&atilde;o dos arquivos infringiria leis nacionais, Aaron devolveu os arquivos digitalizados para a JSTOR, que retirou a a&ccedil;&atilde;o judicial de car&aacute;ter civil. Ou seja: caso encerrado, correto?<\/p>\n<p>Errado. Ap&oacute;s o acordo entre Aaron e a JSTOR, a Promotoria de Justi&ccedil;a de Boston, atrav&eacute;s da US Attorney Carmen Ortiz, indiciou Aaron Swartz por diversas ofensas criminais, pedindo a condena&ccedil;&atilde;o do ativista em 35 anos de pris&atilde;o (sic!) e o pagamento de 1 bilh&atilde;o de d&oacute;lares de multa. O processo penal teve in&iacute;cio, sendo oferecida a Swartz a oportunidade de fazer um acordo penal que reconhecesse sua culpa (plead guilty). Irredutivelmente &mdash; mesmo sendo aconselhado por alguns advogados a agir em sentido contr&aacute;rio &ndash;, Swartz recusou-se a declarar-se culpado, por n&atilde;o considerar seus atos como il&iacute;citos. Mesmo com a interven&ccedil;&atilde;o da JSTOR, que reconheceu n&atilde;o se sentir prejudicada pelos atos de Swartz, a Promotoria continuou a amedront&aacute;-lo. O processo penal &mdash; extremamente custoso nos Estados Unidos &mdash; esvaziou suas poucas reservas financeiras e gerou um enorme trauma psicol&oacute;gico. O julgamento da a&ccedil;&atilde;o penal estava marcado para abril de 2013 e Aaron Swartz recusava-se a comentar o assunto em entrevistas, palestras e eventos. Alguns especulam que o suic&iacute;dio est&aacute; ligado com o processo penal, considerado por muitos como uma resposta do governo dos Estados Unidos contra o ativismo libert&aacute;rio de Aaron. Na opini&atilde;o de Greenwald, o colunista do Guardian, ele &ldquo;foi destru&iacute;do por um sistema de &lsquo;justi&ccedil;a&rsquo; que d&aacute; prote&ccedil;&atilde;o integral aos criminosos mais ilustres &mdash; desde que sejam integrantes dos grupos mais poderosos do pa&iacute;s, ou &uacute;teis para estes &ndash;, mas que pune sem piedade e com dureza incompar&aacute;vel que n&atilde;o tem poder e, em especial, quem desafia o poder&rdquo;. (2)<\/p>\n<p>At&eacute; o momento, n&atilde;o h&aacute; cartas ou posts de Swartz sobre o assunto. N&atilde;o h&aacute;, ali&aacute;s, confirma&ccedil;&atilde;o concreta de que houve suic&iacute;dio (ou se foi uma morte herzogiana, comum na hist&oacute;ria brasileira). Trata-se de um grande mist&eacute;rio. Para a fam&iacute;lia de Swartz, uma coisa &eacute; clara: se houve suic&iacute;dio, o bullying judicial realizado pelo Judici&aacute;rio estadunidense foi um fator que levou o jovem ativista a encerrar a pr&oacute;pria vida, em um sinal de protesto contra todo o injusto sistema.<\/p>\n<p><strong>As li&ccedil;&otilde;es de um jovem revolucion&aacute;rio<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; muito o que extrair das falas, dos textos e das a&ccedil;&otilde;es do g&ecirc;nio da inform&aacute;tica Aaron Swartz. Ativista pol&iacute;tico, soci&oacute;logo aplicado, defensor da Internet livre, criador de mecanismos de compartilhamento de dados e cr&iacute;tico da forma como a sociedade global est&aacute; se estruturando contra as liberdades b&aacute;sicas, Swartz deixa aos jovens da era da Internet um forte recado revolucion&aacute;rio: a mudan&ccedil;a come&ccedil;a em cada um. Todo indiv&iacute;duo possui autonomia para pensar e contestar o que est&aacute; posto. Al&eacute;m de contestar, a a&ccedil;&atilde;o colaborativa pode modificar as institui&ccedil;&otilde;es existentes em uma perspectiva p&oacute;s-capitalista. O conhecimento pode ser compartilhado, softwares podem ser desenvolvidos em conjunto e projetos podem ser executados com o financiamento coletivo.<\/p>\n<p>Informa&ccedil;&atilde;o &eacute; poder. Swartz enxergou muito al&eacute;m do que seus contempor&acirc;neos e tentou mobilizar os usu&aacute;rios de Internet para constru&ccedil;&atilde;o de um outro mundo. Infelizmente, n&atilde;o foi apoiado da forma como precisava. A reverbera&ccedil;&atilde;o de suas ideias e suas a&ccedil;&otilde;es ainda &eacute; muito fraca. Mas isso n&atilde;o &eacute; motivo para desist&ecirc;ncia. A brev&iacute;ssima vida deste jovem estadunidense pode inspirar cora&ccedil;&otilde;es e mentes. Em tempos de discuss&atilde;o no Brasil sobre o Marco Civil da Internet, corrup&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica e agigantamento do Judic&aacute;rio, o resgate a seu pensamento &eacute; necess&aacute;rio. Ainda mais em um pa&iacute;s que conta com mais de 80 milh&otilde;es de usu&aacute;rios de Internet. A quest&atilde;o &eacute; saber se as pessoas ter&atilde;o curiosidade e interesse em compreender o projeto de vida de Swartz ou se ir&atilde;o continuar lendo mat&eacute;rias produzidas por corpora&ccedil;&otilde;es interessadas na limita&ccedil;&atilde;o da liberdade na Internet.<\/p>\n<p>Eu fico com o projeto de Swartz. Ali&aacute;s, fique livre para copiar esse texto.<\/p>\n<p><em>Rafael A. F. Zanatta, mestrando em sociologia jur&iacute;dica (FD\/USP), pesquisador (Direito GV), professor universit&aacute;rio e advogado. Editor do blog E-mancipa&ccedil;&atilde;o.<br \/><\/em><br \/><em>(1) Open Library is an open project: the software is open, the data are open, the documentation is open, and we welcome your contribution. Whether you fix a typo, add a book, or write a widget&ndash;it&rsquo;s all welcome. We have a small team of fantastic programmers who have accomplished a lot, but we can&rsquo;t do it alone!&rdquo;<\/p>\n<p>(2) &ldquo;Swartz was destroyed by a &ldquo;justice&rdquo; system that fully protects the most egregious criminals as long as they are members of or useful to the nation&rsquo;s most powerful factions, but punishes with incomparable mercilessness and harshness those who lack power and, most of all, those who challenge power&ldquo;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Informa&ccedil;&atilde;o &eacute; poder. 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