{"id":27314,"date":"2013-01-09T17:45:59","date_gmt":"2013-01-09T17:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27314"},"modified":"2013-01-09T17:45:59","modified_gmt":"2013-01-09T17:45:59","slug":"neutralidade-da-rede-o-que-interessa-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27314","title":{"rendered":"Neutralidade da rede: o que interessa hoje"},"content":{"rendered":"<p>No dia 8 de novembro de 2012, em um f&oacute;rum aberto sobre neutralidade da rede no F&oacute;rum de Governan&ccedil;a da Internet (IGF) em Baku, Azerbaij&atilde;o, tive a oportunidade de ouvir Luigi Giambardella. Ele &eacute; presidente do conselho executivo da ETNO &mdash; a associa&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia de operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Giambardella defendeu os argumentos da associa&ccedil;&atilde;o em defesa de mais lucros para as operadoras atrav&eacute;s de medidas regulat&oacute;rias. Foi quase expl&iacute;cito em dizer, como j&aacute; disse no Brasil o presidente da Oi\/Portugal Telecom, que as operadoras t&ecirc;m inveja da maneira em que provedores de conte&uacute;do e de aplica&ccedil;&otilde;es fazem dinheiro &mdash; e ainda mais, utilizando conex&otilde;es &agrave; Internet atrav&eacute;s de contratos com essas operadoras.<\/p>\n<p>Lembremos que o presidente da Oi\/Portugal Telecom (tamb&eacute;m membro da ETNO) revelou seu desejo de que a manipula&ccedil;&atilde;o do tr&aacute;fego que j&aacute; praticam seja de algum modo legalizada. Foi infelizmente acompanhado pelo nosso ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, que insiste em que a neutralidade da rede &eacute; um mito &ldquo;rom&acirc;ntico&rdquo; que deveria ser abandonado.<\/p>\n<p>Em comum, as transnacionais da telecomunica&ccedil;&atilde;o que operam no Brasil (quase todas europ&eacute;ias e portanto membros da ETNO) lamentam os m&eacute;todos inovadores&nbsp; de fazer neg&oacute;cios por parte dos provedores de aplica&ccedil;&otilde;es e conte&uacute;do, combinados com tecnologias como telefonia via Internet (&ldquo;voz sobre IP&rdquo;) e querem agarrar um naco dessa torta de lucros com a ajuda dos governos, dos agentes reguladores locais e da pr&oacute;pria UIT (Uni&atilde;o Internacional das Telecomunica&ccedil;&otilde;es). Giambardella tentou convencer-nos que &ldquo;todos ganhar&atilde;o&rdquo; se houver um acordo internacional que autorize as operadoras a praticar o crit&eacute;rio de &ldquo;quem envia paga&rdquo; (&ldquo;sender pays&rdquo;). Segundo a ETNO, isso hoje n&atilde;o ocorre &mdash; uma bobagem t&atilde;o grande que levou um dos painelistas, o Dr Milton Mueller, da Universidade de Syracuse, a recomendar que o presidente da ETNO n&atilde;o repetisse essa besteira para n&atilde;o desmoralizar a organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como funciona a hoje o neg&oacute;cio de venda de conex&atilde;o? Um provedor de aplica&ccedil;&otilde;es ou conte&uacute;do (digamos, Facebook, Twitter, Google, UOL) contrata uma ou mais operadoras para fornecer capacidade de tr&acirc;nsito de dados com a Internet &mdash; &eacute; a chamada &ldquo;compra de capacidade de tr&acirc;nsito&rdquo;. Os contratos especificam uma velocidade de tr&acirc;nsito de, digamos, alguns gigabits ou mesmo terabits por segundo. Esses contratos s&atilde;o pagos regiamente pelos provedores, e obviamente incluem o tr&aacute;fego sainte (o que o Google, por exemplo, envia de seus servidores aos usu&aacute;rios) e entrante (o que os usu&aacute;rios enviam aos servidores do Google, por exemplo, emails para o Gmail e v&iacute;deos para o Youtube). Provedores de acesso ou de conte&uacute;do menores, que utilizam menos capacidade, sofrem em geral com propostas leoninas e arbitr&aacute;rias por parte das operadoras nessa compra de capacidade, e acabam &ldquo;subcomprando&rdquo; banda de cima e &ldquo;sobrevendendo&rdquo; essa banda a seus usu&aacute;rios. Hoje esta pir&acirc;mide afeta sobretudo os pequenos provedores de acesso locais, ou mesmo os projetos de redes comunit&aacute;rias ou municipais. Como as operadoras cobram pre&ccedil;os arbitrariamente absurdos por essa conex&atilde;o, os provedores locais de acesso t&ecirc;m que limitar a qualidade de seu servi&ccedil;o para tentar sobreviver, e arriscam vender mais conex&otilde;es do que permitiria a banda contratada com a Internet.<\/p>\n<p>Do lado do usu&aacute;rio, j&aacute; sabemos a hist&oacute;ria da qual somos todos v&iacute;timas: os contratos de &ldquo;banda larga&rdquo; na ponta s&atilde;o extorsivos, n&atilde;o garantem a velocidade contratada, e ainda estamos sujeitos &agrave; bisbilhotagem de nosso tr&aacute;fego por parte das operadoras. Conclus&atilde;o &oacute;bvia: tanto os provedores de conte&uacute;do e aplica&ccedil;&otilde;es como os usu&aacute;rios na ponta j&aacute; pagam &agrave;s operadoras pelo tr&aacute;fego Internet. E ningu&eacute;m, nem o poderoso Google, pode fazer o milagre de usar mais banda do que a contratada com uma operadora.<\/p>\n<p>Na verdade a venda de capacidade &eacute; um neg&oacute;cio muito lucrativo para as operadoras, em um mercado n&atilde;o regulado. Tudo que elas t&ecirc;m a fazer &eacute; manter os enlaces ativos e ir ampliando a capacidade de suas espinhas dorsais conforme as previs&otilde;es de demanda. Mas para as operadoras um produto chamado &ldquo;capacidade de tr&acirc;nsito&rdquo; &eacute; o &uacute;nico conhecido em qualquer mercado que n&atilde;o &eacute; para ser usado conforme vendido&ndash; um provedor compra capacidade mas n&atilde;o pode us&aacute;-la completamente. Se us&aacute;-la, ter&aacute; que pagar um adicional. Quanto a mais? A ETNO quer que isso seja deixado a crit&eacute;rio das pr&oacute;prias operadoras e quer que essa pr&aacute;tica arbitr&aacute;ria seja autorizada pelos governos. Claro, pensam os nutridos empres&aacute;rios da ETNO, se posso extrair mais dinheiro de uma mesma infraestrutura, por que investir para ampli&aacute;-la?<\/p>\n<p>Hoje a gama de servi&ccedil;os Internet pode ser dividida em dois tipos b&aacute;sicos: os que requerem que uma sequ&ecirc;ncia cont&iacute;nua de datagramas (um &ldquo;stream&rdquo;) seja entregue a seu destino em tempo real ou sem interrup&ccedil;&otilde;es (&ldquo;streaming&rdquo; de &aacute;udio e v&iacute;deo, servi&ccedil;os interativos como voz sobre IP); e os que n&atilde;o requerem entrega em tempo real ou em &ldquo;streams&rdquo; (email, p&aacute;ginas Web, &ldquo;chats&rdquo;, &ldquo;tweets&rdquo; etc). Todos esses servi&ccedil;os correspondem a protocolos Internet perfeitamente definidos e o tratamento dos mesmos j&aacute; est&aacute; preconfigurado nos roteadores e chaveadores modernos da Internet. Por exemplo, ningu&eacute;m precisa fazer nada para que uma rede corretamente configurada reconhe&ccedil;a um &ldquo;stream&rdquo; voIP e trate-o de acordo, a menos que um dispositivo cause uma interfer&ecirc;ncia deliberada para degrad&aacute;-lo ou mesmo bloque&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Mas as operadoras querem interferir e cobrar do usu&aacute;rio final a elimina&ccedil;&atilde;o da interfer&ecirc;ncia &mdash; j&aacute; ouviram falar de chantagem? Elas n&atilde;o gostam desse nome, preferem chamar de &ldquo;venda de qualidade de servi&ccedil;o&rdquo; (a chamada &ldquo;QoS&rdquo;, do ingl&ecirc;s &ldquo;quality of service&rdquo;). Em outras palavras, a ideia &eacute; degradar o tr&aacute;fego de sua conex&atilde;o e extrair mais dinheiro de voc&ecirc; (o provedor de aplica&ccedil;&otilde;es ou conte&uacute;do, o pequeno provedor de acesso, e sobretudo o usu&aacute;rio final) para retirar a interfer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O ponto &eacute; que elas j&aacute; est&atilde;o fazendo isso &mdash; a ETNO simplesmente quer legalizar essa extors&atilde;o atrav&eacute;s de acordos sacramentados no &acirc;mbito da UIT. Isso significa jogar pela janela a neutralidade da rede na camada de enlace da Internet.<\/p>\n<p>O que &eacute; essa &ldquo;camada de enlace&rdquo;? A Internet &eacute; constituida de v&aacute;rias camadas de servi&ccedil;os, desde o enlace (a conex&atilde;o que permite que uma m&aacute;quina chegue &agrave; rede atrav&eacute;s de algum provedor de conex&atilde;o), a camada de rede, passando pela camada de transporte at&eacute; a camada de aplica&ccedil;&otilde;es e conte&uacute;do.[1] Nenhuma dessas camadas deveria estar nas regula&ccedil;&otilde;es da UIT. As propostas da ETNO concentram-se na camada de enlace &mdash; &eacute; o servi&ccedil;o que nos entregam nos contratos de &ldquo;banda larga&rdquo;, e nos contratos de capacidade com os provedores.<\/p>\n<p>N&atilde;o cabe &agrave; operadora interferir no que passa por esses &ldquo;tubos&rdquo; contratados. Se a capacidade contratada &eacute; plenamente usada, isso &eacute; responsabilidade de quem contrata e a obriga&ccedil;&atilde;o da operadora &eacute; simplesmente honrar o contrato. Ao contr&aacute;rio do que tenta impor a ETNO, o provedor de aplica&ccedil;&otilde;es ou conte&uacute;do que envia dados j&aacute; pagou por isso &agrave; operadora, em contrato por capacidade ou, no caso da ponta, em contratos de &ldquo;banda larga&rdquo; pagos pelo usu&aacute;rio final.<\/p>\n<p>Por que esta &eacute; a &uacute;nica forma adequada de contratar interconex&atilde;o entre os diversos servi&ccedil;os Internet? Porque as sess&otilde;es simult&acirc;neas de conex&atilde;o para troca de datagramas podem passar em qualquer momento dado por v&aacute;rios circuitos distintos de diferentes operadoras, seguindo por v&aacute;rios outros circuitos de distintos fornecedores de conex&atilde;o &mdash; a &ldquo;nuvem&rdquo; da Internet n&atilde;o funciona na base da conex&atilde;o ponto a ponto, ao contr&aacute;rio da telefonia fixa. Se nesses diversos circuitos a fornecedora respectiva aplica um crit&eacute;rio distinto de cobran&ccedil;a de tr&aacute;fego, como contabilizar tudo isso e que resultado ter&aacute; na conta do usu&aacute;rio final?<\/p>\n<p>Quando era executivo da agora falida empresa de telecomunica&ccedil;&otilde;es MCI, Vint Cerf lembrava que a decis&atilde;o de cobrar por tempo as chamadas telef&ocirc;nicas interurbanas talvez tivesse sido um erro porque envolvia uma enorme opera&ccedil;&atilde;o na contabiliza&ccedil;&atilde;o e emiss&atilde;o de boletos. E este era um caso simples de conex&otilde;es dedicadas ponto a ponto para transmiss&atilde;o de voz ou fax.<\/p>\n<p>Ademais, para impor o que podemos chamar de &ldquo;ped&aacute;gio arbitr&aacute;rio de bits&rdquo; as operadoras t&ecirc;m que assumir o controle do tr&aacute;fego da camada de enlace da Internet, inclusive do roteamento dos mesmos pelos diversos circuitos &mdash; violando com isso a neutralidade da rede na camada de enlace. &Eacute; o que prop&otilde;em as operadoras (representadas pela ETNO) na confer&ecirc;ncia mundial de telecomunica&ccedil;&otilde;es internacionais &ndash; CMTI-12 (WCIT-12) &mdash; ao aproveitar o processo de reformula&ccedil;&atilde;o dos Regulamentos Internacionais de Telecomunica&ccedil;&atilde;o (os ITRs, atualizados este ano pela UIT), objeto central dessa confer&ecirc;ncia, para inserir a camada de enlace da Internet como parte dos servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es. [2]<\/p>\n<p>E para isso as operadoras s&atilde;o contra qualquer proposta de legisla&ccedil;&atilde;o ou pol&iacute;tica que assegurem a neutralidade da rede na camada de enlace, tal como proposta originalmente no Marco Civil. Esta neutralidade, se efetivada por garantias regulat&oacute;rias, impede que fornecedoras de servi&ccedil;os de enlace de dados interfiram de qualquer modo no conte&uacute;do do tr&aacute;fego. Mas elas querem toda liberdade para arbitrariamente priorizar tr&aacute;fego e monetizar o pr&oacute;prio conte&uacute;do do mesmo. Em outras palavras, liberdade absoluta para assumir o controle do transporte e roteamento dos dados e para precificar esse transporte tamb&eacute;m de modo arbitr&aacute;rio &mdash; em resumo, para pedagiar os bits arbitrariamente.<\/p>\n<p>Um cen&aacute;rio novo de controle sobre a camada de enlace veio &agrave; tona este ano, durante a WTSA-12 (World Telecommunications Standardization Assembly), evento que define a log&iacute;stica de padroniza&ccedil;&atilde;o de telecomunica&ccedil;&otilde;es da UIT e realizado em paralelo com a CMTI-12. As operadoras conseguiram que a divis&atilde;o de padr&otilde;es da UIT (conhecida como ITU-T) aprovasse um padr&atilde;o extremamente detalhado de bisbilhotagem para a camada de enlace da Internet. Conhecido como &ldquo;Deep Packet Inspection&rdquo; (DPI, ou &ldquo;inspe&ccedil;&atilde;o profunda de datagramas&rdquo;), este procedimento j&aacute; &eacute; adotado rotineiramente pelas operadoras para controle, censura e eventual monetiza&ccedil;&atilde;o do perfil de navega&ccedil;&atilde;o dos usu&aacute;rios. Lembremos do caso AT&amp;T denunciado pela Electronic Frontier Foundation (EFF) em 2006, de espionagem maci&ccedil;a de dados dos usu&aacute;rios a servi&ccedil;o da NSA. Nesse mesmo per&iacute;odo surgiam den&uacute;ncias de bloqueio do tr&aacute;fego do Skype na rede da Brasil Telecom. Coincidentemente, a BR Telecom utilizava o mesmo software que a AT&amp;T usava para a bisbilhotagem de datagramas.<\/p>\n<p>Em julho de 2012 o cientista-chefe da APNIC, Geoff Huston, denunciou a Telstra (principal operadora de telecomunica&ccedil;&otilde;es da Austr&aacute;lia) exatamente por isso: praticar DPI sobre o tr&aacute;fego de dados de seus usu&aacute;rios, catalogar os perfis de navega&ccedil;&atilde;o e repassar esse cadastro a uma empresa canadense especializada em minera&ccedil;&atilde;o de dados e monetiza&ccedil;&atilde;o de perfis, a Netsweeper.[3] Essa escandalosa viola&ccedil;&atilde;o de privacidade (que pode at&eacute; colocar em risco a seguran&ccedil;a pessoal de milhares de usu&aacute;rios) foi reconhecida pela Telstra, que afirma n&atilde;o ter feito nada ilegal &mdash; o que indica que continuar&aacute; a violar a privacidade de seus usu&aacute;rios e adotar outras formas arbitr&aacute;rias de controle sobre os dados trafegados por sua rede.<\/p>\n<p>Essa viola&ccedil;&atilde;o escancarada de direitos agora foi sacramentada pela ITU-T, com o padr&atilde;o de DPI conhecido como Y.2770. [4] Foi elaborado e aprovado em segredo, sob a coordena&ccedil;&atilde;o de um representante da China. A &uacute;ltima vers&atilde;o do documento (a vers&atilde;o final ainda n&atilde;o foi publicada pela UIT e s&oacute; est&aacute; dispon&iacute;vel para seus membros) mostra em detalhe como manipular dados de todos os sistemas &ldquo;peer-to-peer&rdquo;, qualquer tipo de c&oacute;pia de arquivo (FTP, por exemplo), como manipular tr&aacute;fego cont&iacute;nuo (&ldquo;stream&rdquo;) de &aacute;udio ou v&iacute;deo (voIP incluido obviamente), enfim, uma &ldquo;receita de bolo&rdquo; para padronizar a viola&ccedil;&atilde;o de direitos e facilitar o trabalho de bisbilhotagem das operadoras e das desenvolvedoras de software de controle. Tenho dito que seria como o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a definir padr&otilde;es detalhados para a forma de esfaquear uma pessoa, mesmo que isso seja um crime.<\/p>\n<p>O padr&atilde;o Y.2770 interessa n&atilde;o somente &agrave;s operadoras, como tamb&eacute;m &agrave;s ag&ecirc;ncias reguladoras que controlam ou querem controlar a camada de enlace. &Eacute; nesta camada que ocorrem rotineiramente as mais graves viola&ccedil;&otilde;es &agrave; neutralidade da rede, e o padr&atilde;o pretende &ldquo;colocar ordem na casa&rdquo; para que essas viola&ccedil;&otilde;es sigam determinados m&eacute;todos comuns a todas. N&atilde;o &eacute; por acaso que o governo chin&ecirc;s estava presente como coordenador na elabora&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o. N&atilde;o &eacute; por acaso que os servi&ccedil;os da Netsweeper s&atilde;o vendidos a pa&iacute;ses como Yemen, Qatar e os Emirados &Aacute;rabes Unidos.<\/p>\n<p>Neste cen&aacute;rio sombrio para a liberdade e a prote&ccedil;&atilde;o de direitos dos usu&aacute;rios na Internet, o que far&aacute; a Anatel? O conselheiro Marcelo Bechara prop&ocirc;s que a Anatel assuma unilateralmente a supervis&atilde;o do controle da camada de enlace (a suposta &ldquo;regula&ccedil;&atilde;o da neutralidade da rede&rdquo;), mesmo antes da aprova&ccedil;&atilde;o do Marco Civil &mdash; como &eacute; sabido, a neutralidade na camada de enlace &eacute; o ponto de diverg&ecirc;ncia fundamental entre as operadoras (defendidas pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es) e os proponentes da vers&atilde;o submetida ao Congresso em meados deste ano.<\/p>\n<p>O novo tratado dos ITRs determina repetidamente em seus artigos que todos os procedimentos devem obedecer rigorosamente os padr&otilde;es definidos pela ITU-T. Isso ajuda muito a entender por que a Europa, em que v&aacute;rios pa&iacute;ses j&aacute; aprovaram ou est&atilde;o em processo de aprova&ccedil;&atilde;o da neutralidade da rede como lei, n&atilde;o assinou o tratado. E tampouco o Chile, que foi o primeiro pa&iacute;s do planeta a estabelecer a garantia de neutralidade da rede em lei.<\/p>\n<p>Como o Brasil assinou o tratado, isso significa sacramentar a aplica&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o Y.2770 no Brasil, dando &agrave;s transnacionais de telecomunica&ccedil;&otilde;es que operam no pa&iacute;s a liberdade absoluta, sacramentada por padr&atilde;o internacional (!) para arbitrariamente interferir nos nossos conte&uacute;dos e nossos perfis de navega&ccedil;&atilde;o? Ou que a Anatel vai ignorar o padr&atilde;o da UIT e criar o seu pr&oacute;prio? Ou simplesmente garantir o direito &agrave; privacidade e a neutralidade na camada de enlace, como desejamos todos e todas que participamos da exaustiva elabora&ccedil;&atilde;o pluralista do Marco Civil?<\/p>\n<p>Consultado recentemente, um representante do MiniCom declarou desconhecer a exist&ecirc;ncia do padr&atilde;o. &Eacute; preocupante, j&aacute; que os padr&otilde;es da ITU-T s&atilde;o parte integrante dos requerimentos dos ITRs. E ainda mais em um caso que representa uma quebra radical com os valores fundamentais da Internet em fun&ccedil;&atilde;o de interesses promovidos pelo grupo de operadoras transnacionais que controlam o mercado brasileiro de telecomunica&ccedil;&otilde;es. A Anatel n&atilde;o apresentou at&eacute; agora nenhum coment&aacute;rio sobre sua eventual participa&ccedil;&atilde;o na elabora&ccedil;&atilde;o desse padr&atilde;o.<\/p>\n<p>Finalmente &eacute; &oacute;bvio que esses movimentos de controle e viola&ccedil;&atilde;o de direitos impactam na economia da Internet, com a resultante transfer&ecirc;ncia de custos adicionais aos usu&aacute;rios finais. Impacta tamb&eacute;m na Internet que conhecemos porque os ITRs impactam diretamente na neutralidade dos enlaces da Internet. Os mesmos que garantem que no Brasil tenhamos os pre&ccedil;os mais altos do mundo em telefonia celular poder&atilde;o definir o que cobrar e como cobrar para entregar um &ldquo;pacote de dados&rdquo; de uma &ldquo;nuvem&rdquo; a outra. Com o padr&atilde;o Y.2770, estes mesmos empres&aacute;rios ter&atilde;o liberdade ainda maior (e sacramentada em regulamento) para violar os direitos b&aacute;sicos dos usu&aacute;rios.<\/p>\n<p>Volto a repetir, como disse em minha fala na cerim&ocirc;nia de abertura em Baku: deixem a Internet florescer livremente em benef&iacute;cio de todos que vivem em suas extremidades, que s&atilde;o todas e todos n&oacute;s.<\/p>\n<p><em>Carlos Alberto Afonso &eacute; conselheiro representando o terceiro setor no Comit&ecirc; Gestor da Internet do Brasil.<\/em><\/p>\n<p><em><br \/>[1] Para quem quiser ir fundo, ver http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/TCP\/IP<\/p>\n<p>[2] O documento oficial, dispon&iacute;vel para assinantes e membros da UIT, est&aacute; em anexo a este texto, abaixo.<\/p>\n<p>[3] http:\/\/www.potaroo.net\/ispcol\/2012-07\/allyourpackets.html. Ver tamb&eacute;m http:\/\/bit.ly\/LQtYR4<\/p>\n<p>[4] Vers&atilde;o de julho de 2012 em anexo, abaixo. A vers&atilde;o final s&oacute; est&aacute; dispon&iacute;vel para assinantes e membros em http:\/\/www.itu.int\/rec\/T-REC-Y.2770-201211-P\/en<\/p>\n<p>(*) Publicado tamb&eacute;m em http:\/\/terceirosetorcgi.blog.br\/?p=144<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volto a repetir, como disse em minha fala na cerim&ocirc;nia de abertura em  Baku: deixem a Internet florescer livremente em benef&iacute;cio de todos que  vivem em suas extremidades, que s&atilde;o todas e todos n&oacute;s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1738],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27314"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}