{"id":27286,"date":"2012-12-12T11:41:50","date_gmt":"2012-12-12T11:41:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27286"},"modified":"2012-12-12T11:41:50","modified_gmt":"2012-12-12T11:41:50","slug":"ley-de-medios-mobiliza-sociedade-contra-monopolios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27286","title":{"rendered":"\u201cLey de Medios\u201d mobiliza sociedade contra monop\u00f3lios"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Nas ruas de Buenos Aires, cartazes e grafites expressavam a expectativa de boa parte da popula&ccedil;&atilde;o argentina que, desde 2009, aguarda a efetiva&ccedil;&atilde;o da Lei de Servi&ccedil;os de Comunica&ccedil;&atilde;o Audiovisual, mais conhecida como &ldquo;<em>Ley de Medios<\/em>&rdquo;. &ldquo;Monopolios o naci&oacute;n&rdquo;, aponta categoricamente o impresso afixado no muro; &ldquo;<em>Clar&iacute;n miente<\/em>&rdquo;, diz a picha&ccedil;&atilde;o feita no alto de um dos muitos pr&eacute;dios novecentistas da capital argentina. As distintas formas de manifesta&ccedil;&atilde;o assinalavam a chegada do &ldquo;7D&rdquo;, ou 7 de dezembro, dia estabelecido pela Suprema Corte do pa&iacute;s, em maio &uacute;ltimo, como prazo para que as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o apresentassem planos de adequa&ccedil;&atilde;o &agrave; nova legisla&ccedil;&atilde;o. Dentre outros pontos, as novas regras prev&ecirc;em a divis&atilde;o equ&acirc;nime do espectro eletromagn&eacute;tico entre entes p&uacute;blicos, privados e sem fins lucrativos.<\/p>\n<p>&Agrave;s v&eacute;speras da t&atilde;o aguardada data, tema de ampla campanha do governo da presidenta Cristina Fern&aacute;ndez de Kirchner, contudo, os ju&iacute;zes da C&acirc;mara Civil e Comercial Federal, Francisco de las Carreras e Mar&iacute;a Susana Najurieta, decidiram prorrogar a medida cautelar que mant&eacute;m suspenso o artigo 161. Conforme este ponto da lei, caso os titulares das licen&ccedil;as de servi&ccedil;os n&atilde;o atendam &agrave; norma no prazo estabelecido, poder&atilde;o t&ecirc;-las transferidas. Na pr&aacute;tica, com a implementa&ccedil;&atilde;o do regulamento, as empresas teriam que abrir m&atilde;o do excesso de concess&otilde;es que possuem. O grupo<em> Clar&iacute;n<\/em>, por exemplo, ao inv&eacute;s das 240 concess&otilde;es no sistema de cabo, nove r&aacute;dios AM, uma FM e quatro canais na televis&atilde;o aberta que det&eacute;m hoje, passaria a ter at&eacute; 24 licen&ccedil;as de TV a cabo, 10 emissoras de r&aacute;dio e uma de TV aberta.<\/p>\n<p>A suspens&atilde;o deu seguimento &agrave; intensa disputa p&uacute;blica que se d&aacute;, dia a dia, desde que fora aprovada a lei. A amplitude da discuss&atilde;o que ocupa as capas dos principais peri&oacute;dicos em circula&ccedil;&atilde;o pode ser percebida em conversas nos caf&eacute;s, paradas de &ocirc;nibus, t&aacute;xis e afins. Toda a cidade debate seu sistema de comunica&ccedil;&atilde;o. Para muitos defensores da lei, esse cen&aacute;rio j&aacute; pode ser apontado como uma grande conquista. &Eacute; o que defende a jornalista Mariana Moyano, professora da Universidade de Buenos Aires e integrante da equipe do programa &ldquo;6, 7, 8&rdquo;, atra&ccedil;&atilde;o da TV p&uacute;blica voltada &agrave; leitura cr&iacute;tica dos meios. De acordo com ela, &ldquo;O debate e o n&iacute;vel de consenso a que chegou essa lei permitiu que as pessoas se apropriassem do tema. O principal grupo de oposi&ccedil;&atilde;o a ela hoje tem que se colocar contra uma lei democraticamente aprovada, pondo em risco, inclusive, sua credibilidade&rdquo;.<\/p>\n<p>Moyano afirma sem pestanejar: &ldquo;O rei est&aacute; nu&rdquo;. De fato, o que ocorre na Argentina demarca uma ruptura com o sil&ecirc;ncio imposto durante d&eacute;cadas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o e aos interesses que envolvem os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, assim como acontece em toda a Am&eacute;rica Latina. Naquele pa&iacute;s, a intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o das entidades da sociedade civil organizada, desde 2004, em torno da <em>Coalici&oacute;n por uma Radiodifusi&oacute;n Democr&aacute;tica<\/em>, levou &agrave; compreens&atilde;o de que era necess&aacute;rio mudar a legisla&ccedil;&atilde;o que organizava o sistema de comunica&ccedil;&atilde;o. Fruto do per&iacute;odo ditatorial, a Lei 22.285, de 1980, estabelecia limites &agrave; liberdade de express&atilde;o ao condicion&aacute;-la &agrave;s chamadas &ldquo;necessidades de seguran&ccedil;a nacional&rdquo; e legitimava o Comit&ecirc; Federal de Radiodifus&atilde;o (Comfer), organismo que tinha a fun&ccedil;&atilde;o de supervisionar o conte&uacute;do das emissoras e controlar o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, a norma tratava a comunica&ccedil;&atilde;o como neg&oacute;cio, por isso apenas entidades com fins lucrativos poderiam possuir licen&ccedil;as para explorar o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o. Isso significa que sindicatos, cooperativas, associa&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias e outros grupos estavam terminantemente exclu&iacute;dos do acesso aos meios, ambientes privilegiados para a disputa de ideias na sociedade contempor&acirc;nea. As mudan&ccedil;as posteriormente efetivadas por governos democr&aacute;ticos, promovidas sob a &eacute;gide da l&oacute;gica neoliberal, n&atilde;o mudaram tal situa&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio, refor&ccedil;aram a concentra&ccedil;&atilde;o dos meios atrav&eacute;s da privatiza&ccedil;&atilde;o e da fus&atilde;o de empresas da ind&uacute;stria audiovisual, al&eacute;m de abertura de espa&ccedil;os para entidades estrangeiras.<\/p>\n<p>&ldquo;A &lsquo;<em>Ley de Medios<\/em>&rsquo;, ao contr&aacute;rio, parte da compreens&atilde;o de que a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um direito humano.&rdquo;, explica o integrante do F&oacute;rum Argentino de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Farco), N&eacute;stor Busso. &ldquo;Tomamos a comunica&ccedil;&atilde;o como um direito humano, n&atilde;o como um neg&oacute;cio comercial ou um produto&rdquo;, defende. As consequ&ecirc;ncias de tal perspectiva est&atilde;o inscritas na lei: o espectro eletromagn&eacute;tico &eacute; compreendido como um bem p&uacute;blico que deve ser usufru&iacute;do pelos diversos entes da sociedade de forma igualit&aacute;ria e a multiplica&ccedil;&atilde;o das vozes veiculadas atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; assegurada tanto atrav&eacute;s dos mecanismos de fomento &agrave; produ&ccedil;&atilde;o quanto pelos limites postos &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o, dentre outras medidas.<\/p>\n<p>Embora a integralidade da norma ainda n&atilde;o esteja plenamente assegurada, suas consequ&ecirc;ncias j&aacute; podem ser diagnosticadas.&nbsp; No mesmo dia 7 de dezembro, por exemplo, foi inaugurada a transmiss&atilde;o do canal de televis&atilde;o intercultural Wall Kintun TV, da comunidade mapuche Buenuleo, de Bariloche. Pela primeira vez, comunidades ind&iacute;genas e trabalhadores da regi&atilde;o puderam veicular suas hist&oacute;rias e imagens, fazendo frente ao &uacute;nico canal aberto que at&eacute; ent&atilde;o existia ali, o Canal 6, que pertence ao grupo <em>Clar&iacute;n<\/em>. A <em>Escuela Popular de Medios Comunitarios<\/em>, localizada em Buenos Aires, tamb&eacute;m criada ap&oacute;s a aprova&ccedil;&atilde;o da nova lei, &eacute; outro exemplo do resultado da democratiza&ccedil;&atilde;o da palavra que agora segue em curso na Argentina.<\/p>\n<p><strong><em>&quot;Ley de Medios&quot;<\/em> se baseia em entendimento internacional e ampla participa&ccedil;&atilde;o popular<\/strong><\/p>\n<p>O advogado Damian Loretti, que contribuiu para a elabora&ccedil;&atilde;o da proposta apresentada pela sociedade civil e incorporada pelo governo, explica que para avan&ccedil;ar rumo &agrave; garantia do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o a lei foi produzida a partir de di&aacute;logos com regramentos internacionais sobre direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o que foram fixados, por exemplo, pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas e pela Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho, bem como pelas leis antimonop&oacute;licas existentes em diversos pa&iacute;ses, dentre eles os Estados Unidos. Mesmo o cap&iacute;tulo que trata do desinvestimento &ndash; o que tem gerado a maior pol&ecirc;mica &ndash; &eacute; baseado no documento Indicadores de Desenvolvimento Midi&aacute;tico, publicado pela Unesco em 2008. O texto sustenta que, para incrementar o pluralismo e a diversidade nos meios, &ldquo;as autoridades respons&aacute;veis de executar as leis antimonop&oacute;lios contam com as atribui&ccedil;&otilde;es suficientes, por exemplo, para negar as solicita&ccedil;&otilde;es de licen&ccedil;as e para exigir o desinvestimento nas opera&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas atuais quando a pluralidade esteja comprometida ou se alcancem n&iacute;veis inaceit&aacute;veis na concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade&rdquo;.<\/p>\n<p>Loreti pondera o fato de a lei ater-se ao conte&uacute;do dos meios, n&atilde;o &agrave; tecnologia utilizada para que possam chegar ao p&uacute;blico. Ele destaca ainda os mecanismos de controle e participa&ccedil;&atilde;o social estabelecidos, tais como audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas; cria&ccedil;&atilde;o da Defensoria do P&uacute;blico; medidas para tornar os conte&uacute;dos acess&iacute;veis &agrave;s pessoas com defici&ecirc;ncia; prote&ccedil;&atilde;o para crian&ccedil;as e adolescentes; defini&ccedil;&atilde;o dos direitos do p&uacute;blico e, inclusive, dos sentidos e fun&ccedil;&otilde;es do sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o. Tudo isso foi fruto de &ldquo;um empoderamento concreto dos direitos de quem assiste cotidianamente as telas ou o r&aacute;dio&rdquo;, defende Loreti, que pontua o processo amplo de consulta popular ao qual foi submetido o projeto de lei. Al&eacute;m de basear-se nas propostas apresentadas pela citada coaliz&atilde;o, frente que reuniu centenas de personalidades e organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, dentre as quais centrais sindicais, universidades, sindicatos e movimentos sociais, o projeto de lei incorporou mais de cento e sessenta propostas apresentadas em audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas e que est&atilde;o apontadas no texto &ndash; que cita, inclusive, os nomes de seus propositores.<\/p>\n<p>A consist&ecirc;ncia da lei e sua contribui&ccedil;&atilde;o para a garantia de direitos s&atilde;o reconhecidas por entidades internacionais. Em entrevista recente, o Relator Especial para a Liberdade de Express&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, Frank La Rue, afirmou que &ldquo;a Argentina est&aacute; assentando um precedente muito importante. N&atilde;o s&oacute; no conte&uacute;do da lei, porque o projeto original que vi &eacute; o mais avan&ccedil;ado que existe no mundo em lei de telecomunica&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m no procedimento que se seguiu, o processo de consulta popular. Parece-me que esta &eacute; uma lei realmente consultada com seu povo&rdquo;. J&aacute; a ONG Rep&oacute;rteres Sem Fronteiras emitiu nota em apoio &agrave; &ldquo;<em>Ley de Medios<\/em>&rdquo;, na qual destacou ser a proposta um exemplo para a garantia da liberdade de not&iacute;cias e informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Agora, a sociedade argentina aguarda nova manifesta&ccedil;&atilde;o da Suprema Corte, que j&aacute; foi provocada pelo governo do pa&iacute;s. Para pression&aacute;-la, movimentos sociais e defensores da proposta foram &agrave; Pra&ccedil;a de Maio no domingo, 09. O ato, convocado pelo governo para comemorar o anivers&aacute;rio da recupera&ccedil;&atilde;o da democracia e o Dia Internacional dos Direitos Humanos, contou com milhares de pessoas, muitas das quais produtoras de comunica&ccedil;&atilde;o e cultura. Entre microfones, lentes, percuss&otilde;es e vozes, um sentimento: &eacute; necess&aacute;rio mudar a comunica&ccedil;&atilde;o para consolidar a democracia e garantir que o enfrentamento ao monop&oacute;lio possa dar lugar &agrave; diversidade de vozes e de culturas que existem no pa&iacute;s. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sociedade argentina se agita na expectativa da implementa&ccedil;&atilde;o da lei. Regulamenta&ccedil;&atilde;o &eacute; fruto de entendimento internacional e consulta popular<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[2],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27286"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27286"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27286\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}