{"id":27283,"date":"2012-12-11T00:37:26","date_gmt":"2012-12-11T00:37:26","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27283"},"modified":"2012-12-11T00:37:26","modified_gmt":"2012-12-11T00:37:26","slug":"em-sergipe-jornalista-tem-direito-a-liberdade-de-expressao-atacado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27283","title":{"rendered":"Em Sergipe, jornalista tem direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o atacado"},"content":{"rendered":"<p>A liberdade de express&atilde;o e a capacidade criativa s&atilde;o dois dos principais valores humanos e, especialmente, dos profissionais do jornalismo. O direito a noticiar os fatos, manifestar opini&otilde;es e, ao mesmo tempo, inovar e seduzir o leitor com textos cr&iacute;ticos e reflexivos s&atilde;o tarefas essenciais para o bom jornalismo. Mas, por vezes, essas capacidades s&atilde;o fruto de persegui&ccedil;&atilde;o por autoridades p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>&Eacute; o que est&aacute; vivendo o jornalista sergipano Cristian G&oacute;es, que recebeu a notifica&ccedil;&atilde;o de dois processos movidos contra ele, um c&iacute;vel e outro criminal. O autor dos processos: Edson Ulisses de Melo, Desembargador do Tribunal de Justi&ccedil;a do Estado de Sergipe.<\/p>\n<p>O Desembargador &#8211; que &eacute; cunhado do Governador do Estado &#8211; alega inj&uacute;ria, difama&ccedil;&atilde;o, e pede a pris&atilde;o de at&eacute; quatro anos do jornalista, abertura de inqu&eacute;rito policial e pagamento de indeniza&ccedil;&atilde;o em valores a ser fixado pelo juiz, al&eacute;m do valor de R$ 25 mil para as custas do processo.<\/p>\n<p>A motiva&ccedil;&atilde;o dos processos &eacute; um artigo escrito por Cristian G&oacute;es, em maio deste ano, em seu blog no Portal Infonet. Vale ressaltar que o artigo est&aacute; em primeira pessoa, tem car&aacute;ter ficcional, e n&atilde;o faz qualquer refer&ecirc;ncia a pessoas, espa&ccedil;os e tempos.<\/p>\n<p>Para Cristian G&oacute;es, que &eacute; ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Sergipe e ativista pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, os processos s&atilde;o um verdadeiro ataque &agrave; liberdade de express&atilde;o. &ldquo;S&atilde;o processos judiciais sem o menor cabimento, sem sentido e sem nenhum raz&atilde;o de ser&rdquo;, diz o jornalista.<\/p>\n<p>Confira abaixo a entrevista e, ao final, o texto que motivou os processos judiciais.<\/p>\n<p><strong>Cristian, em que se fundamentam os processos movidos pelo Desembargador Edson Ulisses? As motiva&ccedil;&otilde;es est&atilde;o descritas nos processos?<br \/><\/strong><br \/>S&atilde;o dois processos. Um criminal e um c&iacute;vel. Mas as fundamenta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o as mesmas. Ele alega que eu fiz o texto com o claro objetivo de atacar o governador do Estado, Marcelo D&eacute;da. Assim, na parte em que eu escrevo &ldquo;chamei um jagun&ccedil;o das leis, n&atilde;o por coincid&ecirc;ncia marido de minha irm&atilde;&rdquo;, ele imaginou que esse &ldquo;jagun&ccedil;o&rdquo; seria ele. O desembargador alega inj&uacute;ria e difama&ccedil;&atilde;o, pede minha pris&atilde;o de at&eacute; quatro anos, abertura de inqu&eacute;rito policial e pagamento de indeniza&ccedil;&atilde;o em valores a serem fixados pelo juiz, al&eacute;m de dar o valor de R$ 25 mil para as custas do processo. A quest&atilde;o central &eacute; que o texto alvo da a&ccedil;&atilde;o &eacute; ficcional, em primeira pessoa, e n&atilde;o cita nome de nenhuma pessoa, nem local, nem data e nem caracter&iacute;sticas pessoais e nem fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. Ou seja, &eacute; imposs&iacute;vel que um ser humano, real, com nome, sobrenome, CPF, resid&ecirc;ncia fixa, possa se encontrar em um texto ficcional e em primeira pessoa.<\/p>\n<p><strong>Se o Governador Marcelo D&eacute;da n&atilde;o moveu qualquer processo judicial pelo seu artigo, por quais motivos o Desembargador Edson Ulisses acreditaria que o texto faz refer&ecirc;ncia a ele?<br \/><\/strong><br \/>Sim, o governador do Estado n&atilde;o ingressou com a&ccedil;&atilde;o contra mim pelo texto e nem poderia fazer isso. N&atilde;o h&aacute; qualquer refer&ecirc;ncia a ele no texto. O artigo trata de uma confiss&atilde;o em primeira pessoa de&nbsp;um coronel imagin&aacute;rio dos tempos de escravid&atilde;o que se v&ecirc; chocado com o momento democr&aacute;tico e critica esse momento. O texto se refere a um sujeito ficcional, isto &eacute;, sem amparo na realidade objetiva. Assim &eacute; imposs&iacute;vel que o governador, o vice, um senador, um deputado, um desembargador se encontre no texto, ou seja, s&atilde;o a&ccedil;&otilde;es sem qualquer cabimento. O desembargador Edson Ulisses imaginou que a express&atilde;o &ldquo;jagun&ccedil;o das leis&rdquo; fosse com ele. Como assim? Quantas pessoas nesse mundo lidam com as leis?<\/p>\n<p><strong>O seu texto foi escrito em maio, mas somente agora em dezembro, sete meses depois, o Desembargador moveu os processos judiciais. Houve algum fato novo nesse per&iacute;odo ou isso tamb&eacute;m lhe causou estranheza?<br \/><\/strong><br \/>N&atilde;o. N&atilde;o houve nenhum fato novo da publica&ccedil;&atilde;o at&eacute; os processos que justificassem. Ali&aacute;s, nada os justifica. S&atilde;o processos judiciais sem o menor cabimento, sem sentido e sem nenhum raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; acredita, ent&atilde;o, que o que est&aacute; em jogo nesses processos &eacute; uma amea&ccedil;a &agrave; liberdade de express&atilde;o?<br \/><\/strong><br \/>N&atilde;o tenho d&uacute;vida nenhuma que os processos s&atilde;o uma clara e objetiva a&ccedil;&atilde;o de ataque &agrave; liberdade de express&atilde;o, que considero depois do direito &agrave; vida, o segundo maior e mais importante direito. Ora, se o texto fosse jornal&iacute;stico, com nome, fatos, eventos, poder-se-ia avaliar o teor, as informa&ccedil;&otilde;es, a veracidade, mas no texto ficcional em primeira pessoa, sem nome e nem qualquer refer&ecirc;ncia de espa&ccedil;o e tempo? Isso &eacute; um absurdo e pior, partindo-se de quem deveria &ndash; por fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &ndash; garantir a liberdade de express&atilde;o. <\/p>\n<p>As a&ccedil;&otilde;es podem revelar que em muitos rinc&otilde;es desse pa&iacute;s ainda se vive na idade dos coron&eacute;is nordestinos da d&eacute;cada de 30 no Brasil ou numa monarquia absolutista antes da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa. S&oacute; nessas condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas pode-se ventilar a condena&ccedil;&atilde;o &agrave; pris&atilde;o e pagamento de multa a quem ousasse a se expressar e que essa express&atilde;o contrariasse o sistema.<\/p>\n<p><em><strong>Eu, o coronel em mim*<br \/><\/strong>Por Cristian G&oacute;es<\/p>\n<p>Est&aacute; cada vez mais dif&iacute;cil manter uma apar&ecirc;ncia de que sou um homem democr&aacute;tico. N&atilde;o sou assim, e, no fundo, todos voc&ecirc;s sabem disso. Eu mando e desmando. Fa&ccedil;o e desfa&ccedil;o. Tudo de acordo com minha vontade. N&atilde;o admito ser contrariado no meu querer. Sou inteligente, autorit&aacute;rio e vingativo. E da&iacute;?<\/p>\n<p>No entanto, por conta de uma democracia de fachada, sou obrigado a manter tamb&eacute;m uma fachada do que n&atilde;o sou. N&atilde;o suporto cheiro de povo, reivindica&ccedil;&otilde;es e nem com versa de direitos. Por isso, agora, voc&ecirc;s est&atilde;o sabendo o porqu&ecirc; apare&ccedil;o na m&iacute;dia, &agrave;s vezes, com cara meio enfezada: &eacute; essa tal obriga&ccedil;&atilde;o de parecer democr&aacute;tico.<\/p>\n<p>Minha fazenda cresceu demais. Deixou os limites da capital e ganhou o estado. Chegou muita gente e o controle fica mais dif&iacute;cil. Por isso, preciso manter minha autoridade. Sou eu quem tem o dinheiro, apesar de alguns pensarem que o dinheiro &eacute; p&uacute;blico. Sou eu o patr&atilde;o maior. Sou eu quem nomeia, quem demite. Sou eu quem contrata bajuladores, capangas, servi&ccedil;ais de todos os n&iacute;veis e bobos da corte para todos os gostos.<\/p>\n<p>Apesar desse poder divino sou obrigado a me submeter &agrave; elei&ccedil;&otilde;es, um absurdo. Mas &eacute; outra fachada. Com tanto poder, com tanto dinheiro, com a m&iacute;dia em minhas m&atilde;os e com meia d&uacute;zia de palavras modernas e bem arranjadas sobre democracia, n&atilde;o tem para ningu&eacute;m. &Eacute; s&oacute; esperar o dia e esse povo todo contente e feliz vota em mim. Vota em que eu mando.<\/p>\n<p>&Ocirc; povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagun&ccedil;o das leis, n&atilde;o por coincid&ecirc;ncia marido de minha irm&atilde;, e dei um p&eacute; na bunda desse povo.<\/p>\n<p>Na pol&iacute;cia, mandei os cabras tirar de circula&ccedil;&atilde;o pobres, pretos e gente que fala demais em direitos. S&oacute; quem tem direito sou eu. Ent&atilde;o, &eacute; para apertar mais. &Eacute; na chibata. Pode matar que eu garanto. O povo gosta. Na educa&ccedil;&atilde;o, quanto pior melhor. Para qu&ecirc; povo sabido? Na sa&uacute;de&#8230;se morrer &ldquo;&eacute; porque Deus quis&rdquo;.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes sinto que alguns poucos escravos livres at&eacute; pensam em me contrariar. Uma afronta. Amea&ccedil;am, fazem meninice, mas o medo &eacute; maior. Logo esquecem a raiva e as chibatadas. No fundo, eles sabem que eu tenho o poder e que fa&ccedil;o o quero. Tenho nas m&atilde;os a lei, a justi&ccedil;a, a pol&iacute;cia e um bando cada vez maior de puxa-sacos.<\/p>\n<p>O coronel de outros tempos ainda mora em mim e est&aacute; mais vivo que nunca. Esse ser coronel que sou e que sempre fui &eacute; alimentado por esse povo contente e feliz que festeja na senzala a minha necess&aacute;ria exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>*Artigo originalmente publicado no dia 29 de maio de 2012, no Portal Infonet<br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo exerc&iacute;cio do seu direito de comunicar, o jornalista Cristian G&oacute;es sofre hoje processos civil e criminal pelo Desembargador do Estado de Sergipe Edson Ulisses de Melo. Confira a entrevista exclusiva.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1670],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27283"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}