{"id":27253,"date":"2012-11-29T09:58:04","date_gmt":"2012-11-29T09:58:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27253"},"modified":"2012-11-29T09:58:04","modified_gmt":"2012-11-29T09:58:04","slug":"pesquisador-dinamarques-defende-comunicacao-para-o-desenvolvimento-da-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27253","title":{"rendered":"Pesquisador dinamarqu\u00eas defende comunica\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento da cidadania"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Em visita ao Brasil para participar do I Semin&aacute;rio Brasil-Dinamarca de Comunica&ccedil;&atilde;o e Cidadania, realizado na Universidade Federal de Sergipe, no &uacute;ltimo dia 22, o pesquisador dinamarqu&ecirc;s Thomas Tufte concedeu uma entrevista sobre o papel da comunica&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Com experi&ecirc;ncia em pesquisas sobre comunica&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina e na &Aacute;frica, o professor da Universidade de Roskilde (Dinamarca) acredita que, embora os meios de comunica&ccedil;&atilde;o tenham sido apropriados e utilizados de forma comercial e concentrada, eles t&ecirc;m o potencial de gerar impacto e atuar no desenvolvimento da cidadania. Ele cita o exemplo de pa&iacute;ses africanos, em que as novas tecnologias t&ecirc;m contribu&iacute;do para a participa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os nos debates p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>Sobre a Am&eacute;rica Latina, Tufte destaca os processos de mudan&ccedil;a na legisla&ccedil;&atilde;o em comunica&ccedil;&atilde;o, mas acredita ser necess&aacute;rio implementar &ldquo;pol&iacute;ticas efetivas para que na pr&aacute;tica haja novidade na comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, pois &rdquo;os grandes grupos empresariais t&ecirc;m muita for&ccedil;a&rdquo;.<\/p>\n<p>Ao comentar a situa&ccedil;&atilde;o brasileira, o pesquisador alerta que &eacute; fundamental um olhar atento &agrave; radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria. Num &ldquo;contexto de comunica&ccedil;&atilde;o dominado por grandes empresas privadas, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias jogam um papel interessante de produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o de interesse p&uacute;blico. Ent&atilde;o, pensar a democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil passa pelo fortalecimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias&rdquo;, defende.<\/p>\n<p>Segundo Tufte, o Brasil deve tamb&eacute;m buscar experi&ecirc;ncias de outros pa&iacute;ses para consolidar a sua comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. O pesquisador &eacute; enf&aacute;tico ao afirmar que &ldquo;comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; comunica&ccedil;&atilde;o do Estado ou do governo. N&atilde;o &eacute; um instrumento nem uma voz dos governantes, mas &eacute; algo que deve ser apropriado e dirigido pela sociedade&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Seu foco de pesquisa mais recente s&atilde;o os fen&ocirc;menos comunicacionais na &Aacute;frica Austral e Oriental. De um modo geral, qual a situa&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o no continente africano?<br \/><\/strong><br \/>A &Aacute;frica atravessa um momento din&acirc;mico, por uma s&eacute;rie de motivos. At&eacute; a d&eacute;cada de 1990 t&iacute;nhamos uma situa&ccedil;&atilde;o em que os governos controlavam quase que a totalidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. E eram poucos os meios. Com o processo de democratiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e a passagem para um sistema multipartidarista, houve tamb&eacute;m uma mudan&ccedil;a nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, principalmente com a privatiza&ccedil;&atilde;o de parte dos servi&ccedil;os. Essa din&acirc;mica tem se mantido, com o crescimento no n&uacute;mero de revistas, jornais impressos, em maiores quantidades, mas com pequenas tiragens. <\/p>\n<p>Ultimamente, tem acontecido tamb&eacute;m uma prolifera&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios comerciais FM. Mas, de fato, a &uacute;ltima onda de mudan&ccedil;as na comunica&ccedil;&atilde;o na &Aacute;frica passa pelo desenvolvimento da internet e, especialmente, da telefonia celular. Esses meios t&ecirc;m criados din&acirc;micas novas na rela&ccedil;&atilde;o entre a sociedade civil e os governantes. Enfim, &eacute; um momento bastante interessante nos pa&iacute;ses da &Aacute;frica e, por isso, estamos pesquisando.<\/p>\n<p><strong>No que diz respeito &agrave; propriedade, na &Aacute;frica o cen&aacute;rio &eacute; de grandes grupos oligop&oacute;licos de comunica&ccedil;&atilde;o ou ainda h&aacute; uma diversidade consider&aacute;vel na propriedade dos meios?<br \/><\/strong><br \/>A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; de concentra&ccedil;&atilde;o, de grupos grandes dominando a comunica&ccedil;&atilde;o. Na Tanz&acirc;nia, um dos pa&iacute;ses que eu pesquiso, por exemplo, s&atilde;o tr&ecirc;s grupos que controlam a grande maioria das emissoras de r&aacute;dio, TV e jornais impressos. No setor de telefonia, tamb&eacute;m a concentra&ccedil;&atilde;o &eacute; bastante alta. Mas, ao mesmo tempo, tem aumentado o uso e a apropria&ccedil;&atilde;o das novas tecnologias por parte do cidad&atilde;o.<\/p>\n<p>E, por exemplo, tamb&eacute;m na Tanz&acirc;nia estamos estudando o caso da ONG FEMINA HIP, que atua na quest&atilde;o da sa&uacute;de, que tem desenvolvido todo um conjunto de meios e ferramentas de comunica&ccedil;&atilde;o que atuam para o desenvolvimento. Por exemplo, o talk show mais popular do pa&iacute;s &eacute; produzido por essa ONG, a revista de maior circula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; dessa ONG, produzem tamb&eacute;m uma r&aacute;dio-novela. E eles t&ecirc;m utilizado todas essas plataformas para articular debates sobre temas na &aacute;rea de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, meio-ambiente.<\/p>\n<p><strong>Uma experi&ecirc;ncia que demonstra como a comunica&ccedil;&atilde;o pode contribuir para o desenvolvimento local?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, com certeza. &Eacute; claro que a tecnologia e os meios de comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m sido apropriadas e utilizadas de forma comercial e concentrada. Mas, elas tamb&eacute;m podem, sim, ser instrumentos para o desenvolvimento. Se tomarmos outro exemplo, como o do Qu&ecirc;nia, em que foram desenvolvidas novas formas de utiliza&ccedil;&atilde;o e apropria&ccedil;&atilde;o do telefone celular. A sociedade desse pa&iacute;s tem utilizado a apropria&ccedil;&atilde;o dessa tecnologia para atuar politicamente e gerar impacto e debate nas quest&otilde;es sociais, pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas. Enfim, tudo isso revela o potencial de uso dessas tecnologias em favor dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p><strong>Que tipo de aproxima&ccedil;&otilde;es voc&ecirc; v&ecirc; entre essas experi&ecirc;ncias africanas e a trajet&oacute;ria de comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria e popular desenvolvida na Am&eacute;rica Latina?<br \/><\/strong><br \/>A Am&eacute;rica Latina tem uma sociedade civil mais organizada, mais consolidada e tem uma experi&ecirc;ncia com comunica&ccedil;&atilde;o alternativa de muitas d&eacute;cadas. Enquanto na &Aacute;frica, em termos gerais, a organiza&ccedil;&atilde;o social &eacute; mais recente (&uacute;ltimos 15 ou 20 anos). Apesar de na &Aacute;frica o r&aacute;dio ser o meio de comunica&ccedil;&atilde;o de maior import&acirc;ncia para a comunica&ccedil;&atilde;o entre as pessoas, a din&acirc;mica que est&aacute; tendo o uso do telefone celular por l&aacute; &eacute; fascinante, o que est&aacute;, inclusive, atraindo a aten&ccedil;&atilde;o de pesquisadores. Tem mudado muito as rela&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, no Qu&ecirc;nia foi desenvolvido o sistema de transfer&ecirc;ncias banc&aacute;rias por celular. Ent&atilde;o, o trabalhador que est&aacute; na cidade, mas &eacute; da zona rural, ao inv&eacute;s dele voltar pra sua casa para entregar o dinheiro &agrave; fam&iacute;lia, ele pode fazer a transfer&ecirc;ncia diretamente pelo celular. Esse &eacute; um exemplo de mudan&ccedil;as nas rela&ccedil;&otilde;es sociais pelas novas tecnologias. Essa tecnologia tem sido importada para v&aacute;rios pa&iacute;ses do mundo.<\/p>\n<p>Temos que ver para onde isso vai caminhar, mas, de fato, est&aacute; criando uma possibilidade para participa&ccedil;&atilde;o nos debates p&uacute;blicos. Ent&atilde;o, a sociedade na &Aacute;frica &eacute; muito mais participativa depois do uso dessas tecnologias.<\/p>\n<p><strong>Por muitos anos voc&ecirc; se dedicou a estudos sobre a comunica&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina. Como voc&ecirc; avalia o atual momento, em especial no que diz respeito &agrave;s novas legisla&ccedil;&otilde;es em curso na regi&atilde;o, em pa&iacute;ses como Argentina, Bol&iacute;via e Equador?<br \/><\/strong><br \/>Acho que est&aacute; mais que na hora de mudan&ccedil;as nas leis de comunica&ccedil;&atilde;o. Eu felicito os pa&iacute;ses que modificaram as suas legisla&ccedil;&otilde;es, com perspectivas para a democratiza&ccedil;&atilde;o. A luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; bastante antiga nesta regi&atilde;o do mundo, um processo que tem o envolvimento de diversos setores da sociedade.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, como avan&ccedil;o legal isso &eacute; muito importante. Contudo, precisam de pol&iacute;ticas efetivas para que na pr&aacute;tica haja novidade na comunica&ccedil;&atilde;o, no dia-a-dia, porque nesses pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina, historicamente, os grandes grupos empresariais t&ecirc;m muita for&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>E a situa&ccedil;&atilde;o brasileira, em que se discute atualmente a necessidade de um novo marco legal para as comunica&ccedil;&otilde;es?<\/strong><\/p>\n<p>Sem conhecer os detalhes aqui do Brasil em profundidade, eu sei que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias continuam sofrendo por falta de autoriza&ccedil;&atilde;o e por pouco investimento p&uacute;blico. Esse &eacute; um grave problema que precisa ser resolvido.<\/p>\n<p>E aqui no Brasil, que tem um contexto de comunica&ccedil;&atilde;o dominado por grandes empresas privadas &ndash; diferente do meu pa&iacute;s e da Europa, que t&ecirc;m muitos meios p&uacute;blicos &ndash; as r&aacute;dios comunit&aacute;rias jogam um papel interessante de produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o de interesse p&uacute;blico. Ent&atilde;o, pensar a democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil passa pelo fortalecimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p>Na Argentina, que tem uma situa&ccedil;&atilde;o parecida, com a nova lei se abre parte consider&aacute;vel do espectro para a comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria. O Brasil pode seguir o mesmo caminho.<\/p>\n<p><strong>Falando da experi&ecirc;ncia dos pa&iacute;ses europeus que voc&ecirc; citou rapidamente, que elementos da tradi&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia de meios p&uacute;blicos o Brasil pode buscar para, a partir da sua realidade, fortalecer a comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica?<br \/><\/strong><br \/>Acredito que s&atilde;o muitas as contribui&ccedil;&otilde;es, principalmente porque, como voc&ecirc; disse, a m&iacute;dia p&uacute;blica na Europa se constituiu ao longo da hist&oacute;ria, como uma prioridade em termos de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A primeira quest&atilde;o essencial &eacute; a participa&ccedil;&atilde;o da sociedade civil na gest&atilde;o, na administra&ccedil;&atilde;o das emissoras de TV e r&aacute;dio p&uacute;blicas. Ent&atilde;o, &eacute; importante ter conselhos com a presen&ccedil;a de diversos setores da sociedade civil, especialistas e universidades.<\/p>\n<p>Outro aspecto &eacute; o financiamento p&uacute;blico, com a previs&atilde;o de recursos que garantam uma boa estrutura, equipamentos de alta tecnologia e profissionais de qualidade para essas emissoras. <\/p>\n<p>&Eacute; importante tamb&eacute;m ressaltar que comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; comunica&ccedil;&atilde;o do Estado ou do governo. N&atilde;o &eacute; um instrumento nem uma voz dos governantes, mas &eacute; algo que deve ser apropriado e dirigido pela sociedade.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em visita ao Brasil, o professor <span class=\"padrao\">da Universidade de Roskilde (Dinamarca) <\/span>Thomas Tufte, discute os meios de comunica&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina e &Aacute;frica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1670],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27253"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27253\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}