{"id":27222,"date":"2012-11-12T19:35:15","date_gmt":"2012-11-12T19:35:15","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27222"},"modified":"2012-11-12T19:35:15","modified_gmt":"2012-11-12T19:35:15","slug":"marco-civil-da-internet-entre-o-lobby-e-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27222","title":{"rendered":"Marco Civil da Internet: entre o lobby e a liberdade"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; cerca de dois meses, escrevemos que o Marco Civil da Internet, a principal proposta de estabelecimento de direitos civis na rede, estava na marca do p&ecirc;nalti (&ldquo;Marco Civil na marca do p&ecirc;nalti&rdquo;, 05\/09\/12), pronto para ser cobrado. Prestes a ser tento comemorado pela sociedade brasileira. No entanto, dois lobbies econ&ocirc;micos muito poderosos conseguiram, al&eacute;m de alterar o &oacute;timo texto do projeto de lei, impedir sua vota&ccedil;&atilde;o: o lobby da ind&uacute;stria autoral e o das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Na &uacute;ltima quarta-feira (7\/11), mesmo com a bola no p&eacute;s, Governo e deputados n&atilde;o cobraram o p&ecirc;nalti. E, se tivessem cobrado, seria um chut&atilde;o pra lua.<\/p>\n<p>O Marco Civil da Internet &#8211; que tramita agora atrav&eacute;s do PL 5.403\/2001 &#8211; estabelece os princ&iacute;pios, objetivos, direitos, obriga&ccedil;&otilde;es e responsabilidades na rede. &Eacute; a base legal para a cidadania virtual, para o tratamento ison&ocirc;mico dos usu&aacute;rios, para a n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o de sua navega&ccedil;&atilde;o e para a concretiza&ccedil;&atilde;o de uma Internet efetivamente livre: para a express&atilde;o, para a troca, para a cria&ccedil;&atilde;o, para a inova&ccedil;&atilde;o, enfim, para o desenvolvimento. &Eacute; por isso que a proposta elenca, como um de seus princ&iacute;pios, a neutralidade da rede, para evitar que interesses econ&ocirc;micos injustificados se sobreponham ao direito de todos se manifestarem e usarem a rede como quiserem. E &eacute; por isso tamb&eacute;m que o projeto estabelecia, no seu artigo 15, a retirada de conte&uacute;dos do ar apenas com decis&atilde;o judicial, ap&oacute;s realizado o contradit&oacute;rio e a ampla defesa, em plena conson&acirc;ncia com os pilares do Estado democr&aacute;tico de direito. Trata-se de priorizar a liberdade de express&atilde;o e o direito de acesso e afastar a censura privada na Internet.<\/p>\n<p><strong>Retirada de conte&uacute;do sem ordem judicial<\/strong><\/p>\n<p>Grifamos, aqui, &ldquo;estabelecia&rdquo;, pois o &uacute;ltimo substitutivo apresentado trouxe uma exce&ccedil;&atilde;o para a remo&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos que traz grande inseguran&ccedil;a jur&iacute;dica para a Internet e s&eacute;rios danos aos usu&aacute;rios. O Marco Civil estabelece, como regra, que os provedores de aplica&ccedil;&otilde;es na Internet (plataformas, redes sociais, portais) somente ser&atilde;o responsabilizados civilmente se n&atilde;o retirarem um conte&uacute;do ap&oacute;s receberem um ordem judicial. Com isso, a tend&ecirc;ncia &eacute; que os conte&uacute;dos sejam mantidos, respeitando a liberdade de quem postou e o direito de acesso dos internautas a eles. Sistema equilibrado, na perspectiva de uma Internet livre e democr&aacute;tica. Contudo, o novo texto traz uma exce&ccedil;&atilde;o para conte&uacute;dos protegidos por direitos autorais, aos quais n&atilde;o valer&aacute; essa regra. Isso pode permitir a interpreta&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria a avalia&ccedil;&atilde;o judicial para remo&ccedil;&atilde;o. Dessa forma, h&aacute; o risco de esses conte&uacute;dos prescindirem da decis&atilde;o de um juiz para serem removidos, ainda que a Justi&ccedil;a tenha que ser soberana. Cria, assim, um mecanismo que induz os provedores a exclu&iacute;rem o conte&uacute;do, a partir de uma simples notifica&ccedil;&atilde;o, para evitar serem responsabilizados. Ou seja, mesmo que n&atilde;o haja comprova&ccedil;&atilde;o de que determinado conte&uacute;do (v&iacute;deo, foto, m&uacute;sica) viola direito autoral, uma simples notifica&ccedil;&atilde;o do eventual titular &eacute; suficiente para que o provedor, num julgamento privado, retire esse conte&uacute;do do ar, com medo de ser penalizado. Caber&aacute; depois ao usu&aacute;rio prejudicado, geralmente com menos condi&ccedil;&otilde;es para isso, o &ocirc;nus de procurar a Justi&ccedil;a para reaver seu conte&uacute;do suprimido.<\/p>\n<p>Nesse momento, &eacute; importante questionar: como e por que se deu essa altera&ccedil;&atilde;o, de &uacute;ltima hora, e com que finalidade?<\/p>\n<p>A resposta &eacute;: lobby. A ind&uacute;stria do copyright que, diferentemente do que se pensa, &eacute; composta menos por autores e mais por intermedi&aacute;rios da ind&uacute;stria cultural &#8211; dentre os quais a ABDR (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Direitos Reprogr&aacute;ficos), a ABPD (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Produtores de Discos) e a&nbsp; MPAA (Motion Picture Association of America), ou seja, a ind&uacute;stria de Hollywood, al&eacute;m de Globo e outros bar&otilde;es do entretenimento -, tem se empenhado energicamente, e nos bastidores, para incluir no substitutivo uma din&acirc;mica pr&oacute;pria para os direitos autorais. Essa tentativa, entretanto, j&aacute; foi abolida na discuss&atilde;o p&uacute;blica do Marco Civil e nem cabe nessa seara legislativa. A discuss&atilde;o dos direitos autorais tem local certo: &eacute; a reforma da Lei 9.610\/98 (Lei de direitos autorais &#8211; LDA), p&uacute;blica e aberta, conduzida desde 2007 pelo MinC (Minist&eacute;rio da Cultura). Tanto que a pr&oacute;pria Ministra da Cultura, Marta Suplicy, corretamente, chamou a responsabilidade desse debate ao MinC e &agrave; LDA, respondendo inclusive &agrave; carta de representantes desse setor.<\/p>\n<p>Os intermedi&aacute;rios do direito autoral querem incluir o sistema de retirada de conte&uacute;dos sem ordem judicial no Marco Civil, pois sabem que os setores art&iacute;sticos e culturais, especialmente aqueles que conhecem e se utilizam do potencial da Internet para a produ&ccedil;&atilde;o, a circula&ccedil;&atilde;o e o consumo da cultura, n&atilde;o querem esse tipo de censura na rede, e tamb&eacute;m n&atilde;o v&atilde;o permiti-la na LDA, por ferir a liberdade de express&atilde;o cultural. Incluir esse sistema &eacute; legalizar algo que esses intermedi&aacute;rios j&aacute; realizam massivamente na pr&aacute;tica: a ind&uacute;stria da notifica&ccedil;&atilde;o. Se a premissa da remo&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do apenas com ordem judicial n&atilde;o valer para conte&uacute;dos de direitos autorais, a decis&atilde;o vai se dar em &acirc;mbito privado das rela&ccedil;&otilde;es entre os provedores e os titulares empresariais, a partir da notifica&ccedil;&atilde;o privada de representantes de titulares, que n&atilde;o precisar&atilde;o nem comprovar a sua legalidade &#8211; afinal, provedor n&atilde;o &eacute; tribunal para julgar se algo &eacute; legal ou n&atilde;o. Em suma: institucionaliza-se a injusta m&aacute;quina de notifica&ccedil;&otilde;es e censura pr&eacute;via (inconstitucional, por sinal) e se invalida a regra geral de retirada apenas com o devido processo legal.<\/p>\n<p>Caso se mantenha no texto essa descabida exce&ccedil;&atilde;o para os direitos autorais, haver&aacute; uma avalanche institucionalizada de notifica&ccedil;&otilde;es extrajudiciais, que se servir&atilde;o dessa imprecis&atilde;o jur&iacute;dica para remover indiscriminadamente os conte&uacute;dos postados na rede, independentemente se protegidos ou n&atilde;o. Como lei respons&aacute;vel por estabelecer o quadro regulat&oacute;rio geral da Internet, o Marco Civil n&atilde;o deve tratar de quest&otilde;es espec&iacute;ficas de direitos autorais, tampouco atrav&eacute;s de um dispositivo complicador como este. Deve deixar este assunto para a reforma da Lei 9.610\/98, em curso. Assim, &eacute; imprescind&iacute;vel suprimir o par&aacute;grafo segundo do artigo 15.<\/p>\n<p><strong>O lobby das teles<br \/><\/strong><br \/>O segundo ponto problem&aacute;tico diz respeito ao princ&iacute;pio da neutralidade. Ela &eacute; a garantia da n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o de tr&aacute;fego na rede. Sua import&acirc;ncia &eacute; indiscut&iacute;vel e tamanha, a ponto de sua regulamenta&ccedil;&atilde;o ter que se dar pela mais alta inst&acirc;ncia do Executivo: a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. O instrumento cab&iacute;vel seria um decreto, ouvido o CGI (Comit&ecirc; Gestor da Internet), a entidade tecnicamente mais apta a detalhar esse princ&iacute;pio, era o que previa o texto do Marco Civil. At&eacute; o &uacute;ltimo texto, do qual o CGI foi exclu&iacute;do, atendendo a um outro lobby, fort&iacute;ssimo, das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es. O atendimento a esse pedido foi t&atilde;o sol&iacute;cito que coube a um ministro de Estado lev&aacute;-lo a cabo. Paulo Bernardo, Ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, teria declarado publicamente, antes mesmo da (n&atilde;o) aprova&ccedil;&atilde;o pelo plen&aacute;rio, que seria melhor, de fato, a neutralidade ser regulamentada pela Anatel. Exatamente como querem as teles. Estranho, pois o substitutivo do PL nunca se referiu &agrave; Anatel, mas dava esses poderes ao Executivo &#8211; posteriormente, qui&ccedil;&aacute;, ao Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, num eventual decreto.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que, agora, escancarou-se a uni&atilde;o das teles e do Governo no mesmo desejo: a regula&ccedil;&atilde;o da neutralidade pela Ag&ecirc;ncia. Motivo mais que suficiente para que se reforce a regula&ccedil;&atilde;o por Decreto, com essa previs&atilde;o literalmente expressa no pr&oacute;ximo texto a ser votado. Parece ser a vontade do relator do PL, deputado Alessandro Molon, que tem se empenhado em manter uma lei equilibrada e coerente.<\/p>\n<p>Caso isso n&atilde;o ocorra, mais uma vez vencer&aacute; a press&atilde;o das empresas sobre o interesse p&uacute;blico. A mesma press&atilde;o realizada contra os par&acirc;metros de qualidade para a banda larga, servi&ccedil;o que elas mesmas prestam. A press&atilde;o que impediu o CGI de fiscalizar tais par&acirc;metros, transferindo essa compet&ecirc;ncia para uma consultoria ligada &agrave;s teles. A press&atilde;o que faz com que n&atilde;o avancemos na obriga&ccedil;&atilde;o das empresas de entregarem efetivamente a velocidade que anunciam na publicidade &#8211; e n&atilde;o apenas 20% dela, como &eacute; hoje. Enfim, a press&atilde;o que n&atilde;o quer a neutralidade da rede no Brasil, pois se ganha dinheiro controlando indevidamente o tr&aacute;fego dos usu&aacute;rios.<\/p>\n<p>Por isso, &eacute; essencial que o substitutivo do Marco Civil da Internet que vai ao plen&aacute;rio da C&acirc;mara na pr&oacute;xima ter&ccedil;a-feira (13\/11), n&atilde;o ceda &agrave;s press&otilde;es econ&ocirc;micas. &Eacute; preciso que os deputados e deputadas olhem para constru&ccedil;&atilde;o coletiva da sociedade e para o que a Internet significa para ela. O Projeto de Lei do Marco Civil &eacute; positivo, avan&ccedil;ado, a melhor proposta para regulamenta&ccedil;&atilde;o da Internet no mundo. N&atilde;o &eacute; hora de macul&aacute;-lo com abjetos interesses privados. Assim, &eacute; essencial que se exclua o par&aacute;grafo segundo do artigo 15, removendo qualquer exce&ccedil;&atilde;o para o direito autoral, por justi&ccedil;a e cabimento &#8211; j&aacute; que isso &eacute; papel da reforma da lei de direitos autorais. E, al&eacute;m disso, que a neutralidade seja de fato regulamentada por decreto da Presidenta da Rep&uacute;blica, por ser algo da mais alta import&acirc;ncia para a Internet brasileira. Sem atravessamentos e sem jogos de interesses escusos. &Eacute; preciso aprovar o Marco Civil. E ter uma Internet com menos lobby e mais liberdade.<br \/>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&Eacute; essencial que o substitutivo do Marco Civil da Internet  que vai ao plen&aacute;rio da C&acirc;mara na pr&oacute;xima ter&ccedil;a-feira (13\/11), n&atilde;o ceda  &agrave;s press&otilde;es econ&ocirc;micas. &Eacute; preciso que os deputados e deputadas olhem  para constru&ccedil;&atilde;o coletiva da sociedade e para o que a Internet significa  para ela.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1724],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27222"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27222\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}