{"id":27207,"date":"2012-11-05T19:06:48","date_gmt":"2012-11-05T19:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27207"},"modified":"2012-11-05T19:06:48","modified_gmt":"2012-11-05T19:06:48","slug":"sociedade-questiona-o-papel-da-anatel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27207","title":{"rendered":"Sociedade questiona o papel da Anatel"},"content":{"rendered":"<p>O dia &eacute; especial. Uma entidade p&uacute;blica, s&iacute;mbolo da pol&iacute;tica dos anos 90 debuta. Os convidados se reuniram para a celebra&ccedil;&atilde;o &agrave;s 16h, desta segunda, 5, no Espa&ccedil;o Cultural da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es &#8211; a Anatel. A mensagem de seu presidente, Jo&atilde;o Rezende, afirma &ldquo;ao longo de seus quinze anos de exist&ecirc;ncia, a Anatel foi bem-sucedida na miss&atilde;o de estabelecer um arcabou&ccedil;o normativo s&oacute;lido &#8211; com regras claras, resultantes de um processo decis&oacute;rio transparente -, condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para o cumprimento das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e para a atra&ccedil;&atilde;o de investimentos&rdquo;. A sociedade questiona.<\/p>\n<p>H&aacute; exatos quinze anos, o Governo Federal colocava em pr&aacute;tica um novo modelo institucional de regula&ccedil;&atilde;o de setores estrat&eacute;gicos do mercado brasileiro. A instala&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel), no dia 5 de novembro de 1998, primeira entre as ag&ecirc;ncias reguladoras a funcionar, marcou um passo importante no avan&ccedil;o da pol&iacute;tica liberalizante implementada nos &uacute;ltimos&nbsp; vinte anos. Com a cria&ccedil;&atilde;o dos novos &oacute;rg&atilde;os, estavam dadas as condi&ccedil;&otilde;es para que o Estado entregasse empresas p&uacute;blicas &agrave; iniciativa privada, assumindo fun&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas estritamente de regula&ccedil;&atilde;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o. Entretanto, o cumprimento do papel designado &agrave; ag&ecirc;ncia tem se deparado com obst&aacute;culos na implementa&ccedil;&atilde;o deste modelo idealmente pensado nos princ&iacute;pios da competi&ccedil;&atilde;o e universaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Em busca de uma regula&ccedil;&atilde;o que efetive direitos<\/strong><\/p>\n<p>A Anatel surge conjuntamente com a implementa&ccedil;&atilde;o de novas orienta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas que &ldquo;tiveram como principal fundamento a privatiza&ccedil;&atilde;o do setor, deixando de lado pol&iacute;ticas de compartilhamento, de desenvolvimento e de pesquisa&rdquo;,&nbsp; afirma Marcello Miranda, membro do centro de estudos Instituto Telecom e um dos representantes da sociedade civil no Conselho Consultivo da ag&ecirc;ncia. Criada para viabilizar um novo quadro de telecomunica&ccedil;&otilde;es no Brasil no contexto da quebra do monop&oacute;lio estatal de explora&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&atilde;o pela Emenda Constitucional n.8\/95 e pela Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei 9.472\/97), ambas criadas durante o governo FHC, foi atribu&iacute;da &agrave; ag&ecirc;ncia o papel de outorgar, regulamentar e fiscalizar o setor.<\/p>\n<p>As dificuldades anteriores do sistema de telecomunica&ccedil;&otilde;es que fundamentaram o discurso a favor da venda das empresas estatais e da defini&ccedil;&atilde;o de um marco regulat&oacute;rio com &ecirc;nfase liberal teria, de acordo com Miranda, sido fruto da aus&ecirc;ncia de investimentos por parte de sucessivos governos, o que repercutiu em inefici&ecirc;ncia, encarecimento e obst&aacute;culo &agrave; expans&atilde;o de servi&ccedil;os. A orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica pautada pelo comprometimento com a pr&aacute;tica de ajuste fiscal exigida por agentes do mercado financeiro teria estrangulado as possibilidades de um crescimento que inclui-se novos setores da popula&ccedil;&atilde;o e que proporcionasse um funcionamento satisfat&oacute;rio. A Anatel teria sido, ent&atilde;o, criada por ide&oacute;logos do neoliberalismo no Brasil como parte da reconfigura&ccedil;&atilde;o do papel do Estado&nbsp; em busca de uma solu&ccedil;&atilde;o para as defici&ecirc;ncias das empresas estatais em um momento de crise do desenvolvimentismo e press&atilde;o do capital internacional.<\/p>\n<p>Proposto como solu&ccedil;&atilde;o, o &oacute;rg&atilde;o n&atilde;o vem cumprindo de forma satisfat&oacute;ria o papel que lhe foi designado. A Anatel, concebida como autarquia, com autonomia financeira, n&atilde;o tem como fiscalizar de forma efetiva as empresas privadas de telefonia que ocuparam o espa&ccedil;o da antiga Telebr&aacute;s. Embora o Fundo de Fiscaliza&ccedil;&atilde;o das Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Fistel) tenha arrecadado R$ 7,9 bilh&otilde;es em 2011, a Lei Or&ccedil;ament&aacute;ria Anual (LOA), destinou apenas R$ 467 milh&otilde;es para as despesas da ag&ecirc;ncia (em 2010, esse montante foi da ordem dos R$ 300 milh&otilde;es).<\/p>\n<p>Da mesma forma, com o mesmo objetivo de &ldquo;fazer caixa&rdquo; (basicamente cumprir metas fiscais determinadas por agentes financeiros), o Governo Federal tem retido, desde a sua cria&ccedil;&atilde;o em 2000, os recursos arrecadados pelo Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Fust), que tem por finalidade cobrir custos relativos ao cumprimento das obriga&ccedil;&otilde;es de universalizar os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es. J&aacute; s&atilde;o cerca de R$ 12 bilh&otilde;es utilizados como &ldquo;contribui&ccedil;&atilde;o para o superavit prim&aacute;rio&rdquo;. <\/p>\n<p>Segundo Veridiana Alimonti, advogada do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), a regula&ccedil;&atilde;o no Brasil, concebida como meio de viabiliza&ccedil;&atilde;o das privatiza&ccedil;&otilde;es, teve &ldquo;seu aspecto de regula&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica fortalecido em detrimento da regula&ccedil;&atilde;o social&rdquo;. Assim, o processo de cria&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncias reguladoras levou &agrave; configura&ccedil;&atilde;o de um sistema &ldquo;sem uma efetiva perspectiva de defesa do consumidor entre suas prioridades e em contexto de total aus&ecirc;ncia de uma cultura reguladora no pa&iacute;s&rdquo;.<br \/><strong><br \/>Distor&ccedil;&otilde;es do sistema<\/strong><\/p>\n<p>Nota-se facilmente as consequ&ecirc;ncias da ado&ccedil;&atilde;o de um sistema regulador com essas caracter&iacute;sticas. Ocorreu de fato a expans&atilde;o do servi&ccedil;o de telefonia no Brasil nos &uacute;ltimos quinze anos, por exemplo, devido, principalmente, &agrave; populariza&ccedil;&atilde;o da tecnologia de aparelhos m&oacute;veis (fen&ocirc;meno que p&ocirc;de ser observado simultaneamente em quase todo o mundo). De 2010 para 2011 a quantidade desses dispositivos que permitem tr&aacute;fego de dados passou de 20,6 milh&otilde;es para 41,1 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>Por outro lado, o pa&iacute;s apresenta um quadro composto por tarifas mais altas de telefonia m&oacute;vel para a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre, pr&aacute;ticas ilegais no servi&ccedil;o oferecido e quedas frequentes nos sinais, o que tem levado a sociedade civil a pressionar o Congresso Nacional pela instala&ccedil;&atilde;o de uma Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito (CPI) e cobrar da Anatel a proibi&ccedil;&atilde;o das operadoras comercializarem seus servi&ccedil;os. Os indicadores da ag&ecirc;ncia para avalia&ccedil;&atilde;o da qualidade da banda larga m&oacute;vel, por exemplo, exige que somente em novembro de 2014 os usu&aacute;rios dever&atilde;o contar com 80% de transmiss&atilde;o m&eacute;dia contratada. Ou seja, as operadoras est&atilde;o recebendo um prazo extenso para melhorarem o servi&ccedil;o que, ainda assim, ficar&aacute; aqu&eacute;m do firmado no contrato com os clientes.<\/p>\n<p>Alguns problemas s&atilde;o ainda mais expl&iacute;citos, como evidencia o caso das multas constitu&iacute;das. Se o montante acumulado em 2011 alcan&ccedil;a a marca dos cerca de R$ 616 milh&otilde;es devido pelas operadoras &agrave; Anatel, apenas R$ 76,3 milh&otilde;es foram arrecadados. Como solu&ccedil;&atilde;o discute-se a possibilidade da substitui&ccedil;&atilde;o do pagamento das multas pelas empresas por investimentos em suas pr&oacute;prias redes, o que as faria se capitalizar com dinheiro p&uacute;blico e se justificaria ideologicamente como pol&iacute;tica de investimento.<\/p>\n<p>Foi dado, ainda, &agrave;s pr&oacute;prias empresas que ter&atilde;o os seus servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o multim&iacute;dia e servi&ccedil;o m&oacute;vel pessoal fiscalizados o direito de selecionar e contratar a entidade que faz a medi&ccedil;&atilde;o da qualidade. Isto quer dizer que a Anatel transfere para os agentes de mercado que deveriam ser monitorados a compet&ecirc;ncia de definir e se relacionar com o instrumento de monitoramento, como um pastor que delegasse ao lobo a tarefa de tomar conta das ovelhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Balan&ccedil;o sobre desempenho da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) ao longo da sua exist&ecirc;ncia revela que efetiva&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o tem se deparado com s&eacute;rios limites de concep&ccedil;&atilde;o, estrutura e funcionamento no modelo institucional adotado.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[1722],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27207"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}