{"id":27202,"date":"2012-10-28T20:06:22","date_gmt":"2012-10-28T20:06:22","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27202"},"modified":"2012-10-28T20:06:22","modified_gmt":"2012-10-28T20:06:22","slug":"na-terra-como-na-midia-estamos-lidando-com-os-mesmos-problemas-a-questao-da-propriedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27202","title":{"rendered":"&#8220;Na terra como na m\u00eddia estamos lidando com os mesmos problemas: a quest\u00e3o da propriedade&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>[T&iacute;tulo original: Reforma agr&aacute;ria no ar]<\/em><\/p>\n<p>Para Silvio Mieli, jornalista e professor da faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o e Filosofia da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica (PUC-SP), a concentra&ccedil;&atilde;o de poder nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um espelho da concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria. &ldquo;Os primeiros grilaram terras p&uacute;blicas ou compraram terras de grileiros. Os &uacute;ltimos se apossaram do espectro eletromagn&eacute;tico por favorecimentos pol&iacute;ticos e pelo poder econ&ocirc;mico, ou ambos os casos.&rdquo;<\/p>\n<p>A opini&atilde;o do jornalista soma-se &agrave;s recentes manifesta&ccedil;&otilde;es pela democratiza&ccedil;&atilde;o na comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil, como a que ocorreu no dia 15 de outubro, em frente ao hotel Renassaince, onde estava ocorrendo um encontro da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Na ocasi&atilde;o, representantes do Coletivo Intervozes e do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (FNDC), entre outras organiza&ccedil;&otilde;es, levantaram cartazes denunciando abusos praticados por emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o, jornais e revistas.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, uma das conclus&otilde;es do recente estudo do pesquisador Tiago Cubas, do N&uacute;cleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agr&aacute;ria (Nera\/Unesp), &ldquo;S&atilde;o Paulo Agr&aacute;rio: representa&ccedil;&otilde;es da disputa territorial entre camponeses e ruralistas de 1988 a 2009&rdquo;, vai justamente nessa dire&ccedil;&atilde;o. A de que a m&iacute;dia corporativa totaliza a vis&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es capitalistas no campo; da&iacute; estereotipa e n&atilde;o aceita sujeitos e modos de produ&ccedil;&atilde;o alternativos.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Silvio Mieli analisa a atual conjuntura de luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211; H&aacute; tempos existe a viol&ecirc;ncia f&iacute;sica cometida pelo poder p&uacute;blico ou privado sobre os sem-terras, por meio de policiais e seguran&ccedil;as. A cobertura m&iacute;dia tradicional aborda tais ocorr&ecirc;ncias de forma tendenciosa. Por que a viol&ecirc;ncia contra o pobre &eacute; t&atilde;o naturalizada e at&eacute; ignorada pela m&iacute;dia corporativa at&eacute; hoje?<br \/><\/strong><br \/><strong>Silvio Mieli &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar &eacute; preciso lembrar que a m&iacute;dia &eacute; ultraconservadora. O conservador acha natural que 1 bilh&atilde;o de pessoas passem fome no mundo. Tamb&eacute;m passa a ser natural &mdash; e t&iacute;pico dos conservadores &mdash; que se use de viol&ecirc;ncia contra aqueles que querem sair dessa situa&ccedil;&atilde;o. Como diz o fil&oacute;sofo Giorgio Agamben, a m&iacute;dia gosta de pessoas indignadas, por&eacute;m passivas. Os grandes jornais n&atilde;o ter&atilde;o nenhum prurido em mostrar crian&ccedil;as famintas num lix&atilde;o qualquer da vida, mas reprovar&atilde;o veementemente qualquer a&ccedil;&atilde;o direta para corrigir essa injusti&ccedil;a. Ora, o mesmo modelo de concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria se espelhou para os meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. Os primeiros grilaram terras p&uacute;blicas ou compraram terras de grileiros. Os &uacute;ltimos se apossaram do espectro eletromagn&eacute;tico por favorecimentos pol&iacute;ticos e pelo poder econ&ocirc;mico, ou ambos os casos. &Eacute; por essas e outras que o sistema &eacute; capaz de tudo quando se trata de discutir a propriedade da terra ou de um meio de comunica&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o por acaso o slogan da democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o nos anos 1980 era: Reforma Agr&aacute;ria no Ar. Na terra como na m&iacute;dia estamos lidando com os mesmos problemas: a quest&atilde;o da propriedade, o seu uso social e quais modelos de desenvolvimento devem ser colocados em pr&aacute;tica.<br \/><strong><br \/>Em termos pr&aacute;ticos, que tipo de rela&ccedil;&atilde;o existe entre os jornais locais (e os nacionais) e o agroneg&oacute;cio para tratar os camponeses pobres sempre de forma criminosa?<br \/><\/strong><br \/>Todas as fam&iacute;lias que monopolizam os meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil s&atilde;o (direta ou indiretamente) grandes propriet&aacute;rios de terra. A fam&iacute;lia Saad (grupo Bandeirantes), que recentemente tamb&eacute;m entrou no ramo da m&iacute;dia impressa, &eacute; de grandes pecuaristas, Oct&aacute;vio Frias (pai) era um dos maiores granjeiros do pa&iacute;s.Portanto, al&eacute;m do servilismo ao poder, existem interesses diretos no setor. Muitos pol&iacute;ticos, mesmo os que se acham muito poderosos, viraram office-boys das grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Quanto aos grandes ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, transformaram-se em promoters de eventos dessas grandes empresas.<br \/><strong><br \/>Ap&oacute;s a chamada &ldquo;redemocratiza&ccedil;&atilde;o&rdquo; (p&oacute;s-ditadura), qual tem sido o peso das m&iacute;dias (locais e nacionais) no processo de naturaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia aos pobres e sem-terras e no entrave &agrave; reforma agr&aacute;ria?<br \/><\/strong><br \/>Costumo dizer que a m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; o 4o. poder, mas o 5o elemento. Temos a &aacute;gua, terra, fogo, ar e&hellip; os meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Vivemos imersos neles. Da&iacute; a import&acirc;ncia da qualidade do que se produz nesse meio. Mas no nosso caso brasileiro, ser&aacute; que podemos falar realmente de &ldquo;redemocratizac&atilde;o&rdquo; se, dentre tantos problemas herdados da ditadura, o acesso aos meios &eacute; t&atilde;o limitado ? Eis uma outra dimens&atilde;o da vida nacional que vive num estado de exce&ccedil;&atilde;o permanente. A ditadura configurou um modelo comunicacional que, mesmo findo o regime militar, continua de p&eacute;. &Eacute; s&oacute; pesquisar o papel da m&iacute;dia corporativa nos &uacute;ltimos grandes embates relativos &agrave;s quest&otilde;es ambientais e agr&aacute;rias para verificar como se comportam (Raposa Serra do Sol, MP 458, C&oacute;digo Florestal, Belo Monte&hellip;).<br \/><strong><br \/>O que um governo progressista ou a pr&oacute;pria sociedade maios esclarecida poderiam fazer para pressionar esses ve&iacute;culos por uma comunica&ccedil;&atilde;o mais equilibrada?<br \/><\/strong><br \/>Vejamos o exemplo da pentecostaliza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil. Considero a invas&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o por corpora&ccedil;&otilde;es que se autodenominam igrejas um dos maiores problemas contempor&acirc;neos na comunica&ccedil;&atilde;o de massa no Brasil. J&aacute; conviv&iacute;amos com uma s&eacute;rie de outros problemas, agora temos mais essa. O que o Estado fez? Ampliou o espa&ccedil;o e o poder desses grupos, inclusive atrav&eacute;s de alian&ccedil;as pol&iacute;tico-partid&aacute;rias. Entregou redes de televis&atilde;o para grupos que n&atilde;o representam nenhuma for&ccedil;a cultural local, agridem as tradi&ccedil;&otilde;es religiosas de matrizes africanas e fazem proselitismo do capitalismo como religi&atilde;o.&Eacute; claro que &eacute; preciso lutar pelo controle social da m&iacute;dia, mas acho que o caminho n&atilde;o &eacute; o de reformar o que est&aacute; a&iacute;, nem de cortar as propagandas estatais. A mesma t&aacute;tica do MST deve ser usada na luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o: a ocupa&ccedil;&atilde;o do espectro improdutivo (seja no &acirc;mbito social, cultural ou pedag&oacute;gico, que inclusive tem respaldo constitucional). N&atilde;o me refiro a ocupar os est&uacute;dios da Globo, mas, para al&eacute;m do espa&ccedil;o que o movimento social vem conquistando na internet, lutar por canais de comunica&ccedil;&atilde;o para os movimentos. Por que n&atilde;o uma MSTV, uma TV do MST? Chegou a hora de os movimentos sociais falarem ao povo diretamente, sem intermedi&aacute;rios e n&atilde;o s&oacute; pela internet, mas tamb&eacute;m atrav&eacute;s das ondas eletromagn&eacute;ticas, ou do que restou delas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o professor Silvio  Mieli, concentra&ccedil;&atilde;o de poder nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; espelho da  concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria; &quot;os primeiros grilaram terras p&uacute;blicas; os &uacute;ltimos, se apossaram do espectro  eletromagn&eacute;tico por favorecimentos pol&iacute;ticos e pelo poder econ&ocirc;mico&quot;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1721],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27202"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}