{"id":27181,"date":"2012-10-10T20:01:17","date_gmt":"2012-10-10T20:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27181"},"modified":"2012-10-10T20:01:17","modified_gmt":"2012-10-10T20:01:17","slug":"neoconservadorismo-religioso-fe-dinheiro-e-comunicacao-de-massa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27181","title":{"rendered":"Neoconservadorismo religioso: f\u00e9, dinheiro e comunica\u00e7\u00e3o de massa"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; algo de novo por tr&aacute;s dos azar&otilde;es.<\/p>\n<p>Os candidatos que surpreenderam por suas inten&ccedil;&otilde;es de voto em algumas cidades do pa&iacute;s podem n&atilde;o ser apenas &ldquo;azar&otilde;es&rdquo;. Talvez sejam a face mais evidente de um fen&ocirc;meno pol&iacute;tico que junta f&eacute;, dinheiro e comunica&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Os casos mais gritantes t&ecirc;m sido, at&eacute; o momento, Celso Russomano, em S&atilde;o Paulo, e Ratinho Jr., em Curitiba. Mas eles n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos. Ao contr&aacute;rio, expressam uma f&oacute;rmula que tem feito sucesso. N&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno que tende a tomar conta da pol&iacute;tica brasileira. N&atilde;o representa um setor social majorit&aacute;rio. N&atilde;o se vincula a um r&iacute;gido padr&atilde;o de classe. Mas se trata de uma maneira de se fazer pol&iacute;tica que tem ganhado corpo paulatinamente.<\/p>\n<p>Uma legi&atilde;o de candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador ser&aacute; eleita fazendo uso dessa receita. Estar&atilde;o alinhados aos que j&aacute; t&ecirc;m assento federal. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP, 2011), a bancada evang&eacute;lica eleita em 2010 mais que dobrou em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; de 2006, passando de 36 integrantes para 73 parlamentares.<\/p>\n<p>A f&oacute;rmula garante sucesso pessoal, financeiro e pol&iacute;tico. &Eacute; um meio de vida que tem na pol&iacute;tica um de seus bra&ccedil;os; na comunica&ccedil;&atilde;o, sua voz; na religi&atilde;o, sua plataforma.<\/p>\n<p>Embora retr&oacute;grado em v&aacute;rios sentidos, o neoconservadorismo religioso &eacute; um fen&ocirc;meno de novo tipo. Por sua rela&ccedil;&atilde;o umbilical com a religi&atilde;o e a comunica&ccedil;&atilde;o de massa, n&atilde;o se equipara a qualquer esp&eacute;cie anterior de populismo. O neoconservadorismo tamb&eacute;m &eacute; uma novidade em rela&ccedil;&atilde;o ao velho conservadorismo elitista, golpista e liberal. Aquele conservadorismo da Marcha da Fam&iacute;lia com Deus pela Liberdade, de 1964, e que fez da Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o seu principal inimigo, nos anos 1970 e 1980, colhe agora o fruto do que plantou: o maior retrocesso do catolicismo em todos os tempos, seu afastamento entre os mais pobres, sua dificuldade em modernizar-se.<\/p>\n<p>Segundo os dados do Censo de 2010, os evang&eacute;licos foram o segmento religioso que mais cresceu no Brasil nos &uacute;ltimos 10 anos. Saltaram de 15,4% da popula&ccedil;&atilde;o para 22,2%. Passaram de 26,2 milh&otilde;es para 42,3 milh&otilde;es de brasileiros. Em 1980, esse percentual era de apenas 6,6%. (IBGE, 2010)<\/p>\n<p>Os cat&oacute;licos, que em 2010 ostentaram um poderoso n&uacute;mero de 64,6% da popula&ccedil;&atilde;o, coincidentemente t&ecirc;m seu menor percentual no Rio de Janeiro (45,8%), estado onde o conservadorismo ortodoxo e o combate &agrave; Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o tinha sua organiza&ccedil;&atilde;o mais consistente e sua lideran&ccedil;a mais expressiva, Dom Eug&ecirc;nio Sales, arcebismo do Rio por 30 anos.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; na chamada &ldquo;nova&rdquo; classe m&eacute;dia que o segmento evang&eacute;lico mais cresce. &Eacute; entre mais pobres. Mais de 60% dos pentecostais recebem at&eacute; 1 sal&aacute;rio m&iacute;nimo. A segunda maior propor&ccedil;&atilde;o est&aacute; entre os sem religi&atilde;o (59,2% deles s&atilde;o pobres). Os cat&oacute;licos t&ecirc;m apenas a terceira maior propor&ccedil;&atilde;o nessa faixa de renda (55,8% ).<\/p>\n<p>O neoconservadorismo gosta de Estado, de pol&iacute;ticas sociais, da promo&ccedil;&atilde;o da igualdade. Talvez por raz&otilde;es crist&atilde;s, mas tamb&eacute;m porque se beneficiam dos tempos de bonan&ccedil;a. Podem obter retribui&ccedil;&atilde;o crescente dos fi&eacute;is que se julgam recompensados por alcan&ccedil;arem uma gra&ccedil;a (emprego, pagamento de d&iacute;vidas, aumento de sal&aacute;rio, um tratamento m&eacute;dico).<\/p>\n<p><strong>Demagogos modernos<br \/><\/strong><br \/>As caracter&iacute;sticas socioecon&ocirc;micas ajudam a entender, mas s&atilde;o insuficientes para explicar o fen&ocirc;meno por completo. Elas precisam ser vistas &agrave; luz da montagem de uma poderosa m&aacute;quina pol&iacute;tica a servi&ccedil;o do neoconservadorismo religioso. Os nomes lan&ccedil;ados &agrave; disputa municipal n&atilde;o foram escolhidos por sua posi&ccedil;&atilde;o na hierarquia religiosa. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, apenas 765 candidatos se declararam &quot;sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa&quot;, sendo apenas 37 os candidatos a prefeito (apenas 0,24% do total), 39 vice-prefeitos (0,26%) e 689 (0,16%) os candidatos a vereador nessa condi&ccedil;&atilde;o, incluindo todas as denomina&ccedil;&otilde;es religiosas. (TSE, 2012)<\/p>\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o dos candidatos com suas igrejas &eacute; certamente um senhor refor&ccedil;o, na medida em que est&atilde;o colados aos pastores que fazem sua prega&ccedil;&atilde;o eleitoral de forma ostensiva, no p&uacute;lpito e com o dinheiro dos fi&eacute;is, e a siglas partid&aacute;rias patrocinadas por tais igrejas. Mas, para que os candidatos sejam competitivos, precisam de algo mais. Esse algo mais atende pelo nome de comunica&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Em um sistema eleitoral no qual as campanhas s&atilde;o muito curtas, o eleitor &eacute; cego diante de muitos candidatos, e o comunicador reina. O maior problema de um candidato &eacute; se tornar conhecido. O segundo &eacute; evitar ser rejeitado (conhecido negativamente).<\/p>\n<p>O comunicador tem um hor&aacute;rio eleitoral gratuito todo santo dia &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o, conquistado, &eacute; bem verdade, por dotes pessoais. Ele deve ter talento na arte de atrair a aten&ccedil;&atilde;o, de mobilizar paix&otilde;es e &oacute;dios, de mexer com o sentimento das pessoas. Quando isso envolve prega&ccedil;&atilde;o religiosa, a fidelidade tem tudo para ser bastante forte. O suficiente para aguentar tr&ecirc;s meses de campanha sob fogo cruzado.<\/p>\n<p>O neoconservadorismo religioso pode ser uma novidade tamb&eacute;m por colher os frutos de um processo plantado desde 1997, quando se abriu espa&ccedil;o para uma nova leva de emissoras de r&aacute;dio e TV e &agrave; renova&ccedil;&atilde;o de antigas concess&otilde;es. Em muitos casos, elas mudaram de dono e foram parar nas m&atilde;os de organiza&ccedil;&otilde;es religiosas, a ponto de se ter formado uma grande rede nacional de emissoras diretamente associada a uma dessas igrejas. Al&eacute;m disso, se tornou pr&aacute;tica costumeira o aluguel de tempo de TV para programas de prega&ccedil;&atilde;o religiosa. Algo aconteceu naquela &eacute;poca que transformou os evang&eacute;licos em uma for&ccedil;a de grande peso midi&aacute;tico, antes mesmo de se tornarem uma for&ccedil;a pol&iacute;tica e social de maior express&atilde;o.<\/p>\n<p>Max Weber, no seu famoso texto em que distinguia os pol&iacute;ticos que viviam para a pol&iacute;tica daqueles que viviam da pol&iacute;tica, chamava a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que o jornalista havia se tornado o grande demagogo moderno. Tomava a express&atilde;o em seu sentido cl&aacute;ssico, ou seja, referindo-se a quem tinha o talento especial de ser um mestre na arte de convencer o p&uacute;blico a tomar partido, a se decidir a favor ou contra uma op&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A velha m&iacute;dia tem feito um convite di&aacute;rio &agrave; demagogia por meio da esculhamba&ccedil;&atilde;o do entendimento sobre a pol&iacute;tica. A dissemina&ccedil;&atilde;o da descren&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es faz grassar o moralismo rasteiro e a f&eacute; ritual&iacute;stica que disputa o lugar do debate sobre propostas. O neoconservadorismo agradece. Mesmo seus representantes mais toscos t&ecirc;m muito mais a dizer do que os candidatos engomados e da predile&ccedil;&atilde;o indiscreta da m&iacute;dia mais tradicional.<\/p>\n<p><em>Antonio Lassance &eacute; cientista pol&iacute;tico e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (IPEA). As opini&otilde;es expressas neste artigo n&atilde;o refletem necessariamente opini&otilde;es do Instituto.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os candidatos que surpreenderam por suas inten&ccedil;&otilde;es de voto em algumas  cidades do pa&iacute;s podem n&atilde;o ser apenas &ldquo;azar&otilde;es&rdquo;. 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