{"id":27172,"date":"2012-10-10T15:15:54","date_gmt":"2012-10-10T15:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27172"},"modified":"2012-10-10T15:15:54","modified_gmt":"2012-10-10T15:15:54","slug":"privatizacao-da-telefonia-a-concorrencia-que-nunca-existiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27172","title":{"rendered":"Privatiza\u00e7\u00e3o da telefonia: a concorr\u00eancia que nunca existiu"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">A Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988, no artigo 21, assegurava o monop&oacute;lio estatal no setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es brasileiro: somente empresas sob controle nacional e estatal poderiam explorar redes de telecomunica&ccedil;&otilde;es no Brasil. No ano de 1994, com a aprova&ccedil;&atilde;o da quebra do monop&oacute;lio nas telecomunica&ccedil;&otilde;es pelo Congresso Nacional, abriram-se os caminhos para que, quatro anos mais tarde, se consumasse a privatiza&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es brasileiras, com o pa&iacute;s sob o comando de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). <\/p>\n<p>&ldquo;Fernando Henrique ganhou as elei&ccedil;&otilde;es em 1994 com um projeto de privatiza&ccedil;&atilde;o e o primeiro passo para isso foi a quebra do monop&oacute;lio, que caiu da constitui&ccedil;&atilde;o e a&iacute; permitiu-se que sob concess&atilde;o e permiss&atilde;o o capital privado poderia assumir o controle de empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es&rdquo;, lembra o professor e pesquisador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas de Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (LapCom\/UnB) Murilo C&eacute;sar Ramos, acrescentando que a nova regula&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es no Brasil surge num contexto internacional de neoliberalismo. <\/p>\n<p>Segundo o diretor da Federa&ccedil;&atilde;o Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Fittel) Juan Sanchez enquanto o governo se preparava para privatizar o setor, e assim, substituir a presta&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es em monop&oacute;lio estatal por um regime aberto &agrave; entrada de entes da iniciativa privada, setores da sociedade mais especializados no tema, como a pr&oacute;pria Fittel e outras organiza&ccedil;&otilde;es como sindicatos, federa&ccedil;&otilde;es, centrais sindicais, partidos pol&iacute;ticos progressistas e movimentos sociais, articulados no &ldquo;Movimento em Defesa do Sistema Telebr&aacute;s&rdquo;, se mobilizavam para convencer autoridades do Executivo, Congresso e a sociedade em geral das consequ&ecirc;ncias negativas que a medida poderia trazer para o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&ldquo;Al&eacute;m das preocupa&ccedil;&otilde;es com a sociedade brasileira, tamb&eacute;m tem&iacute;amos pelo futuro dos trabalhadores, pois antev&iacute;amos um processo irresist&iacute;vel de demiss&otilde;es, terceiriza&ccedil;&atilde;o e precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho. Sendo assim, n&atilde;o nos restava alternativa, sen&atilde;o lutar. Fizemos den&uacute;ncias, alertas e compara&ccedil;&otilde;es. Publicamos dados, fatos e experi&ecirc;ncias de outras na&ccedil;&otilde;es na tentativa de abrir os olhos da sociedade para a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de publica&ccedil;&otilde;es, ampliamos a press&atilde;o sobre os parlamentares. Infelizmente as for&ccedil;as contr&aacute;rias eram muito poderosas. Restou apenas o testemunho para a hist&oacute;ria&rdquo;, destaca publica&ccedil;&atilde;o do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunica&ccedil;&otilde;es do Distrito Federal (Sinttel-DF), em texto referente &agrave;s atividades de luta contra a privatiza&ccedil;&atilde;o no ano de 1997.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><strong>&ldquo;Nas telecomunica&ccedil;&otilde;es, o monop&oacute;lio &eacute; natural&rdquo; <\/strong><\/p>\n<p>O &ldquo;Movimento em Defesa da Telebr&aacute;s&rdquo;, que surgiu em 1988 para defender que o monop&oacute;lio estatal das telecomunica&ccedil;&otilde;es estivesse assegurado na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, atuou durante uma d&eacute;cada (at&eacute; 1998) contra a privatiza&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. &ldquo;N&oacute;s, trabalhadores do Sistema Telebr&aacute;s, defendemos o monop&oacute;lio estatal. Defendemos o papel social da empresa p&uacute;blica, uma estatal de telecomunica&ccedil;&otilde;es que garanta servi&ccedil;os b&aacute;sicos &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirmava a publica&ccedil;&atilde;o &ldquo;Telecomunica&ccedil;&otilde;es por um fio&rdquo;, produzida pelo Sinttel-RJ.<\/p>\n<p>Segundo a edi&ccedil;&atilde;o de 26 de outubro de 1998 do Jornal do Usu&aacute;rio, publica&ccedil;&atilde;o criada pelo Sinttel-DF para mobilizar a popula&ccedil;&atilde;o do DF em torno do tema, a pr&oacute;pria Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) reconhecia, ainda em 1998, que o Brasil viveria um novo monop&oacute;lio das telecomunica&ccedil;&otilde;es algum tempo depois da privatiza&ccedil;&atilde;o. &ldquo;O mundo maravilhoso onde a competi&ccedil;&atilde;o faria chover telefones e empregos est&aacute; cada vez mais parecido com o mundo real onde poucos dominam o mercado, submetendo os interesses do pa&iacute;s e dos consumidores a interesses puramente comerciais. O presidente da Anatel, Renato Guerreiro, declarou em recente entrevista que o Brasil ter&aacute; apenas entre tr&ecirc;s e cinco operadoras de telefonia em um futuro n&atilde;o muito distante&rdquo;, dizia trecho do jornal. <\/p>\n<p>O professor Murilo Ramos conta que, quando o modelo estava sendo concebido, o Insituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (Ipea) contratou o pesquisador M&aacute;rcio Wohlers para fazer um estudo de infraestrutura, ainda na fase pr&eacute;-privatiza&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Quando o estudo ficou pronto, o Ipea fez um semin&aacute;rio interno e o M&aacute;rcio me convidou pra participar da discuss&atilde;o. Para minha surpresa, estavam presentes dois pilares do modelo de privatiza&ccedil;&atilde;o do governo Fernando Henrique: o advogado Carlos Ari Sundfeld, administrativista da PUC-SP, brilhante e academicamente muito s&oacute;lido, que foi contratado como consultor jur&iacute;dico para a elabora&ccedil;&atilde;o da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (LGT), e Alejandro Herrera, economista muito ligado ao Fernando Henrique e uma figura tamb&eacute;m muito importante no processo de formula&ccedil;&atilde;o modelo&rdquo;, relata Ramos que, neste dia, conheceu o modelo que estava prestes a ser adotado no Brasil. &ldquo;Na discuss&atilde;o, o M&aacute;rcio Wohlers argumentava que esse modelo n&atilde;o fazia sentido econ&ocirc;mico. Ele dizia que o mercado n&atilde;o tinha elasticidade para absorver tanta competi&ccedil;&atilde;o. E foi exatamente o que aconteceu: a TIM comprou a Intelig, a Embratel comprou a V&eacute;sper&#8230; Come&ccedil;ou errado ali. A ideia era que, depois que as empresas atendessem as metas de universaliza&ccedil;&atilde;o nas suas &aacute;reas, elas iam sair dessas &aacute;reas e competir com todas. Mas isso n&atilde;o aconteceu. Em lugar nenhum do mundo se criou um mercado, na telefonia fixa, com esse n&iacute;vel de competi&ccedil;&atilde;o&rdquo; , afirma Ramos. <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><strong>Efeitos da privatiza&ccedil;&atilde;o<br \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Apesar de todos os alertas e cr&iacute;ticas, o governo brasileiro &agrave; &eacute;poca seguiu com o projeto, justificando que a presta&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es em um ambiente competitivo proporcionaria servi&ccedil;os melhores e pre&ccedil;os menores. Mas, para o professor da UnB, esse &eacute; o grande fracasso deste modelo. &ldquo;Pensava-se que este modelo iria gerar competi&ccedil;&atilde;o, proporcionar a melhoria do servi&ccedil;o e isso n&atilde;o deu em nada. N&atilde;o houve e jamais haver&aacute; competi&ccedil;&atilde;o na telefonia. Houve uma fragmenta&ccedil;&atilde;o, mas nunca houve competi&ccedil;&atilde;o. Na realidade o que existe &eacute; um oligop&oacute;lio privado sob concess&atilde;o de Estado&rdquo;, afirma o professor. <\/p>\n<p>No mundo do trabalho, a privatiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m teve seus efeitos. &ldquo;O Sistema Telebr&aacute;s, no seu apogeu &ndash; d&eacute;cadas de 70, 80 &ndash; contava com uma m&eacute;dia de 90, 100 mil trabalhadores efetivos. Com a privatiza&ccedil;&atilde;o, ocorreram demiss&otilde;es em massa, veio a terceiriza&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o de obra e, de repente, o n&uacute;mero de servidores efetivos caiu para 60 mil. Hoje temos no m&aacute;ximo 10 mil servidores efetivos&rdquo;, afirma Juan Sanchez, que lembra tamb&eacute;m que a extin&ccedil;&atilde;o de alguns segmentos das operadoras provocou uma virtualiza&ccedil;&atilde;o do atendimento aos clientes. <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><strong>Resultados da mobiliza&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>O diretor da Fittel acredita que o &ldquo;Movimento em Defesa da Telebr&aacute;s&rdquo; teve um importante papel na Assembleia Nacional Constituinte para que o monop&oacute;lio estatal de explora&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es se mantivesse no pa&iacute;s e fosse assegurado na Carta Magna. &ldquo;Se isso n&atilde;o tivesse garantido na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, eles teriam privatizado o setor antes. Na Argentina, por exemplo, as telecomunica&ccedil;&otilde;es foram privatizadas em 1992&rdquo;, pontua Sanchez. <\/p>\n<p>&ldquo;Naquela &eacute;poca, voc&ecirc; tinha a atua&ccedil;&atilde;o da Fittel, que era a for&ccedil;a sindical de uma corpora&ccedil;&atilde;o muita aguerrida que tentou mobilizar o Congresso, o governo. Dentro dos limites poss&iacute;veis se lutou, mas era uma luta de especialistas, de pouca gente: n&atilde;o teve grandes passeatas, protestos, manifesta&ccedil;&otilde;es&rdquo;, lembra Murilo Ramos. O professor atribui a pouca mobiliza&ccedil;&atilde;o ao fato de poucas pessoas terem telefone na &eacute;poca. &ldquo;Mesmo quem tinha, pouco usava, era muito caro, dif&iacute;cil,n&atilde;o tinha como mobilizar. S&oacute; os especialistas, corpora&ccedil;&otilde;es, os movimentos muito ligados &agrave; quest&atilde;o estavam preocupados com isso&rdquo;, ressalta ele, que tamb&eacute;m chama aten&ccedil;&atilde;o para o desgaste que a Telebr&aacute;s sofria, sobretudo entre a classe m&eacute;dia, por conta dos altos pre&ccedil;os que a empresa passou a cobrar pelos servi&ccedil;os, depois de uma grande redu&ccedil;&atilde;o no seu financiamento. <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">A Fittel chegou a elaborar um projeto t&eacute;cnico alternativo &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o. O documento sugeria a cria&ccedil;&atilde;o de&nbsp;uma empresa p&uacute;blica&nbsp;chamada&nbsp;Brasil Telecom,&nbsp;uma operadora nacional que entraria no rol das operadoras transnacionais do mundo,&nbsp;como a British Telecom, France Telecom, e Deutsch Telecom, da Alemanha,&nbsp;concorrendo com elas no mercado mundial. <\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">O leil&atilde;o que efetivou a privatiza&ccedil;&atilde;o do Sistema Telebr&aacute;s aconteceu no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1998. O governo vendeu o controle de tr&ecirc;s holdings de telefonia fixa, uma de longa dist&acirc;ncia (Embratel) e oito de telefonia celular. Com isso arrecadou R$ 22,058 bilh&otilde;es &#8211; um &aacute;gio de 63,7% sobre o pre&ccedil;o estipulado &#8211; na maior privatiza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria do pa&iacute;s. Formavam o sistema empresas regionais e estaduais, como a Telesp, Telerj e Telebras&iacute;lia. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade n&atilde;o foi suficiente para barrar a privatiza&ccedil;&atilde;o do Sistema Telebr&aacute;s, em 1998, a maior da hist&oacute;ria do pa&iacute;s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[955],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27172"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}