{"id":27161,"date":"2012-09-27T19:45:02","date_gmt":"2012-09-27T19:45:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27161"},"modified":"2012-09-27T19:45:02","modified_gmt":"2012-09-27T19:45:02","slug":"lei-de-acesso-a-informacao-publica-um-balanco-inicial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27161","title":{"rendered":"Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o P\u00fablica: um balan\u00e7o inicial"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez superada a infausta fase de aprova&ccedil;&atilde;o da aludida lei, as preocupa&ccedil;&otilde;es agora devem se concentrar em sua plena aplica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; chegado o dif&iacute;cil momento da afirma&ccedil;&atilde;o de todo o conte&uacute;do transformador da lei, contra o qual militam, aberta ou ocultamente, a improbidade e a inefici&ecirc;ncia administrativas.<\/p>\n<p>Desde 1988, com a promulga&ccedil;&atilde;o da vigente Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, o amplo acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &eacute; a regra, e o sigilo, a exce&ccedil;&atilde;o. Essa l&oacute;gica republicana &eacute; extra&iacute;da do texto constitucional com absoluta facilidade. A Lei de Acesso &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica (Lei n. 12.527\/2011) n&atilde;o introduziu um valor novo na ordem constitucional brasileira, mas dotou de imprescind&iacute;veis garantias o direito fundamental de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute; o verdadeiro car&aacute;ter revolucion&aacute;rio da nova lei: passou-se de uma proclama&ccedil;&atilde;o constitucional, em termos fluidos, para mecanismos concretos de transpar&ecirc;ncia ativa&ndash; divulga&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea de informa&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, independentemente de solicita&ccedil;&atilde;o &ndash; e transpar&ecirc;ncia passiva&ndash; divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas em atendimento a uma solicita&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m do que se estabeleceram procedimentos e par&acirc;metros para eventuais restri&ccedil;&otilde;es de acesso e se definiram as responsabilidades dos agentes p&uacute;blicos, civis ou militares, por poss&iacute;veis viola&ccedil;&otilde;es ao direito de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Uma vez superada a infausta fase de aprova&ccedil;&atilde;o da aludida lei, o que, por si s&oacute;, representou um inestim&aacute;vel avan&ccedil;o em termos democr&aacute;ticos, as preocupa&ccedil;&otilde;es agora devem se concentrar em sua plena aplica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; chegado o dif&iacute;cil momento da afirma&ccedil;&atilde;o de todo o conte&uacute;do transformador da lei, contra o qual militam, aberta ou ocultamente, a improbidade e a inefici&ecirc;ncia administrativas.<\/p>\n<p><strong>Primeiros levantamentos da CGU<\/strong><\/p>\n<p>No &acirc;mbito federal, as perspectivas s&atilde;o positivas. De acordo com levantamento da Controladoria-Geral da Uni&atilde;o (CGU), nos tr&ecirc;s primeiros meses de vig&ecirc;ncia da lei os &oacute;rg&atilde;os e entidades do Poder Executivo Federal receberam 25.065 solicita&ccedil;&otilde;es de informa&ccedil;&atilde;o, das quais, at&eacute; o dia 16 de julho de 2012, 22.552 (89,97%) j&aacute; tinham sido respondidas. Al&eacute;m disso, segundo o Sistema Eletr&ocirc;nico do Servi&ccedil;o de Informa&ccedil;&otilde;es ao Cidad&atilde;o (e-SIC), criado pela CGU para acompanhar os pedidos de maneira centralizada, as respostas v&ecirc;m sendo oferecidas no prazo m&eacute;dio de dez dias (o prazo legal &eacute; de vinte dias, prorrog&aacute;veis por mais dez).<\/p>\n<p>Tais dados permitem reconhecer n&atilde;o s&oacute; o n&iacute;vel satisfat&oacute;rio de atendimento do Executivo Federal, mas, sobretudo, a r&aacute;pida assimila&ccedil;&atilde;o da lei pela sociedade civil. Em dizer coloquial, ao que tudo indica a lei &ldquo;pegou&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Dificuldades de aplica&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Como se sabe, a Lei de Acesso &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica &eacute; endere&ccedil;ada indistintamente &agrave; Uni&atilde;o, aos estados, ao Distrito Federal e aos munic&iacute;pios. Lamentavelmente, contudo, ao contr&aacute;rio da Uni&atilde;o, os munic&iacute;pios est&atilde;o demonstrando, de modo geral, um absoluto descaso com a transpar&ecirc;ncia e, mais especificamente, com os deveres estabelecidos pela lei. Assim, por exemplo, em recente pesquisa realizada pela Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), de 133 cidades com mais de 200 mil habitantes, apenas 16 responderam a um singelo pedido de informa&ccedil;&atilde;o. Trata-se de um retrato da cr&ocirc;nica inefici&ecirc;ncia que caracteriza a maioria das administra&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas municipais e, ao mesmo tempo, da cultura do sigilo que, infelizmente, ainda viceja no Brasil.<\/p>\n<p>Tampouco &eacute; digna de aplausos a situa&ccedil;&atilde;o dos estados. Com raras exce&ccedil;&otilde;es, os executivos, legislativos, tribunais de contas e minist&eacute;rios p&uacute;blicos estaduais tardam no cumprimento da Lei de Acesso &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica.<\/p>\n<p><strong>Desvios interpretativos<\/strong><\/p>\n<p>Tamb&eacute;m merece aten&ccedil;&atilde;o a cobertura midi&aacute;tica que recebe a legisla&ccedil;&atilde;o. Embora de insuspeita relev&acirc;ncia, a excessiva explora&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica da divulga&ccedil;&atilde;o das remunera&ccedil;&otilde;es dos agentes p&uacute;blicos encobre outros aspectos legais de igual ou superior import&acirc;ncia, aos quais, sorrateiramente, come&ccedil;a-se a emprestar interpreta&ccedil;&otilde;es distantes &ndash; para dizer o m&iacute;nimo &ndash; dos prop&oacute;sitos que animaram a edi&ccedil;&atilde;o da referida lei.<\/p>\n<p>Exemplo eloquente encontra-se no fundamental&iacute;ssimo dispositivo que estende a aplica&ccedil;&atilde;o da lei &agrave;s entidades privadas sem fins lucrativos que recebam, para realiza&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es de interesse p&uacute;blico, recursos p&uacute;blicos diretamente do or&ccedil;amento ou mediante subven&ccedil;&otilde;es sociais, contrato de gest&atilde;o, termo de parceria, conv&ecirc;nios, acordo, ajustes ou outros instrumentos cong&ecirc;neres. N&atilde;o obstante os not&oacute;rios e frequentes casos de desvios de recursos p&uacute;blicos operados nesse setor, j&aacute; se descortina, sem qualquer alarde, uma tend&ecirc;ncia de interpreta&ccedil;&otilde;es orientadas a subtrair tais entidades dos deveres de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Ilustra essa tend&ecirc;ncia o Instituto Curitiba de Inform&aacute;tica (ICI), associa&ccedil;&atilde;o privada sem fins lucrativos qualificada como organiza&ccedil;&atilde;o social (OS) que, apesar das vultosas quantias anuais recebidas da Prefeitura de Curitiba, nega solenemente os pedidos de informa&ccedil;&atilde;o formulados pelo professor de Direito Administrativo e blogueiro Tarso Cabral Violin (blogdotarso.com).<\/p>\n<p><strong>Acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica<\/strong><\/p>\n<p>Nos quadrantes de um Estado democr&aacute;tico de direito, em que o poder reside no povo (art. 1&ordm;, par&aacute;grafo &uacute;nico da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal), os assuntos estatais a todos interessam. Eis por que a publicidade n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de escolha do administrador p&uacute;blico. Trata-se de um dever inescus&aacute;vel, cujo descumprimento sujeita o infrator &agrave;s penalidades previstas em lei.<\/p>\n<p>Sabe-se, por&eacute;m, que as normas jur&iacute;dicas n&atilde;o s&atilde;o aplicadas automaticamente e que o administrador p&uacute;blico &ndash; os exemplos indicados acima e a hist&oacute;ria o provam &ndash; n&atilde;o se render&aacute;, num ato de ilumina&ccedil;&atilde;o divina, aos imperativos da transpar&ecirc;ncia. &Eacute; imperioso o engajamento da sociedade em prol do direito fundamental ao acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. S&oacute; assim o Estado brasileiro se despedir&aacute; do odioso patrimonialismo que sempre o acompanhou. Um grande passo foi dado. Os pr&oacute;ximos depender&atilde;o, essencialmente, da participa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p><em>Pedro Serrano &#8211; Mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP e professor da Direito Constitucional da mesma institui&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>Rafael Valim &#8211; Mestre e doutorando em Direito Admnistrativo pela PUC-SP e professor do curso de especializa&ccedil;&atilde;o em Direito Administrativo da mesma institui&ccedil;&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&Eacute; chegado o dif&iacute;cil momento da afirma&ccedil;&atilde;o de todo o conte&uacute;do  transformador da lei, contra o qual militam, aberta ou ocultamente, a  improbidade e a inefici&ecirc;ncia administrativas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1715],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27161"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27161"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27161\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}