{"id":27159,"date":"2012-09-27T19:38:34","date_gmt":"2012-09-27T19:38:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27159"},"modified":"2012-09-27T19:38:34","modified_gmt":"2012-09-27T19:38:34","slug":"bastidores-de-um-julgamento-e-de-uma-cruzada-midiatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27159","title":{"rendered":"Bastidores de um julgamento e de uma \u201ccruzada midi\u00e1tica\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O Supremo Tribunal Federal (STF) entrou na era do pop com o in&iacute;cio da transmiss&atilde;o ao vivo dos seus julgamentos, em 2002. E, a despeito de alguns efeitos colaterais apontados com preocupa&ccedil;&atilde;o por estudiosos do Direito, como a exacerba&ccedil;&atilde;o do ego dos atores sociais envolvidos, a iniciativa s&oacute; revigora a democracia. Da mesma forma com que ministros se aproximam da popula&ccedil;&atilde;o, a ponto de se tornarem her&oacute;is defendidos com o mesmo ardor que artilheiros da sele&ccedil;&atilde;o brasileira, as mazelas do poder mais encalacrado da rep&uacute;blica s&atilde;o descortinadas aos olhos de quem quiser ver. E, pelo menos neste aspecto, o julgamento do &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo; tem sido, sim, emblem&aacute;tico.<\/p>\n<p>Na sess&atilde;o desta quarta (25), a 28&ordf; do julgamento que a m&iacute;dia tenta vender como o &ldquo;maior da hist&oacute;ria&rdquo;, os ministros relator, Joaquim Barbosa, e revisor, Ricardo Lewandowski, voltaram a se estranhar, como j&aacute; havia ocorrido antes, e mais de uma vez. Mas o tom subiu mais do que o normal. Barbosa se irritou, entre outras coisas, porque o revisor considerou que n&atilde;o havia provas definitivas para condenar um r&eacute;u que ele j&aacute; havia taxado, antes, como culpado.<\/p>\n<p>Bastante alterado, Barbosa acusou Lewandowski de fazer &ldquo;vista grossa&rdquo; aos autos, insinuou que o colega se valia de &ldquo;hipocrisia&rdquo;, entre outras acusa&ccedil;&otilde;es. O revisor, que deixou claro o seu direito a ter um entendimento diferenciado, reagiu e disse que se o relator n&atilde;o conseguia admitir a contradi&ccedil;&atilde;o, deveria propor a extin&ccedil;&atilde;o da figura do &ldquo;ministro-revisor&rdquo;.<\/p>\n<p>Outros ministros sa&iacute;ram em socorro de Lewandowski. &ldquo;Cuidado com suas palavras. Vamos respeitar os colegas. Agressividade n&atilde;o tem lugar nesse plen&aacute;rio&rdquo;, disse Marco Aur&eacute;lio Mello. E, ap&oacute;s a interven&ccedil;&atilde;o do presidente da corte, Ayres Britto, o &ldquo;julgamento-espet&aacute;culo&rdquo; prosseguiu sem a presen&ccedil;a de Barbosa no plen&aacute;rio.<\/p>\n<p>Acontece que o relator vem construindo uma rela&ccedil;&atilde;o bastante s&oacute;lida com a m&iacute;dia, dentro e fora do plen&aacute;rio da corte. Nos seus votos, reverbera, coincid&ecirc;ncia ou n&atilde;o, o veredito que as reda&ccedil;&otilde;es j&aacute; haviam fechado antes mesmo do in&iacute;cio do julgamento: todos os r&eacute;us s&atilde;o culpados e o STF s&oacute; precisa oficializar isso o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel. Barbosa, al&eacute;m de condenar com pulso firme, mantendo-se fiel &agrave; tese da den&uacute;ncia, &eacute; o &ldquo;garoto-propaganda&rdquo; da cruzada midi&aacute;tica por agilidade a qualquer pre&ccedil;o na condu&ccedil;&atilde;o do processo. Nos bastidores, desafia a conven&ccedil;&atilde;o de que ministro n&atilde;o fala sobre processos em andamento e atende com incomum presteza os jornalistas que o procuram ao final de cada sess&atilde;o. Mas, para se resguardar de poss&iacute;veis cr&iacute;ticas, o faz sempre em &ldquo;off&rdquo;.<\/p>\n<p>Off &eacute; a redu&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o &ldquo;off de record&rdquo; que, em ingl&ecirc;s, significa fora dos registros. Segundo o Manual de Reda&ccedil;&atilde;o da Folha de S&atilde;o Paulo, &ldquo;designa informa&ccedil;&atilde;o de fonte que se mant&eacute;m an&ocirc;nima&rdquo;. Conforme o de O Globo, &ldquo;&eacute; um caso especial de declara&ccedil;&atilde;o, em que a fonte n&atilde;o &eacute; identificada&rdquo;. No jornalismo estadunidense, significa informa&ccedil;&atilde;o que deve ser usada apenas para a condu&ccedil;&atilde;o da reportagem, jamais para ser lan&ccedil;ada como verdade inquestion&aacute;vel. No jornalismo tupiniquim, entretanto, o &ldquo;off&rdquo; serve de salvaguarda tamb&eacute;m para todo tipo de manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o, como aquelas reveladas recentemente com o esc&acirc;ndalo Veja-Cachoeira. Onde enquadrar, ent&atilde;o, a pr&aacute;tica recorrente de Barbosa?<\/p>\n<p>A inten&ccedil;&atilde;o confessa do relator parece nobre: ajudar a dirimir as d&uacute;vidas de uma categoria que, em geral, muito pouco familiarizada com os pormenores do direito. O &ldquo;off&rdquo;entra como estrat&eacute;gia necess&aacute;ria para o magistrado manter a devida discri&ccedil;&atilde;o e o necess&aacute;rio distanciamento dos fatos. O resultado, por&eacute;m, &eacute; outro: suas interven&ccedil;&otilde;es sempre ultrapassam o limite de poss&iacute;veis respostas objetivas a d&uacute;vidas t&eacute;cnicas. O relator reafirma a superioridade das suas teses jur&iacute;dicas, cobra agilidade no voto dos demais colegas e cr&iacute;ticas posi&ccedil;&otilde;es discrepantes, em especial as do revisor.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso reconhecer que, no in&iacute;cio, havia at&eacute; uma certa resist&ecirc;ncia por parte dos jornalistas. &ldquo;O Barbosa de novo n&atilde;o, gente&rdquo;, &ldquo;&Eacute; preciso variar a fonte&rdquo;, &ldquo;Ele s&oacute; fala em off&rdquo;, comentavam. &ldquo;N&atilde;o tem jeito. A gente mal come&ccedil;a a pronunciar ministro e ele j&aacute; est&aacute; aqui&rdquo;, reclamava outro. &ldquo;Ele &eacute; muito grosso. Eu tenho at&eacute; medo de dirigir uma pergunta para ele&rdquo;, confessava uma &ldquo;foca&rdquo;. Mas agora, passados quase dois meses do in&iacute;cio do julgamento, a quest&atilde;o parece pacificada. Ningu&eacute;m mais questiona a supremacia do relator como &ldquo;comentarista oficial&rdquo; do processo.<\/p>\n<p>E, assim, ele assume cada vez mais ares de editor-geral de toda a imprensa dita &ldquo;livre&rdquo;. De uma feita, reclamou dos jornalistas que contrapunham seus argumentos com as teses da defesa. De outra, atacou o delegado da Pol&iacute;cia Federal Lu&iacute;s Fl&aacute;vio Zampronha, que criticou, via imprensa, a inclus&atilde;o de duas das r&eacute;s no processo. &ldquo;Todo agente p&uacute;blico tem uma s&eacute;rie de limita&ccedil;&otilde;es: precisa ser discreto, manter o sigilo. Foi um deslize grav&iacute;ssimo [a concess&atilde;o da entrevista com coment&aacute;rios sobre a a&ccedil;&atilde;o]&rdquo;, afirmou, em &ldquo;off&rdquo;. Contra senso? A imprensa sequer discute. A pr&aacute;tica institucionalizada parece perfeita para ambos. O ministro abastece a m&iacute;dia com o combust&iacute;vel necess&aacute;rio para justificar esses sete anos de &ldquo;justi&ccedil;amento&rdquo; dos r&eacute;us do &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo;. E Barbosa, em contrapartida, &eacute; al&ccedil;ado ao posto de her&oacute;i nacional, com direito a foto de primeira p&aacute;gina transvestido de super-homem. Est&aacute; tudo nos jornais.<\/p>\n<p>Quem ler, ouvir ou assistir as reportagens sobre a sess&atilde;o de julgamento do mensal&atilde;o desta quarta, pode at&eacute; comprar o &ldquo;conto de fadas&rdquo; de que o &ldquo;her&oacute;i&rdquo; Joaquim Barbosa s&oacute; estava defendendo a sociedade brasileira do seu arqui-inimigo Ricardo Lewandowski, que tentava inviabilizar as condena&ccedil;&otilde;es de &ldquo;corruptos inveterados&rdquo;. Quem assistiu &agrave; sess&atilde;o ao vivo, entretanto, ter&aacute; outra percep&ccedil;&atilde;o: a de que o relator, ego inflamado, pode estar tentando intimidar os ministros que acolhem interpreta&ccedil;&otilde;es, das leis e dos fatos, divergentes da sua. Algo indefens&aacute;vel em um &oacute;rg&atilde;o colegiado de Justi&ccedil;a. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos bastidores, Barbosa desafia a conven&ccedil;&atilde;o de que ministro n&atilde;o fala sobre  processos em andamento e atende com incomum presteza os jornalistas que o  procuram ao final de cada sess&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1557],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27159"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27159"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27159\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}