{"id":27118,"date":"2012-09-11T19:02:18","date_gmt":"2012-09-11T19:02:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27118"},"modified":"2012-09-11T19:02:18","modified_gmt":"2012-09-11T19:02:18","slug":"stf-reabre-debate-sobre-publicidade-e-bonus-de-volume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27118","title":{"rendered":"STF reabre debate sobre publicidade e b\u00f4nus de volume"},"content":{"rendered":"<p>As cr&iacute;ticas dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) &agrave; Lei 12.232\/2010, que regulamenta a contrata&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de publicidade por &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, apresentadas durante o julgamento da a&ccedil;&atilde;o penal 470, reabriram o debate sobre a regulamenta&ccedil;&atilde;o da publicidade estatal no Brasil. O presidente da corte, ministro Ayres Britto, definiu o dispositivo como &ldquo;um tranco &agrave; fun&ccedil;&atilde;o legisladora do estado&rdquo;. Outros ministros, como Celso de Mello, Cezar Peluso e Gilmar Mendes, tamb&eacute;m apontaram para a inconstitucionalidade da norma.<\/p>\n<p>Em um voto incisivo, Britto chegou a afirmar que o anteprojeto da lei foi alterado durante sua tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara para beneficiar os r&eacute;us do chamado &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo;, ao incluir um artigo que estende a norma &ldquo;&agrave;s licita&ccedil;&otilde;es j&aacute; abertas, aos contratos em fase de execu&ccedil;&atilde;o e aos efeitos pendentes dos contratos j&aacute; encerrados na data de sua publica&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Conforme ele, o texto acrescido &eacute; uma afronta ao artigo 5&ordm;, inciso XXXVI, da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, segundo o qual &ldquo;a lei n&atilde;o prejudicar&aacute; o direito adquirido, o ato jur&iacute;dico perfeito e a coisa julgada&rdquo;.<\/p>\n<p>Para o doutor em Direito e autor do livro &ldquo;Direito da Publicidade&rdquo;, Henrique Costa, as manifesta&ccedil;&otilde;es dos ministros abrem espa&ccedil;o para uma a&ccedil;&atilde;o declarat&oacute;ria de inconstitucionalidade da lei 12.232. &ldquo;O voto do Ayres Britto pode reabrir, no futuro, o debate sobre como deve ser interpretado esse dispositivo. Isso &eacute; o mais importante para todo o setor [da publicidade], que foi ao Legislativo e conseguiu uma lei que o Supremo parece estar insatisfeito agora&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (MPF) junto ao Tribunal de Contas da Uni&atilde;o (TCU) j&aacute; deu ind&iacute;cios de que poder&aacute; seguir este caminho ao pedir a corte de contas o sobrestamento das apura&ccedil;&otilde;es feitas em contratos de ag&ecirc;ncias de publicidade com o Banco do Brasil. &ldquo;A mat&eacute;ria que ora se examina encontra-se sob extensa e minuciosa an&aacute;lise da corte suprema, nos autos da A&ccedil;&atilde;o Penal n&ordm; 470, cuja decis&atilde;o pode vir a influenciar o m&eacute;rito deste apelo&rdquo;, justificou o subprocurador-geral do MPF junto ao TCU, Paulo Bugarin, em recurso de revis&atilde;o expedido em agosto.<\/p>\n<p>Apesar do recurso de revis&atilde;o se referir a contratos espec&iacute;ficos, Henrique<br \/>Costa aponta que o significado pr&aacute;tico da medida &ldquo;&eacute; que ningu&eacute;m vai decidir nada sobre publicidade no TCU at&eacute; o fim do mensal&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>B&ocirc;nus de volume<br \/><\/strong><br \/>A lei 12.232\/2010 entrou na discuss&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o penal 470 porque cinco r&eacute;us foram denunciados, entre outros crimes, pela pr&aacute;tica de peculato referente a desvios dos chamados &ldquo;b&ocirc;nus de volume&rdquo;, ou BV, a comiss&atilde;o paga pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &agrave;s ag&ecirc;ncias de publicidade, conforme o volume de propaganda negociado entre eles. Apesar de ser uma pr&aacute;tica de mercado que remonta aos anos 1950, o pagamento do b&ocirc;nus s&oacute; foi institucionalizado pela lei em quest&atilde;o.<\/p>\n<p>O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, e os s&oacute;cios da DNA Propaganda, Marcos Val&eacute;rio, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, foram acusados de permitir que a ag&ecirc;ncia se apropriasse dos R$ 2,9 milh&otilde;es repassados como b&ocirc;nus pelos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o. J&aacute; o ex-presidente da C&acirc;mara, Jo&atilde;o Paulo Cunha, foi acusado de possibilitar que a ag&ecirc;ncia SMP&amp;B, dos mesmos s&oacute;cios, ficasse com os R$ 2,1 milh&otilde;es dos BVs decorrentes da publicidade feita pela casa.<\/p>\n<p>A defesa dos r&eacute;us, entretanto, alegou que a edi&ccedil;&atilde;o da lei 12.232 teria configurado &ldquo;abolitio criminis&rdquo;, ou seja, tornado l&iacute;cita a conduta pela qual os empres&aacute;rios foram denunciados. A lei evocada diz em seu artigo 15 que pertencem ao &ldquo;contratante as vantagens obtidas em negocia&ccedil;&atilde;o de compra de m&iacute;dia&rdquo;. Por&eacute;m, abre uma exce&ccedil;&atilde;o e legaliza o b&ocirc;nus de volume ao permitir, no artigo 18, &ldquo;planos de incentivo por ve&iacute;culo de divulga&ccedil;&atilde;o&rdquo; e ao definir que os frutos resultantes destes planos constituem &ldquo;receita pr&oacute;pria da ag&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas o ministro-relator, Joaquim Barbosa, considerou as acusa&ccedil;&otilde;es procedentes e pediu a condena&ccedil;&atilde;o de todos. &ldquo;At&eacute; mesmo na contrata&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de m&iacute;dia, o Banco do Brasil era o titular dos cr&eacute;ditos eventualmente concedidos por ve&iacute;culos de divulga&ccedil;&atilde;o. O contrato assim estabelecia porque n&atilde;o era a ag&ecirc;ncia quem negociava com o ve&iacute;culo de divulga&ccedil;&atilde;o, mas sim o pr&oacute;prio Banco do Brasil o fazia diretamente&rdquo;, esclareceu.<\/p>\n<p><strong>B&ocirc;nus X outras bonifica&ccedil;&otilde;es<br \/><\/strong><br \/>O ministro-revisor, Ricardo Lewandowski, discordou. Para ele, os b&ocirc;nus de volume n&atilde;o podem ser confundidos com as demais bonifica&ccedil;&otilde;es pagas pelos ve&iacute;culos, essas sim devidas ao BB por quest&otilde;es contratuais. &ldquo;Uma coisa s&atilde;o os b&ocirc;nus de volume, que podem at&eacute; ter sido legitimamente recebidos, segundo os conceitos vigentes no mercado. Outra coisa &eacute; a empresa emitir faturas a t&iacute;tulo de b&ocirc;nus de volume, mas que na verdade correspondem a outros servi&ccedil;os&rdquo;, destacou.<\/p>\n<p>Com base neste entendimento, ele absolveu Jo&atilde;o Paulo Cunha que, na interpreta&ccedil;&atilde;o dele, repassou &agrave; ag&ecirc;ncia apenas os b&ocirc;nus de volume, pr&aacute;tica j&aacute; pacificada pelo mercado na &eacute;poca. Mas condenou Pizzolato e os s&oacute;cios da DNA por considerar que eles permitiram a apropria&ccedil;&atilde;o ind&eacute;bita pela ag&ecirc;ncia de outras bonifica&ccedil;&otilde;es que deveriam ser destinadas ao BB. Com base em parecer do TCU, o revisor sustentou que o valor relativo aos b&ocirc;nus de volume era de apenas R$ 420 mil. Segundo ele, o restante dos R$ 2,9 milh&otilde;es era proveniente de outras bonifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de Dias Toffoli, os demais ministros n&atilde;o fizeram distin&ccedil;&atilde;o entre BV e demais bonifica&ccedil;&otilde;es. E criticaram duramente o parecer do TCU, alegando que o entendimento contrastava com o do Instituto Nacional de Criminal&iacute;stica, que n&atilde;o considerou os b&ocirc;nus devidos &agrave; ag&ecirc;ncia. O presidente da corte disse que, frente ao impasse, prevalecia o entendimento do &uacute;ltimo. &ldquo;A minha conclus&atilde;o &eacute; a de que, no caso, diante dessa diverg&ecirc;ncia, desse confronto de aprecia&ccedil;&atilde;o sobre os mesmos fatos, o que deve ser levado em considera&ccedil;&atilde;o pelo magistrado &eacute; o quadro factual devidamente provado pela inst&acirc;ncia penal&rdquo;, observou.<\/p>\n<p>O posicionamento do TCU em considerar regular o mecanismo do b&ocirc;nus de volume desde a edi&ccedil;&atilde;o da lei 12.232 j&aacute; vinha sendo criticado no curso da a&ccedil;&atilde;o penal. &Agrave;s v&eacute;speras do julgamento, em 20 de julho, o &oacute;rg&atilde;o emitiu nota explicando que apenas &ldquo;aplicou disposi&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita de lei aprovada pelo Congresso Nacional&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Press&atilde;o do mercado<br \/><\/strong><br \/>Um dia ap&oacute;s o presidente do STF criticar a lei que regulamenta a publicidade estatal, o ministro da Justi&ccedil;a, Jos&eacute; Eduardo Cardozo (PT), refutou, em entrevista &agrave; imprensa, a hip&oacute;tese dela ter sido alterada para beneficiar os r&eacute;us do mensal&atilde;o. &ldquo;Sinceramente eu acredito, por tudo aquilo que eu vi, que n&atilde;o havia ali nenhuma outra inten&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o fosse acolher um posicionamento do mercado, das ag&ecirc;ncias de propaganda e de televis&atilde;o, n&atilde;o somente nos novos contratos, como previa o projeto original, como tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o ao passado&rdquo;, afirmou.<\/p>\n<p>Cardozo foi o autor do antiprojeto da lei 12.232, quando era atuava como deputado. No texto original apresentado por ele, os efeitos da lei s&oacute; valeriam para contratos futuros. Entretanto, durante a tramita&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria na Comiss&atilde;o de Trabalho, de Administra&ccedil;&atilde;o e Servi&ccedil;o P&uacute;blico (Ctasp) da C&acirc;mara, sob a relatoria de Milton Monti (PR-SP), foi inclu&iacute;do o artigo que estendeu o alcance da lei aos chamados &ldquo;fatos pret&eacute;ritos&rdquo;. O acr&eacute;scimo foi defendido tamb&eacute;m pelo relator da mat&eacute;ria na Comiss&atilde;o de Finan&ccedil;as e Tributa&ccedil;&atilde;o (CFT), Andr&eacute; Vargas (PT-PR), e declarado constitucional pelo relator na Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a (CCJ), Mendes Ribeiro Filho (PMDB-RS), hoje ministro da Agricultura.<\/p>\n<p>Ainda que r&eacute;us do mensal&atilde;o tenham se beneficiado da nova reda&ccedil;&atilde;o, corrobora com o entendimento de Cardozo o fato que, no Senado, a mat&eacute;ria passou pelas m&atilde;os de parlamentares da oposi&ccedil;&atilde;o e governistas, e sempre manteve o dispositivo. Na Comiss&atilde;o de Assuntos Econ&ocirc;micos (CAE), o relator foi Flexa Ribeiro (PSDB-PA). Na CCJ, Francisco Dornelles (PP-RJ). A import&acirc;ncia da mat&eacute;ria chegou a ser destacada v&aacute;rias vezes pelo ent&atilde;o presidente da CCJ, o senador cassado Dem&oacute;stenes Torres (ex-DEM-GO), nos seus balan&ccedil;os de gest&atilde;o.<\/p>\n<p>&ldquo;A lei, na verdade, foi uma rea&ccedil;&atilde;o do mercado ao terror gerado pelo TCU ap&oacute;s a explora&ccedil;&atilde;o das den&uacute;ncias sobre o Valerioduto&rdquo;, afirmou &agrave; Carta Maior uma fonte do meio publicit&aacute;rio que pediu para n&atilde;o ser identificada. Conforme esta fonte, logo ap&oacute;s o esc&acirc;ndalo do mensal&atilde;o, o TCU deu in&iacute;cio uma s&eacute;rie de apura&ccedil;&otilde;es sobre a publicidade no servi&ccedil;o p&uacute;blico e, em 2005, chegou a suspender v&aacute;rios contratos e pagamentos. &ldquo;Para as ag&ecirc;ncias, o importante era dissociar-se do esc&acirc;ndalo com uma legisla&ccedil;&atilde;o que, ao mesmo tempo, garantisse contratos passados ou em vigor e regulasse mecanismos h&aacute; tempos praticados pelo mercado, como o b&ocirc;nus de volume&rdquo;, acrescentou.<\/p>\n<p>Em julho de 2008, foi realizado em S&atilde;o Paulo o IV Congresso Brasileiro de Publicidade, no qual foi lan&ccedil;ada a &ldquo;Frente Parlamentar da Comunica&ccedil;&atilde;o Social&rdquo;. Conforme os organizadores, a frente reunia 198 deputados e 38 senadores de 17 partidos pol&iacute;ticos. Monti e o senador &Aacute;lvaro Dias (PSDB-PR) sa&iacute;ram de l&aacute; encarregados de lan&ccedil;ar a frente oficialmente no Congresso. O primeiro, inclusive, foi eleito seu coordenador. Entre as delibera&ccedil;&otilde;es do encontro estava o apoio ao projeto de lei de Cardozo. Entre os patrocinadores, os grandes grupos de m&iacute;dia, como Globo, Terra, Record, Abril, RBS, Bandeirantes e SBT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr&iacute;ticas dos ministros do STF &agrave; lei que regulamenta a contrata&ccedil;&atilde;o de  servi&ccedil;os de publicidade por &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos suscitam o debate sobre sua  constitucionalidade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[1713],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27118"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27118"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27118\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}