{"id":27114,"date":"2012-09-11T18:36:33","date_gmt":"2012-09-11T18:36:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27114"},"modified":"2012-09-11T18:36:33","modified_gmt":"2012-09-11T18:36:33","slug":"marco-civil-na-marca-do-penalti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27114","title":{"rendered":"Marco Civil na marca do p\u00eanalti"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Na quarta-feira (29\/8), a CCT (Comiss&atilde;o Especial de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Senado) aprovou o Projeto de Lei da C&acirc;mara (PLC) 35\/2012, que tipifica crimes digitais. J&aacute; tratado na imprensa como &ldquo;marco penal da Internet&rdquo;, o PLC pode ir em breve para o Plen&aacute;rio do Senado. Sua aprova&ccedil;&atilde;o preocupa e acende o alerta vermelho sobre a regula&ccedil;&atilde;o da rede no Brasil. Menos pelo teor do seu texto, de menor potencial lesivo que o famigerado PL 84\/99, aprovado em vers&atilde;o minimalista na C&acirc;mara. E mais pelo que significa: termos, a toque de caixa, uma lei penal antes mesmo de aprovarmos o Marco Civil da Internet (PL 2.126\/2011), com os princ&iacute;pios, responsabilidades e direitos para a utiliza&ccedil;&atilde;o cidad&atilde; da rede.<\/p>\n<p>Num cen&aacute;rio pr&eacute;-eleitoral, de esfor&ccedil;o concentrado do Congresso, prestes a paralisar suas atividades, surpreende negativamente o esfor&ccedil;o dos parlamentares em dar prioridade &agrave; lei espec&iacute;fica de crimes cibern&eacute;ticos &ndash; cujo escopo representa percentual pequeno dos usu&aacute;rios da rede &ndash; em detrimento de uma das leis mais avan&ccedil;adas e abrangentes do mundo. Lei que equilibra interesses e dita par&acirc;metros de atua&ccedil;&atilde;o de todos que utilizam a Internet: sociedade civil, iniciativa privada e poder p&uacute;blico. Nesse cen&aacute;rio de &ldquo;urg&ecirc;ncia&rdquo; pol&iacute;tica, &eacute; dif&iacute;cil crer que a tipifica&ccedil;&atilde;o de delitos penais &eacute; mais importante que garantir a liberdade de express&atilde;o, a privacidade, os direitos dos usu&aacute;rios e a neutralidade da Internet no Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Mesmo ciente da import&acirc;ncia do Marco Civil, o Governo Federal n&atilde;o se empenha efetivamente para aprov&aacute;-lo. Tramitando em regime de urg&ecirc;ncia desde o in&iacute;cio do ano na C&acirc;mara, com bons e sucessivos relat&oacute;rios de texto, o PL 2.126\/2011 n&atilde;o obteve qu&oacute;rum para sua aprova&ccedil;&atilde;o no in&iacute;cio de julho, antes do recesso parlamentar. No come&ccedil;o de agosto, a Comiss&atilde;o Especial sequer foi convocada, e sua pr&oacute;xima sess&atilde;o, prevista para o dia 19 de setembro, pode n&atilde;o ser definitiva para a vota&ccedil;&atilde;o acontecer. Depois disso, sabe-se l&aacute; quando volta &agrave; pauta.<\/p>\n<p>Se h&aacute; resist&ecirc;ncia de poucos, por&eacute;m fortes, grupos empresariais restritos ao setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es &ndash; j&aacute; que o PL toca no necess&aacute;rio debate sobre neutralidade de rede, com a n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o do tr&aacute;fego dos usu&aacute;rios e outros princ&iacute;pios a serem respeitados pelas empresas &ndash; e, de outro lado, expressivo apoio da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, causa perplexidade a postura do governo.<\/p>\n<p>A Anatel (Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es) reivindica compet&ecirc;ncia para regular a neutralidade de rede, ainda que na camada l&oacute;gica isso n&atilde;o caiba a ela. Na esteira, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se empenha publicamente pela r&aacute;pida vota&ccedil;&atilde;o, muito pelo contr&aacute;rio. E assim, enquanto alguns setores do Executivo, como o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, defendem o projeto, na contram&atilde;o, o topo do Governo (Presid&ecirc;ncia, Casa Civil, Secretaria de Rela&ccedil;&otilde;es Institucionais) n&atilde;o se esfor&ccedil;a na mobiliza&ccedil;&atilde;o de sua base parlamentar. Assim, interesses privados v&atilde;o prevalecendo sobre a demanda de toda a sociedade, que participou ativamente na elabora&ccedil;&atilde;o e no debate p&uacute;blico do projeto.<\/p>\n<p><strong>Pronto para ser aprovado<\/strong><\/p>\n<p>E isso &eacute; um fato extremamente relevante. Discutido h&aacute; mais de tr&ecirc;s anos, de forma direta e democr&aacute;tica com a popula&ccedil;&atilde;o, o Marco Civil representa um novo paradigma de cultura pol&iacute;tica, de constru&ccedil;&atilde;o normativa e de participa&ccedil;&atilde;o social. Surgiu como uma resposta propositiva ao recrudescimento de direitos e vigilantismo na rede propostos por v&aacute;rias iniciativas, como o PL 84\/99. Foi constru&iacute;do colaborativamente, atrav&eacute;s de consultas p&uacute;blicas que receberam centenas de contribui&ccedil;&otilde;es de todos os setores, e debatido abertamente em diversos semin&aacute;rios pelas capitais do pa&iacute;s, at&eacute; que alcan&ccedil;asse o est&aacute;gio atual.<\/p>\n<p>Maduro, o projeto possui algumas virtudes a se destacar: (i) a amplia&ccedil;&atilde;o dos direitos dos usu&aacute;rios de Internet, a exemplo do direito &agrave; privacidade e &agrave; prote&ccedil;&atilde;o dos dados pessoais; (ii) a consolida&ccedil;&atilde;o de fundamentos importantes, como a defesa do consumidor e a finalidade social da rede; (iii) a defini&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios norteadores: liberdade de express&atilde;o e qualidade da rede, por exemplo; (iv) e a consolida&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da neutralidade, com o tratamento ison&ocirc;mico na transmiss&atilde;o de conte&uacute;dos. Nesse &uacute;ltimo ponto, ressalte-se a valoriza&ccedil;&atilde;o do Comit&ecirc; Gestor da Internet (CGI), &oacute;rg&atilde;o multissetorial respons&aacute;vel pela governan&ccedil;a da Internet no Pa&iacute;s, que passa a ser ouvido na regulamenta&ccedil;&atilde;o, por Decreto, dos crit&eacute;rios da neutralidade.<\/p>\n<p>Outro aspecto muito positivo do texto &eacute; delimitar claramente a responsabilidade dos intermedi&aacute;rios pela retirada de conte&uacute;dos da Internet. Os provedores de servi&ccedil;os somente ser&atilde;o responsabilizados civilmente se, a partir de ordem judicial, n&atilde;o removerem conte&uacute;dos postados por terceiros. &Eacute; claro que h&aacute; espa&ccedil;o, ainda, para a inclus&atilde;o de outras balizas, como a penaliza&ccedil;&atilde;o de provedores que, por iniciativa pr&oacute;pria, retirarem conte&uacute;dos de forma abusiva e n&atilde;o razo&aacute;vel. Contudo, desde j&aacute; institui-se uma base legal s&oacute;lida para as decis&otilde;es judiciais, atualmente carentes de l&oacute;gica e fundamenta&ccedil;&atilde;o. Isso sem deixar de dialogar com outros diplomas espec&iacute;ficos, que permitem a&ccedil;&otilde;es administrativas essenciais no tocante &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o de p&aacute;ginas e conte&uacute;dos na rede, executadas, por exemplo, pelos &oacute;rg&atilde;os de defesa dos consumidores na Internet.<\/p>\n<p>Nesse ponto da responsabilidade, &eacute; preciso que o PL 2.126\/2011 mantenha a regra da retirada de conte&uacute;dos apenas com ordem judicial, sem margem para remo&ccedil;&otilde;es arbitr&aacute;rias. Isso &eacute; essencial, pois h&aacute; uma press&atilde;o muito forte da ind&uacute;stria autoral tradicional (reprogr&aacute;fica, fonogr&aacute;fica, etc) para que retorne ao projeto um mecanismo sumariamente exclu&iacute;do durante a primeira consulta p&uacute;blica: o &ldquo;notice and take down&rdquo;. Este mecanismo permite que conte&uacute;dos postados por usu&aacute;rios sejam removidos sem avalia&ccedil;&atilde;o do Judici&aacute;rio, a partir de notifica&ccedil;&otilde;es extrajudiciais e do julgamento privado dos provedores. Na Comiss&atilde;o ou no Plen&aacute;rio, os deputados n&atilde;o podem, em hip&oacute;tese alguma, aceitar que o &ldquo;notice and take down&rdquo; seja inserido no PL, sob pena de violar drasticamente a liberdade de express&atilde;o e o acesso democr&aacute;tico &agrave; informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Dessa forma, hoje o projeto est&aacute; pronto. Deve ser aprovado na integralidade. A sociedade civil organizada o apoia. Recentemente, mais de 30 importantes entidades nacionais, em conjunto com v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es internacionais de direitos civis na Internet, assinaram uma carta p&uacute;blica pedindo a aprova&ccedil;&atilde;o imediata do PL 2.126\/2011. Empresas, comunidade cient&iacute;fica, autoridades p&uacute;blicas engrossam o coro. Por&eacute;m, enquanto isso n&atilde;o acontece, tomam frente projetos de menor necessidade, que competem a aten&ccedil;&atilde;o do Governo e dos congressistas. Urge a prioriza&ccedil;&atilde;o efetiva desse projeto essencial para a Internet no Brasil. Depois de tanta amarra&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, com o jogo j&aacute; avan&ccedil;ado, o Marco Civil est&aacute; na marca do p&ecirc;nalti. Basta acertar a cobran&ccedil;a.<\/p>\n<p><em><br \/>Guilherme Varella &eacute; advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, especialista em direito autoral e acesso &agrave; cultura e ao conhecimento<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Discutido h&aacute; mais de tr&ecirc;s anos, de forma direta e  democr&aacute;tica com a popula&ccedil;&atilde;o, o Marco Civil representa um novo paradigma  de cultura pol&iacute;tica, de constru&ccedil;&atilde;o normativa e de participa&ccedil;&atilde;o social. <\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[747],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27114\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}