{"id":27113,"date":"2012-09-11T18:33:18","date_gmt":"2012-09-11T18:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27113"},"modified":"2012-09-11T18:33:18","modified_gmt":"2012-09-11T18:33:18","slug":"pluralismo-de-fachada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27113","title":{"rendered":"Pluralismo de fachada"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A maioria dos maiores jornais do Brasil n&atilde;o cumpre ao menos uma parte dos seus compromissos com a sociedade. Essa maioria proclama solenemente que pratica o pluralismo de opini&otilde;es, mas, nos seus procedimentos habituais, repele a diversidade. Eis aqui um fato simples e irrefut&aacute;vel, que deveria ser assunto priorit&aacute;rio dos editores de jornais mas tem sido apenas ignorado.<\/p>\n<p>Antes de qualquer outra considera&ccedil;&atilde;o, vamos demonstrar por que esse fato &eacute; verdadeiramente simples e irrefut&aacute;vel. Estamos falando aqui dos 154 jornais que est&atilde;o filiados &agrave; Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornais (ANJ), a elite da imprensa di&aacute;ria no Brasil. Ao todo, existem 684 di&aacute;rios no pa&iacute;s (n&uacute;mero de 2011), mas os 154 que integram a ANJ concentram aproximadamente 80% da circula&ccedil;&atilde;o total, que alcan&ccedil;ou em 2011 a marca de 8,65 milh&otilde;es de exemplares por dia, segundo estimativas da pr&oacute;pria entidade. Sozinhos, os 154 teriam uma circula&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia di&aacute;ria de aproximadamente 7 milh&otilde;es de exemplares. Que deveriam ser pluralistas.<\/p>\n<p>Por qu&ecirc;? Muito simples. Sendo filiados &agrave; ANJ, esses 154 ve&iacute;culos se submetem ao C&oacute;digo de &Eacute;tica da entidade, um c&oacute;digo conciso e muito claro. Em seu artigo 5&ordm; diz que os jornais se comprometem a &ldquo;assegurar o acesso de seus leitores &agrave;s diferentes vers&otilde;es dos fatos e &agrave;s diversas tend&ecirc;ncias de opini&atilde;o da sociedade&rdquo;. A&iacute; est&aacute; o compromisso expresso com o pluralismo, que &eacute; refor&ccedil;ado por pelo menos outros dois dispositivos. O artigo 10&ordm;, que afirma o dever de &ldquo;corrigir erros que tenham sido cometidos em suas edi&ccedil;&otilde;es&rdquo;, e o artigo 6&ordm;, que garante &ldquo;a publica&ccedil;&atilde;o de contesta&ccedil;&otilde;es objetivas das pessoas ou organiza&ccedil;&otilde;es acusadas, em suas p&aacute;ginas, de atos il&iacute;citos ou comportamentos conden&aacute;veis&rdquo;, complementam e d&atilde;o mais consist&ecirc;ncia ao princ&iacute;pio do artigo 5&ordm;. Com esses mandamentos, o c&oacute;digo afirma que seus jornais est&atilde;o empenhados em cobrir e refletir as diversas opini&otilde;es sobre os fatos, t&atilde;o empenhados que corrigir&atilde;o prontamente erros eventuais cometidos pelas reportagens.<\/p>\n<p>At&eacute; aqui, tudo &oacute;timo. N&atilde;o se esperaria outra coisa de um bom di&aacute;rio contempor&acirc;neo. Acontece que, segundo um levantamento exposto pelo diretor-executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, durante o 9&ordm; Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em S&atilde;o Paulo no final de agosto, n&atilde;o &eacute; bem isso que encontramos na pr&aacute;tica. Para come&ccedil;ar, apenas 50 dos 154 adotam em seu cotidiano o princ&iacute;pio de &ldquo;reconhecimento e publica&ccedil;&atilde;o de erros&rdquo;. Isso mesmo, somente 32% dos maiores e mais lidos jornais brasileiros cumprem o artigo 10&ordm; do seu pr&oacute;prio C&oacute;digo de &Eacute;tica. Pedreira mostrou ainda que, embora todos os 154 filiados da ANJ tenham canais de atendimento ao leitor, nem todos veiculam as cartas que recebem: s&oacute; 96 deles (62%) dizem ter o h&aacute;bito de publicar as mensagens dos leitores.<\/p>\n<p>Bastam esses dados para escancarar o contraste que existe entre o C&oacute;digo de &Eacute;tica da associa&ccedil;&atilde;o e a pr&aacute;tica rotineira dos filiados. Algo vai mal nesse campo. Em mat&eacute;ria de pluralismo na imprensa, a sociedade ainda tem muito do que reclamar. As preocupa&ccedil;&otilde;es com a &eacute;tica ainda n&atilde;o se tornaram uma agenda obsessiva &ndash; como deveria ser &ndash; nas reda&ccedil;&otilde;es. Tanto &eacute; assim que apenas uma minoria &iacute;nfima, 17% dos 154 di&aacute;rios, elaborou c&oacute;digos ou manuais de &eacute;tica para sua administra&ccedil;&atilde;o interna. Somente 25 (ou 16%) mant&ecirc;m conselhos editoriais &ndash; que talvez n&atilde;o sejam uma grande maravilha, mas sempre ajudam na cr&iacute;tica interna. S&atilde;o menos ainda os que mant&ecirc;m algum conselho de leitores. Tais n&uacute;meros desencorajam qualquer leitura otimista.<\/p>\n<p>&Eacute; claro que ningu&eacute;m vai cobrar que um ve&iacute;culo informativo seja plural s&oacute; porque a gente gosta de pluralismo. Existiram e existem publica&ccedil;&otilde;es abertamente partid&aacute;rias e nem por isso elas foram ou s&atilde;o desonestas ou de m&aacute; qualidade. N&atilde;o se pode exigir, por exemplo, do franc&ecirc;s L&rsquo;Humanit&eacute;, hist&oacute;rica e abertamente ligado aos comunistas, que abrigue multid&otilde;es de colunistas de direita, assim como n&atilde;o se vai impor ao jornal L&rsquo;Osservatore Romano, &oacute;rg&atilde;o do Vaticano, que desfralde a bandeira do materialismo hist&oacute;rico. Esses e muitos outros jornais t&ecirc;m uma causa declarada, n&atilde;o a escondem. Nada de errado com eles, embora n&atilde;o sejam exatamente plurais.<\/p>\n<p>Agora, de um &oacute;rg&atilde;o de imprensa que se compromete publicamente com o princ&iacute;pio do pluralismo, a&iacute;, sim, a sociedade tem o direito de cobrar condutas compat&iacute;veis com esse compromisso. Dos jornais filiados &agrave; ANJ, o leitor brasileiro tem o direito de demandar uma postura editorial pluralista, seja nas reportagens, seja nas p&aacute;ginas de opini&atilde;o. Se &eacute; isso o que prometem, que seja isso o que entregam. Logo, n&atilde;o se trata de medir o desempenho de ve&iacute;culos informativos segundo uma baliza vinda de outro planeta, mas de cobrar deles o compromisso que eles mesmos dizem abra&ccedil;ar.<\/p>\n<p>Eis a&iacute; o problema. Um problema&ccedil;o! Um problema t&atilde;o cr&iacute;tico que deveria ser a prioridade n&ordm; 1 dos jornais brasileiros. Eles est&atilde;o em descompasso consigo mesmos e, por extens&atilde;o, est&atilde;o em dessintonia com o que a sociedade brasileira espera da imprensa. O cidad&atilde;o vem aprendendo &ndash; finalmente &ndash; a exigir transpar&ecirc;ncia dos neg&oacute;cios p&uacute;blicos. Do mesmo modo, exige e exigir&aacute; mais transpar&ecirc;ncia dos crit&eacute;rios que governam a imprensa.<\/p>\n<p>Os jornais n&atilde;o t&ecirc;m escolha: ou abrem canais mais eficientes para o leitor reclamar e, mais ainda, participar da confec&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do editorial, ou ficar&atilde;o para tr&aacute;s, defasados, n&atilde;o apenas em raz&atilde;o da crise do modelo de neg&oacute;cio &ndash; j&aacute; t&atilde;o conhecida &ndash;, mas principalmente por n&atilde;o estarem &agrave; altura da fun&ccedil;&atilde;o que a democracia lhes reserva de mediar o debate p&uacute;blico. Para acompanhar o tempo eles ter&atilde;o, al&eacute;m de preservar a sua pr&oacute;pria independ&ecirc;ncia (artigo 1&ordm; do C&oacute;digo de &Eacute;tica da ANJ), de aumentar o seu n&iacute;vel interno de transpar&ecirc;ncia e radicalizar seu compromisso com o pluralismo.<\/p>\n<p>&Eacute; pegar &ndash; ou ser largado.<br \/><em><br \/>Eug&ecirc;nio Bucci &eacute; jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A maioria dos maiores jornais do Brasil n&atilde;o cumpre ao menos  uma parte dos seus compromissos com a sociedade. 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