{"id":27040,"date":"2012-08-09T16:39:15","date_gmt":"2012-08-09T16:39:15","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27040"},"modified":"2012-08-09T16:39:15","modified_gmt":"2012-08-09T16:39:15","slug":"projeto-que-altera-lei-rouanet-divide-meio-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27040","title":{"rendered":"Projeto que altera Lei Rouanet divide meio cultural"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Dois meses ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;o do substitutivo ao Projeto de Lei 1.139, chamado ProCultura, o que parecia ser um apoio consensual come&ccedil;a a mudar.<\/p>\n<p>O PL altera a Lei Rouanet, principal mecanismo de incentivo &agrave; cultura no Brasil, e estabelece novas regras para dois fundos de financiamento direto ao setor.<\/p>\n<p>Quando foi apresentado, o substitutivo do deputado Pedro Eug&ecirc;nio (PT-PE), que ainda n&atilde;o tem data para ser enviado ao Congresso, obteve uma recep&ccedil;&atilde;o amena por parte do meio cultural, talvez at&eacute; por cansa&ccedil;o &#8211; as discuss&otilde;es sobre as mudan&ccedil;as remontam a 2004 e o primeiro PL &eacute; de 2007. Mas, enquanto aguarda o estudo de impacto do Minist&eacute;rio da Fazenda, o ProCultura vem sendo questionado.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o creio que o projeto seja uma verdadeira reforma da pol&iacute;tica de financiamento&quot;, afirma Albino Rubim, professor da Universidade Federal da Bahia e especialista em pol&iacute;tica cultural. &quot;A expectativa, depois de tantos anos de discuss&atilde;o, era a de que o investimento direto do Estado crescesse de forma substancial&quot;, diz Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro.<\/p>\n<p>A Lei Rouanet, criada em 1991, tinha como objetivo principal agu&ccedil;ar no empresariado o gosto pelo mecenato, ao permitir que as empresas direcionem parte do imposto devido para a cultura. Se, em 2003, o mecanismo movimentou R$ 430 milh&otilde;es, em 2011 esse valor chegou a R$ 1,3 bilh&atilde;o. Ou seja, &quot;a lei pegou&quot;.<\/p>\n<p>O problema &eacute; que os recursos atendem a menos de 25% dos produtores que mandam, anualmente, cerca de 10 mil projetos para o Minist&eacute;rio da Cultura (MinC).<\/p>\n<p>Diante do n&uacute;mero de projetos e do or&ccedil;amento total do MinC, de R$ 1,6 bilh&atilde;o &#8211; o mesmo que o teto para a lei, neste ano &#8211; n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil entender por que a reforma do texto importa tanto para tanta gente. Sem ela, a produ&ccedil;&atilde;o cultural brasileira corre o risco de agonizar. Mas, com ela, tampouco as coisas funcionam bem.<\/p>\n<p>&quot;O pressuposto da lei produz a concentra&ccedil;&atilde;o porque trata, de maneira igual, empresas de grande e pequeno porte. Infelizmente, &eacute; natural que os recursos tenham ficado, sobretudo, nas grandes cidades&quot;, diz Eduardo Saron, diretor do Ita&uacute; Cultural, referindo-se &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de 70% dos recursos no eixo Rio-S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>Para Saron, outra distor&ccedil;&atilde;o da lei &eacute; que ela foi ancorada em eventos. Com isso, atividades perenes, que costumam deixar um legado, foram prejudicadas. Afinal, o logotipo da marca patrocinadora ganha, em um grande evento, uma visibilidade que jamais seria alcan&ccedil;ada caso o investimento se desse, por exemplo, no restauro de obras de arte.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, a lei n&atilde;o conseguiu garantir acesso ao que &eacute; produzido e, na vis&atilde;o de alguns produtores e te&oacute;ricos, acomodou o empresariado a uma forma de mecenato que n&atilde;o o obriga a colocar dinheiro pr&oacute;prio nos projetos incentivados.<\/p>\n<p>E &eacute; justamente nesse &uacute;ltimo ponto que o novo texto apresenta mudan&ccedil;as significativas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; proposta sa&iacute;da do gabinete do minist&eacute;rio Gilberto Gil-Juca Ferreira, nos anos Lula.<\/p>\n<p>O PL do deputado Pedro Eug&ecirc;nio retoma, de modo amplo, a possibilidade de dedu&ccedil;&atilde;o integral &#8211; o que, nas discuss&otilde;es sobre a lei, passou a ser chamado, simplesmente, de &quot;os 100%&quot;. A quest&atilde;o diz respeito &agrave; porcentagem de dinheiro pr&oacute;prio (n&atilde;o advindo de imposto) que uma empresa deve investir nos projetos.<\/p>\n<p>Hoje, o patrocinador pode colocar R$ 100 em uma feira de arte contempor&acirc;nea usando apenas dinheiro de imposto. Os defensores do fim dos 100% prop&otilde;em que, dos R$ 100 investidos, R$ 30 ou R$ 50 saiam dos cofres do patrocinador, e n&atilde;o dos do Estado.<\/p>\n<p>Para Pedro Eug&ecirc;nio, a retirada dos 100% levaria a uma grave retra&ccedil;&atilde;o nos investimentos. &quot;A cultura passaria a disputar os recursos, de maneira desequilibrada, com outras &aacute;reas, como o esporte [que prev&ecirc; dedu&ccedil;&atilde;o de 100%]&quot;, diz o deputado. &quot;O que fizemos foi definir melhor quem pode ter esse benef&iacute;cio.&quot;<\/p>\n<p>Hoje, a&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o similares t&ecirc;m acesso a dedu&ccedil;&otilde;es diferentes. Henilton Menezes, secret&aacute;rio de Fomento e Incentivo &agrave; Cultura do MinC, cita um exemplo: enquanto um curso de artes c&ecirc;nicas recebe 100% de ren&uacute;ncia, um de artes visuais n&atilde;o passa de 40%. O mesmo ocorre em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&uacute;sica: se o projeto inclui voz, o patrocinador tem direito a 30%; se tem s&oacute; instrumentos, a 100%.<\/p>\n<p>&quot;A nova lei estabelece crit&eacute;rios claros para promover a possibilidade de ren&uacute;ncia m&aacute;xima. Com isso, poderemos enxergar as a&ccedil;&otilde;es propostas de forma mais concreta, avaliando o retorno que elas trar&atilde;o para a sociedade&quot;, afirma Menezes.<\/p>\n<p>Para a economista Ana Carla Fonseca Reis, especialista em economia da cultura, a proposta pode solucionar as duas principais cr&iacute;ticas feitas aos 100%: a primeira se refere ao uso indiscriminado da dedu&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima; a segunda, ao fato de que a empresa pode gozar de benef&iacute;cios fiscais ao mesmo tempo em que tem ganhos de marketing. &quot;Da forma como a lei se prop&otilde;e a trabalhar, exigindo o cumprimento de crit&eacute;rios e impondo limita&ccedil;&otilde;es ao uso da imagem da marca, os dois problemas podem ser resolvidos.&quot;<\/p>\n<p>Para ganhar pontos e conseguir os 100% &#8211; em vez de 30% ou 50% de abatimento -, o substitutivo prev&ecirc; que a empresa deve investir em projetos que sejam, por exemplo, gratuitos e circulem pelo pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Isso, por&eacute;m, ainda n&atilde;o responde a uma quest&atilde;o importante: ao manter o mecenato sem obriga&ccedil;&atilde;o de contrapartida financeira privada, a lei contribui para o amadurecimento do patroc&iacute;nio cultural?<\/p>\n<p>A resposta &eacute; n&atilde;o, segundo L&aacute;rcio Benedetti, que esteve &agrave; frente dos patroc&iacute;nios da Votorantim entre 2006 e 2010, e que, como mestrando na Universidade de Budapeste, pesquisa o patroc&iacute;nio empresarial. &quot;Desse modo, o governo n&atilde;o oferece um est&iacute;mulo para que as empresas invistam em cultura. Dar os 100% significa oferecer o fim, o principal motivador. Isso, al&eacute;m de ser uma base muito fraca de sustenta&ccedil;&atilde;o, &eacute; deseducativo&quot;, diz. &quot;Com isso, ap&oacute;s 20 anos de Lei Rouanet, o resultado n&atilde;o poderia ser outro: se, mundo afora, sem 100% de incentivo [caso do Reino Unido e da Espanha, por exemplo], o patroc&iacute;nio empresarial n&atilde;o para de crescer, o Brasil continua ref&eacute;m do benef&iacute;cio fiscal.&quot;<\/p>\n<p>Benedetti concorda que, num primeiro momento, a altera&ccedil;&atilde;o levaria a um recuo por parte de certos investidores. Mas, a longo prazo, essa seria a melhor sa&iacute;da, diz. &quot;A diminui&ccedil;&atilde;o dos 100% seria um desafio para que os gestores de patroc&iacute;nio, na tentativa de convencer as empresas a manter a atua&ccedil;&atilde;o, buscassem os benef&iacute;cios reais que o investimento em cultura pode oferecer.&quot;<\/p>\n<p>O professor Albino Rubin, por sua vez, recusa at&eacute; o argumento da retra&ccedil;&atilde;o. &quot;Se for verdade que, depois de tantos anos de leis, as empresas s&oacute; investem em cultura com 100% de isen&ccedil;&atilde;o, as leis t&ecirc;m um s&eacute;rio problema: elas n&atilde;o conseguiram incentivar as empresas a investir no campo da cultura&quot;, diz. &quot;A lei de incentivo da Bahia n&atilde;o oferece 100% e funciona.&quot;<\/p>\n<p>Mas a resposta &eacute; outra por parte de quem trabalha ao lado das empresas, como Fernando Rossetti, diretor-executivo do Gife (Grupo de Institutos, Funda&ccedil;&otilde;es e Empresas), que tem 142 associados. &quot;A grande maioria das empresas n&atilde;o tem o setor de investimento social desenvolvido a ponto de investir recursos pr&oacute;prios em cultura&quot;, diz. &quot;Essa era uma preocupa&ccedil;&atilde;o no come&ccedil;o da reforma. Mas, agora, a tend&ecirc;ncia &eacute; que as grandes empresas atinjam a pontua&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para manter os 100%.&quot;<\/p>\n<p>Ricardo Ohtake, que dirige o Instituto Tomie Ohtake e percorre os caminhos da pol&iacute;tica cultural h&aacute; anos &#8211; foi secret&aacute;rio de Estado da Cultura de S&atilde;o Paulo e diretor do Centro Cultural S&atilde;o Paulo e do MIS (Museu da Imagem e do Som de S&atilde;o Paulo) &#8211; concorda que os 100% n&atilde;o s&atilde;o o caminho ideal para um verdadeiro mecenato. Mas pondera: &quot;Essa lei deu origem a outras leis com o mesmo formato e, agora, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel mud&aacute;-la isoladamente. O empresariado se acostumou a usar o incentivo dessa maneira&quot;.<\/p>\n<p>Ainda segundo Ohtake, que recorre &agrave; lei para manter o instituto, muitas empresas ainda tendem a tratar o apoio &agrave; cultura como uma esp&eacute;cie de favor. &quot;A fragilidade da cultura brasileira &eacute; muito grande. Por isso, a compara&ccedil;&atilde;o com outros pa&iacute;ses nem sempre &eacute; realista.&quot;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois meses ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;o do substitutivo ao Projeto de Lei 1.139, chamado ProCultura, o que parecia ser um apoio consensual come&ccedil;a a mudar. O PL altera a Lei Rouanet, principal mecanismo de incentivo &agrave; cultura no Brasil, e estabelece novas regras para dois fundos de financiamento direto ao setor. 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