{"id":27030,"date":"2012-08-03T16:16:10","date_gmt":"2012-08-03T16:16:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27030"},"modified":"2012-08-03T16:16:10","modified_gmt":"2012-08-03T16:16:10","slug":"temos-que-implementar-politicas-para-que-todos-tenham-o-direito-de-fazer-tv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27030","title":{"rendered":"\u201cTemos que implementar pol\u00edticas para que todos tenham o direito de fazer TV\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O professor Val&eacute;rio Cruz Brittos, formado em Jornalismo e Direito, mestre em Comunica&ccedil;&atilde;o Social e doutor em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura Contempor&acirc;neas, faleceu na &uacute;ltima sexta-feira, dia 27 de julho de 2012, em Porto Alegre\/RS. Refer&ecirc;ncia internacional na revis&atilde;o cr&iacute;tica da Economia Pol&iacute;tica de Comunica&ccedil;&atilde;o, a partir da posi&ccedil;&atilde;o latino-americana de defesa de uma comunica&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, Val&eacute;rio Brittos deixa uma lacuna que n&atilde;o pode ser preenchida no cen&aacute;rio acad&ecirc;mico e nos movimentos de luta por uma sociedade mais igualit&aacute;ria. Repleto de uma generosidade &iacute;mpar na troca de ideias e na constru&ccedil;&atilde;o do saber, estava sempre disposto ao debate e depositava sua f&eacute; na constru&ccedil;&atilde;o de um mundo capaz de superar as desigualdades do sistema capitalista.<\/p>\n<p>Val&eacute;rio Brittos exercia, dentre tantas outras fun&ccedil;&otilde;es, as de professor titular no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), de vice-presidente da Uni&oacute;n Latina de Econom&iacute;a Pol&iacute;tica de la Informaci&oacute;n, la Comunicaci&oacute;n y la Cultura (Ulepicc-Federa&ccedil;&atilde;o) e de representante no Cone Sul da Asociaci&oacute;n Latinoamericana de Investigadores de la Comunicaci&oacute;n (Alaic). Esta entrevista, provavelmente a &uacute;ltima concedida por ele, foi realizada no dia 10 de maio de 2012 no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Nela, Brittos analisa a reformula&ccedil;&atilde;o em andamento da legisla&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil, as possibilidades da televis&atilde;o no contexto da converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica e os arranjos poss&iacute;veis para a constru&ccedil;&atilde;o de uma comunica&ccedil;&atilde;o inclusiva. A entrevista a seguir &eacute; publicada como uma homenagem singela &agrave; trajet&oacute;ria e &agrave; contribui&ccedil;&atilde;o de Val&eacute;rio Brittos para a transforma&ccedil;&atilde;o social: <br \/><strong><br \/>A Lei 12.485\/2011, que disp&otilde;e sobre o servi&ccedil;o de acesso condicionado, pode ser considerada um avan&ccedil;o para a &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil?<\/strong><br \/>A legisla&ccedil;&atilde;o brasileira de televis&atilde;o e de r&aacute;dio, em geral, &eacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o muito defasada. Mas considero que, dentro do quadro poss&iacute;vel, h&aacute; um processo de reformula&ccedil;&atilde;o que vem caminhando, que estabelece que, na televis&atilde;o paga, por exemplo, possamos ter uma maior concorr&ecirc;ncia. Isso a&iacute; j&aacute; &eacute; positivo. Agora, &eacute; preciso deixar claro que precisamos ter uma legisla&ccedil;&atilde;o mais objetiva, que diga quem pode trabalhar com televis&atilde;o aberta, quem pode trabalhar com televis&atilde;o por assinatura e que estabele&ccedil;a par&acirc;metros para que o recurso para a produ&ccedil;&atilde;o independente seja de fato destinado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente. E, claro, al&eacute;m de tudo, tem que se fazer bons canais, com maior qualidade de conte&uacute;do tamb&eacute;m nos canais abertos, n&atilde;o s&oacute; nos canais por assinatura, permitindo que todos tenham acesso aos mesmos. Estes canais devem observar e respeitar a diversidade cultural, com programas transmitidos em faixas hor&aacute;rias adequadas, com reprises programadas, mas cuja grade n&atilde;o tenha s&oacute; reprises, e cuja multiplicidade de conte&uacute;dos transmitidos possa despertar o interesse das pessoas em assistir televis&atilde;o, uma televis&atilde;o de qualidade, de respeito &agrave; dignidade humana e de alguma vis&atilde;o cr&iacute;tica da realidade social.<\/p>\n<p><strong>A lei limita, mas n&atilde;o pro&iacute;be a possibilidade de acordos comerciais entre as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es e as empresas de radiodifus&atilde;o. Elas podem se unir para dividir o mercado da televis&atilde;o?<\/strong><br \/>N&oacute;s vivenciamos hoje um sistema muito forte, que &eacute; o sistema de televis&atilde;o por assinatura. A televis&atilde;o aberta movimenta cerca de dez vezes menos dinheiro. Comparativamente, movimenta pouco dinheiro, mas ainda assim permanece tamb&eacute;m um sistema forte. Podemos dizer que quem tem poder pol&iacute;tico &eacute; o sistema aberto, mas quem tem dinheiro mesmo &eacute; a televis&atilde;o por assinatura. Por outro lado, h&aacute; a possibilidade de que a fus&atilde;o entre estas duas pontas possa resultar em um bom servi&ccedil;o de televis&atilde;o por assinatura, com regras efetivas de amplia&ccedil;&atilde;o do acesso, de fomento &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente e regional e de respeito &agrave; pluralidade social. Isso &eacute; poss&iacute;vel, fazer uma televis&atilde;o por assinatura melhor para o Brasil, pelo simples fato de que existe uma televis&atilde;o melhor do que a que temos hoje. Acho que o pa&iacute;s est&aacute; em um bom momento, praticamente em pleno emprego, e deve juntar suas for&ccedil;as vivas para fazer coisas boas, coisas s&eacute;rias. Agora, &eacute; claro que n&atilde;o teremos um sistema ideal, porque continua sendo um sistema capitalista, com todas as suas desigualdades.<\/p>\n<p><strong>Para isso, &eacute; imprescind&iacute;vel discutir um novo marco regulat&oacute;rio&#8230;<\/strong><br \/>Sim, mas insisto na avalia&ccedil;&atilde;o de que o nosso marco regulat&oacute;rio avan&ccedil;ou. Se eu disser que a base regulat&oacute;ria do ano passado &eacute; a mesma deste ano, eu vou estar faltando com a verdade. Por outro lado, &eacute; evidente tamb&eacute;m que esta base regulat&oacute;ria continua bastante aqu&eacute;m daquela que defendemos.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam as principais medidas a serem observadas neste marco regulat&oacute;rio para, primeiro, garantir que um poss&iacute;vel acordo entre radiodifusores e telecoms seja de alguma forma produtivo para a sociedade brasileira, e, segundo, para avan&ccedil;ar em termos de legisla&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>Diria que a primeira coisa &eacute; criar uma legisla&ccedil;&atilde;o antimonop&oacute;lio. N&oacute;s precisamos criar uma lei que seja desconcentradora. N&atilde;o se faz comunica&ccedil;&atilde;o plural, pelo menos no sistema capitalista, sem algum tipo de constru&ccedil;&atilde;o, de consolida&ccedil;&atilde;o mesmo, de legisla&ccedil;&atilde;o. Mas ela tem que ser aberta e oferecer espa&ccedil;o para todos. Ou seja, ela deve permitir a abertura, ao mesmo tempo em que provavelmente permita algum n&iacute;vel de concentra&ccedil;&atilde;o para que determinados setores possam funcionar &ndash; infelizmente, o sistema &eacute; caro. A ind&uacute;stria criativa no Brasil &eacute; algo que pode dar muito certo. Ou n&atilde;o. A ind&uacute;stria criativa pode ser o caminho para que o Brasil consolide uma legisla&ccedil;&atilde;o que, em alguns momentos, em alguns hor&aacute;rios, permita a concentra&ccedil;&atilde;o, e em alguns momentos se torne menos concentrada, para abrir espa&ccedil;o &agrave; diversidade. N&oacute;s devemos construir uma legisla&ccedil;&atilde;o que seja boa para todos os lados, para quem n&atilde;o quer ganhar dinheiro e tamb&eacute;m para quem quer ganhar dinheiro, porque afinal &eacute; este o objetivo do sistema capitalista. Em alguns momentos, este segundo grupo vai ganhar dinheiro, porque faz parte ganhar dinheiro. Em outros momentos, este grupo vai ter que distribuir o seu lucro, como cota de contribui&ccedil;&atilde;o, para a produ&ccedil;&atilde;o daqueles que n&atilde;o est&atilde;o na comunica&ccedil;&atilde;o para ganhar dinheiro. <br \/><strong><br \/>Nesta conjuntura de reformula&ccedil;&atilde;o de algumas leis e necessidade de tantas outras, em um cen&aacute;rio de converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, o que se pode antecipar em termos de radiodifus&atilde;o no Brasil para os pr&oacute;ximos anos?<\/strong><br \/>Eu daria o exemplo da pluritv. &Eacute; um sistema de televis&atilde;o que est&aacute; por tudo: na televis&atilde;o por assinatura, no shopping, no celular, em todo o lugar. Essa televis&atilde;o acompanha as pessoas onde as pessoas estejam. Elas poder&atilde;o gerar televis&atilde;o e ver televis&atilde;o a qualquer momento. &Eacute; uma televis&atilde;o que vai estar em todos os lugares.<br \/><strong><br \/>Em termos de disputa pelo mercado de comunica&ccedil;&atilde;o, pode-se antecipar alguma coisa para a consolida&ccedil;&atilde;o da pluritv? As telecoms saem na frente com a pluritv e &eacute; justamente isso que pode colocar em risco a posi&ccedil;&atilde;o atual dos grandes radiodifusores?<\/strong><br \/>Ainda &eacute; muito cedo, mas o que se tem acompanhado &eacute; a tend&ecirc;ncia da televis&atilde;o de hoje &ndash; das pessoas assistindo as transmiss&otilde;es em seus lares, da programa&ccedil;&atilde;o conforme a sequ&ecirc;ncia dada pelas emissoras, uma novela depois da outra, o telejornal em seguida &ndash; diminuir seu espa&ccedil;o cada vez mais. As pessoas v&atilde;o ver televis&atilde;o de forma perif&eacute;rica, na hora em que querem e de acordo com o seu pr&oacute;prio hor&aacute;rio. A televis&atilde;o passa a ser de fluxo. N&atilde;o &eacute; de um dia para o outro, n&atilde;o &eacute; amanh&atilde;, mas com o tempo as pessoas v&atilde;o ver televis&atilde;o de acordo com o tempo que elas t&ecirc;m.<br \/><strong><br \/>De uma forma geral, &eacute; uma televis&atilde;o de conte&uacute;do mais fragmentado&#8230;<\/strong><br \/>Bastante mais fragmentado. As pessoas assistem uma parte do cap&iacute;tulo da novela e, daqui a pouco, podem assistir um desenho animado qualquer. Podem tamb&eacute;m assistir a um filme que n&atilde;o passa na tv, mas que &eacute; igual ao da televis&atilde;o. A pessoa pode assistir um show e, de forma intercalada, acessar um v&iacute;deo do anivers&aacute;rio do filho.<br \/><strong><br \/>H&aacute; atualmente suporte, por parte dos movimentos sociais e das institui&ccedil;&otilde;es mais progressistas, para a amplia&ccedil;&atilde;o do debate sobre a regulamenta&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito do governo federal?<\/strong><br \/>O governo Dilma Rousseff &eacute; um governo forte. Ela vem mostrando pulso forte. Na quest&atilde;o da corrup&ccedil;&atilde;o, por exemplo, tem demonstrado muita firmeza. Ao mesmo tempo, ela &eacute; muito ligada ao Lula. O que &eacute; &oacute;timo, ele &eacute; um grande l&iacute;der. Mas o Lula n&atilde;o tem mostrado muita paix&atilde;o para discutir o tema da regulamenta&ccedil;&atilde;o. A Dilma j&aacute; disse, inclusive, no Congresso do PT, que o melhor &eacute; fazer o controle a partir do uso do controle remoto. Acho isso lament&aacute;vel. O governo federal deveria buscar coragem para fazer esta mudan&ccedil;a. Entretanto, o que eu vejo hoje &eacute; mais disposi&ccedil;&atilde;o para fazer pequenas mudan&ccedil;as, que tenham a ver, por exemplo, com o Plano Nacional de Banda Larga, e n&atilde;o as mudan&ccedil;as essenciais que devem ser feitas. O governo deveria ter coragem para enfrentar esta luta.<br \/><strong><br \/>A tend&ecirc;ncia &eacute; trabalhar mais o aspecto puramente t&eacute;cnico do que o conte&uacute;do da radiodifus&atilde;o..<\/strong>.<br \/>Isso mesmo. O Lula fez algumas coisas. Por exemplo, criou a TV Brasil. Claro que ela por si s&oacute; n&atilde;o resolve, porque temos que consolidar de fato um sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o.<br \/><strong><br \/>A respeito do sistema p&uacute;blico, qual &eacute; o espa&ccedil;o para a comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria neste cen&aacute;rio de televis&atilde;o digital?<\/strong><br \/>O sistema de tv digital no Brasil &eacute; fraco. &Eacute; um sistema moldado de acordo com a Rede Globo. E a televis&atilde;o por assinatura rec&eacute;m come&ccedil;a a deslanchar. O problema &eacute; a TV Globo. Ela faz um produto de qualidade t&eacute;cnica, mas &eacute; muito reticente quanto a ideias novas de se fazer televis&atilde;o. O Brasil precisa mudar para fazer uma televis&atilde;o para o Brasil como um todo. O conhecimento de televis&atilde;o n&atilde;o &eacute; um conhecimento sist&ecirc;mico. &Eacute; um conhecimento que circula em um grupo restrito, para algumas pessoas. N&oacute;s temos que implementar pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o para que todo mundo tenha direito de fazer televis&atilde;o. A Globo deve se abrir para a diversidade, at&eacute; para a sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia &ndash; para que no futuro ela possa ser uma televis&atilde;o mais competitiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista in&eacute;dita para o Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, o professor Val&eacute;rio Brittos &#8211; falecido no &uacute;ltimo dia 27 &#8211; fala sobre as mudan&ccedil;as do mercado da comunica&ccedil;&atilde;o com a implanta&ccedil;&atilde;o da nova lei de TV de assintatura e os desafios para democratizar o setor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1707],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27030"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27030"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27030\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}