{"id":26986,"date":"2012-07-13T15:55:56","date_gmt":"2012-07-13T15:55:56","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26986"},"modified":"2012-07-13T15:55:56","modified_gmt":"2012-07-13T15:55:56","slug":"os-vetos-de-jango-que-a-abert-derrubou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26986","title":{"rendered":"Os vetos de Jango que a Abert derrubou"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">No discurso que fez na abertura do 26&ordm; Congresso da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert), em Bras&iacute;lia, no &uacute;ltimo dia 19 de junho, o presidente da entidade, empres&aacute;rio Emanuel Carneiro, lembrou ser 2012 o ano do cinquenten&aacute;rio da Abert destacando, nas palavras do jornalista Fernando Lauterjung, &ldquo;a for&ccedil;a da radiodifus&atilde;o na defini&ccedil;&atilde;o de regras para o setor&rdquo; (<a href=\"http:\/\/www.teletime.com.br\/19\/06\/2012\/politica-de-comunicacao-abert-comemora-50-anos-destacando-a-forca-da-radiodifusao-na-definicao-de-regras-para-o-setor\/tt\/284517\/news.aspx\" target=\"_blank\">ver aqu<\/a> i).<\/p>\n<p>De fato, disse o presidente:<em><\/p>\n<p>&ldquo;Vou voltar um pouco no tempo. O ano era 1962. O Brasil vivia um per&iacute;odo de instabilidade institucional, radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e crise econ&ocirc;mica e financeira. Naquele ambiente conturbado, o Congresso Nacional aprovara o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es. O texto, encaminhado ao presidente Jo&atilde;o Goulart, recebera 52 vetos. O setor de radiodifus&atilde;o se mobilizou contra os vetos presidenciais e, no dia 27 de novembro daquele ano, um grupo de empres&aacute;rios reunido no Hotel Nacional, nesta capital, decidiu criar uma entidade que representasse seus interesses. Nascia ali a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o. E j&aacute; surgia vitoriosa! Pois todos os vetos de Goulart foram rejeitados&rdquo; (<a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/download\/702IPB001.pdf\" target=\"_blank\">ver aqui &iacute;ntegra do discurso<\/a> ).<\/em><\/p>\n<p>Como discursava para concession&aacute;rios do servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o, certamente o presidente da ABERT pressup&ocirc;s que sua plateia estava familiarizada com o &ldquo;per&iacute;odo de instabilidade institucional&rdquo;em que o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CBT, Lei 4.117\/62) foi elaborado e votado e, sobretudo, sabia sobre o que versavam os 52 vetos do presidente da Rep&uacute;blica derrubados pelo Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, essa mesma pressuposi&ccedil;&atilde;o est&aacute; na p&aacute;gina &ldquo;Hist&oacute;ria da ABERT&rdquo;, que se encontra no site da entidade. L&aacute; est&aacute; escrito:<\/p>\n<p><em>&ldquo;A Abert surge na luta contra os vetos do presidente Jo&atilde;o Goulart ao C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, em 1962. Nesse momento, o empresariado de radiodifus&atilde;o come&ccedil;a a despertar e parte para um trabalho de esclarecimento da sociedade, por meio de seus congressistas. Jo&atilde;o Medeiros Calmon, presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de Emissoras do Estado de S&atilde;o Paulo (AESP), que mais tarde se tornaria o primeiro presidente da Abert, liderou um grupo de trabalho que reuniu subs&iacute;dios para a discuss&atilde;o sobre os vetos. O grupo conseguiu reunir em um encontro hist&oacute;rico no Hotel Nacional, em Bras&iacute;lia, representantes de 213 empresas. A movimenta&ccedil;&atilde;o era intensa e a conquista de votos em n&uacute;mero suficiente para a derrubada dos vetos ao C&oacute;digo foi &aacute;rdua. Os participantes daquele momento hist&oacute;rico foram respons&aacute;veis n&atilde;o s&oacute; pela derrubada dos vetos, como tamb&eacute;m pela forma&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Empresas de Radiodifus&atilde;o e Televis&atilde;o &ndash; Abert&rdquo; (<a href=\"http:\/\/www.abert.org.br\/site\/index.php?\/historia-da-abert.html\" target=\"_blank\">ver aqu<\/a>i).<\/em><\/p>\n<p>Considerando, todavia, o papel que a ABERT tem desempenhado nos &uacute;ltimos 50 anos &ldquo;na defini&ccedil;&atilde;o de regras para o setor&rdquo; (ver, neste Observat&oacute;rio, &ldquo;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/o_retrato_de_um_poder_sem_limites\" target=\"_blank\">Lobby de radiodifusores: O retrato de um poder sem limites<\/a> &rdquo;) e a reconhecida (n&atilde;o por todos) urg&ecirc;ncia hojede um marco regulat&oacute;rio para as comunica&ccedil;&otilde;es, parece conveniente rememorar para as novas gera&ccedil;&otilde;es as circunst&acirc;ncias especiais daquele per&iacute;odo e os vetos presidenciais rejeitados.<\/p>\n<p><strong>1962, um ano conturbado<\/strong><\/p>\n<p>Comecemos pelo &ldquo;per&iacute;odo de instabilidade institucional&rdquo;.<\/p>\n<p>O in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1960 marcou o recrudescimento da &ldquo;guerra fria&rdquo; em consequ&ecirc;ncia da vit&oacute;ria da revolu&ccedil;&atilde;o cubana em 1959. O clima era de polariza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica e o Brasil se encontrava no campo de influ&ecirc;ncia dos EUA que acreditava jogar aqui o destino do restante da Am&eacute;rica Latina em rela&ccedil;&atilde;o a uma eventual &ldquo;guinada comunista&rdquo; no continente.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Goulart (Jango), filho pol&iacute;tico do trabalhismo varguista, havia sido eleito vice-presidente de J&acirc;nio Quadros em outubro de 1960. J&acirc;nio renunciou inesperadamente em agosto de 1961, quando Jango se encontrava em viagem oficial &agrave; China. Os ministros militares tentaram impedir sua posse como presidente, que s&oacute; se tornou poss&iacute;vel com a transforma&ccedil;&atilde;o do regime presidencialista em parlamentarista aprovada pelo Congresso Nacional (em 2\/9\/1961). Jango, enfraquecido e a contragosto, assume a presid&ecirc;ncia em setembro com Tancredo Neves de primeiro-ministro.<\/p>\n<p>O ano seguinte, 1962, era um ano eleitoral. Em outubro seriam realizadas elei&ccedil;&otilde;es para o Congresso Nacional, assembleias estaduais, c&acirc;maras municipais e parte dos executivos estaduais e municipais. Este foi tamb&eacute;m o ano em que aumentam as diverg&ecirc;ncias do governo brasileiro com os EUA, sobretudo, a partir da aprova&ccedil;&atilde;o da nova Lei de Remessa de Lucros (setembro).<\/p>\n<p>A conjuntura pol&iacute;tica &eacute; extremamente vol&aacute;til: Tancredo Neves renuncia como primeiro-ministro (junho), &eacute; substitu&iacute;do por Brochado da Rocha (terceiro nome indicado) que s&oacute; fica no cargo por tr&ecirc;s meses e &eacute; substitu&iacute;do por Hermes Lima. Jango luta para aprovar no Congresso a realiza&ccedil;&atilde;o de um plebiscito para que o pa&iacute;s possa decidir entre presidencialismo e parlamentarismo. A proposta &eacute; aprovada em setembro.<\/p>\n<p>No contexto eleitoral pr&oacute; e contra o governo Jango &ndash; identificado pela grande m&iacute;dia como conduzindo o pa&iacute;s para o comunismo &ndash;, entidades como o IBAD (Instituto Brasileiro de A&ccedil;&atilde;o Democr&aacute;tica, 1959-1963) e o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, 1961-1972) intensificam sua a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica com o objetivo de eleger candidatos de oposi&ccedil;&atilde;o ao governo em todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>O setor de comunica&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>Inexistiam pol&iacute;ticas p&uacute;blicas espec&iacute;ficas para as telecomunica&ccedil;&otilde;es e para a radiodifus&atilde;o. A maioria das operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es era estrangeira e n&atilde;o havia quadros nacionais de dirigentes e\/ou t&eacute;cnicos. Essa situa&ccedil;&atilde;o preocupava em particular aos militares que identificavam o setor como estrat&eacute;gico ao interesse nacional e, claro, &agrave; &ldquo;seguran&ccedil;a nacional&rdquo;. Essa preocupa&ccedil;&atilde;o conduz a uma importante alian&ccedil;a de interesses entre setores militares e empres&aacute;rios de radiodifus&atilde;o, que viria a se consolidar no tempo e seria caracter&iacute;stica de boa parte do per&iacute;odo autorit&aacute;rio (1964-1985) (ver <a href=\"http:\/\/www2.eptic.com.br\/sgw\/data\/bib\/artigos\/724cf8a49f093dd8359b5275abd9900f.pdf\" target=\"_blank\">&ldquo;Da Seguran&ccedil;a Nacional &agrave; inseguran&ccedil;a jur&iacute;dica nas telecomunica&ccedil;&otilde;es: o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, 45 anos depois<\/a> &rdquo;).<\/p>\n<p>J&aacute; naquela &eacute;poca era significativa a presen&ccedil;a de parlamentares concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o no Congresso Nacional. Os mesmos parlamentares que haviam proposto e aprovado o regime parlamentarista como solu&ccedil;&atilde;o para o impasse da posse de Jango. O presidente, enfraquecido, est&aacute; em campanha para recuperar seus poderes atrav&eacute;s de plebiscito (o que viria acontecer formalmente poucos meses &agrave; frente, em janeiro de 1963).<\/p>\n<p>Entrevistado por Octavio Penna Pieranti, em 2007, o historiador Oswaldo Munteal, pesquisador do per&iacute;odo afirmou:<\/p>\n<p><em>&ldquo;Durante a d&eacute;cada de 1960, constituiu-se uma coliga&ccedil;&atilde;o ligada &agrave; radiodifus&atilde;o comercial, cujo objetivo era pressionar o governo e garantir seus interesses econ&ocirc;micos, visto que a taxa de crescimento desse novo e empreendedor mercado come&ccedil;ava a demonstrar &iacute;ndices de estagna&ccedil;&atilde;o. A presen&ccedil;a de empres&aacute;rios desse setor no Congresso Nacional permitiu um aumento significativo no poder de press&atilde;o do grupo em quest&atilde;o, o qual, legislando em causa pr&oacute;pria, tornou-se capaz de anular a maioria das restri&ccedil;&otilde;es a seus pr&oacute;prios interesses pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos. Essa simbiose entre poder p&uacute;blico e privado constituiu um obst&aacute;culo ao Executivo, uma vez que qualquer decis&atilde;o governamental que prejudicasse o empresariado da radiodifus&atilde;o seria repudiada pelo Legislativo. Os vetos de Jango ao C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, portanto, representaram sua tentativa em minar a for&ccedil;a deste setor empresarial, cuja representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica deu-lhes acesso a irrestritos privil&eacute;gios, al&eacute;m de grande influ&ecirc;ncia na opini&atilde;o p&uacute;blica, por interm&eacute;dio dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. O resultado deste choque demonstrou a grande organiza&ccedil;&atilde;o do grupo da radiodifus&atilde;o, pois, apesar de sua descentraliza&ccedil;&atilde;o regional, este era coeso, na medida em que possu&iacute;a um interesse coletivo &uacute;nico, que o tornava forte o bastante para rivalizar e superar a influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica de Jango no Congresso Nacional&rdquo; (<a href=\"http:\/\/www2.eptic.com.br\/sgw\/data\/bib\/artigos\/8f73449323994f31c65ba64668958c6a.pdf\" target=\"_blank\">ver aqui<\/a> ).<br \/><\/em><br \/>Mais importante: encontrava-se em marcha a grande articula&ccedil;&atilde;o civil-militar que executar&aacute; o golpe de 1964 e a deposi&ccedil;&atilde;o de Jango.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Calmon, eleito deputado em 1962 e vice-presidente dos Di&aacute;rios Associados &ndash; o maior conglomerado de m&iacute;dia do pa&iacute;s &agrave; &eacute;poca &ndash; que &ldquo;liderou um grupo de trabalho que reuniu subs&iacute;dios para a discuss&atilde;o sobre os vetos&rdquo; e &ldquo;que mais tarde se tornaria o primeiro presidente da Abert&rdquo;[1962-1970], constitui-se, logo depois, o idealizador e principal articulador da &ldquo;Rede da Democracia&rdquo;, no pleno exerc&iacute;cio da presid&ecirc;ncia da entidade.<\/p>\n<p>Inspirada na militante internacional do anticomunismo Suzanne Labin, a &ldquo;Rede da Democracia&rdquo; reunia centenas de emissoras de r&aacute;dio e jornais &ndash; dos Di&aacute;rios Associados, das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e do Jornal do Brasil &ndash; num combate di&aacute;rio ao governo Jango, preparando a opini&atilde;o p&uacute;blica para o golpe de estado perpetrado em nome da liberdade e da democracia (ver &ldquo;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/os-jornais-e-a-opiniao-publica\" target=\"_blank\">Golpe de 1964: os jornais e a &lsquo;opini&atilde;o p&uacute;blica<\/a> &rsquo;&rdquo;).<\/p>\n<p>Em linhas gerais, esse &eacute; o &ldquo;per&iacute;odo de instabilidade institucional&rdquo; emque se d&aacute; a aprova&ccedil;&atilde;o do CBT. O projeto sancionado com vetos por Jango em agosto teria todos eles rejeitados pelo Congresso Nacional, em novembro.<\/p>\n<p><strong>Os vetos derrubados<br \/><\/strong><br \/>A rela&ccedil;&atilde;o completa das partes vetadas pode ser <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/Leis\/L4117.htm\" target=\"_blank\">encontrada aqu<\/a> i. As justificativas est&atilde;o na Mensagem n&ordm; 173, de 27 de agosto de 1962, publicada no Di&aacute;rio do Congresso Nacional II de 5 de setembro de 1962 (pp. 1963-1965). Na origem trata-se da Mensagem n&ordm; 200, referente ao PL 3.549-D\/57 (no Senado, PLS 36\/53).<\/p>\n<p>Quais foram os vetos e quais as justificativas do presidente Jo&atilde;o Goulart para faz&ecirc;-los?<\/p>\n<p>A Mensagem presidencial afirma que todos os vetos incidiram &ldquo;sobre os artigos e express&otilde;es (&#8230;) contr&aacute;rios aos interesses nacionais&rdquo;. Vou me ater aqui apenas &agrave;queles que dizem respeito diretamente &agrave; radiodifus&atilde;o, na ordem em que aparecem na Lei.<\/p>\n<p>1. Par&aacute;grafo 3&ordm; do artigo 33<\/p>\n<p>[Art. 33. Os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o executados diretamente pela Uni&atilde;o, poder&atilde;o ser explorados por concess&atilde;o, autoriza&ccedil;&atilde;o ou permiss&atilde;o, observadas as disposi&ccedil;&otilde;es da presente lei.]<\/p>\n<p>&sect; 3&ordm; Os prazos de concess&atilde;o e autoriza&ccedil;&atilde;o ser&atilde;o de 10 (dez) anos para o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o sonora e de 15 (quinze) anos para o de televis&atilde;o, podendo ser renovados por per&iacute;odos sucessivos e iguais, se os concession&aacute;rios houverem cumprido todas as obriga&ccedil;&otilde;es legais e contratuais, mantido a mesma idoneidade t&eacute;cnica, financeira e moral, e atendido o interesse p&uacute;blico (art. 29 X).<\/p>\n<p>Justificativa:O prazo deve obedecer ao interesse p&uacute;blico, atendendo a raz&otilde;es de conveni&ecirc;ncia e de oportunidade, e n&atilde;o fixado a priori pela lei. Seria restringir em demasia a faculdade concedida ao Poder P&uacute;blico para atender a superiores raz&otilde;es de ordem p&uacute;blica e de interesse nacional o alongamento do prazo da concess&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o, devendo ficar ao prudente arb&iacute;trio do poder concedente a fixa&ccedil;&atilde;o do prazo de que cogita o inciso vetado.<\/p>\n<p>2. Par&aacute;grafo 4&ordm; do artigo 33<\/p>\n<p>&sect; 4&ordm; Havendo a concession&aacute;ria requerido, em tempo h&aacute;bil, a prorroga&ccedil;&atilde;o da respectiva concess&atilde;o ter-se-&aacute; a mesma como deferida se o &oacute;rg&atilde;o competente n&atilde;o decidir dentro de 120 (cento e vinte) dias.<\/p>\n<p>Justificativa:N&atilde;o se justifica que, competindo &agrave; Uni&atilde;o o ato de fiscalizar, de gerir, explorar ou conceder autoriza&ccedil;&atilde;o, ou permiss&atilde;o ou concess&atilde;o etc., o seu sil&ecirc;ncio, muitas vezes provocado pela necessidade de acurado exame do assunto, constitua motiva&ccedil;&atilde;o para deferimento autom&aacute;tico. Os problemas t&eacute;cnicos surgidos, as exig&ecirc;ncias necess&aacute;rias &agrave; verifica&ccedil;&atilde;o do procedimento das concession&aacute;rias etc. podem, muitas vezes, ultrapassar o prazo de 120 dias, sem qualquer culpa da autoridade concedente.<\/p>\n<p>3. Par&aacute;grafo &uacute;nico do artigo 53<\/p>\n<p>[Art. 53.Constitui abuso, no exerc&iacute;cio de liberdade da radiodifus&atilde;o, o emprego desse meio de comunica&ccedil;&atilde;o para a pr&aacute;tica de crime ou contraven&ccedil;&atilde;o previstos na legisla&ccedil;&atilde;o em vigor no Pa&iacute;s, inclusive:]<\/p>\n<p>Par&aacute;grafo &uacute;nico. Se a divulga&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias falsas houver resultado de erro de informa&ccedil;&atilde;o e for objeto de desmentido imediato, a nenhuma penalidade ficar&aacute; sujeita a concession&aacute;ria ou permission&aacute;ria.<\/p>\n<p>Justificativa:A veracidade da informa&ccedil;&atilde;o deve ser objeto de exame antes da divulga&ccedil;&atilde;o da not&iacute;cia, n&atilde;o sendo justo que algu&eacute;m transmita uma informa&ccedil;&atilde;o falsa, com todos os danos que da&iacute; podem decorrer, inclusive para a seguran&ccedil;a p&uacute;blica, sem sujei&ccedil;&atilde;o a qualquer penalidade. A aprecia&ccedil;&atilde;o da boa ou m&aacute; f&eacute; da divulga&ccedil;&atilde;o ficar&aacute; a cargo da autoridade competente ou do Poder Judici&aacute;rio, se for o caso.<\/p>\n<p>4. O artigo 54<\/p>\n<p>Art. 54. S&atilde;o livres as cr&iacute;ticas e os conceitos desfavor&aacute;veis, ainda que veementes, bem como a narrativa de fatos verdadeiros, guardadas as restri&ccedil;&otilde;es estabelecidas em lei, inclusive de atos de qualquer dos poderes do Estado.<\/p>\n<p>Justificativa:A liberdade da manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento est&aacute; assegurada pela Constitui&ccedil;&atilde;o e por esta pr&oacute;pria lei. A reda&ccedil;&atilde;o do artigo vetado, permitindo a emiss&atilde;o de &ldquo;conceitos desfavor&aacute;veis, ainda que veementes&rdquo; poderia dar ensejo &agrave; justifica&ccedil;&atilde;o de abusos que n&atilde;o s&atilde;o permitidos na Lei Magna e que devem ser reprimidos em defesa da honra e boa fama dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>5. O artigo 71<\/p>\n<p>Art. 71. A concession&aacute;ria ou permission&aacute;ria que n&atilde;o se conformar com a notifica&ccedil;&atilde;o, suspens&atilde;o provis&oacute;ria ou pena de suspens&atilde;o aplicada pelo Ministro da Justi&ccedil;a, poder&aacute; dentro de cinco dias, promover o pronunciamento do Tribunal Federal de Recursos, atrav&eacute;s de mandado de seguran&ccedil;a, observadas as seguintes normas:<\/p>\n<p>a) o Presidente, dentro de prazo improrrog&aacute;vel de 24 (vinte e quatro) horas, suspender&aacute; ou n&atilde;o in limine , o ato do Ministro da Justi&ccedil;a;<\/p>\n<p>b) o prazo para as informa&ccedil;&otilde;es do Ministro da Justi&ccedil;a de 48 (quarenta e oito) horas &iacute;mprorrog&aacute;veis;<\/p>\n<p>c) ap&oacute;s o recebimento das informa&ccedil;&otilde;es, o relator enviar&aacute; o processo imediatamente &agrave; Mesa, para que seja julgado na primeira Reuni&atilde;o deTurma;<\/p>\n<p>d) o Procurador emitir&aacute; parecer oral na sess&atilde;o de julgamento, ap&oacute;s o relat&oacute;rio;<\/p>\n<p>e) o julgamento &eacute; da compet&ecirc;ncia de turmas isoladas;<\/p>\n<p>f) a defesa e as informa&ccedil;&otilde;es poder&atilde;o ser enviadas por via telegr&aacute;fica ou radiotelegr&aacute;fica;<\/p>\n<p>g) o Regimento Interno do Tribunal Federal de Recursos estabelecer&aacute; normas complementares para a aplica&ccedil;&atilde;o desta lei, inclusive para o per&iacute;odo de f&eacute;rias, forenses.<\/p>\n<p>&sect; 1&ordm; A autoridade que n&atilde;o se conformar com a decis&atilde;o denegat&oacute;ria da representa&ccedil;&atilde;o que ofereceu ao Ministro da Justi&ccedil;a poder&aacute;, dentro de 15 (quinze) dias da mesma, promover o pronunciamento do Judici&aacute;rio, atrav&eacute;s de mandado de seguran&ccedil;a, interp&ocirc;sto ao Tribunal Federal de Recursos.<\/p>\n<p>&sect; 2&ordm; A decis&atilde;o final do Ministro da Justi&ccedil;a, aplicando a pena de suspens&atilde;o s&oacute; ser&aacute; executada depois da decis&atilde;o liminar referida na letra &quot;a&quot; d&ecirc;ste artigo, quando confirmat&oacute;ria da suspens&atilde;o<\/p>\n<p>&sect; 3&ordm; A Justi&ccedil;a Eleitoral poder&aacute; tamb&eacute;m notificar para que cesse e imediatamente seja desmentida, determinando sua suspens&atilde;o at&eacute; 24 (vinte e quatro) horas, no caso de desobedi&ecirc;ncia, transmiss&atilde;o que constitua infra&ccedil;&atilde;o &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o eleitoral.<\/p>\n<p>Justificativa:N&atilde;o conv&eacute;m alterar a lei sobre o mandado de seguran&ccedil;a, estabelecendo processo espacial para a hip&oacute;tese.<\/p>\n<p>6. Parte do caput do artigo 75 e seu Par&aacute;grafo &Uacute;nico<\/p>\n<p>Art. 75. A peremp&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o ser&aacute; declarada pelo Presidente da Rep&uacute;blica, precedendo parecer do Conselho Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, se a respectiva concession&aacute;ria ou permission&aacute;ria decair do direito &agrave; renova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Par&aacute;grafo &uacute;nico. O direito &agrave; renova&ccedil;&atilde;o decorre do cumprimento, pela concession&aacute;ria ou permission&aacute;ria, das exig&ecirc;ncias legais e regulamentares, bem como das finalidades educacionais culturais e morais a que esteve obrigada.<\/p>\n<p>Justificativa:Tratando-se de concess&atilde;o, ou permiss&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se deve construir ou estabelecer nenhum direito da renova&ccedil;&atilde;o que tolheria o prudente arb&iacute;trio da autoridade concedente.<\/p>\n<p>7. O artigo 83 <\/p>\n<p>Art. 83. A cr&iacute;tica e o conceito desfavor&aacute;vel, ainda que veementes, ou a narrativa de fatos verdadeiros, n&atilde;o dar&atilde;o motivo a qualquer repara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Justificativa:As raz&otilde;es do veto s&atilde;o as mesmas do veto aposto ao artigo 54 (ver acima).<\/p>\n<p>8. O artigo 98<\/p>\n<p>Art. 98. A autoridade que impedir ou embara&ccedil;ar a liberdade da radiodifus&atilde;o ou da televis&atilde;o, fora dos casos autorizados em lei, incidir&aacute;, no que couber, na san&ccedil;&atilde;o do artigo 322 do C&oacute;digo Penal.<\/p>\n<p>Justificativa:Qualquer autoridade que comete abuso do poder, no exerc&iacute;cio de suas atribui&ccedil;&otilde;es, est&aacute; sujeita &agrave;s comina&ccedil;&otilde;es penais previstas na legisla&ccedil;&atilde;o comum, sendo, portanto, desnecess&aacute;ria a alus&atilde;o expressa feita no artigo vetado, reprei&ccedil;&atilde;o [sic] que s&oacute; servir&aacute; para entorpecer a atividade das autoridades administrativas.<\/p>\n<p>9. O artigo 99<\/p>\n<p>Art. 99. A concession&aacute;ria ou permission&aacute;ria ofendida em qualquer direito, poder&aacute; pleitear junto ao Judici&aacute;rio sua repara&ccedil;&atilde;o, inclusive para salvaguardar a viabilidade econ&ocirc;mica do empreendimento, afetada por exig&ecirc;ncias administrativas que a comprometam, desde que n&atilde;o decorrentes de lei ou regulamento.<\/p>\n<p>Justificativa:As raz&otilde;es do veto s&atilde;o as mesmas do veto aposto ao artigo 77: Constitui superfeta&ccedil;&atilde;o declarar que ilegalidade ou abuso de poder est&atilde;o sujeitos ao controle judicial, pois h&aacute; princ&iacute;pio expresso na Constitui&ccedil;&atilde;o [de 1946], artigo 141, &sect; 4&ordm;.<\/p>\n<p>10. O artigo 117<\/p>\n<p>Art. 117. As concess&otilde;es e autoriza&ccedil;&otilde;es para os servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o em funcionamento ficam automaticamente mantidas pelos prazos fixados no art. 33, &sect; 3&ordm;, desta lei.<\/p>\n<p>Justificativa:O veto aposto ao par&aacute;grafo 3&ordm; do artigo 33 traz, como corol&aacute;rio autom&aacute;tico, o veto ao presente artigo.<\/p>\n<p><strong>Disputa de poder<\/p>\n<p><\/strong>Uma leitura leiga (n&atilde;o jur&iacute;dica), mas atenta, das justificativas apresentadas aos vetos derrubados indica que, por detr&aacute;s deles, h&aacute; uma disputa de poder entre concession&aacute;rios de um servi&ccedil;o p&uacute;blico e o poder concedente, vale dizer, entre o Poder Executivo e os radiodifusores. Os vencedores queriam &ndash; e conquistaram &ndash; prazos dilatados para as concess&otilde;es (10 e 15 anos); renova&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica delas; aus&ecirc;ncia de penalidade (mesmo ap&oacute;s julgamento pelo Poder Judici&aacute;rio) em casos de divulga&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias falsas; e assimetria de tratamento em rela&ccedil;&atilde;o a outros concession&aacute;rios de servi&ccedil;os p&uacute;blicos &ndash; altera&ccedil;&atilde;o da lei de mandado de seguran&ccedil;a; reafirma&ccedil;&atilde;o de normas que j&aacute; se encontram em outros diplomas legais, inclusive na pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Li&ccedil;&otilde;es para o presente<br \/><\/strong><br \/>Os 52 vetos de Jango foram derrubados e incorporados ao CBT que, 50 anos depois, ainda permanece &ndash; apesar de todas as suas altera&ccedil;&otilde;es, sobretudo as do Decreto n&ordm; 236\/76 e da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei n&ordm; 9.472\/97) &ndash; a refer&ecirc;ncia legal b&aacute;sica para a radiodifus&atilde;o brasileira <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/sem_festas_nada_a_celebrar\">(&ldquo;45 anos do CBT: Sem festas, nada a celebrar&rdquo;<\/a> ).<\/p>\n<p>Tem raz&atilde;o o presidente da Abert. A entidade &ndash; criada na luta contra os vetos de Jango e com eles identificada&ndash; constitui, ainda hoje, o grande e vitorioso ator na defini&ccedil;&atilde;o de regras para o setor.<\/p>\n<p><strong>Cinquenta anos depois, teria mudado a Abert?<br \/><\/strong><br \/>No discurso do presidente Emanuel Carneiro, surpreendentemente, n&atilde;o h&aacute; referencia &agrave; necessidade de um novo marco regulat&oacute;rio para o setor. As &ldquo;etapas&rdquo; que considera fundamentais para os radiodifusores, ao contr&aacute;rio, se referem &agrave; defini&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o digital do r&aacute;dio; &agrave; destina&ccedil;&atilde;o dos canais 5 e 6 de TV para o r&aacute;dio AM e &agrave; &ldquo;flexibiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; do hor&aacute;rio de transmiss&atilde;o da Voz do Brasil.<\/p>\n<p>O pa&iacute;s mudou, n&atilde;o estamos no conturbado 1962 e n&atilde;o vivemos mais &ldquo;um per&iacute;odo de instabilidade institucional, radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e crise econ&ocirc;mica e financeira&rdquo;. No mundo contempor&acirc;neo, o setor de comunica&ccedil;&otilde;es passou &ndash; e ainda passa &ndash; por profundas mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas que afetam radicalmente desde as diferentes formas da sociabilidade humana at&eacute; os modelos de neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Apesar disso, nos &uacute;ltimos anos, a Abert e seus associados se recusaram a participar da 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o e tem tratado o tema da regula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o como uma necessidade, mas como uma amea&ccedil;a autorit&aacute;ria &agrave; liberdade da imprensa.<\/p>\n<p>Haver&aacute; outro caminho que n&atilde;o seja a constru&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica de um novo marco regulat&oacute;rio para as comunica&ccedil;&otilde;es que tenha como horizonte o interesse p&uacute;blico, vale dizer, a consolida&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil?<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; jornalista, professor aposentado da UnB e autor de, entre outros livros, de Pol&iacute;tica de Comunica&ccedil;&otilde;es: um balan&ccedil;o dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Os 52 vetos de Jango foram derrubados e  incorporados ao CBT que, 50 anos depois, ainda permanece a refer&ecirc;ncia legal b&aacute;sica  para a radiodifus&atilde;o brasileira<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26986"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26986"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26986\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}