{"id":26965,"date":"2012-07-09T15:42:52","date_gmt":"2012-07-09T15:42:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26965"},"modified":"2012-07-09T15:42:52","modified_gmt":"2012-07-09T15:42:52","slug":"grande-parte-das-radios-comunitarias-esta-na-ilegalidade-por-conta-da-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26965","title":{"rendered":"&#8220;Grande parte das r\u00e1dios comunit\u00e1rias est\u00e1 na ilegalidade por conta da lei&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\"><em>[T&iacute;tulo original: Regulariza&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios comunit&aacute;rias &eacute; quest&atilde;o de vontade pol&iacute;tica]<\/em><\/p>\n<p>Uma das vit&oacute;rias da C&uacute;pula dos Povos foi a uni&atilde;o popular contra o fechamento da r&aacute;dio C&uacute;pula, no domingo, 17 de junho, dia em que a mobiliza&ccedil;&atilde;o recebia seu maior p&uacute;blico no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Presente ao epis&oacute;dio, o jornalista Arthur William, representante brasileiro da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Amarc), foi um dos negociadores contra a interrup&ccedil;&atilde;o das transmiss&otilde;es, que por fim explicitou qu&atilde;o r&aacute;pido uma licen&ccedil;a pode ser emitida.<\/p>\n<p>Em entrevista &agrave; Carta Maior, ele relembra o epis&oacute;dio para denunciar como as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o oficialmente discriminadas e o quanto &eacute; necess&aacute;rio a mudan&ccedil;a legal para que elas contribuam com a realidade pol&iacute;tica, social, econ&ocirc;mica e tecnol&oacute;gica da democracia brasileira nos anos 2010. &ldquo;E tamb&eacute;m &eacute; preciso fiscalizar para que a concess&atilde;o sirva &agrave; comunidade e n&atilde;o a interesses pessoais, econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos&rdquo;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>CARTA MAIOR &#8211; Como foi o quase fechamento da r&aacute;dio C&uacute;pula dos Povos, durante a Rio+ 20?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ARTHUR WILLIAM<\/strong> &#8211; A r&aacute;dio reunia diversos participantes da c&uacute;pula justamente para transmitir o que estava acontecendo para todo mundo, atrav&eacute;s da internet. E tamb&eacute;m pelas ondas de r&aacute;dio atrav&eacute;s de uma frequ&ecirc;ncia de FM. O processo de legaliza&ccedil;&atilde;o de uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria demora muito no Brasil, hoje est&aacute; at&eacute; melhorando, mas em geral demorava 10, 20 anos, ent&atilde;o o coletivo da r&aacute;dio optou por transmitir independentemente da licen&ccedil;a, porque era uma baixa pot&ecirc;ncia e os equipamentos eram homologados.<\/p>\n<p>E no domingo da C&uacute;pula dos Povos (17\/6) a Anatel (Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es) chegou, sem nenhum documento requerendo os equipamentos, para lacrar e levar os transmissores. Devido &agrave; mobiliza&ccedil;&atilde;o de todos os participantes, com um abra&ccedil;o a radio, a Anatel acabou se afastando do local e chamou a pol&iacute;cia militar para garantir a entrada deles na r&aacute;dio. A&iacute; passamos a argumentar, atrav&eacute;s de uma comiss&atilde;o de negocia&ccedil;&atilde;o da qual eu participei, que n&atilde;o era compet&ecirc;ncia da pol&iacute;cia militar a quest&atilde;o de radiodifus&atilde;o. E entramos em contato com o minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es para conseguir uma licen&ccedil;a provis&oacute;ria.<\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, entendendo a import&acirc;ncia que a r&aacute;dio tinha para o evento, conseguiu junto com a EBC (Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&otilde;es) uma licen&ccedil;a experimental, tempor&aacute;ria, para que a r&aacute;dio pudesse continuar funcionando de forma legal durante a c&uacute;pula. E foi o que aconteceu, conseguimos uma licen&ccedil;a experimental, que foi uma grande vit&oacute;ria do movimento, mostrando que na verdade quando se h&aacute; interesse pol&iacute;tico para que uma emissora funcione, ela pode funcionar. Ent&atilde;o a quest&atilde;o da radiodifus&atilde;o no Brasil, das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, pode ser muito melhor do que est&aacute;, basta vontade pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><strong>Como avalia a atua&ccedil;&atilde;o da Anatel no caso?<\/strong><\/p>\n<p>Na reuni&atilde;o de negocia&ccedil;&atilde;o n&oacute;s questionamos o papel da Anatel. Ela tem outras coisas muito mais importantes para fazer. O STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu que a Anatel fizesse busca de equipamento de radiodifus&atilde;o, e o entendimento da Defensoria P&uacute;blica da Uni&atilde;o &eacute; de que n&atilde;o existe apreens&atilde;o sem busca; o transmissor n&atilde;o apareceu l&aacute; no escrit&oacute;rio da Anatel, ela foi fazer uma busca e conseguiu encontrar de onde a r&aacute;dio estava sendo transmitida. Ent&atilde;o, segundo entendimento da defensoria p&uacute;blica, essas a&ccedil;&otilde;es da Anatel s&atilde;o ilegais.<\/p>\n<p>E o conselho da sociedade civil na Anatel, at&eacute; o Marcelo Miranda, que &eacute; do instituto Telecom, se colocou &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para travar esse debate dentro da Anatel. A Anatel n&atilde;o vai na Oi, n&atilde;o vai na Vivo, na Tim, sendo que essas empresas s&atilde;o as que mais t&ecirc;m reclama&ccedil;&otilde;es do consumidor. Agora, contra a r&aacute;dio comunit&aacute;ria, que est&aacute; cumprindo o papel essencial que &eacute; transmitir a cultura e informa&ccedil;&otilde;es locais de forma volunt&aacute;ria, porque n&atilde;o recebe dinheiro para isso, ela s&oacute; trata com repress&atilde;o, com criminaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Qual a situa&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o sobre as r&aacute;dios comunit&aacute;rias?<\/strong><\/p>\n<p>As r&aacute;dios comunit&aacute;rias t&ecirc;m uma lei de 1998 (Decreto 2615, para a Lei 9742\/97) que &eacute; muito ultrapassada. Ela foi uma lei feita pelos empres&aacute;rios para que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias n&atilde;o significassem uma concorr&ecirc;ncia. Ela &eacute; uma lei do pior momento do governo Fernando Henrique Cardoso, que foi o momento das privatiza&ccedil;&otilde;es, da entrega do patrim&ocirc;nio brasileiro para a iniciativa privada estrangeira, que foi ali entre 1997 e 1998. Essa lei reflete esse momento da democracia brasileira, que era diferente do que a gente tem hoje.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso mudar essa lei. Ela traz uma s&eacute;rie de amarras. Ela burocratiza a quest&atilde;o da legaliza&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, ent&atilde;o hoje grande parte das r&aacute;dios comunit&aacute;rias est&aacute; na ilegalidade por conta dessa lei. E algumas r&aacute;dios comunit&aacute;rias acabam sendo controladas por pol&iacute;ticos, por grupos religiosos, porque eles t&ecirc;m o controle econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico de uma situa&ccedil;&atilde;o que requer contrata&ccedil;&atilde;o de advogados, de funcion&aacute;rios. E que uma comunidade sem dinheiro, sem poder captar atrav&eacute;s de publicidade, ou de outras fontes de recursos, como o Fundo P&uacute;blico, voltado para isso, ou o percentual de um imposto, como &eacute; o Fistel (fundo de Fiscaliza&ccedil;&atilde;o das Telecomunica&ccedil;&otilde;es), ou do Fust (Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es), para financiar r&aacute;dio comunit&aacute;ria, fica impossibilitada e alguns grupos pol&iacute;ticos ou religiosos acabam se aproveitando para controlar essa concess&atilde;o de r&aacute;dios comunit&aacute;rias. E tamb&eacute;m &eacute; preciso fiscalizar para que a concess&atilde;o sirva &agrave; comunidade e n&atilde;o a interesses pessoais, econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>A gente precisa avan&ccedil;ar, porque a r&aacute;dio comunit&aacute;ria tem que ser vista como um ator importante na quest&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, que hoje est&aacute; se fortalecendo com a EBC, as r&aacute;dios Nacional e MEC (Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura), as r&aacute;dios p&uacute;blicas estaduais, a TV Brasil e a rede p&uacute;blica de televis&atilde;o. E as r&aacute;dios comunit&aacute;rias fazem parte desse processo, ent&atilde;o elas precisam ser tratadas e reconhecidas com a import&acirc;ncia devida, e hoje n&atilde;o t&ecirc;m.<\/p>\n<p><strong>A portaria 1462, de 2011, n&atilde;o mudaria esse panorama?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o. A norma 462 na verdade regulamenta essa lei de 98. Ent&atilde;o voc&ecirc; regulamentar uma lei que &eacute; ruim, voc&ecirc; s&oacute; intensifica o grau de persegui&ccedil;&atilde;o, o grau de burocracia, o grau de desimport&acirc;ncia que o poder p&uacute;blico est&aacute; tendo com as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Ela trouxe uma maior transpar&ecirc;ncia nos processos, que na verdade &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o que o estado deveria dar sempre, e que at&eacute; hoje n&atilde;o tinha, por exemplo, na disputa por uma frequ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Mas por outro lado os pontos piores da lei foram aprofundados. Como a quest&atilde;o, que para a gente &eacute; a principal, de que quem transmite sem legaliza&ccedil;&atilde;o fica automaticamente desclassificado de um processo de legaliza&ccedil;&atilde;o. Ou seja, foi uma forma de impedir que as pessoas exer&ccedil;am seu direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o independentemente da legisla&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica que criminaliza os movimentos sociais, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p>Hoje na pr&oacute;pria lei n&atilde;o h&aacute; uma isonomia entre as r&aacute;dios comunit&aacute;rias e comerciais. Se uma r&aacute;dio comercial interferir em uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria, nada acontece. Agora, se uma comunit&aacute;ria interferir em uma comercial, ela tem que desligar o seu transmissor. E a r&aacute;dio privada, na verdade n&atilde;o &eacute; nem r&aacute;dio comercial, &eacute; r&aacute;dio privada, ela pode ter an&uacute;ncio na sua programa&ccedil;&atilde;o, o que em grande parte &eacute; o que viabiliza sua sustentabilidade. E a r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; proibida de fazer publicidade, ou seja, a r&aacute;dio comunit&aacute;ria, no Brasil, &eacute; sin&ocirc;nimo de r&aacute;dio pobre, por conta da lei.<\/p>\n<p><strong>H&aacute; como mud&aacute;-la?<\/strong><\/p>\n<p>A norma 1462 foi um retrocesso. Os movimentos sociais reclamaram, tanto a Abra&ccedil;o (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria), como a Amarc fizeram mobiliza&ccedil;&otilde;es e agora o governo est&aacute; com uma proposta de altera&ccedil;&atilde;o da norma. Esse processo est&aacute; na Casa Civil e toca em pontos que para o movimento s&atilde;o muito importantes. Um exemplo &eacute; a autoriza&ccedil;&atilde;o de publicidade comercial, desde que essa publicidade seja do com&eacute;rcio local e desde que n&atilde;o sejam veiculados os pre&ccedil;os e condi&ccedil;&otilde;es de pagamento. E a r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; muito importante para incentivar o com&eacute;rcio local, porque o pequeno comerciante n&atilde;o consegue anunciar na grande r&aacute;dio (NR: No Rio de Janeiro, por exemplo, m&eacute;dia de R$ 700 por 30 segundos de veicula&ccedil;&atilde;o). Ent&atilde;o quem tem acesso aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o vai comprar nas grandes lojas, e o com&eacute;rcio local fica enfraquecido. A r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; um espa&ccedil;o para fazer essa economia local girar.<\/p>\n<p>Outra quest&atilde;o &eacute; o alcance do transmissor. A norma de 1998 colocava o alcance do transmissor em um quil&ocirc;metro. Ou seja, al&eacute;m de 25 watt ser uma transmiss&atilde;o de muito baixa pot&ecirc;ncia, a quest&atilde;o de 1 Km de raio &eacute; at&eacute; aonde a r&aacute;dio pode pegar. E isso desconsidera a formata&ccedil;&atilde;o territorial da comunidade. Pode haver uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria que atende a um munic&iacute;pio que tem muito mais do que 1 km de raio. Ent&atilde;o a proposta de modifica&ccedil;&atilde;o da norma &eacute; que o alcance do transmissor seja equivalente ao territ&oacute;rio da comunidade atingida. Mas de qualquer forma essas pequenas melhorias n&atilde;o atendem ao que a gente precisa, que &eacute; mudar a lei.<\/p>\n<p><strong>Um novo marco regulat&oacute;rio?<\/strong><\/p>\n<p>O marco regulat&oacute;rio brasileiro das telecomunica&ccedil;&otilde;es est&aacute; fazendo 50 anos. E n&atilde;o d&aacute; para continuar, ele &eacute; muito antigo, n&atilde;o contempla r&aacute;dios comunit&aacute;rias, sites e comunica&ccedil;&atilde;o digital. Ele precisa ser atualizado do ponto de vista tecnol&oacute;gico e do ponto de vista da comunica&ccedil;&atilde;o que hoje temos, porque n&atilde;o d&aacute; para 99% das r&aacute;dios e 99% das televis&otilde;es serem privadas comerciais. &Eacute; preciso ter maior democracia nas comunica&ccedil;&otilde;es e hoje isto n&atilde;o existe. O marco regulat&oacute;rio precisa tratar disso.<\/p>\n<p>O marco regulat&oacute;rio &eacute; a principal pauta do movimento de comunica&ccedil;&atilde;o como um todo hoje. O FNDC (F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o), do qual a Amarc faz parte, luta pela aprova&ccedil;&atilde;o do marco regulat&oacute;rio. A partir das contribui&ccedil;&otilde;es da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o (Confecom) o governo fez um esbo&ccedil;o do que seria esse marco e est&aacute; prometendo colocar em consulta p&uacute;blica o mais breve poss&iacute;vel. Ent&atilde;o o movimento social pressiona o governo para que isso aconte&ccedil;a e que esse processo tamb&eacute;m seja o mais democr&aacute;tico poss&iacute;vel, com audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas discutindo os pontos do marco e que ele seja aprovado o mais urgentemente.<\/p>\n<p>&Eacute; importante tamb&eacute;m que o debate sobre comunica&ccedil;&atilde;o seja feito junto. Seja feito com uma certa coer&ecirc;ncia entre as leis. A Amarc verifica que o governo tem aprovado leis recentemente, a lei da EBC em 2008, a norma de r&aacute;dio comunit&aacute;ria em 2011, a lei de TV por assinatura, o marco civil da internet, que tamb&eacute;m est&aacute; quase sendo aprovado, ou a pr&oacute;pria lei dos direitos autorais. Ou seja, &eacute; uma s&eacute;rie de quest&otilde;es da comunica&ccedil;&atilde;o que est&atilde;o sendo aprovadas sem nenhuma liga&ccedil;&atilde;o entre elas. &Eacute; preciso que exista uma consolida&ccedil;&atilde;o, uma coer&ecirc;ncia entre as normas. N&atilde;o d&aacute; para ter um marco civil da internet que &eacute; bem avan&ccedil;ado e uma norma de r&aacute;dios comunit&aacute;rias que &eacute; um retrocesso feitos pelo mesmo governo. O governo tem que manter uma coer&ecirc;ncia e tratar a quest&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o como algo &uacute;nico, essencial para a consolida&ccedil;&atilde;o da democracia no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Fazendo um comparativo, qual a situa&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias em outros pa&iacute;ses?<\/strong><\/p>\n<p>As r&aacute;dios comunit&aacute;rias, principalmente na Am&eacute;rica Latina, t&ecirc;m uma realidade bem parecida com a do Brasil. S&oacute; que em alguns pa&iacute;ses t&ecirc;m avan&ccedil;ado, como por exemplo Equador, Uruguai e Argentina. Na Argentina, com a lei dos meios, todas as comunica&ccedil;&otilde;es foram divididas entre estatais, ou seja, controladas pelo estado, independentemente se t&ecirc;m finalidades p&uacute;blicas, culturais, educativas; as emissoras privadas com fins lucrativos, que s&atilde;o o que a gente chama hoje de emissoras comerciais, e as emissoras privadas sem fins lucrativos. E nesse &uacute;ltimo segmento est&atilde;o contempladas as r&aacute;dios comunit&aacute;rias, quilombolas e livres.<\/p>\n<p>&Eacute; um enquadramento bem mais amplo do que a gente tem no Brasil, que a constitui&ccedil;&atilde;o diz p&uacute;blico, estatal e privado. At&eacute; a pr&oacute;pria discuss&atilde;o entre o que &eacute; p&uacute;blico e privado acaba complicando o enquadramento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Por exemplo, r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o privadas, mas s&atilde;o p&uacute;blicas, elas t&ecirc;m car&aacute;ter p&uacute;blico. J&aacute; as emissoras, hoje as r&aacute;dios e televis&otilde;es que a gente chama de p&uacute;blicas, elas s&atilde;o controladas pelo estado, estatais, mas t&ecirc;m finalidade p&uacute;blica tamb&eacute;m. Ent&atilde;o a defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; p&uacute;blico &eacute; muito importante para isso.<\/p>\n<p>A gente luta, por exemplo, no marco regulat&oacute;rio, para que a defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; p&uacute;blico, estatal ou privado esteja contemplada nisso. At&eacute; para que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias que a gente entende que est&atilde;o nesse campo p&uacute;blico da comunica&ccedil;&atilde;o tenham a relev&acirc;ncia merecida na lei.<\/p>\n<p><strong>E em outros lugares?<\/strong><\/p>\n<p>Voc&ecirc; tem uma realidade, por exemplo, de pa&iacute;ses que s&atilde;o muito pobres, onde a comunica&ccedil;&atilde;o privada n&atilde;o existe, como no Haiti e em alguns pa&iacute;ses da &Aacute;frica. Existe a comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, que tamb&eacute;m n&atilde;o tem muito investimento. E a comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria &eacute; muito forte. Por qu&ecirc;? Porque ela recebe financiamento estrangeiro, de entidades, de outras organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais. O Haiti &eacute; um exemplo disso, onde as r&aacute;dios comunit&aacute;rias t&ecirc;m mais audi&ecirc;ncia, mais import&acirc;ncia, chegam ao pa&iacute;s todo com um transmissor com alcance para o pa&iacute;s inteiro. E cumprem um papel importante na conscientiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na pr&oacute;pria quest&atilde;o dos desastres naturais, como &eacute; o caso do Haiti, elas cumpriram papel superimportante para conscientizar a popula&ccedil;&atilde;o para encontrar desaparecidos durante o terremoto daquele pa&iacute;s. O que aconteceu aqui tamb&eacute;m em Teres&oacute;polis e Nova Friburgo (RJ) com a R&aacute;dio Comunidade de Friburgo, onde foi a r&aacute;dio comunit&aacute;ria que conseguiu encontrar os desaparecidos. Porque a r&aacute;dio comercial n&atilde;o tem rela&ccedil;&otilde;es com a comunidade, n&atilde;o &eacute; feita pela pr&oacute;pria comunidade, &eacute; feita por profissionais e tem a finalidade de lucro; e a r&aacute;dio p&uacute;blica est&aacute; muito distante da cidade, ela est&aacute; transmitindo do Rio de Janeiro, ent&atilde;o n&atilde;o tem la&ccedil;os t&atilde;o firmes como uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria.<\/p>\n<p>Isso mostra a import&acirc;ncia da r&aacute;dio comunit&aacute;ria em pa&iacute;ses que n&atilde;o t&ecirc;m estrutura nenhuma. A r&aacute;dio comunit&aacute;ria cumpre esse papel essencial, como no caso do Haiti e em pa&iacute;ses da &Aacute;frica tamb&eacute;m.<\/p>\n<p><strong>Quais os objetivos da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Amarc)?<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo da Amarc mundialmente &eacute; a luta pela garantia do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o como direito humano fundamental. O ser humano &eacute; comunicativo por natureza. Se expressa pelo olhar, pela fala, pelos gestos, mas tamb&eacute;m por um jornal, um site, um blog, uma r&aacute;dio e uma televis&atilde;o. &Eacute; preciso que o poder p&uacute;blico garanta isso atrav&eacute;s de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>A Amarc atua com foco nas r&aacute;dios comunit&aacute;rias em parceria com os movimentos locais de cada pa&iacute;s. Ela se junta aos movimentos comunit&aacute;rios locais para lutar para que pol&iacute;ticas p&uacute;blicas sejam colocadas em pr&aacute;tica, ou sejam criadas para garantir esse direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Voltando ao Brasil, &eacute; poss&iacute;vel fazer uma estimativa de quantas r&aacute;dios comunit&aacute;rias existem?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje no Brasil a gente tem mais de quatro mil r&aacute;dios comunit&aacute;rias legalizadas. Mas a nossa previs&atilde;o &eacute; que existam, entre legalizadas e n&atilde;o legalizadas, mais de 10 mil r&aacute;dios operando.<\/p>\n<p><strong>Finalmente, para o cidad&atilde;o que leu essa entrevista e gostou do tema. Como ele acessa as r&aacute;dios comunit&aacute;rias?<\/strong><\/p>\n<p>As r&aacute;dios comunit&aacute;rias t&ecirc;m uma frequ&ecirc;ncia apenas por munic&iacute;pio. Se voc&ecirc; est&aacute; em determinado lugar, voc&ecirc; s&oacute; pode ouvir uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria, porque a lei imp&otilde;e isso, e elas t&ecirc;m uma separa&ccedil;&atilde;o de quatro quil&ocirc;metros. Ent&atilde;o se voc&ecirc; est&aacute; em casa, ou no trabalho, voc&ecirc; s&oacute; vai conseguir ouvir uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria.<\/p>\n<p>E em cada munic&iacute;pio ela tem uma frequ&ecirc;ncia diferente. A&iacute; tem que entrar no site da Anatel para verificar qual a frequ&ecirc;ncia espec&iacute;fica do seu munic&iacute;pio. Ou pode entrar no site da Amarc, www.amarcbrasil.org, ou no site da Abra&ccedil;o, www.abraconacional.org, para verificar qual a r&aacute;dio comunit&aacute;ria mais pr&oacute;xima. E tamb&eacute;m participar, porque a r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; aberta a participa&ccedil;&atilde;o de todos. N&atilde;o apenas ouvir, mas tamb&eacute;m fazer locu&ccedil;&atilde;o, ajudar no que puder dentro da r&aacute;dio comunit&aacute;ria.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Em entrevista para a Ag&ecirc;ncia Carta Maior, o representante no Brasil da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial das R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (AMARC), Arthur Willlian, fala sobre a necessidade de mudan&ccedil;as na legisla&ccedil;&atilde;o para evitar a criminaliza&ccedil;&atilde;o destas r&aacute;dios<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1704],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26965"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26965"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26965\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}