{"id":26954,"date":"2012-06-24T19:54:12","date_gmt":"2012-06-24T19:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26954"},"modified":"2012-06-24T19:54:12","modified_gmt":"2012-06-24T19:54:12","slug":"a-cupula-o-direito-a-comunicacao-e-a-liberdade-de-expressao-dos-povos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26954","title":{"rendered":"A C\u00fapula, o direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e a liberdade de express\u00e3o dos povos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Na Turquia, o acesso &agrave; internet &eacute; proibido ao povo curdo. Recentemente, o jornal &quot;Livre e Atual&quot;, publicado pela comunidade curda, teve 66 jornalistas assassinados e seu diretor condenado a mais de 100 anos de pris&atilde;o. Na Dinamarca, a emissora de TV que dava voz a este povo foi fechada ap&oacute;s pedido do governo da Turquia junto &agrave;s inst&acirc;ncias da OTAN.<\/p>\n<p>Em Mo&ccedil;ambique, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o o principal meio de express&atilde;o dos 20 idiomas falados por 60% da popula&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m do oficial portugu&ecirc;s. Parte dos habitantes tem sotaque brasileiro por influ&ecirc;ncia das novelas veiculadas por l&aacute;. As emissoras que desagradam o poder pol&iacute;tico central, no entanto, s&atilde;o fechadas sem justificativa. O mesmo acontece com canais de TV que questionam a autoridade da Presid&ecirc;ncia do pa&iacute;s. Mo&ccedil;ambique n&atilde;o disp&otilde;e de uma lei de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e h&aacute; uma depend&ecirc;ncia dos ve&iacute;culos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade governamental.<\/p>\n<p>Na China, h&aacute; os ve&iacute;culos que dependem do Estado e os que dependem do mercado. A luta pela liberdade de jornalistas, nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos, ganhou o apoio da popula&ccedil;&atilde;o com o aparecimento das redes sociais. Hoje, 500 milh&otilde;es de chineses s&atilde;o usu&aacute;rios de internet e o controle da informa&ccedil;&atilde;o pelo Estado est&aacute; ruindo. A liberdade de imprensa, no entanto, ainda n&atilde;o &eacute; garantida institucionalmente. O Estado e a pol&iacute;cia podem prender jornalistas e ativistas a qualquer momento.<\/p>\n<p>No Brasil, no &uacute;ltimo dia 17, a Anatel, com o aux&iacute;lio o Ex&eacute;rcito e da Pol&iacute;cia Militar, tentou tirar do ar a R&aacute;dio C&uacute;pula, emissora livre que funcionava no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, para divulgar &agrave; popula&ccedil;&atilde;o os temas em debate na C&uacute;pula dos Povos por Justi&ccedil;a Social e ambiental em defesa dos bens comuns, contra a mercantiliza&ccedil;&atilde;o da vida. Gra&ccedil;as &agrave; press&atilde;o dos movimentos populares, a R&aacute;dio C&uacute;pula conseguiu funcionar at&eacute; o final do evento. No mesmo final de semana, 11 r&aacute;dios comunit&aacute;rias da regi&atilde;o de Campinas, interior de S&atilde;o Paulo, tamb&eacute;m correram o risco de serem caladas ap&oacute;s a expedi&ccedil;&atilde;o de mandados judiciais ordenando a apreens&atilde;o de seus equipamentos pela Anatel. <\/p>\n<p>O que essas quatros hist&oacute;rias tem em comum, al&eacute;m da &oacute;bvia constata&ccedil;&atilde;o que o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e &agrave; liberdade de express&atilde;o dos povos seguem sendo cotidianamente violados em todo mundo? Todas elas foram contadas, compartilhadas e at&eacute; mesmo vivenciadas por comunicadores e ativistas que participaram do II F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre (II FMML), evento realizado na C&uacute;pula dos Povos, que terminou neste final de semana no Rio de Janeiro.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p>Organizado a partir de uma articula&ccedil;&atilde;o internacional que come&ccedil;ou no F&oacute;rum Social Mundial de&nbsp; 2011, no Senegal, o II FMML reuniu centenas de pessoas de mais de 15 pa&iacute;ses, de todos os continentes do planeta, para debater o papel estrat&eacute;gico da comunica&ccedil;&atilde;o na constru&ccedil;&atilde;o deste outro mundo, ambientalmente sust&aacute;vel e socialmente justo. O evento aconteceu n&atilde;o apenas 20 anos ap&oacute;s a ECO 92, mas tamb&eacute;m vinte anos ap&oacute;s a chegada da internet no Rio de Janeiro, implantada na cidade por organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil justamente durante o F&oacute;rum Global.<\/p>\n<p>E se hoje as novas tecnologias est&atilde;o teoricamente dispon&iacute;veis para todos, os desafios n&atilde;o s&atilde;o menores do que nos anos 90. Consideradas as diferentes conjunturas e temporalidades, ficou claro para todos que a defesa do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o precisa ser colocada na ordem do dia das lutas dos povos de todo o mundo. <\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque,&nbsp; na disputa ideol&oacute;gica por modelos de desenvolvimento, os grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o comerciais reproduzem, em sua maioria, um discurso permissivo em rela&ccedil;&atilde;o a pr&aacute;ticas predat&oacute;rias e consumistas. Apesar de falaram da crise ambiental vivida pelo planeta, n&atilde;o questionam o modelo capitalista que a causou. Neste sentido, a m&iacute;dia livre, em suas mais diferentes formas de organiza&ccedil;&atilde;o, &eacute; fundamental para dar voz aos setores que defendem outra forma de se relacionar com os recursos naturais e os bens comuns.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque a comunica&ccedil;&atilde;o e a cultura, elas pr&oacute;prias, tamb&eacute;m devem ser vistas bens comuns, que, assim como a &aacute;gua e as florestas, vem sendo historicamente apropriados e mercantilizados pelas grandes corpora&ccedil;&otilde;es, perante a omiss&atilde;o ou coniv&ecirc;ncia dos governos. E se, neste caso, n&atilde;o estamos discutindo recursos finitos, como fez a agenda da Rio+20, a mercantiliza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e a coloniza&ccedil;&atilde;o das mensagens pelo poder econ&ocirc;mico tamb&eacute;m tem tornado escassas a diversidade e pluralidade desses bens imateriais. <\/p>\n<p>Mas assim como a C&uacute;pula dos Povos mostrou experi&ecirc;ncias populares de gest&atilde;o comunit&aacute;ria de bosques, rios e territ&oacute;rios, o F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre foi um espa&ccedil;o para debater e praticar os princ&iacute;pios do compartilhamento e da produ&ccedil;&atilde;o comum de comunica&ccedil;&atilde;o: das iniciativas da cultura digital &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de protocolos livres, passando pela gest&atilde;o de r&aacute;dios livres e comunit&aacute;rias e pela defesa de marcos regulat&oacute;rios democr&aacute;ticos e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que garantam a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga, a apropria&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e o exerc&iacute;cio da liberdade de express&atilde;o de todos os povos. &nbsp;<\/p>\n<p>Num cen&aacute;rio em que, numa parte do mundo, ainda se vive sob a censura do Estado na radiodifus&atilde;o, nos meios impressos e na internet e, em outra, a monopoliza&ccedil;&atilde;o de sistemas medi&aacute;ticos tem inibido o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e a liberdade de express&atilde;o dos povos, o II FMML levantou alto a bandeira do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Considerando o momento hist&oacute;rico singular que o tema vive, muito distante das &eacute;pocas em que os emissores detinham o controle da palavra, os comunicadores que estiveram no Rio apostam no crescimento do protagonismo popular para o desenvolvimento de fluxos distintos de comunica&ccedil;&atilde;o e no fortalecimento de uma nova din&acirc;mica de redes, em que outras vozes ganhem espa&ccedil;o e alcance global. <\/p>\n<p>Uma das decis&otilde;es da assembl&eacute;ia final do F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre foi transform&aacute;-lo num espa&ccedil;o permanente de articula&ccedil;&atilde;o entre ativistas de comunica&ccedil;&atilde;o de todo o mundo, por meio de plataformas livres e interoper&aacute;veis de participa&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m ser&aacute; elaborado um dec&aacute;logo de refer&ecirc;ncia internacional para a garantia do exerc&iacute;cio das m&iacute;dias livres. Em torno desses princ&iacute;pios, o movimento pretende construir uma plataforma de a&ccedil;&otilde;es que dialogue com a realidade de cada pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Da mesma forma, deve ser constru&iacute;da, em parceria com os movimentos populares de outras &aacute;reas, uma agenda internacional de lutas em torno do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. O objetivo &eacute; que os movimentos sociais se apropriem da m&iacute;dia livre para fortalecer suas pr&oacute;prias lutas, rompendo com a barreira hoje imposta pelos grandes meios privados ou pelos Estados. <\/p>\n<p>Aqui no Brasil, a sociedade civil se organiza na batalha por um novo marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es, que garanta a liberdade de express&atilde;o para todos e todas, e n&atilde;o apenas para aqueles que detem o controle e a propriedade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. A luta agora &eacute; para ampliar&nbsp; o n&uacute;mero de atores pol&iacute;ticos nesse processo e envolver o conjunto da popula&ccedil;&atilde;o brasileira neste debate. <br \/>&nbsp;<br \/>Em 2013, no pr&oacute;ximo F&oacute;rum Social Mundial, na Tun&iacute;sia, o F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre se reunir&aacute; presencialmente uma vez mais. Que at&eacute; l&aacute; tenhamos avan&ccedil;ado por aqui na constru&ccedil;&atilde;o de um sistema midi&aacute;tico efetivamente plural e livre no Brasil. <\/p>\n<p><em>Bia Barbosa &eacute; jornalista, integrante do Intervozes e participou da organiza&ccedil;&atilde;o do II F&oacute;rum Mundial de M&iacute;dia Livre na C&uacute;pula dos Povos da Rio+20.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Mas assim como a C&uacute;pula dos Povos mostrou  experi&ecirc;ncias populares de gest&atilde;o comunit&aacute;ria de bosques, rios e  territ&oacute;rios, o F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre foi um espa&ccedil;o para debater e  praticar os princ&iacute;pios do compartilhamento e da produ&ccedil;&atilde;o comum de  comunica&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26954"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}