{"id":26922,"date":"2012-06-12T15:42:16","date_gmt":"2012-06-12T15:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26922"},"modified":"2012-06-12T15:42:16","modified_gmt":"2012-06-12T15:42:16","slug":"um-brasil-que-ainda-nao-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26922","title":{"rendered":"Um Brasil que ainda n\u00e3o fala"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O Brasil ainda esconde uma Austr&aacute;lia de gente que n&atilde;o tem acesso a qualquer tipo de telefone. Seja fixo ou celular. Um contingente de brasileiros, que de acordo com o Censo, somava em 2010 cerca de 22,3 milh&otilde;es de pessoas. Desses, metade (11,54 milh&otilde;es) se concentra no Nordeste. Mas o que explica o isolamento de 11,7% da popula&ccedil;&atilde;o de um pa&iacute;s que hoje discute expans&atilde;o de 3G e implementa&ccedil;&atilde;o de 4G? Os especialistas dizem que, de um lado, falta infraestrutura nas &aacute;reas mais remotas, os investimentos das empresas de telefonia est&atilde;o aqu&eacute;m do necess&aacute;rio e a carga tribut&aacute;ria (que representa 46,3% da conta) do setor segue alta. Do outro, a renda baixa das fam&iacute;lias coloca esses consumidores no fim da fila das prioridades das operadoras.<\/p>\n<p>Segundo dados do Censo do IBGE, havia 6,93 milh&otilde;es de domic&iacute;lios &#8211; ou 12,09% dos lares &#8211; sem acesso &agrave; telefonia. Uma realidade comum entre os mais pobres. N&atilde;o &agrave; toa, das moradias sem qualquer telefone, 88,1% tinham renda domiciliar per capita de at&eacute; um sal&aacute;rio m&iacute;nimo (R$ 510). Na outra ponta, onde o rendimento per capita era superior a cinco sal&aacute;rios m&iacute;nimos, apenas 0,2% dos lares est&atilde;o sem linha.<\/p>\n<p>&#8211; Doze por cento sem telefone &eacute; um n&uacute;mero significativo em uma era em que as pessoas tendem a acreditar que est&atilde;o todos conectados a internet, Wi-Fi, redes sociais&#8230; E isso mostra como o Brasil do s&eacute;culo XXI coexiste com o Brasil do s&eacute;culo XIX. Talvez n&atilde;o exista nos dias de hoje &iacute;ndice melhor de exclus&atilde;o social do que o n&uacute;mero de pessoas sem acesso a telefone. Al&eacute;m do efeito pr&aacute;tico de n&atilde;o ter acesso a telefone, h&aacute; o efeito simb&oacute;lico, de exclus&atilde;o social, paradigm&aacute;tico nos tempos de hoje &#8211; afirmou Flavio Comim, consultor do Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).<\/p>\n<p>Pelos dados do IBGE, o Maranh&atilde;o &eacute;, no quesito acesso &agrave; telefonia, o pior entre as 27 unidades da Federa&ccedil;&atilde;o, com 37,08% dos lares sem o servi&ccedil;o. No Piau&iacute;, s&atilde;o 30,02%. J&aacute; os mais ricos aparecem melhor &quot;na foto&quot;. No Distrito Federal, esse percentual cai para 2,14%, seguido de 4,87% em S&atilde;o Paulo e 6,36% no Rio.<\/p>\n<p>&#8211; O Brasil que n&atilde;o fala est&aacute; mais concentrado na &aacute;rea rural, onde a sa&iacute;da &eacute;, muitas vezes, usar o r&aacute;dio &#8211; disse Eduardo Tude, presidente da Teleco.<\/p>\n<p><strong>Novo plano de inclus&atilde;o da Anatel come&ccedil;a amanh&atilde;<\/strong><\/p>\n<p>Operadoras e governo sabem do tamanho dos exclu&iacute;dos no Brasil. &Eacute; por isso que a Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) reformulou o programa Acesso Individual Classe Especial (Aice), criado na d&eacute;cada passada para aumentar a presen&ccedil;a do telefone fixo no pa&iacute;s. Houve mudan&ccedil;as importantes. A principal delas &eacute; o pre&ccedil;o, que passou de R$ 24,14 para R$ 13,31 &#8211; queda de 44,86%. A franquia passou a ser de 90 minutos com chamadas para telefones fixos. Antes, qualquer liga&ccedil;&atilde;o era taxada.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, o programa, que antes atendia apenas aos lares inscritos no Bolsa Fam&iacute;lia, passa a atender a todos do cadastro &uacute;nico dos programas sociais, elevando em 65% o total de casas contempladas. Eduardo Marques Jacomassi, gerente operacional de Tarifas, Pre&ccedil;os e Acompanhamento Econ&ocirc;mico da Anatel, lembra que h&aacute; potencial para atingir quase 23 milh&otilde;es de lares. At&eacute; abril deste ano, o programa, que nunca emplacou, soma s&oacute; 136,5 mil usu&aacute;rios.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; um foco para os que participam dos programas sociais, e a redu&ccedil;&atilde;o do valor de assinatura mensal torna mais atrativo (o servi&ccedil;o). Assim, o novo Aice insere-se nos esfor&ccedil;os da Anatel em aumentar a inclus&atilde;o da telefonia &#8211; afirma Jacomassi, ressaltando que as novas regras passam a valer amanh&atilde;.<\/p>\n<p>Sem pol&iacute;ticas p&uacute;blicas eficientes, as regi&otilde;es Nordeste e Norte t&ecirc;m mais exclu&iacute;dos, com 22% das casas sem telefones. Analfabeta, a ex-trabalhadora rural Sebastiana Maria da Silva, de 70 anos, passou boa parte da vida na palha da cana, cercada por parentes que h&aacute; 50 anos residem no mesmo engenho, no munic&iacute;pio de Palmares, a 135 quil&ocirc;metros de Recife. Ela diz que n&atilde;o sabe nem como usar o telefone. No local, a &uacute;nica prestadora de telefonia est&aacute; a 18 quil&ocirc;metros de sua casa, no Centro.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca tive nem usei um telefone na vida. N&atilde;o sei nem ligar. N&atilde;o sinto falta n&atilde;o, porque n&atilde;o tenho muita coisa para conversar &#8211; afirma ela, para quem telefone &eacute; um luxo em uma casa onde o ch&atilde;o &eacute; de terra batida.<\/p>\n<p>Brasileiro destina 1% da renda para telefonia<\/p>\n<p>J&aacute; a filha de Sebastiana, Maria L&uacute;cia da Silva, de 30 anos, sonha com um celular, parecido com os que j&aacute; t&ecirc;m alguns vizinhos:<\/p>\n<p>&#8211; Desde que deixei o corte de cana, preciso de um. Mas &eacute; caro, o cr&eacute;dito, mais ainda. N&atilde;o tenho escolha: ou uso celular ou compro comida para os meninos.<\/p>\n<p>Para que fam&iacute;lias como a de Sebastiana tenham acesso &agrave; telefonia, especialistas dizem que &eacute; preciso mais investimentos das companhias, com tecnologias alternativas e maior fiscaliza&ccedil;&atilde;o do governo para verificar a qualidade do servi&ccedil;o prestado pelas teles. Segundo dados da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Telebrasil), as fam&iacute;lias hoje direcionam 1% da renda para os gastos com telecomunica&ccedil;&otilde;es. Ou seja, quem ganha um sal&aacute;rio m&iacute;nimo, em R$ 622, destina R$ 6,22 para liga&ccedil;&otilde;es por m&ecirc;s.<\/p>\n<p>A Oi, que atende mais de 4.800 cidades, trabalha para estimular o aumento da telefonia fixa no pa&iacute;s, segundo Andre Muller Borges, diretor de Regulamenta&ccedil;&atilde;o e Estrat&eacute;gia da empresa. Ele afirma que a companhia vai lan&ccedil;ar planos mais baratos, criando pacotes com outros servi&ccedil;os:<\/p>\n<p>&#8211; Mas &eacute; preciso entender hoje que a carga tribut&aacute;ria cria uma barreira de entrada. Mas n&atilde;o acho que seja s&oacute; a renda (baixa das fam&iacute;lias sem telefone). Estamos criando uma s&eacute;rie de planos alternativos e que acabam chegando a todos os tipos de bolso. O novo Aice, da Anatel, vai ser implementado, mas &eacute; economicamente invi&aacute;vel para as teles.<\/p>\n<p>A Telef&ocirc;nica, que vai investir R$ 24,3 bilh&otilde;es at&eacute; 2013, est&aacute; presente em 3,7 mil munic&iacute;pios. O n&uacute;mero deve aumentar nos pr&oacute;ximos meses, j&aacute; que a companhia est&aacute; levando telefonia fixa para diferentes cidades do pa&iacute;s. C&iacute;cero Olivieri, diretor de Rede da TIM, comenta que, considerando ainda o contingente de pessoas sem dados, &quot;os n&uacute;meros (de exclu&iacute;dos) beiram o absurdo&quot;. Para ele, h&aacute; problemas na falta de capilaridade da malha e na car&ecirc;ncia de rede. Juntos, esses impasses representam para o consumidor custos mais altos.<\/p>\n<p>&#8211; O que se percebe &eacute; que, mesmo nos bols&otilde;es mais pobres, as fam&iacute;lias j&aacute; est&atilde;o demandando, al&eacute;m de telefonia, acesso a internet. Demanda existe &#8211; disse ele, frisando que a TIM tinha, em fins de 2011, 15 mil quil&ocirc;metros de fibra &oacute;tica e quer chegar em 2014 com 41 mil. Desse total, boa parte &eacute; para as regi&otilde;es Norte e Nordeste.<\/p>\n<p>A diretora Regional da Claro para Rio de Janeiro e Esp&iacute;rito Santo, Gabriela Derenne, lembra dos desafios de se montar uma infraestrutura de telefonia no pa&iacute;s. Para ela, n&atilde;o basta instalar uma antena. Ainda assim, ela cita que a Claro, de 2009 a 2011, ampliou sua cobertura em mais de cem cidades no Centro-Oeste, Norte e Nordeste:<\/p>\n<p>&#8211; Individualmente, muitas vezes, a conta n&atilde;o fecha. &Eacute; preciso atender a um polo, a um conjunto de cidades.<\/p>\n<p>Vizinha de Sebastiana e L&uacute;cia, a trabalhadora rural e dona de casa Carmelita Maria da Concei&ccedil;&atilde;o, de 28 anos, &eacute; outra que reclama por n&atilde;o ter um celular. Com sete filhos, sem trabalho no momento e contando apenas com o sal&aacute;rio do marido cortador de cana, ela fica meses sem se comunicar com a fam&iacute;lia que mora em outras cidades. E comemora o fato de o irm&atilde;o Jos&eacute; Roberto da Silva, de 32 anos, ter retornado ao local, pois ele trabalhou por dois anos e meio em fazendas de Santa Catarina, per&iacute;odo em que ficaram sem se falar:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui a gente fica isolado at&eacute; para parir. No &uacute;ltimo menino, andei um peda&ccedil;&atilde;o a p&eacute; porque n&atilde;o tinha telefone, n&atilde;o deu para usar nem o dos vizinhos, porque as liga&ccedil;&otilde;es para fora eram p&eacute;ssimas &#8211; reclama Carmelita, mas sem desistir de ter um celular. J&aacute; foi em lojas e camel&ocirc;s, onde encontrou a mercadoria bem mais em conta. &#8211; O aparelho mais barato &eacute; R$ 230, e pirata n&atilde;o tem garantia. No camel&ocirc;, achei uma &quot;guitarrinha&quot; por R$ 70, mas, como n&atilde;o tem garantia, tive medo de perder o dinheiro, pois soube que a bateria dele &eacute; uma porcaria &#8211; diz ela, referindo-se a um modelo encontrado nas feiras.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil ainda esconde uma Austr&aacute;lia de gente que n&atilde;o tem acesso a qualquer tipo de telefone. Seja fixo ou celular. Um contingente de brasileiros, que de acordo com o Censo, somava em 2010 cerca de 22,3 milh&otilde;es de pessoas. Desses, metade (11,54 milh&otilde;es) se concentra no Nordeste. 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