{"id":26915,"date":"2012-05-31T18:27:50","date_gmt":"2012-05-31T18:27:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26915"},"modified":"2012-05-31T18:27:50","modified_gmt":"2012-05-31T18:27:50","slug":"tv-cultura-e-tv-folha-a-destruicao-do-carater-publico-de-uma-emissora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26915","title":{"rendered":"TV Cultura e TV Folha: a destrui\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter p\u00fablico de uma emissora"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica realizada nesta quarta-feira, 30 de maio, na Assembl&eacute;ia Legislativa de S&atilde;o Paulo, revelou o tamanho do distanciamento entre a dire&ccedil;&atilde;o da TV Cultura e as expectativas do povo paulista com sua emissora p&uacute;blica de televis&atilde;o. Convidado pela Comiss&atilde;o de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura da Assembl&eacute;ia de S&atilde;o Paulo, Jo&atilde;o Sayad, diretor-presidente da Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta, mantenedora das TV e r&aacute;dios Cultura, deixou expl&iacute;cita a diferen&ccedil;a de vis&otilde;es entre o projeto de reestrutura&ccedil;&atilde;o que vem sendo implementado por sua gest&atilde;o e aquilo que a sociedade civil e funcion&aacute;rios da Cultura entendem como priorit&aacute;rio neste momento. De um lado, a busca por audi&ecirc;ncia e o enxugamento da m&aacute;quina. De outro, a defesa da diversidade e da pluralidade.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Sayad falou bastante. Defendeu a renova&ccedil;&atilde;o da grade de programa&ccedil;&atilde;o infantil, a compra de document&aacute;rios estrangeiros e elogiou o que chamou de &quot;debate franco e aberto, entre um comentarista de esquerda e um de direita&quot; no Jornal da Cultura. Mas n&atilde;o conseguiu justificar com qualquer elemento, al&eacute;m da busca de audi&ecirc;ncia, a entrega de um programa jornal&iacute;stico, no hor&aacute;rio nobre do domingo &agrave; noite, &agrave; empresa Folha de S.Paulo. E este foi, n&atilde;o sem raz&atilde;o, o ponto mais pol&ecirc;mico da audi&ecirc;ncia p&uacute;blica. <br \/>&nbsp;<br \/>Em todo mundo, um dos fatores primordiais para a cria&ccedil;&atilde;o de sistemas p&uacute;blicos de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; a necessidade &#8211; para o bem da democracia dos pa&iacute;ses &#8211; de um jornalismo independente de governos e do mercado, constru&iacute;do a partir de crit&eacute;rios rigorosos de objetividade. Mas parece que este objetivo n&atilde;o &eacute; perseguido pela Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta, que optou por terceirizar uma de suas principais atividades-fim. Tal op&ccedil;&atilde;o editorial, feita sem qualquer crit&eacute;rio, afeta a dimens&atilde;o e o car&aacute;ter p&uacute;blico do servi&ccedil;o de comunica&ccedil;&atilde;o prestado pela TV Cultura. Sim, porque estamos falando de uma concession&aacute;ria de radiodifus&atilde;o, que pela Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira tem uma s&eacute;rie de obriga&ccedil;&otilde;es a cumprir, sobretudo em se tratando de uma emissora p&uacute;blica.<\/p>\n<p>O fato de terceirizar sua grade para uma empresa privada que produz jornais impressos distancia ainda mais a programa&ccedil;&atilde;o da TV Cultura daquela que se espera de uma televis&atilde;o p&uacute;blica. No jornalismo impresso, os ve&iacute;culos gozam de ampla liberdade editorial. O jornal Folha de S.Paulo n&atilde;o &eacute; obrigado, por exemplo, a seguir princ&iacute;pios editoriais que uma TV p&uacute;blica precisa perseguir. Ao trazer o TV Folha para dentro da grade da TV Cultura, a Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta abre espa&ccedil;o, de forma acr&iacute;tica, para os valores privados desta empresa comercial, descaracterizando seu car&aacute;ter p&uacute;blico. <\/p>\n<p>O problema se torna ainda mais s&eacute;rio quando se analisa os objetivos do Grupo Folha com a parceria. Em entrevista ao Portal Imprensa, concedida na &eacute;poca da assinatura do acordo, o diretor do jornal deixou claras as raz&otilde;es comerciais da empresa em expandir seu TV Folha &#8211; veiculado inicialmente, em formato diverso, na internet &#8211; para a TV aberta. Para S&eacute;rgio D&acute;&Aacute;vila, a parceria &ldquo;trar&aacute; a possibilidade de a marca Folha alcan&ccedil;ar seu p&uacute;blico no maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de m&iacute;dias. (&#8230;) O jornal continua firme no prop&oacute;sito de levar seu conte&uacute;do de qualidade a um n&uacute;mero diversificado de plataformas, e chegar &agrave; TV parece um passo natural&rdquo;. Ou seja, ao abrir seu espa&ccedil;o para a TV Folha, a TV Cultura serve a uma estrat&eacute;gia comercial, de refor&ccedil;o da marca e busca por aumento de lucros de um jornal de grande circula&ccedil;&atilde;o nacional.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Sayad n&atilde;o v&ecirc; problemas nisso. Pelo contr&aacute;rio, tanto que j&aacute; convidou o jornal O Estado de S.Paulo para ocupar espa&ccedil;o equivalente. Durante a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica, afirmou que a parceria &quot;faz todo sentido&quot; e que &eacute; &quot;uma oportunidade da emissora ter um jornalismo reconhecido como o da Folha&quot;. Afinal, como disse, a TV Cultura &quot;n&atilde;o tem linha editorial&quot;, o TV Folha &quot;&eacute; produ&ccedil;&atilde;o independente&quot;, &quot;s&atilde;o s&oacute; 30 minutos dentro de uma programa&ccedil;&atilde;o de 5 horas semanais de jornalismo&quot; e &quot;o programa traz audi&ecirc;ncia&quot;. <\/p>\n<p>Dados do Ibope e da pr&oacute;pria TV Cultura mostram, no entanto, que a audi&ecirc;ncia no hor&aacute;rio do TV Folha caiu, se comparada com as semanas anteriores do Cultura Document&aacute;rios, veiculado no mesmo hor&aacute;rio da grade. Mesmo que a audi&ecirc;ncia tivesse crescido, o problema persistiria. <\/p>\n<p>Em emissoras p&uacute;blicas &#8211; e esta tamb&eacute;m &eacute; uma quest&atilde;o consolidada em todos os pa&iacute;ses com fortes sistemas p&uacute;blicos de comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; os &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia, especialmente os mais utilizados (absoluto e de participa&ccedil;&atilde;o no mercado), devem ser lidos como apenas um dos indicadores da qualidade da programa&ccedil;&atilde;o veiculada. O mundo todo sabe que, se a l&oacute;gica da audi&ecirc;ncia prevalece, ao ter que escolher entre dois programas, uma emissora acabar&aacute; deixando de lado valores como diversidade e pluralidade para atrair mais p&uacute;blico. A aten&ccedil;&atilde;o do espectador ser&aacute; colocada em primeiro plano diante da relev&acirc;ncia para o interesse p&uacute;blico do que est&aacute; para ser veiculado. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o Sayad afirmou que n&atilde;o quer &quot;audi&ecirc;ncia a todo custo&quot;, mas esta foi a t&ocirc;nica de sua fala. Se orgulhou ao dizer que, no m&ecirc;s de maio, a Cultura foi a 5a TV aberta em audi&ecirc;ncia no estado de S&atilde;o Paulo. E, ao ser criticado pela deputada Leci Brand&atilde;o por ter colocado o programa Manos e Minas na fila dos cortes do projeto de reestrutura&ccedil;&atilde;o, com preju&iacute;zos enormes para a diversidade no conte&uacute;do da emissora, respondeu: &quot;como administrador, tenho que me preocupar com a audi&ecirc;ncia. E a audi&ecirc;ncia do Manos e Minas &eacute; muito baixa&quot;. <\/p>\n<p>Num mar de contradi&ccedil;&otilde;es, o diretor-presidente da Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta afirmou que o jornalismo da TV Cultura &quot;n&atilde;o persegue o hard news nem macaqueia o que j&aacute; saiu em outros ve&iacute;culos&quot;. De fato, quem faz isso n&atilde;o s&atilde;o os jornalistas da TV Cultura. &Eacute; o TV Folha, que ocupa sua grade. Sayad tamb&eacute;m disse que gostaria de ter conseguido incluir na agenda de cobertura da emissora a discuss&atilde;o sobre grandes temas, mas justificou dizendo que &quot;nosso pa&iacute;s, e o mundo em geral, v&atilde;o mal, ent&atilde;o n&atilde;o conseguimos at&eacute; agora&quot;. Mas n&atilde;o era a TV Cultura que, segundo ele, n&atilde;o perseguia o hard news?<\/p>\n<p>Faltou explicar tamb&eacute;m como a Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta conseguiu &quot;aumentar em 20% as horas de produ&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria com redu&ccedil;&atilde;o de 30% dos funcion&aacute;rios&quot;. Em documento entregue ao Conselho Curador da Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta, dezenas de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil, movimentos sociais, sindicatos, jornalistas e ex-funcion&aacute;rios da emissora denunciam mais de mil demiss&otilde;es na gest&atilde;o Sayad, entre contratados e prestadores de servi&ccedil;o; a aniquila&ccedil;&atilde;o das equipes da R&aacute;dio Cultura; e o estrangulamento da equipe de jornalismo e radialismo.<\/p>\n<p>Segundo o Sindicato dos Radialistas de S&atilde;o Paulo, setores como a cenografia foram todos terceirizados, as r&aacute;dios est&atilde;o para fechar e o n&uacute;mero de funcion&aacute;rios com depress&atilde;o &eacute; grande. O fantasma das demiss&otilde;es tamb&eacute;m continua rondando a Cultura, que espera decis&atilde;o do STF para saber se ser&aacute; obrigada a contratar todos os funcion&aacute;rios por concurso p&uacute;blico. Se a decis&atilde;o foi positiva, pode haver novas demiss&otilde;es sum&aacute;rias na Funda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Sayad, que &eacute; contr&aacute;rio ao regime estatut&aacute;rio para os funcion&aacute;rios da Padre Anchieta, disse na audi&ecirc;ncia que a administra&ccedil;&atilde;o trabalhista da Funda&ccedil;&atilde;o era negligente, mas que agora &quot;quase tudo est&aacute; resolvido&quot;. Um dos poucos problemas em aberto seria a intransig&ecirc;ncia da CLT em garantir uma hora de almo&ccedil;o para os jornalistas dentro da jornada de trabalho. &quot;Parece que jornalista &eacute; b&oacute;ia-fria ou pe&atilde;o de obra e precisa fazer uma hora de almo&ccedil;o&quot;, disse.<\/p>\n<p>Ele afirmou que novas demiss&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o em debate. As &uacute;ltimas se deram porque a Cultura comprou um novo equipamento e pode dispensar 40 editores. &quot;Pol&iacute;tica de emprego &eacute; coisa do Banco Central, n&atilde;o &eacute; miss&atilde;o nossa&quot;, sentenciou. &quot;Mantivemos toda a linha de programa&ccedil;&atilde;o, renovando o conte&uacute;do e aumentando o resultado. Isso &eacute; o mais importante&quot;, acredita. E mandou os deputados assistirem &agrave; TV Cultura antes de fazerem tamanhas cr&iacute;ticas. <\/p>\n<p>A extin&ccedil;&atilde;o de programas como Zoom, Vitrine, Cultura Retr&ocirc;, Grandes Momentos do Esporte e Login revelam, ao contr&aacute;rio do que a dire&ccedil;&atilde;o afirma, que houve perda na capacidade de produ&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria em fun&ccedil;&atilde;o das op&ccedil;&otilde;es administrativas e da grande quantidade de demiss&otilde;es realizadas. Mas o que ficou claro para todos que participaram da audi&ecirc;ncia p&uacute;blica na Assembl&eacute;ia Legislativa foi a falta de clareza de um projeto de desenvolvimento e fortalecimento da &uacute;nica emissora p&uacute;blica paulista. <\/p>\n<p>Enquanto a dire&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m o Conselho Curador da Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta continuarem pouco ou nada abertos ao di&aacute;logo, beirando a arrog&acirc;ncia em muitos momentos, a diversidade e pluralidade que caracterizam o povo paulista seguir&atilde;o do lado de fora dos muros da Rua Cenno Sbrighi, 378. Frente ao papel hist&oacute;rico de refer&ecirc;ncia de produ&ccedil;&atilde;o de qualidade que tem as r&aacute;dios e a TV Cultura, a op&ccedil;&atilde;o &eacute; desastrosa. Como disse o deputado Jo&atilde;o Paulo Rillo, uma emissora p&uacute;blica que depende do TV Folha para conquistar audi&ecirc;ncia est&aacute; no mau caminho.<\/p>\n<p><em>Bia Barbosa &eacute; jornalista, mestranda em gest&atilde;o e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas pela FGV e membro do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social. <\/em><br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica realizada nesta quarta-feira,  30 de maio, na Assembl&eacute;ia Legislativa de S&atilde;o Paulo, revelou o tamanho  do distanciamento entre a dire&ccedil;&atilde;o da TV Cultura e as expectativas do  povo paulista com sua emissora p&uacute;blica de televis&atilde;o. <\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26915"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26915"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26915\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}