{"id":26816,"date":"2012-04-13T19:04:58","date_gmt":"2012-04-13T19:04:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26816"},"modified":"2012-04-13T19:04:58","modified_gmt":"2012-04-13T19:04:58","slug":"em-torno-da-polemica-politica-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26816","title":{"rendered":"Em torno da pol\u00eamica pol\u00edtica cultural"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Que algo n&atilde;o vai bem nas pol&iacute;ticas da cultura &eacute; fora de d&uacute;vida. Nunca, desde o per&iacute;odo Collor, a pol&iacute;tica oficial na &aacute;rea foi t&atilde;o contestada, e por tantos lados. Surpreendentes lados, al&eacute;m do mais. Hist&oacute;ricos e respeit&aacute;veis militantes petistas fazem cr&iacute;ticas contundentes, enquanto figuras conhecidas no campo cultural se alinham a encarni&ccedil;ados conservadores na defesa de uma ministra do PT. Tentemos propor o problema de fundo numa perspectiva ampla, ainda que &agrave; custa de rodeios necess&aacute;rios.<\/p>\n<p>Fazer pol&iacute;tica cultural nunca foi f&aacute;cil. Quando n&atilde;o se tem uma concep&ccedil;&atilde;o clara das rela&ccedil;&otilde;es entre sociedade, Estado e cultura fica ainda mais dif&iacute;cil. A quest&atilde;o desagrad&aacute;vel &eacute;: como juntar esses tr&ecirc;s termos sem fazer viol&ecirc;ncia a nenhum deles? Pior: sem fazer viol&ecirc;ncia &agrave; cultura, o elo fr&aacute;gil nessa cadeia? Mas qual interven&ccedil;&atilde;o na cultura n&atilde;o lhe faz viol&ecirc;ncia? Eis o grande desafio de qualquer proposta s&eacute;ria de pol&iacute;tica cultural: mexer com essa coisa imponder&aacute;vel com a leveza sem a qual ela sufoca, junto com a firmeza suficiente para lhe dar for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Cultura ou &eacute; tudo, uma esp&eacute;cie de atmosfera que respiramos nos menores gestos, ou &eacute; nada, porque cada vez que tentamos prend&ecirc;-la numa das formas que assume ela nos escapa sob outra forma. Ou ent&atilde;o, aprisionada nas redes administrativas, ela se converte em terreno bem demarcado no interior da produ&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. Essa &uacute;ltima condi&ccedil;&atilde;o &eacute; que faz brilhar os olhos dos gestores mais apressados. At&eacute; porque desse modo ela pode ser definida, classificada e avaliada, mediante o uso de qualificativos: &eacute; popular, &eacute; nacional e assim por diante, tudo dependendo de quem tenha o poder de &quot;ocupar o espa&ccedil;o&quot; e de impor a sua defini&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Entre a cultura na sua acep&ccedil;&atilde;o mais gen&eacute;rica poss&iacute;vel (segundo a qual &eacute; nela que se d&aacute; a tradu&ccedil;&atilde;o no registro simb&oacute;lico da vida humana, convertendo-a em experi&ecirc;ncias organizadas e peculiares a &eacute;pocas e lugares) e suas express&otilde;es singulares bem mapeadas (a dan&ccedil;a x na cidade y) h&aacute; um enorme espa&ccedil;o, que se oferece &agrave;s pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o da formula&ccedil;&atilde;o e implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas na &aacute;rea ganhou import&acirc;ncia no Brasil com a cria&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio da Cultura em 1985 e assumiu forma constitucional a partir de 1988. Ao reservar-se todo um minist&eacute;rio a essa quest&atilde;o seguia-se um pouco o caso exemplar da Fran&ccedil;a, que, no governo De Gaulle, consoante a vertente napole&ocirc;nica da orienta&ccedil;&atilde;o republicana, criou em 1959 aquele &oacute;rg&atilde;o de difus&atilde;o mundial da &quot;grandeur&quot; gaulesa. E fez quest&atilde;o de legitim&aacute;-lo na figura de um ministro grande intelectual, Andr&eacute; Malraux. &Eacute; verdade que isso se fez sem esquecer a frente interna, na qual viriam a se elaborar pol&iacute;ticas inovadoras como a da &quot;anima&ccedil;&atilde;o cultural&quot;, cujas repercuss&otilde;es no Brasil merecem aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Entre n&oacute;s quem fez o papel de Malraux foi Celso Furtado, a quem se deve a concep&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica das leis de incentivo (batizadas na origem com o nome do ent&atilde;o presidente Sarney, para depois se converter em Lei Rouanet) e, sobretudo, uma concep&ccedil;&atilde;o abrangente da cultura como foco de pol&iacute;ticas, centrada na ideia de criatividade. Depois disso, a rotina gerencial, mesmo quando competente, passou a se impor, como que dando raz&atilde;o &agrave;queles que viam com reserva a pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o do minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Em 1984, quando se discutia essa cria&ccedil;&atilde;o, eu argumentava contra (&quot;Cultura &eacute; cultura&quot;, &quot;Folha de S. Paulo&quot;, outubro\/1984), em termos que retomo agora. &quot;A pol&iacute;tica cultural n&atilde;o segue a l&oacute;gica da cultura &#8211; qual seria? -, mas a l&oacute;gica da influ&ecirc;ncia, do prest&iacute;gio e do poder. Para isso ela cria suas institui&ccedil;&otilde;es, seus gestores, seus funcion&aacute;rios, como condi&ccedil;&atilde;o para poder exercer-se. No limite, cria um minist&eacute;rio. A ideia da cria&ccedil;&atilde;o de um Minist&eacute;rio da Cultura n&atilde;o &eacute;, portanto, aberrante. Tem sua l&oacute;gica, mas &eacute; uma l&oacute;gica perversa. Ela repousa numa confus&atilde;o que tem import&acirc;ncia decisiva para entender como essas coisas se d&atilde;o: aquela que no lugar do que &eacute; p&uacute;blico coloca aquilo que &eacute; oficial. Enfim, aquela pela qual a cl&aacute;ssica oposi&ccedil;&atilde;o liberal entre esfera p&uacute;blica e esfera privada fica sufocada nas malhas da esfera oficial, que acaba se identificando com a do aparato estatal&quot;.<\/p>\n<p>E conclu&iacute;a: &quot;A cultura, essa entidade fugidia, tende a escapar por entre as malhas grossas das redes coletoras de recursos. Enquanto isso as redes mais finas podem ficar ociosas, dispersas pela sociedade, ou ent&atilde;o continuar colhendo, &agrave; margem dos organismos e processos oficiais, sua sempre renovada carga simb&oacute;lica. O risco &eacute; que elas fiquem restritas, confinadas em universos privados, talvez &agrave; espera dos possantes aspiradores da ind&uacute;stria cultural. O desafio continua o mesmo: articular o processo cultural com outros processos sociais e pol&iacute;ticos, n&atilde;o para definir seu campo e suas prioridades oficiais, mas para o converter de fato em coisa p&uacute;blica, pois essa &eacute; no fundo a sua voca&ccedil;&atilde;o. A cultura &eacute; entidade multiforme e intrometida e, tendo liberdade, nada lhe escapa. Por&eacute;m, como ela n&atilde;o existe de maneira fixa e palp&aacute;vel, sua liberdade s&oacute; se realiza juntamente com todas as outras liberdades. E isso passa, &eacute; claro, pelas condi&ccedil;&otilde;es materiais para exerce-las. Portanto, sua plena realiza&ccedil;&atilde;o s&oacute; se d&aacute; juntamente com todas as outras, num aprendizado social e pol&iacute;tico que certamente n&atilde;o passa por nenhum minist&eacute;rio&quot;.<\/p>\n<p>De passagem, interrogava se caberia &agrave;quele org&atilde;o &quot;a regulamenta&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o de canais de r&aacute;dio e televis&atilde;o, que atualmente est&aacute; na &aacute;rea na qual se cruzam considera&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas com as de seguran&ccedil;a nacional, sob o nome de &#39;comunica&ccedil;&otilde;es&#39; (&aacute;rea, de resto, cuja sombra incide fortemente sobre o processo cultural)&quot;. Nesse aspecto, conv&eacute;m lembrar que a antes citada Fran&ccedil;a tem atualmente um Minist&egrave;re de la Culture et de la Communication.<\/p>\n<p>O dado importante, aqui, &eacute; que no per&iacute;odo recente ocorreram mudan&ccedil;as que permitem pelo menos matizar aquelas reservas. A principal delas, claro, consiste no fortalecimento da sociedade nas suas rela&ccedil;&otilde;es com o Estado, que inclui o uso das novas tecnologias da comunica&ccedil;&atilde;o. Avan&ccedil;o que se anunciou com for&ccedil;a em certo momento e no entanto se revela vulner&aacute;vel, como demonstra a situa&ccedil;&atilde;o presente na &aacute;rea cultural.<\/p>\n<p>&Eacute; f&aacute;cil detectar o momento em que isso ganhou corpo. Foi na gest&atilde;o Gilberto Gil-Juca Ferreira nos mandatos Lula, quando se adotaram pol&iacute;ticas baseadas numa concep&ccedil;&atilde;o ampla e generosa de cultura, de cunho antropol&oacute;gico, como ent&atilde;o se proclamava (em contraste com concep&ccedil;&otilde;es gerenciais-mercadol&oacute;gicas). Chamou-se a sociedade, criaram-se condi&ccedil;&otilde;es de participa&ccedil;&atilde;o mediante a associa&ccedil;&atilde;o em m&uacute;ltiplas redes, apostou-se no prazo mais longo para o aprendizado cultural, multiplicaram-se as formas de produ&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi o brusco freio quando n&atilde;o revers&atilde;o dessa tend&ecirc;ncia na atual gest&atilde;o Ana de Hollanda que gerou o mal-estar manifestadoReda&ccedil;&atilde;oReda&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rias frentes, desde os participantes e produtores culturais atingidos por cancelamentos de projetos em andamento at&eacute; amplos setores simp&aacute;ticos a pol&iacute;ticas nas quais reconheciam a marca das melhores vertentes democr&aacute;ticas. &Eacute; por a&iacute; que se tra&ccedil;a a linha divis&oacute;ria entre cr&iacute;ticos e defensores da atual ministra. O que a vertente cr&iacute;tica n&atilde;o tem como aceitar &eacute; o retrocesso envolvido numa pol&iacute;tica tipo &quot;o minist&eacute;rio dos artistas&quot;, pois isso equivale em converter o MinC em ag&ecirc;ncia de reconsagra&ccedil;&atilde;o daqueles j&aacute; consagrados pelo mercado. Ou ent&atilde;o a convers&atilde;o do minist&eacute;rio em ag&ecirc;ncia de policiamento da circula&ccedil;&atilde;o cultural, em nome da defesa de direitos autorais (com tudo o que isso representa em termos de envolvimento com entidades privadas de organiza&ccedil;&atilde;o e conduta nebulosa).<\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio da Cultura est&aacute; a&iacute; para ficar, para o bem ou para o mal. (Perguntem a qualquer presidente se &eacute; f&aacute;cil fechar um minist&eacute;rio, salvo pelo seu desdobramento em outros dois.) Houve momentos, recentes, em que ele veio para o bem. Caso persista a orienta&ccedil;&atilde;o que se vem imprimindo a ele na atual gest&atilde;o, s&oacute; restar&aacute; sua face sombria, e os danos ser&atilde;o irrepar&aacute;veis.<\/p>\n<p><em>Gabriel Cohn &eacute; professor em&eacute;rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da USP.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Que algo n&atilde;o vai bem nas pol&iacute;ticas da cultura &eacute;  fora de d&uacute;vida. Nunca, desde o per&iacute;odo Collor, a pol&iacute;tica oficial na  &aacute;rea foi t&atilde;o contestada, e por tantos lados. 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