{"id":26810,"date":"2012-04-11T19:53:29","date_gmt":"2012-04-11T19:53:29","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26810"},"modified":"2012-04-11T19:53:29","modified_gmt":"2012-04-11T19:53:29","slug":"equador-uma-lei-para-democratizar-a-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26810","title":{"rendered":"Equador: uma lei para democratizar a comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O Projeto de Lei Org&acirc;nica de Comunica&ccedil;&atilde;o do Equador, que nesta quarta-feira (11) entrar&aacute; em vota&ccedil;&atilde;o na Assembleia Nacional, estabelece as garantias e normas dos direitos da comunica&ccedil;&atilde;o estabelecidos na Constitui&ccedil;&atilde;o de 2008, que &eacute; talvez a mais avan&ccedil;ada na mat&eacute;ria no continente. Se a lei for aprovada, marcar&aacute; um avan&ccedil;o significativo para as reivindica&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas do movimento pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; do Equador, mas do continente.<\/p>\n<p>Este projeto, cuja vota&ccedil;&atilde;o se anuncia fechada, abre o caminho para uma mudan&ccedil;a estrutural chave, uma virtual &ldquo;reforma agr&aacute;ria do ar&rdquo;, ao estabelecer uma reparti&ccedil;&atilde;o das frequ&ecirc;ncias de r&aacute;dio e televis&atilde;o em tr&ecirc;s partes: 34% para os meios comunit&aacute;rios, 33% para os meios p&uacute;blicos e 33% para os meios privados.<\/p>\n<p>Segundo o projeto de Lei, que reconhece a comunica&ccedil;&atilde;o social como um servi&ccedil;o p&uacute;blico que deve ser prestado com responsabilidade e qualidade, os meios comunit&aacute;rios s&atilde;o aqueles &ldquo;cuja propriedade, administra&ccedil;&atilde;o e dire&ccedil;&atilde;o correspondem a comunas, comunidades, povos e nacionalidades, coletivos ou organiza&ccedil;&otilde;es sem fins lucrativos&rdquo;. Operar&atilde;o em igualdade de condi&ccedil;&otilde;es com os outros setores, mas se beneficiar&atilde;o, tamb&eacute;m, de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para sua cria&ccedil;&atilde;o e fortalecimento, como &ldquo;mecanismo para promover a pluralidade, diversidade, interculturalidade e plurinacionalidade&rdquo; (Art. 92). Al&eacute;m disso, sob a pol&iacute;tica de favorecer a economia solid&aacute;ria, prev&ecirc;-se que as entidades estatais contratem publicidade e servi&ccedil;os em tais meios para a difus&atilde;o de conte&uacute;dos educativos e culturais.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante da normativa &eacute; que impedir&aacute; a concentra&ccedil;&atilde;o oligop&oacute;lica, ao estabelecer um limite para uma mesma pessoa (natural ou jur&iacute;dica) de uma s&oacute; frequ&ecirc;ncia para matriz em AM, uma em FM e uma de televis&atilde;o, em todo o territ&oacute;rio. Atualmente, cerca de 90% das frequ&ecirc;ncias est&atilde;o em m&atilde;os privadas. A lei prev&ecirc; que para alcan&ccedil;ar de forma progressiva a divis&atilde;o aos setores p&uacute;blico e comunit&aacute;rio, ser&aacute; priorizada a concess&atilde;o a estes dois setores at&eacute; alcan&ccedil;ar as porcentagens correspondentes, utilizando as frequ&ecirc;ncia dispon&iacute;veis e as que ser&atilde;o revertidas ao Estado, pelos motivos dispostos na Lei e na Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Parte do espectro radioel&eacute;trico ser&aacute; liberado mediante a revers&atilde;o daquelas frequ&ecirc;ncias que foram concedidas sem seguir o devido processo legal ou cujos concession&aacute;rios tenham feito uma utiliza&ccedil;&atilde;o irregular das mesmas. A Auditoria de Frequ&ecirc;ncias, realizada sob o mandato da Constitui&ccedil;&atilde;o, seria a base para determinar essas revers&otilde;es, que poderiam ser mais de 200, segundo informou o Presidente da Assembleia, Fernando Cordero. Tais frequ&ecirc;ncias dever&atilde;o reverter-se de imediato ao Estado. Al&eacute;m disso, desde a consulta popular de 2011, a Constitui&ccedil;&atilde;o pro&iacute;be que as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, seus diretores ou acionistas tenham participa&ccedil;&atilde;o acion&aacute;ria em empresas de outro setor econ&ocirc;mico.<\/p>\n<p>Outras medidas, destinadas a estimular a produ&ccedil;&atilde;o nacional, preveem a obriga&ccedil;&atilde;o de ter 40% de conte&uacute;do nacional nos meios audiovisuais e 10% de produ&ccedil;&atilde;o nacional independente. Nas r&aacute;dios, 50% da m&uacute;sica deve ser produzida, composta ou executada no Equador. Al&eacute;m disso, a publicidade deve ser produzida no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>No projeto de Lei s&atilde;o estabelecidas tamb&eacute;m normas para uma utiliza&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel da informa&ccedil;&atilde;o por parte da imprensa. Por exemplo, estipula-se que a informa&ccedil;&atilde;o publicada deve ser devidamente verificada e estabelece-se a obriga&ccedil;&atilde;o &ndash; com as san&ccedil;&otilde;es correspondentes em caso de omiss&atilde;o &ndash; de retifica&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es falsas ou inexatas, e o direito de r&eacute;plica quando uma pessoa considerar que a informa&ccedil;&atilde;o afeta seus direitos &agrave; dignidade, honra ou reputa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Garante, ainda, os direitos dos profissionais da comunica&ccedil;&atilde;o, como a cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia, reserva da fonte e segredo profissional e direitos trabalhistas. Um dos temais mais pol&ecirc;micos foi a titulariza&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria de jornalistas. O debate girou em torno da quest&atilde;o sobre a viola&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o da liberdade de express&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m sobre as garantias do direito cidad&atilde;o de ser devidamente informado, o qual exige destrezas profissionais. Em sua &uacute;ltima vers&atilde;o, o projeto de Lei prev&ecirc; que quem exercer de forma permanente o jornalismo deve ter o t&iacute;tulo profissional (salvo editorialistas, colunistas de certas se&ccedil;&otilde;es especiais e aqueles que comunicam em idiomas ind&iacute;genas). Est&aacute; previsto um prazo de seis anos para que quem j&aacute; trabalha em um meio adquira seu diploma.<\/p>\n<p><strong>Uma lei constru&iacute;da com a sociedade<\/strong><\/p>\n<p>Assim como sucedeu na Argentina, boa parte da imprensa comercial e setores da direita t&ecirc;m unido for&ccedil;as, h&aacute; 2 anos, contra o que, antes de se escrever uma linha, apelidaram de &ldquo;lei da morda&ccedil;a&rdquo;, sob a premissa de quem em mat&eacute;ria de comunica&ccedil;&atilde;o a melhor lei &eacute; a que n&atilde;o existe. &Eacute; evidente que a lei afetar&aacute; interesses poderosos, o que sem d&uacute;vida explica sua tenaz oposi&ccedil;&atilde;o, que justificam sob os protestos por &ldquo;liberdade de express&atilde;o&rdquo;. Um dos pontos mais pol&ecirc;micos tem sido a composi&ccedil;&atilde;o do Conselho de Regula&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento da Comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; que tem entre suas fun&ccedil;&otilde;es elaborar o informe vinculante para cess&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de frequ&ecirc;ncias &ndash; que para algumas vozes cr&iacute;ticas concentra demasiado poder no governo de turno (se bem que o executivo s&oacute; nomeia a um dos cinco representantes).<\/p>\n<p>Argumenta-se que o texto da Lei infringe conven&ccedil;&otilde;es internacionais firmadas pelo Equador, o qual vislumbra poss&iacute;veis a&ccedil;&otilde;es ante os organismos internacionais se a lei for aprovada (ainda que de fato, em sua reda&ccedil;&atilde;o, tem tido o cuidado de respeitar as conven&ccedil;&otilde;es vinculantes). A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) j&aacute; qualifica de &ldquo;preocupante&rdquo; a Lei e &eacute; de se esperar que articular&aacute; uma campanha midi&aacute;tica regional para atac&aacute;-la, como se fez tantas vezes nos &uacute;ltimos anos, cada vez que algum dos governos tem tocado os interesses do poder comunicacional.<\/p>\n<p>A &uacute;ltima vers&atilde;o do projeto, publicado em 5 de abril, representa o fruto de mais de dois anos de audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas, debates em meios, propostas e a&ccedil;&otilde;es por parte de organiza&ccedil;&otilde;es e inst&acirc;ncias sociais, e diversas outras contribui&ccedil;&otilde;es, que fazem com que esta lei seja uma das mais debatidas do pa&iacute;s. V&aacute;rias das propostas centrais, como a reparti&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria de frequ&ecirc;ncias, n&atilde;o provieram de setores oficialistas, mas de atores sociais. O governo tem mantido uma atitude amb&iacute;gua frente &agrave; Lei, feito que impediu que se votasse dois anos atr&aacute;s &ndash; como mandava a Constitui&ccedil;&atilde;o &ndash; quando o movimento pol&iacute;tico governante, Alianza PAIS, ainda tinha maioria na Assembleia. Em v&aacute;rias oportunidades o pr&oacute;prio presidente Rafael Correa reiterou que n&atilde;o &eacute; uma lei priorit&aacute;ria para o governo e, tanto no executivo como no PAIS h&aacute; setores que se op&otilde;em &agrave; tese dos tr&ecirc;s ter&ccedil;os na reparti&ccedil;&atilde;o de frequ&ecirc;ncias. Foi somente no &uacute;ltimo m&ecirc;s de mar&ccedil;o que Correa expressou um claro respaldo a ela, o qual alinhou posi&ccedil;&otilde;es ao governo anterior.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, o projeto tem v&aacute;rios erros e aspectos que poderiam ser melhorados. Por exemplo, a participa&ccedil;&atilde;o cidad&atilde; na gest&atilde;o dos meios p&uacute;blicos n&atilde;o est&aacute; muito clara, sendo um aspecto importante para garantir seu car&aacute;ter p&uacute;blico. N&atilde;o obstante, com sua aprova&ccedil;&atilde;o poderiam firmar as bases para uma reconfigura&ccedil;&atilde;o e democratiza&ccedil;&atilde;o profunda do cen&aacute;rio comunica&ccedil;&atilde;o, atualmente dominado por uns poucos grupos de poder. Seguramente sua implementa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; um processo f&aacute;cil. Assim como a reparti&ccedil;&atilde;o de terras, vai requerer processos de organiza&ccedil;&atilde;o, proposta, cria&ccedil;&atilde;o de capacidades e luta, particularmente para consolidar o setor comunit&aacute;rio. Mas se conseguir esta primeira batalha, poder&aacute; contar com a legitima&ccedil;&atilde;o das demandas e um campo de jogo mais igualit&aacute;rio.<\/p>\n<p>Neste contexto, torna-se dif&iacute;cil entender que setores da oposi&ccedil;&atilde;o equatoriana mais identificados com a esquerda se alinham com as posi&ccedil;&otilde;es dos grandes meios comerciais e da direita. Sem d&uacute;vida, consideram que opor-se &agrave; lei &eacute; uma maneira de golpear ao governo, quando na verdade golpeiam ao movimento social que tem promovido a lei, e &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que se beneficiar&aacute; dela; e de quebra, fazem um favor &agrave;queles setores dentro do pr&oacute;prio governo, que n&atilde;o veem com bons olhos as medidas democratizadoras.<\/p>\n<p>Se simpatiza ou n&atilde;o com um governo, n&atilde;o se pode renegar das pr&oacute;prias bandeiras hist&oacute;ricas, quando este as adota como suas. Melhor come&ccedil;ar a mobilizar mais intensamente e vigiar para que sua implementa&ccedil;&atilde;o seja efetiva. Se aprovado, n&atilde;o s&oacute; beneficiar&aacute; o pa&iacute;s, mas servir&aacute; como um exemplo para o continente.<\/p>\n<p>&Eacute; com este sentido que a Rede de Intelectuais em Defesa da Humanidade tornou p&uacute;blico seu apoio ao projeto de lei mediante uma carta aberta assinada, entre outros, por Ignacio Ramonet, Ana Esther Cece&ntilde;a, Carmen Boh&oacute;rquez, Marta Harnecker e Oscar Ugarteche, onde se afirma que &eacute; um projeto que &ldquo;populariza o espectro radioel&eacute;trico equatoriano mediante uma redistribui&ccedil;&atilde;o equitativa das frequ&ecirc;ncias de r&aacute;dio e televis&atilde;o (&hellip;), elimina os monop&oacute;lios, fomenta a produ&ccedil;&atilde;o nacional, promove a comunica&ccedil;&atilde;o intercultural e plurinacional e garante a plena liberdade de express&atilde;o e informa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, e &ldquo;ser&aacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o valiosa para a democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es na Nossa Am&eacute;rica&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O <span class=\"padrao\"> Projeto de Lei Org&acirc;nica de Comunica&ccedil;&atilde;o do Equador,  que nesta quarta-feira (11) entrar&aacute; em vota&ccedil;&atilde;o na Assembleia Nacional,  estabelece as garantias e normas dos direitos da comunica&ccedil;&atilde;o  estabelecidos na Constitui&ccedil;&atilde;o de 2008.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1556],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26810"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26810"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26810\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}