{"id":26668,"date":"2012-03-05T17:07:04","date_gmt":"2012-03-05T17:07:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26668"},"modified":"2012-03-05T17:07:04","modified_gmt":"2012-03-05T17:07:04","slug":"conteudo-da-tv-paga-uma-questao-de-escolha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26668","title":{"rendered":"Conte\u00fado da TV paga: uma quest\u00e3o de escolha"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Em 2011, o Congresso Nacional aprovou a Lei 12.485\/11, conhecida como a nova lei da TV por assinatura. O escopo da nova legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; bastante amplo, mas h&aacute; dois aspectos fundamentais: a abertura do mercado de distribui&ccedil;&atilde;o &agrave;s operadoras de telefonia e o estabelecimento de cotas de produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o nacional e independente nos canais. Contr&aacute;rios &agrave; lei e derrotados no legislativo, os Democratas (DEM) entraram com pedido de inconstitucionalidade no Superior Tribunal Federal (STF). De carona nessa a&ccedil;&atilde;o, a SKY, do megaempres&aacute;rio norte-americano Jonh Malone, convocou seus assinantes via email, internet e pelo pr&oacute;prio canal de TV, a se manifestarem contra a lei.<\/p>\n<p>Um dos pontos que a propaganda veiculada pela SKY levanta &eacute; que a nova lei da TV por assinatura fere a liberdade de escolha do cliente. Ent&atilde;o vejamos. A SKY me oferece a enorme diversidade de&#8230; tr&ecirc;s pacotes iniciais. A cada um eles eu posso acrescentar um grande leque de outros &#8230; tr&ecirc;s pacotes adicionais. N&atilde;o tenho a op&ccedil;&atilde;o de ter s&oacute; canais esportivos, n&atilde;o posso ter s&oacute; filmes, n&atilde;o posso escolher aleatoriamente dois canais de jornalismo, um de filmes e um de variedades. Caso eu n&atilde;o queira ver quatro horas de venda de tapete, an&eacute;is e aparelhos milagrosos de redu&ccedil;&atilde;o da barriga na Fox pela manh&atilde; ou de madrugada, a empresa nada tem a ver com isso. N&atilde;o posso pagar menos se n&atilde;o quiser um canal que s&oacute; passa reprise. E se eu quiser ver a Libertadores da Am&eacute;rica, da Fox Sports, que eu sei que tenta vender os direitos de exibi&ccedil;&atilde;o pra SKY, n&atilde;o adianta; a empresa j&aacute; disse que n&atilde;o quer comprar. A liberdade de escolha na SKY &eacute; realmente impressionante.<\/p>\n<p><strong>Cotas e o intervencionismo de Estado<br \/><\/strong><br \/>A SKY tamb&eacute;m acusa a lei de criar cotas como um mecanismo terr&iacute;vel de interven&ccedil;&atilde;o estatal. N&atilde;o custa lembrar que os modelos de neg&oacute;cios do audiovisual no mundo foram constru&iacute;dos de forma estrat&eacute;gica e engenhosa pelos Estados Unidos de modo que, at&eacute; hoje, seis dos maiores produtores de conte&uacute;do audiovisual mundial s&atilde;o norte-americanos. Mais de 80% de todo conte&uacute;do de filmes, s&eacute;ries, document&aacute;rios e desenhos animados veiculados nos canais pagos no Brasil &eacute; de origem norte-americana. Esse n&atilde;o &eacute; um privil&eacute;gio brasileiro. Com raras exce&ccedil;&otilde;es, a ind&uacute;stria audiovisual de muitos pa&iacute;ses, incluindo os desenvolvidos, &eacute; dominada pelos enlatados estadunidenses. Por isso, desde o final da d&eacute;cada de 80, a maior parte dos pa&iacute;ses europeus adotou um sistema de cotas que protege o conte&uacute;do local. Mesmo nos EUA, houve tempos em que a cota para produ&ccedil;&atilde;o independente era alt&iacute;ssima e havia regras rigorosas para impedir que poucas empresas dominassem o mercado.<\/p>\n<p>Quase 30 anos depois, no s&eacute;culo XXI, o Brasil finalmente conseguiu aprovar uma lei de prote&ccedil;&atilde;o ao conte&uacute;do nacional e de est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente. Ao contr&aacute;rio do mundo inteiro, esse mecanismo n&atilde;o se aplica ao sistema como um todo, abarcando tamb&eacute;m a TV aberta, mas garantiu pequenos avan&ccedil;os na TV por assinatura. E veja que coisa chocante. A lei obriga que os canais considerados de espa&ccedil;o qualificado, ou seja, de filmes, s&eacute;ries, document&aacute;rios, programas de variedades e reality shows, passem, por semana, 3h30 de conte&uacute;do nacional, sendo 1h45 de conte&uacute;do nacional independente. Fa&ccedil;a voc&ecirc; mesmo as contas. Em nome da valoriza&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e da diversidade, a lei obriga que um canal passe meia hora por dia de um filme, ou uma s&eacute;rie, ou um desenho, ou um programa de variedade brasileiros, sendo 15 minutos de produ&ccedil;&atilde;o independente. O cumprimento da cota &eacute; semanal e pode ser realizado num s&oacute; dia, ou em dias alternados, a crit&eacute;rio das programadoras.<\/p>\n<p>A cota obrigat&oacute;ria para os pa&iacute;ses que comp&otilde;em a Uni&atilde;o Europeia &eacute; de que 50% do conte&uacute;do veiculado seja europeu. A &ldquo;absurda&rdquo; interven&ccedil;&atilde;o do Estado na TV por assinatura no Brasil para garantir a veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do nacional &eacute; uma &ldquo;estrondosa&rdquo; cota de 2,08% por semana. Em rela&ccedil;&atilde;o ao independente esse valor cai pela metade. No Canad&aacute;, 75% do conte&uacute;do das televis&otilde;es abertas deve ser composto por produ&ccedil;&otilde;es de origem canadense nos g&ecirc;neros drama, com&eacute;dia e document&aacute;rio longa-metragem, assim como shows de premia&ccedil;&otilde;es que celebrem o talento criativo dos canadenses. E &eacute; a nossa democracia que est&aacute; amea&ccedil;ada pela interven&ccedil;&atilde;o estatal.<\/p>\n<p>Cotas de conte&uacute;do, em qualquer lugar do mundo, mas fundamentalmente em democracias mais consolidadas e avan&ccedil;adas, &eacute; um mecanismo fundamental de desenvolvimento da ind&uacute;stria audiovisual local, de prote&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o da cultura nacional e de garantia do pluralismo e da diversidade. No Brasil, qualquer tentativa de avan&ccedil;ar nesse sentido &eacute; vista como censura, ditadura ou intervencionismo estatal. Isso porque os mesmos grupos respons&aacute;veis pela difus&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o controlam o que deve e o que n&atilde;o deve ser conhecido ou debatido pelos brasileiros. Eles n&atilde;o querem discutir o setor que controlam. Mais do que isso, utilizam o canal de comunica&ccedil;&atilde;o que possuem para desinformar a popula&ccedil;&atilde;o e defender seus pr&oacute;prios interesses. &Eacute; esse o caso da propaganda da SKY, que, n&atilde;o custa lembrar, enviou mensagem sobre o perigo da lei para seus quase 3,8 milh&otilde;es de assinantes. Sem contar a sistem&aacute;tica veicula&ccedil;&atilde;o de uma propaganda mentirosa nos canais da empresa e na internet.<\/p>\n<p>Ainda bem, os mitos de que a obra audiovisual nacional n&atilde;o presta, de que tudo que fazemos &eacute; um lixo e de que o Brasil n&atilde;o produz conte&uacute;do de qualidade est&aacute; cada vez mais distante do imagin&aacute;rio da popula&ccedil;&atilde;o. Junto com um momento de desenvolvimento econ&ocirc;mico, o pa&iacute;s vive uma febre de auto-estima, de auto-valoriza&ccedil;&atilde;o que tamb&eacute;m se reflete na produ&ccedil;&atilde;o audiovisual. Desenhos animados como Meu Amig&atilde;oz&atilde;o, Peixonautas, Tromba Trem e Turma da M&ocirc;nica ganham a simpatia de brasileirinhos e de outras crian&ccedil;as mundo afora. Filmes e s&eacute;ries nacionais j&aacute; s&atilde;o comuns em alguns canais de TV paga, inclusive estrangeiros. Document&aacute;rios sobre a nossa diversidade cultural e regional s&atilde;o cada vez mais vistos e comemorados.<\/p>\n<p>&Eacute; hora de cada brasileiro assumir que ter mais Brasil e mais conte&uacute;do independente na TV &eacute; bom para a difus&atilde;o na nossa identidade entre n&oacute;s mesmos, e para o mundo, al&eacute;m de ingrediente essencial para a democracia. &Eacute; hora de desconfiar profundamente de quem utiliza o discurso da liberdade de escolha para fazer terrorismo mentiroso com seus clientes e atacar leis que buscam dar visibilidade a nossa riqueza e diversidade.<\/p>\n<p><em>Carolina Ribeiro &eacute; jornalista e integrante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A cota obrigat&oacute;ria para os pa&iacute;ses que comp&otilde;em a  Uni&atilde;o Europeia &eacute; de que 50% do conte&uacute;do. 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