{"id":26648,"date":"2012-02-29T16:19:21","date_gmt":"2012-02-29T16:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26648"},"modified":"2012-02-29T16:19:21","modified_gmt":"2012-02-29T16:19:21","slug":"voce-nao-e-so-mais-um-e-um-a-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26648","title":{"rendered":"\u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais um, \u00e9 um a mais!\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">&ldquo;O ano de 2011 foi magn&iacute;fico em todo o mundo. Protestos, marchas, manifesta&ccedil;&otilde;es, invas&otilde;es de sites, ocupa&ccedil;&otilde;es&#8230; O c&eacute;u foi o limite! Mas ainda temos muito o que fazer!&rdquo; Essa foi a mensagem que o grupo Anonymous enviou ao p&uacute;blico, com um convite para 2012: &ldquo;Aqui, no Brasil, ainda tem muita gente de olhos fechados para toda a realidade. Somos tratados como pe&otilde;es nesse imenso tabuleiro de poderosos, mas somos tantos que conseguimos ser mais fortes! Mas precisamos nos unir para isso. Precisamos achar nossos pontos comuns e somar for&ccedil;as. Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; s&oacute; mais um, &eacute; um a mais!&rdquo;<\/p>\n<p>A entrevista surgiu com uma troca de mensagens por Twitter, seguida por e-mail e agendada pelo Skype. Phoenix, Bode e F&aacute; s&atilde;o tr&ecirc;s an&ocirc;nimos, com diferentes sotaques brasileiros. No pa&iacute;s, o grupo combate crimes ambientais e sociais, como no caso do massacre na Ocupa&ccedil;&atilde;o de Pinheirinho (SP), da constru&ccedil;&atilde;o da Usina de Belo Monte (PA) e do Setor Noroeste (DF). Puxou manifesta&ccedil;&otilde;es em defesa do Ficha Limpa, derrubou sites importantes como o da Secretaria de Cultura do DF, invadiu contas banc&aacute;rias e puxou boicotes direcionados a empresas contra a liberdade de express&atilde;o e acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Nessa entrevista, conhecemos um pouco mais sobre ideais, a&ccedil;&otilde;es e objetivos do movimento que usa o mundo virtual para criticar &ndash; e transformar &#8211; a realidade.<\/p>\n<p><\/span><span class=\"padrao\"><strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o: <\/strong><\/span><span class=\"padrao\"><strong>Como surgiu o movimento Anonymous? <\/strong><br \/><strong>Phoenix:<\/strong> Desde 2003. Foi onde come&ccedil;ou a ideia basicamente. <br \/><strong>Bode:<\/strong> Mas j&aacute; tinha experi&ecirc;ncias bem antes, n&eacute;?<br \/><strong>Phoenix:<\/strong> &Eacute;, isso foi em 1999. Teve o protesto em Copenhague, com a m&aacute;scara de &oacute;pera, ainda n&atilde;o era a do Guy Fawkes, que usamos hoje. Nesse protesto, tinham pessoas na internet que faziam viralizar as imagens, as ideias e as informa&ccedil;&otilde;es transmitidas. At&eacute; que algu&eacute;m teve a perspic&aacute;cia de dizer &ldquo;somos an&ocirc;nimos, n&atilde;o esquecemos, n&atilde;o perdoamos, espere por n&oacute;s&rdquo; e o meme acabou virando moda.&nbsp; Um meme se trata disso: ideias e informa&ccedil;&otilde;es que viralizam. A partir de ent&atilde;o, foi se criando a ideia de uma legi&atilde;o, que somos todos n&oacute;s, que lutamos contra a opress&atilde;o e pelos nossos direitos de liberdade de informa&ccedil;&atilde;o. Essa ideia cresceu muito com as opera&ccedil;&otilde;es que come&ccedil;aram a ser feitas. A primeira foi contra a Cientologia, uma Igreja que perseguia seus opositores&#8230;<\/p>\n<p><strong>Quando que foi isso?<\/strong><br \/><strong>Phoenix:<\/strong> Foi em 2004. A&iacute; que surgiram os Anonymous que utilizavam a m&aacute;scara do Guy Fawkes e trabalhavam com uma no&ccedil;&atilde;o de pessoas an&ocirc;nimas lutando contra a opress&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Por que a m&aacute;scara do Guy Fawkes?<\/strong><br \/><strong>Bode:<\/strong> Voc&ecirc; viu o filme V de vingan&ccedil;a ou o gibi? &Eacute; mais ou menos o que ele explica, de se sentir como algu&eacute;m sem face, todos numa &uacute;nica voz. O Guy Fawkes &eacute; uma esp&eacute;cie de Tiradentes ingl&ecirc;s, que morreu mantendo um ideal. Ele era cat&oacute;lico e na &eacute;poca eles n&atilde;o tinham direitos pol&iacute;ticos plenos, porque a Inglaterra era anglicana, ent&atilde;o ele queria destruir o parlamento. E ainda que o ideal dele n&atilde;o seja o mesmo que o da gente, nossa ideia tamb&eacute;m tem a ver com direitos pol&iacute;ticos. O V era anarquista, mas n&oacute;s n&atilde;o temos uma concep&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica fixa, n&atilde;o somos anarquistas, capitalistas ou comunistas. <\/p>\n<p><strong>E ent&atilde;o a partir de 2004 &eacute; que voc&ecirc;s se tornaram mais ou menos o que s&atilde;o hoje em dia?<\/strong><br \/><strong>Phoenix:<\/strong> &Eacute;, ap&oacute;s as a&ccedil;&otilde;es contra a Cientologia veio a ideia tamb&eacute;m de hackear e derrubar sites que agiam contra a liberdade de express&atilde;o. Um exemplo foi o ataque &agrave; Mastercard e &agrave; Visa, no ano passado, depois de eles boicotarem o Wikileaks. Foi a&iacute; que o movimento passou a ganhar for&ccedil;as: quando se uniu por outras causas, porque at&eacute; ent&atilde;o era s&oacute; contra essa Igreja. Nossa t&aacute;tica &eacute; ocupar espa&ccedil;os da rede. H&aacute; v&aacute;rias formas de se manifestar, voc&ecirc; pode fazer uma greve, uma marcha, ou esses ataques. S&atilde;o t&aacute;ticas diferentes.<\/p>\n<p><strong>H&aacute; quanto tempo voc&ecirc;s, nesse coletivo, atuam juntos?<\/strong><br \/><strong>Phoenix:<\/strong> Desde 2011. Eu j&aacute; participava de outro movimento, onde levantava informa&ccedil;&otilde;es para conscientizar as pessoas. Isso me ajudou muito a coletar informa&ccedil;&otilde;es e, quando surgiu o Anonymous, eu vi a possibilidade de compartilhar aquilo que eu sabia.<\/p>\n<p><strong>E por que tirar um site do ar? O que isso representa?<\/strong><br \/><strong>Bode:<\/strong> Tem determinadas opera&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m necessidade de fazer um ataque desses para chamar aten&ccedil;&atilde;o. Mas tem opera&ccedil;&otilde;es que destoam desse sentido. <br \/><strong>Phoenix:<\/strong> &Eacute; relativo. Acho que funciona como uma a&ccedil;&atilde;o real, mas nunca como consequ&ecirc;ncia e danos ao cidad&atilde;o. Voc&ecirc; pode boicotar uma empresa que polua, ou que queira restringir o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, por exemplo. <br \/>Bode: Nesse sentido, tem aquela opera&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia (#OPAmazonia &lt;link http:\/\/opamazonia.blogspot.com\/&gt;), sobre a divis&atilde;o do Par&aacute; e a constru&ccedil;&atilde;o de Belo Monte. E quando voc&ecirc; derruba um site, chama a aten&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o quando as pessoas acessam o link de um pol&iacute;tico corrupto, ou de uma empresa, e v&ecirc; que caiu e tem uma mensagem explicando o porqu&ecirc; daquela opera&ccedil;&atilde;o. As pessoas come&ccedil;am a ir atr&aacute;s de outras informa&ccedil;&otilde;es.<br \/>Phoenix: Sem contar que n&atilde;o &eacute; s&oacute; derrubar site, existem outras formas de fazer isso, como no caso de um policial que batia nos estudantes. O Anonymous foi atr&aacute;s e divulgou a identidade dele, para obrig&aacute;-lo a responder pelos seus atos. Foi um trabalho hacker, de invas&atilde;o, n&atilde;o de derrubada de site. <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s dizem que t&ecirc;m uma proposta de n&atilde;o direcionar os ataques para cidad&atilde;s e cidad&atilde;os em geral, mas recentemente foram criticados inclusive pelo S&eacute;rgio Amadeu, na Campus Party, por atacar contas banc&aacute;rias de gente comum e n&atilde;o de grandes empres&aacute;rios. Por que essa a&ccedil;&atilde;o foi tomada?<br \/>Bode:<\/strong> &Eacute; complicado falar disso, por que essa a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi pensada pela gente. Foi feita por um grupo fechado, que organiza suas pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es, sem um coletivo real, s&oacute; pra chamar a aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>Phoenix: N&atilde;o d&aacute; pra agir assim, porque Anonymous n&atilde;o &eacute; s&oacute; a&ccedil;&atilde;o, voc&ecirc; tem que construir um conceito, um sentido, que se possa viralizar e chegar na popula&ccedil;&atilde;o, para que ningu&eacute;m tenha d&uacute;vidas do que voc&ecirc; est&aacute; fazendo.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s acham que existe um limite para a a&ccedil;&atilde;o do hacker? O que n&atilde;o seria interessante para um grupo como o Anonymous fazer?<\/strong><br \/><strong>Bode:<\/strong> N&atilde;o tem algo que n&atilde;o se possa fazer. Dar limites vai contra o que a gente fala, causa um paradoxo. O que a gente espera &eacute; que a popula&ccedil;&atilde;o veja as a&ccedil;&otilde;es e diga: &ldquo;oh, isso aqui n&atilde;o t&aacute; de acordo com o que eles reivindicam, com as causas que eles defendem, talvez n&atilde;o seja uma a&ccedil;&atilde;o do grupo&rdquo; e critique. As pessoas t&ecirc;m que se sentir na mesma causa tamb&eacute;m.<\/p>\n<p><strong>A ideia &eacute; que a popula&ccedil;&atilde;o seja um term&ocirc;metro do que &eacute; justo?<\/strong><br \/><strong>Bode: <\/strong>&Eacute; um pouco o que a gente espera, n&eacute;? Que a popula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m acorde com as nossas a&ccedil;&otilde;es e passem a agir. A gente quer pelo menos dar um toque.<\/p>\n<p><strong>Al&eacute;m do trabalho hacker, o Anonymous tamb&eacute;m tem puxado alguns boicotes contra grandes empresas. O caso mais recente foi o da Sony. Essa t&aacute;tica tem se mostrado efetiva?<br \/>Phoenix:<\/strong> Na verdade, tudo tem sentido de boicote, desde o ataque aos sites at&eacute; essas a&ccedil;&otilde;es no mundo real. No caso da Sony, foi pelo apoio da empresa aos projetos de lei SOPA e PIPA nos Estados Unidos. Isso faz parte do nosso objetivo de conscientizar a popula&ccedil;&atilde;o de todas as formas, viralizando as ideias. Principalmente pela internet, que &eacute; um meio da realidade que a gente deseja mudar, mas tamb&eacute;m nas ruas. Inclusive tem muitos artistas que j&aacute; fazem isso naturalmente. Tudo &eacute; importante: espalhar abra&ccedil;os gr&aacute;tis, fazer palestras, teatro de rua, a&ccedil;&otilde;es que deixem clara alguma informa&ccedil;&atilde;o. E a m&aacute;scara faz com que todos fa&ccedil;am isso sem nenhuma identidade. A identidade acaba virando a causa de todos, sem nenhum questionamento.<\/p>\n<p><em><strong>F&aacute; entra na conversa.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>O que projetos de lei como o Stop Online Piracy Act e o Preventing Real Online Threats to Economic Creativity and Theft of Intellectual Property Acat, tamb&eacute;m conhecidos como SOPA e PIPA, al&eacute;m do AI 5 Digital e outras iniciativas com o intuito de controlar o espa&ccedil;o cibern&eacute;tico, representam na nossa sociedade?<\/strong><br \/><strong>Bode:<\/strong> &Eacute; um reflexo do que j&aacute; ocorreu no passado, no mundo real, quando as pessoas eram proibidas de se reunir em p&uacute;blico, por exemplo. &Eacute; uma iniciativa comum, que s&oacute; mudou de plataforma. Durante esses intensos dist&uacute;rbios econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos pela Europa e a &Aacute;sia, o principal ponto de encontro das pessoas era a internet, ent&atilde;o come&ccedil;aram a tentar controlar ao m&aacute;ximo esse espa&ccedil;o para impedir as manifesta&ccedil;&otilde;es e rebeli&otilde;es.<br \/><strong>Phoenix:<\/strong> Essa l&oacute;gica da ind&uacute;stria cultural tamb&eacute;m limita a nossa criatividade, a constru&ccedil;&atilde;o, a cria&ccedil;&atilde;o. Tudo se trata de uma combina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es, imagens, m&uacute;sicas. E o Anonymous luta por uma sociedade livre, onde a gente n&atilde;o tenha que se limitar para prevalecer um sistema econ&ocirc;mico monopolizante, principalmente na quest&atilde;o criativa.<\/p>\n<p><strong>Como fica a quest&atilde;o do direito autoral, nisso tudo?<\/strong><br \/><strong>Bode:<\/strong> Na verdade, &eacute; uma quest&atilde;o de direito comercial e direito intelectual. O comercial diz que voc&ecirc; ao produzir e tem direito sobre a venda daquilo. No intelectual, voc&ecirc; produz uma ideia e de alguma forma isso significa que voc&ecirc; quis expor aquela ideia. Ent&atilde;o &eacute; contradit&oacute;rio voc&ecirc; limitar o acesso aquele produto, se era para espalhar a cria&ccedil;&atilde;o. Ou seja, a partir do momento em que voc&ecirc; limita do ponto de vista comercial, voc&ecirc; tamb&eacute;m limita intelectualmente.<br \/><strong>F&aacute;:<\/strong> Al&eacute;m do que, o direito autoral surge com uma ideia de proteger o autor que a gente sabe que &eacute; irreal: hoje as produtoras concentram a maior parte do dinheiro das vendas. Sem contar que tamb&eacute;m comporta uma no&ccedil;&atilde;o de originalidade &eacute; invi&aacute;vel. N&atilde;o se pode falar hoje em algo completamente original. O tempo todo voc&ecirc; l&ecirc; livros, v&ecirc; filmes, ouve m&uacute;sicas, adquire refer&ecirc;ncias e vai se formando. Esse modelo acaba sendo um modelo de cultura elitista ultrapassado. Para isso voc&ecirc; tem outras iniciativas como Copy Left e Creative Commons, que protegem o autor de certa forma, mas n&atilde;o impedem o compartilhamento pelo p&uacute;blico interessado.<\/p>\n<p><strong>Isso tudo est&aacute; relacionado com uma luta de voc&ecirc;s pelo acesso &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, n&eacute;?<\/strong><br \/><strong>F&aacute;:<\/strong> Claro, mas tenho certeza de que voc&ecirc; tamb&eacute;m faz isso. Voc&ecirc; baixa m&uacute;sicas, filmes, faz x&eacute;rox. N&atilde;o vejo a gente como guardi&otilde;es de nada, &eacute; um processo acontecendo. Tem v&aacute;rias esferas sociais que est&atilde;o cuidando e participando dessa quest&atilde;o tamb&eacute;m, n&atilde;o se restringe a uma bandeira Anonymous. &Eacute; uma quest&atilde;o mais ampla. Voc&ecirc; tem o pessoal da M&iacute;dia Independente trabalhando com isso h&aacute; muito tempo, contra o monop&oacute;lio, pela livre informa&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc; tem a&iacute; tamb&eacute;m a I Confecom (Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, realizada em 2009). S&atilde;o v&aacute;rias &aacute;reas de atua&ccedil;&atilde;o. Existe uma determinada atividade feita aqui, mas que est&aacute; se conjugando com outras atua&ccedil;&otilde;es da sociedade civil organizada tamb&eacute;m. <\/p>\n<p><strong>Ainda com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; internet, um dos argumentos mais utilizados para aumentar o controle cibern&eacute;tico &eacute; o combate a crimes como pedofilia. Mas muitas vezes &eacute; apenas uma desculpa para cercear a liberdade de express&atilde;o. Como voc&ecirc;s veem isso?<br \/>F&aacute;:<\/strong> Os governos j&aacute; t&ecirc;m a capacidade de rastrear e investigar crimes hediondos com a lei atual. Hoje j&aacute; &eacute; poss&iacute;vel rastrear criminosos. Positivamente, para transformar a lei, acho que existem outras formas de se atuar, direcionadas diretamente para criminosos e n&atilde;o para usu&aacute;rios em geral, mas n&atilde;o &eacute; esse o objetivo desses projetos de lei. Acho falaciosas essas justificativas, da forma como s&atilde;o colocadas. &Eacute; complicada a rela&ccedil;&atilde;o que se cria, dizendo que com essas leis voc&ecirc; vai acabar com a pedofilia, com os golpes, com os crimes. Esse tipo de coisa t&aacute; a&iacute;, desde sempre, na humanidade. N&atilde;o vai acabar de um dia para o outro, com uma lei. Hoje a Pol&iacute;cia j&aacute; tem a capacidade de tirar o site de um ped&oacute;filo do ar, mas porque n&atilde;o tira? Porque a lei tamb&eacute;m preserva o direito do consumidor, tem os acordos internacionais, a lei &eacute; complicada n&eacute;. Mas &eacute; estranho que depois de todas essas manifesta&ccedil;&otilde;es populares surjam essas iniciativas para tentar controlar a internet, com a desculpa de proteger a popula&ccedil;&atilde;o. Parece mais &eacute; que tem uma elite que perdeu o poder da informa&ccedil;&atilde;o com a internet, e quer recuper&aacute;-lo.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s realmente acham que a elite perdeu o poder da informa&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/><strong>F&aacute;:<\/strong> Eu acho que ela perdeu muito poder. N&atilde;o &eacute; mais a &uacute;nica que pode se comunicar, que tem o ve&iacute;culo. Porque 20 anos atr&aacute;s voc&ecirc; at&eacute; podia ter uma c&acirc;mera e fazer o seu filme, mas tinha a dificuldade da distribui&ccedil;&atilde;o. S&oacute; que essa dificuldade t&aacute; minada com a internet. Hoje voc&ecirc; pode distribuir de casa, o que era imposs&iacute;vel antes. Como o caso do pessoal da Rede Globo, que foi expulso na manifesta&ccedil;&atilde;o. L&oacute;gico, eles ainda t&ecirc;m o controle da televis&atilde;o, mas na internet eles n&atilde;o t&ecirc;m mais a prioridade.<\/p>\n<p><strong>Mas hoje em dia o acesso &agrave; internet ainda &eacute; muito restrito. Voc&ecirc;s veem mesmo esse potencial nela para mudar a l&oacute;gica da comunica&ccedil;&atilde;o no mundo?<br \/>F&aacute;:<\/strong> N&atilde;o acho que tenha potencial, acho que j&aacute; mudou. A l&oacute;gica j&aacute; &eacute; outra. A prova s&atilde;o essas leis. L&oacute;gico que tem esse problema: n&atilde;o temos acesso universal &agrave; internet, isso &eacute; um fato. Mas existe um projeto para universalizar a banda larga. Assim como outro para universalizar os tablets, por exemplo. Ou seja, essa possibilidade vai aumentar cada vez mais, se n&atilde;o for interrompida por essas leis. Mas a l&oacute;gica de pensar j&aacute; mudou, mesmo que uma boa parcela da sociedade ainda n&atilde;o esteja familiarizada com essas novas ferramentas, como o computador, cada vez mais essa nova l&oacute;gica fica evidente. Hoje as pessoas n&atilde;o sabem direito onde colher informa&ccedil;&otilde;es, o que &eacute; correto, em que confiar: &eacute; muita novidade. Mas com certeza a l&oacute;gica j&aacute; mudou, tanto que existe um investimento pesad&iacute;ssimo em marketing na internet.<\/p>\n<p><strong>Durante as manifesta&ccedil;&otilde;es no Ir&atilde; e no Egito, entre outras, muita gente come&ccedil;ou a falar que &ldquo;a revolu&ccedil;&atilde;o vai ser tuitada&rdquo;. Voc&ecirc;s acham que a rela&ccedil;&atilde;o entre as manifesta&ccedil;&otilde;es do mundo virtual e real &eacute; direta?<br \/>F&aacute;:<\/strong> N&atilde;o, acho que tem uma diferen&ccedil;a a&iacute;, mas ao mesmo tempo a internet &eacute; uma ferramenta. Existe uma diferen&ccedil;a entre quem s&oacute; organiza movimentos virtuais e quem vai pra rua tamb&eacute;m. Um exemplo disso foi o que aconteceu no Brasil no 7 de setembro passado: foi algo que come&ccedil;ou na internet e deu um monte de gente na rua. Mas n&atilde;o necessariamente as duas coisas est&atilde;o interligadas, apesar de que a tend&ecirc;ncia &eacute; que cada vez mais as pessoas se organizem tamb&eacute;m via internet.<\/p>\n<p><strong>Uma dificuldade dos movimentos &eacute; saber transformar a indigna&ccedil;&atilde;o virtual em atos mais concretos. Voc&ecirc;s s&atilde;o um grupo mais virtual, mas t&ecirc;m uma boa integra&ccedil;&atilde;o com outros movimentos. Como se d&aacute; essa rela&ccedil;&atilde;o?<br \/>F&aacute;:<\/strong> Depende muito. A a&ccedil;&atilde;o em defesa do Santu&aacute;rio dos Paj&eacute;s, no Distrito Federal, quando derrubamos o site da Secretaria de Cultura do governo foi por conta pr&oacute;pria. Mas a gente tamb&eacute;m tem pessoas atuando em movimentos pra al&eacute;m do Anonymous, que fazem essa ponte.<br \/><strong>Bode:<\/strong> No DF mesmo, tem gente no Santu&aacute;rio, na Marcha das Vadias. Em S&atilde;o Paulo, no Pinheirinho, nas ocupa&ccedil;&otilde;es, em Wall Street. Nosso objetivo &eacute; mesmo fazer essas a&ccedil;&otilde;es com outros movimentos, como foi o caso com os Bombeiros no Rio de Janeiro, com os professores em Goi&aacute;s. N&oacute;s somos na verdade uma reuni&atilde;o de pessoas que est&atilde;o indignadas com alguma coisa.<\/p>\n<p><strong>E voc&ecirc;s planejam essas a&ccedil;&otilde;es coletivamente?<\/strong><br \/><strong>F&aacute;:<\/strong> A natureza Anonymous &eacute; muito mais an&aacute;rquica do que democr&aacute;tica. As pessoas t&ecirc;m uma ilus&atilde;o do consenso, que tem que ser superada. &Eacute; bem legal tamb&eacute;m ficar claro que n&atilde;o somos um grupo fechado, que temos diversos interesses. Fiquem atentos. N&atilde;o achem que tudo que sai &eacute; em nome do grupo todo. Como &eacute; uma ideia, &eacute; como um livro, cada um interpreta a hist&oacute;ria de um jeito. Existe a ideia l&aacute;, as pessoas se indignam, mas cada um vai pensar de um jeito: democraticamente, de maneira an&aacute;rquica, comunista, socialista. N&atilde;o existe unidade em uma forma&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica. H&aacute; uma a&ccedil;&atilde;o, porque a gente percebe que certas a&ccedil;&otilde;es precisam ser tratadas, &agrave;s vezes de maneira local, nacional ou global, como no caso dessas leis de restri&ccedil;&atilde;o.<br \/><strong>Bode:<\/strong> E &eacute; interessante notar que, apesar de algumas pessoas criticarem o fato de construirmos localmente, esse &eacute; um elemento importante para a descentraliza&ccedil;&atilde;o. <br \/><strong>F&aacute;:<\/strong> &Eacute;, a coisa &eacute; completamente descentralizada. Quando a gente fala que n&atilde;o tem hierarquia, n&atilde;o tem hierarquia. N&atilde;o tem ningu&eacute;m a quem voc&ecirc; tenha que se dirigir para pedir permiss&atilde;o. N&atilde;o existe isso. O que eu percebo &eacute; que v&atilde;o se formando grupos de trabalho, de interesse, que v&atilde;o agindo juntos para combater as injusti&ccedil;as no mundo. As formas de fazer isso &eacute; que mudam muito. Mas nosso objetivo &eacute; tamb&eacute;m que as pessoas tenham um lugar para compartilhar e acessar informa&ccedil;&otilde;es, tanto por e-mail, como pelo twitter, facebook. A gente quer que todo mundo possa contribuir com uma vis&atilde;o mais conceitual sobre tudo isso que est&aacute; acontecendo. <\/p>\n<p><strong>Conhe&ccedil;a mais sobre o Anonymous: <\/strong><br \/>No twitter: <br \/>@planoanonbr<br \/>@AnonIRC<br \/>@YourAnonNews<\/p>\n<p><strong>No site:<\/strong><br \/>anonbrasil.org (em manuten&ccedil;&atilde;o)<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o entrevistou tr&ecirc;s integrantes do Anonymos Brasil, grupo de hacker que defende a liberdade na internet e utiliza da rede para combater crimes sociais e ambientais cometidos por coorpora&ccedil;&otilde;es e governos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1660],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26648"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26648"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26648\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}