{"id":26641,"date":"2012-02-27T23:20:58","date_gmt":"2012-02-27T23:20:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26641"},"modified":"2012-02-27T23:20:58","modified_gmt":"2012-02-27T23:20:58","slug":"o-exterminio-das-falas-regionais-na-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26641","title":{"rendered":"O exterm\u00ednio das falas regionais na Globo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Mais de uma vez eu j&aacute; havia notado que os apresentadores de telejornalismo t&ecirc;m uma l&iacute;ngua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais s&eacute;ria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada regi&atilde;o, tamb&eacute;m falavam uma outra l&iacute;ngua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o tr&acirc;nsito na Avenida Beberibe, no bairro de &Aacute;gua Fria, que t&atilde;o bem conhe&ccedil;o. E n&atilde;o sei se foi um despertar ou um esc&acirc;ndalo. Olhem: <a href=\"http:\/\/globotv.globo.com\/rede-globo\/netv-1-edicao\/v\/falta-de-sinalizacao-em-avenida-movimentada-do-recife-traz-perigo-para-pedestres\/1772082\/\" target=\"_blank\">http:\/\/globotv.globo.com\/rede-globo\/netv-1-edicao\/v\/falta-de-sinalizacao-em-avenida-movimentada-do-recife-traz-perigo-para-pedestres\/1772082\/<\/a> <\/p>\n<p>Na ocasi&atilde;o, o rep&oacute;rter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de B&ecirc;-B&ecirc;-ribe. O que era aquilo? &Eacute; hist&oacute;rico, desde a mais tenra inf&acirc;ncia, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe.<\/p>\n<p>Ligo para a reda&ccedil;&atilde;o da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:<\/p>\n<p>&#8211; Amigo, por que voc&ecirc;s falam b&ecirc;-b&ecirc;-ribe, em vez de bibiribe?<\/p>\n<p>&#8211; Porque &eacute; o certo, senhor. B&eacute;-B&eacute; &eacute; Beb&ecirc;.<\/p>\n<p>&#8211; S&eacute;rio? Quem ensina isso &eacute; algum mestre da l&iacute;ngua portuguesa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor. O certo quem nos ensina &eacute; uma fonoaudi&oacute;loga.<\/p>\n<p>Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas da&iacute; pude ver que a fonoaudi&oacute;loga como autoridade da l&iacute;ngua portuguesa &eacute; uma ignor&acirc;ncia que vem da matriz, l&aacute; no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa:<\/p>\n<p>&ldquo;Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos rep&oacute;rteres de v&iacute;deo&hellip; Nesse per&iacute;odo a fonoaudi&oacute;loga Glorinha Beuttenm&uuml;ller come&ccedil;ou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional: &ldquo;sentimos a necessidade de algu&eacute;m que orientasse sua forma&ccedil;&atilde;o para que falassem com naturalidade&rdquo;.<\/p>\n<p>Foi nesta &eacute;poca, que Beuttenm&uuml;ller, come&ccedil;ou a uniformizar a fala dos rep&oacute;rteres e locutores espalhados pelo pa&iacute;s, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de defini&ccedil;&atilde;o de um padr&atilde;o nacional, a fonoaudi&oacute;loga se pautou nas decis&otilde;es de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pron&uacute;ncia-padr&atilde;o do portugu&ecirc;s falado no Brasil seria do Rio de Janeiro&rdquo;. (Destaque meu.)<\/p>\n<p>Mas isso &eacute; a morte da l&iacute;ngua. &Eacute; um exterm&iacute;nio das falas regionais, na voz dos rep&oacute;rteres e apresentadores. Os falares diversos, certos\/errados aos quais Manuel Bandeira j&aacute; se referia no verso &ldquo;Vinha da boca do povo na l&iacute;ngua errada do povo\/ L&iacute;ngua certa do povo&rdquo;, ganha aqui um status de anula&ccedil;&atilde;o da identidade, em que os apresentadores nativos se envergonham da pr&oacute;pria fala. Assim, rep&oacute;rteres locais, &ldquo;nativos&rdquo;, se referem ao pequi do Cear&aacute; como &ldquo;p&ecirc;-qui&rdquo;, enquanto os agricultores respondem com um piqui.<\/p>\n<p>De um modo geral, as vogais abertas, uma caracter&iacute;stica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso &eacute;, de &ldquo;E&rdquo;, virou &ecirc;. E defunto (difunto, em nossa fala &ldquo;errada&rdquo;) se transformou em d&ecirc;-funto. Cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; mais c&oacute;ra-&ccedil;&atilde;o, &eacute; c&ocirc;ra-&ccedil;&atilde;o. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de &Oacute;-linda, nos telejornais virou &Ocirc;-linda. Diabo, falar &Oacute;-linda &eacute; hist&oacute;rico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela n&atilde;o h&aacute; que a juventude gritando no carnaval &ldquo;&Oacute;-linda, quero cantar a ti esta can&ccedil;&atilde;o&rdquo;. J&aacute; &Ocirc;-linda &eacute; de uma l&iacute;ngua artificial, que nem &eacute; do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. &Eacute; uma outra coisa, um rid&iacute;culo sem fim, t&atilde;o ris&iacute;vel quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de f&iacute;sicos europeus.<\/p>\n<p>Esse ar &ldquo;civilizado&rdquo;de apresentadores regionais mereceria um Moli&egrave;re. Enunciam, sempre sob orienta&ccedil;&atilde;o do fonoaudi&oacute;logo, &ldquo;m&ecirc;-nin&ocirc;&rdquo;, &ldquo;b&ocirc;-nec&Ocirc;&rdquo;, enquanto o povo, na hist&oacute;ria viva da l&iacute;ngua, continua com min&iacute;-nu e buneco. O que antes era uma transforma&ccedil;&atilde;o do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o portugu&ecirc;s &ldquo;correto&rdquo;, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgot&aacute;vel ignor&acirc;ncia, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da regi&atilde;o.<\/p>\n<p>O t&atilde;o natural Pernambuco, que dizemos P&eacute;r-nambuco, se pronuncia agora como P&ecirc;r-nambuco. E Petrolina, P&eacute;-tr&oacute;-lina, uma cidade de refer&ecirc;ncia do desenvolvimento local, virou outra coisa: P&ecirc;-tr&ocirc;-lina. E mais este &ldquo;N&oacute;bel&rdquo; da orto&eacute;pia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam at&eacute; os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que s&atilde;o da tend&ecirc;ncia regional de transformar o &ldquo;o&rdquo; em &ldquo;u&rdquo;, um rep&oacute;rter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou J&Ocirc;-azeiro! O que tem l&aacute; a sua l&oacute;gica: se o povo fala jUazeiro, s&oacute; podia mesmo ser J&ocirc;-azeiro.<br \/><\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Urariano Mota &eacute; pernambucano, jornalista e autor de &quot;Soledad no Recife&quot;, recria&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos dias de Soledad Barret, mulher do cabo Anselmo, executada pela equipe do Delegado Fleury com o aux&iacute;lio de Anselmo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O que antes era uma transforma&ccedil;&atilde;o do sotaque, pois  na telinha da sala os apresentadores falariam o portugu&ecirc;s &ldquo;correto&rdquo;,  atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgot&aacute;vel ignor&acirc;ncia, eles  passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da regi&atilde;o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1659],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26641"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}