{"id":26634,"date":"2012-02-25T01:56:36","date_gmt":"2012-02-25T01:56:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26634"},"modified":"2012-02-25T01:56:36","modified_gmt":"2012-02-25T01:56:36","slug":"politicas-para-alem-de-um-decreto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26634","title":{"rendered":"Pol\u00edticas para al\u00e9m de um decreto"},"content":{"rendered":"<p>Com o prop&oacute;sito de atualizar e de estabelecer regras mais r&iacute;gidas voltadas &agrave;s concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV comerciais, o governo federal, por meio do decreto n&ordm; 7.670, de 16 de janeiro deste ano, alterou alguns artigos do decreto n&ordm; 52.795, de 1963. O dispositivo, ainda que demasiadamente arcaico, regulamenta os servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o e determina diversas obriga&ccedil;&otilde;es aos concession&aacute;rios e ao poder concedente (neste caso, o Executivo federal). Entre elas, est&atilde;o os crit&eacute;rios usados no processo de licita&ccedil;&atilde;o das outorgas a fim de avaliar as propostas no que tange ao conte&uacute;do. Essa &eacute;, talvez, uma das mudan&ccedil;as mais importantes trazidas no bojo do novo decreto.<\/p>\n<p>Isso porque, na avalia&ccedil;&atilde;o das propostas de conte&uacute;do, aumentou o peso do tempo destinado a programas jornal&iacute;sticos e educativos (m&aacute;ximo de 20 pontos cada); a programas culturais, art&iacute;sticos, educativos e jornal&iacute;sticos produzidos na localidade onde opera a emissora outorgada &ndash; produ&ccedil;&atilde;o local (m&aacute;ximo de 30 pontos); e a programas produzidos por empresas sem v&iacute;nculo com concession&aacute;rias de radiodifus&atilde;o &ndash; produ&ccedil;&atilde;o independente (m&aacute;ximo de 30 pontos). Este &uacute;ltimo crit&eacute;rio n&atilde;o figurava no texto do decreto original.<\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o do Blog do Planalto, em mat&eacute;ria intitulada &ldquo;Governo define novas regras para o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o no pa&iacute;s&rdquo;, &ldquo;(&#8230;) a legisla&ccedil;&atilde;o passa a atender uma diretriz do artigo 221 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de valoriza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o local e independente, com o objetivo de ampliar a gera&ccedil;&atilde;o de empregos e fomentar um mercado produtor nas cidades sede das novas outorgas&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Conte&uacute;do jornal&iacute;stico e educativo<br \/><\/strong><br \/>Mas n&atilde;o &eacute; bem assim. O artigo constitucional mencionado acima estabelece os princ&iacute;pios a serem obedecidos pelas emissoras de r&aacute;dio e TV no que diz respeito &agrave; programa&ccedil;&atilde;o, que deve dar prefer&ecirc;ncia a conte&uacute;dos educativos, art&iacute;sticos, jornal&iacute;sticos e culturais; al&eacute;m de dar espa&ccedil;o a produ&ccedil;&otilde;es regionais e independentes. Todavia, tal dispositivo ainda carece de regulamenta&ccedil;&atilde;o, fato que impede a imposi&ccedil;&atilde;o de cotas de conte&uacute;do destinadas a produ&ccedil;&otilde;es locais e independentes, por exemplo, a serem veiculadas nas emissoras de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p>Uma coisa &eacute; a imposi&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios de programa&ccedil;&atilde;o restritos unicamente &agrave; disputa licitat&oacute;ria, com o intuito de avaliar propostas e classific&aacute;-las. Outra, bem diferente, &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o de dispositivos legais que obriguem as empresas radiodifusoras em plena explora&ccedil;&atilde;o de sua concess&atilde;o a concederem espa&ccedil;o a produ&ccedil;&otilde;es regionais e independentes para, assim, poderem cumprir o que determina o artigo 221 da Carta Magna. Quanto a isso, pelo menos em tese, o novo decreto n&atilde;o altera em nada a realidade brasileira, visto que o sistema de classifica&ccedil;&atilde;o de propostas de programa&ccedil;&atilde;o por pontos j&aacute; existe desde 1963, data em que foi publicado o decreto n&ordm; 52.795.<\/p>\n<p>O que o decreto de 2012 trouxe de &ldquo;novidade&rdquo; foi um relativo aumento na pontua&ccedil;&atilde;o para as propostas de conte&uacute;do jornal&iacute;stico e educativo (era um m&aacute;ximo de 15 pontos para ambos), al&eacute;m da inser&ccedil;&atilde;o do crit&eacute;rio &ldquo;tempo destinado a programas culturais, art&iacute;sticos, educativos e jornal&iacute;sticos a serem produzidos por entidade que n&atilde;o tenha qualquer associa&ccedil;&atilde;o ou v&iacute;nculo, direto ou indireto, com empresas ou entidades executoras de servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o&rdquo; (m&aacute;ximo de 30 pontos). O crit&eacute;rio &ldquo;tempo menor para entrar em funcionamento&rdquo;, com um m&aacute;ximo de 40 pontos, perde a validade.<\/p>\n<p><strong>Programa&ccedil;&atilde;o regional e independente<br \/><\/strong><br \/>E por falar na valoriza&ccedil;&atilde;o de produ&ccedil;&otilde;es audiovisuais fora do eixo Rio-S&atilde;o Paulo, um estudo do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o publicado em 2009, intitulado &ldquo;Produ&ccedil;&atilde;o Regional na TV Aberta brasileira&rdquo;, constatou um baixo &iacute;ndice de produ&ccedil;&atilde;o regional em 58 emissoras de televis&atilde;o sediadas em 11 capitais do pa&iacute;s. O objetivo era saber a quantidade de programas produzidos no estado da emissora que o veicula. A pesquisa revelou que o tempo m&eacute;dio dedicado &agrave; exibi&ccedil;&atilde;o de programas produzidos localmente era de 10,83%.<\/p>\n<p>E s&atilde;o as emissoras p&uacute;blicas que reservam mais tempo &agrave; programa&ccedil;&atilde;o local. Em m&eacute;dia, 25,5% da grade de programa&ccedil;&atilde;o das televis&otilde;es desse campo presentes no estudo destinam-se a conte&uacute;dos elaborados nas cidades das emissoras. Bem atr&aacute;s, est&atilde;o as afiliadas &agrave; Rede TV! (12,20%), Record (11,20%), CNT (9,21%), SBT (8,60%), Band (8,56%) e, por &uacute;ltimo, &agrave; Globo (7%). Na contram&atilde;o das emissoras educativas, as TVs de cunho comercial est&atilde;o abaixo da m&eacute;dia nacional quanto ao espa&ccedil;o reservado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do regional, com apenas 9,14%.<\/p>\n<p>Mas qual seria, ent&atilde;o, o espa&ccedil;o ideal ocupado pela programa&ccedil;&atilde;o regional e independente no r&aacute;dio e na TV? O projeto de lei n&ordm; 256, apresentado em 1991, ou seja, h&aacute; mais de 20 anos, pela deputada federal Jandira Feghali (PcdoB-RJ), tenta at&eacute; hoje responder a essas perguntas. Ele regulamenta o inciso III do artigo em quest&atilde;o, referente &agrave; programa&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica das emissoras de radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Document&aacute;rios, anima&ccedil;&atilde;o e fic&ccedil;&atilde;o<br \/><\/strong><br \/>A proposta tramitou na C&acirc;mara dos Deputados por mais de 10 anos, deixando a Casa somente em 2003 rumo ao Senado Federal, onde tramita at&eacute; hoje. A vers&atilde;o original do projeto de lei, iniciado na C&acirc;mara, prev&ecirc;, de 07h &agrave;s 23h, um m&iacute;nimo de 30% de programas jornal&iacute;sticos, culturais e art&iacute;sticos totalmente produzidos e emitidos no local onde funciona a sede da emissora. As TVs teriam ainda a obriga&ccedil;&atilde;o de exibir um filme nacional por semana. J&aacute; a vers&atilde;o que tramita no Senado desde 2003 &ndash; PLC n&ordm; 59\/2003&ndash; traz altera&ccedil;&otilde;es importantes.<\/p>\n<p>Ela determina que no hor&aacute;rio das 5h &agrave;s 24h, as emissoras de televis&atilde;o ficam obrigadas a veicular programas culturais, art&iacute;sticos e jornal&iacute;sticos totalmente produzidos e emitidos nos estados onde est&atilde;o as sedes e\/ou suas afiliadas, sendo: 22 horas semanais para emissoras que atendem regi&otilde;es com mais de 1,5 milh&atilde;o de domic&iacute;lios com televisores; 17 horas semanais &agrave;s que atendem regi&otilde;es com menos de 1,5 milh&atilde;o de domic&iacute;lios com televisores; e 10 horas semanais para emissoras que atendem regi&otilde;es com menos de 500 mil domic&iacute;lios com televisores. Os valores previstos nas duas primeiras condi&ccedil;&otilde;es dever&atilde;o, em cinco anos, aumentar para 32 e 22 horas semanais, respectivamente.<\/p>\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o independente ganha destaque no PLC 59\/2003. Pelo menos 40% das horas semanais estabelecidas para a programa&ccedil;&atilde;o regional dever&atilde;o ser ocupadas com conte&uacute;do elaborado por produtores sem quaisquer v&iacute;nculos, sejam econ&ocirc;micos ou de parentesco, com os concession&aacute;rios de televis&atilde;o. Dentro desse total reservado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente, 40% deve ser destinado &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o de document&aacute;rios, al&eacute;m de obras de anima&ccedil;&atilde;o e fic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Um novo Marco Regulat&oacute;rio<br \/><\/strong><br \/>Elaborada de forma colaborativa a partir da participa&ccedil;&atilde;o da sociedade civil durante consulta p&uacute;blica realizada em 2011 e tendo como objetivo contribuir com o Governo na atualiza&ccedil;&atilde;o do marco legal da m&iacute;dia, a Plataforma para um Novo Marco Regulat&oacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;escoloca a produ&ccedil;&atilde;o regional e independente entre os 20 pontos considerados fundamentais para a democratiza&ccedil;&atilde;o do setor no Brasil. Destaca-se a necessidade da regulamenta&ccedil;&atilde;o do artigo constitucional 221 e da implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de fomento e incentivo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente:<\/p>\n<p>Garantia da produ&ccedil;&atilde;o e veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do nacional e regional e est&iacute;mulo &agrave; programa&ccedil;&atilde;o independente:<\/p>\n<p>&Eacute; preciso regulamentar o artigo 221 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, com a garantia de cotas de veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do nacional e regional onde essa diversidade n&atilde;o se imp&otilde;e naturalmente. Esses mecanismos se justificam pela necessidade de garantir a diversidade cultural, pelo est&iacute;mulo ao mercado audiovisual local e pela garantia de espa&ccedil;o &agrave; cultura e &agrave; l&iacute;ngua nacional, respeitando as varia&ccedil;&otilde;es etnolingu&iacute;sticas do pa&iacute;s. O novo marco deve contemplar tamb&eacute;m pol&iacute;ticas de fomento &agrave; produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e acesso a conte&uacute;do nacional independente, com a democratiza&ccedil;&atilde;o regional dos recursos, desconcentra&ccedil;&atilde;o dos benefici&aacute;rios e garantia de acesso das mulheres e da popula&ccedil;&atilde;o negra &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do. Essa medida deve estar articulada com iniciativas j&aacute; existentes no &acirc;mbito da cultura, j&aacute; que, ao mesmo tempo, combate a concentra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e promove a diversidade de conte&uacute;do.<\/p>\n<p>A regulamenta&ccedil;&atilde;o da exig&ecirc;ncia constitucional de complementaridade dos sistemas p&uacute;blico, privado e estatal com vistas ao fortalecimento das emissoras p&uacute;blicas de radiodifus&atilde;o; o fortalecimento das r&aacute;dios e TVs comunit&aacute;rias; e o estabelecimento de limites &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o dos meios tamb&eacute;m aparecem na Plataforma como fortes aliados da produ&ccedil;&atilde;o regional e independente em um novo marco legal da m&iacute;dia.<\/p>\n<p>Como se v&ecirc;, n&atilde;o &eacute; atrav&eacute;s de remendos (leia-se decretos) ou de mudan&ccedil;as superficiais sobre uma legisla&ccedil;&atilde;o totalmente fora do seu tempo que o Brasil conseguir&aacute; enxergar na TV e no r&aacute;dio a diversidade e a pluralidade t&atilde;o marcantes na cultura e nos costumes de seu povo. O debate vai al&eacute;m e requer pol&iacute;ticas regulat&oacute;rias amplas, convergentes e democr&aacute;ticas.<\/p>\n<p><em>Vilson Vieira Jr. &eacute; jornalista, Serra, ES<br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o &eacute; atrav&eacute;s de remendos (leia-se decretos) ou de mudan&ccedil;as  superficiais sobre uma legisla&ccedil;&atilde;o totalmente fora do seu tempo que o  Brasil conseguir&aacute; enxergar na TV e no r&aacute;dio a diversidade e a  pluralidade t&atilde;o marcantes na cultura e nos costumes de seu povo<span style=\"color: #313030; font-family: Verdana; font-size: 12px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; letter-spacing: normal; line-height: normal; orphans: 2; text-align: left; text-indent: 0px; text-transform: none; white-space: normal; widows: 2; word-spacing: 0px; background-color: #ffffff; display: inline ! important; float: none\"> <\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26634"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26634"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26634\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}