{"id":26604,"date":"2012-02-07T15:28:22","date_gmt":"2012-02-07T15:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26604"},"modified":"2012-02-07T15:28:22","modified_gmt":"2012-02-07T15:28:22","slug":"transparencia-na-comunicacao-o-longo-e-arduo-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26604","title":{"rendered":"Transpar\u00eancia na Comunica\u00e7\u00e3o: O longo (e \u00e1rduo) caminho"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">O Grupo RBS, afiliado &agrave; Rede Globo e considerado o maior conglomerado de comunica&ccedil;&atilde;o da Regi&atilde;o Sul do pa&iacute;s, lan&ccedil;ou em dezembro &uacute;ltimo seu Guia de &Eacute;tica e Autorregulamenta&ccedil;&atilde;o Jornal&iacute;stica, em evento revestido de pompa e circunst&acirc;ncia. De pompa porque a solenidade privada contou com a presen&ccedil;a de chefes e demais autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judici&aacute;rio dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. De circunst&acirc;ncia porque reuniu o presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, que proferiu discurso &ldquo;intransigente&rdquo; (nas palavras dele) em defesa da liberdade de express&atilde;o, e o vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto. Registre-se que o contradit&oacute;rio passou ao largo de tal evento, no melhor estilo midi&aacute;tico brasileiro.<\/p>\n<p>Convidado especial da atividade, Ayres Britto concedeu entrevista aos jornalistas da empresa e &agrave;s autoridades presentes sobre o tema &ldquo;Liberdade de Express&atilde;o e Transpar&ecirc;ncia P&uacute;blica&rdquo;(dispon&iacute;vel aqui). &Eacute; de conhecimento p&uacute;blico a dedica&ccedil;&atilde;o profissional e o posicionamento pol&iacute;tico do ministro quanto &agrave;s quest&otilde;es da comunica&ccedil;&atilde;o, tendo sido dele a relatoria da a&ccedil;&atilde;o que resultou na derrubada pelo STF, em 2009, da Lei 5.250\/1967 (a Lei de Imprensa). Para o ministro, tal decis&atilde;o foi um choque cultural necess&aacute;rio, pois a citada norma &ldquo;consagrava a censura pr&eacute;via, inclusive judicial, nos artigos de n&uacute;mero 61 a 64&rdquo;. Ayres costuma colocar-se como ferrenho opositor da censura pr&eacute;via, no que n&atilde;o h&aacute; controv&eacute;rsia.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Rastrear os atos&rdquo;<br \/><\/strong><br \/>O problema &eacute; a confus&atilde;o que as altas c&uacute;pulas diretivas das companhias de comunica&ccedil;&atilde;o fazem quest&atilde;o de produzir e que muitas vezes encontram resson&acirc;ncia no Judici&aacute;rio e na Academia (porque ningu&eacute;m est&aacute; livre do discurso social intermediado pela m&iacute;dia e h&aacute; quem comungue dos mesmos interesses) de que qualquer tipo de a&ccedil;&atilde;o fiscalizat&oacute;ria configura censura pr&eacute;via. Isto n&atilde;o corresponde &agrave; verdade. Afinal, defender a exist&ecirc;ncia de uma base regulamentar clara e algum controle social sobre os atos de midiatiza&ccedil;&atilde;o (n&atilde;o sobre o neg&oacute;cio, que &eacute; exclusivamente privado) est&aacute; muito distante de qualquer imposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s emissoras de televis&atilde;o ou r&aacute;dio sobre os assuntos a serem abordados.<\/p>\n<p>Ayres mant&eacute;m a confus&atilde;o entre censura de conte&uacute;do e controle da m&iacute;dia (este &uacute;ltimo, concretamente identificado como o estabelecimento de par&acirc;metros a serem observados pelas companhias midi&aacute;ticas e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o de seu cumprimento). Estabelecer par&acirc;metros significa, por exemplo, levar em conta a diversidade sociocultural brasileira na defini&ccedil;&atilde;o da programa&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio da perspectiva atual, centralizada em S&atilde;o Paulo e no Rio de Janeiro e imposta ao restante do pa&iacute;s, como se fosse o &uacute;nico modelo poss&iacute;vel de representa&ccedil;&atilde;o de uma identidade nacional. Com a programa&ccedil;&atilde;o montada para atender &agrave;s prerrogativas legais, quem continuar&aacute; definindo quais ser&atilde;o os temas abordados na novela ou no telejornal para dar conta da descentraliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o audiovisual &eacute; a empresa de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na entrevista concedida &agrave; RBS, Ayres reconheceu que a liberdade de express&atilde;o n&atilde;o se limita &agrave; a&ccedil;&atilde;o dos jornalistas ou das companhias de comunica&ccedil;&atilde;o, mas que consiste no &ldquo;direito dos cidad&atilde;os de acessar e receber informa&ccedil;&otilde;es livres de qualquer tutela&rdquo;. Para ele, entretanto, &ldquo;qualquer relativiza&ccedil;&atilde;o da plena liberdade de informa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica corre o risco de se transformar em censura pr&eacute;via&rdquo;. O ministro coloca a imprensa na mesma condi&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico e dos tribunais de Contas, ambos &oacute;rg&atilde;os respons&aacute;veis pelo controle do poder p&uacute;blico. &ldquo;Eles (m&iacute;dia e &oacute;rg&atilde;os oficiais) foram especificamente aparelhados pela Constitui&ccedil;&atilde;o para rastrear os atos dos administradores&rdquo;, afirma o vice-presidente do STF.<\/p>\n<p><strong>M&iacute;dia n&atilde;o quer mais do que &ldquo;credibilidade&rdquo;<br \/><\/strong><br \/>&Eacute; interessante a abordagem jur&iacute;dica de Ayres. Ele reconhece que os cidad&atilde;os t&ecirc;m direito a receber informa&ccedil;&atilde;o sem tutela, mas ignora o controle realizado pelas empresas de comunica&ccedil;&atilde;o sobre a informa&ccedil;&atilde;o transmitida por elas. D&aacute; tamanha &ecirc;nfase &agrave; liberdade plena de atua&ccedil;&atilde;o da organiza&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica que esquece que ela &eacute; prioritariamente empresa, e que os seus interesses enquanto agente privado n&atilde;o coincidem necessariamente com o interesse coletivo. Ali&aacute;s, se j&aacute; &eacute; dif&iacute;cil reunir os v&aacute;rios interesses, dos diversos grupos socioculturais, sob o guarda-chuva de um mesmo interesse p&uacute;blico, o problema cresce quando envolve reconhecer no interesse privado a vontade de toda uma coletividade.<\/p>\n<p>O Brasil vive hoje um regime democr&aacute;tico representativo pleno, do qual a liberdade jornal&iacute;stica faz parte. Mas n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel manter a empresa jornal&iacute;stica acima da lei, carecendo o Brasil de um marco legal das comunica&ccedil;&otilde;es capaz de reunir os v&aacute;rios textos legais vigentes, fracos e dispersos no emaranhado jur&iacute;dico. A imprensa n&atilde;o tem papel semelhante ao do Minist&eacute;rio P&uacute;blico ou do Tribunal de Contas, pois, ao contr&aacute;rio destes, ela se guia pela acumula&ccedil;&atilde;o de capital. Pode-se at&eacute; discutir se o papel desenhado pelo ministro poderia corresponder &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica (aut&ocirc;noma do poder p&uacute;blico e independente dos interesses de governantes e partidos pol&iacute;ticos), mas certamente n&atilde;o cabe a uma emissora comercial.<\/p>\n<p>O ministro entende que liberdade total da empresa de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; indicativo de uma civiliza&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada e de uma democracia consolidada. Mas pode-se v&ecirc;-la como indicativo de uma avan&ccedil;ada pol&iacute;tica neoliberal no setor das comunica&ccedil;&otilde;es. Diz Ayres na entrevista: &ldquo;A nossa autoestima estar&aacute; no ponto mais e mais alto com a plenitude da liberdade de imprensa. Nos orgulharemos do nosso pa&iacute;s e a imprensa tamb&eacute;m mais e mais se compenetrar&aacute; do seu dever de se depurar internamente, democraticamente, fazendo jus a essa enorme confian&ccedil;a que lhe depositou a Constitui&ccedil;&atilde;o federal&rdquo;. Mais adiante, reafirma que a m&iacute;dia n&atilde;o quereria mais do que &ldquo;credibilidade&rdquo; (entretanto, sabe-se que a miss&atilde;o de toda empresa &eacute; o lucro, o retorno comercial a seus controladores, sendo o prest&iacute;gio apenas o caminho para tal).<\/p>\n<p><strong>A tirania do capital<br \/><\/strong><br \/>Para Ayres, o tempo ser&aacute; suficiente para limpar as empresas comerciais de comunica&ccedil;&atilde;o de qualquer impureza que as desvie de sua miss&atilde;o constitucional (que chega a ganhar ares de sagrada) de controlar as a&ccedil;&otilde;es do poder p&uacute;blico &ndash; como se a companhia de comunica&ccedil;&atilde;o deixasse em segundo plano as rela&ccedil;&otilde;es comerciais que mant&eacute;m com os anunciantes privados; como se os recursos p&uacute;blicos investidos em editais e campanhas n&atilde;o tivessem consequ&ecirc;ncia alguma sobre a cobertura jornal&iacute;stica; como se a ades&atilde;o a determinado projeto pol&iacute;tico por parte dos acionistas da companhia tivesse repercuss&atilde;o nula no cotidiano da reda&ccedil;&atilde;o. O jornalista n&atilde;o &eacute; livre para produzir a mat&eacute;ria que bem entender. H&aacute; uma r&iacute;gida cadeia de comando na organiza&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, como em qualquer empresa.<\/p>\n<p>O ministro chega a citar Montesquieu (&ldquo;quem det&eacute;m o poder tende a abusar dele&rdquo;) e Lorde Hector (&ldquo;se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente&rdquo;) na entrevista. Ora, se a comunica&ccedil;&atilde;o j&aacute; foi apontada como o quarto poder, quem det&eacute;m esse poder se n&atilde;o a pr&oacute;pria empresa de comunica&ccedil;&atilde;o? Quem, portanto, tende a abusar dele? &ldquo;Se n&oacute;s cumpr&iacute;ssemos a Constitui&ccedil;&atilde;o, este pa&iacute;s estaria muito bem. E &eacute; essa Constitui&ccedil;&atilde;o que assegura a plenitude de liberdade de imprensa&rdquo;, afirma Ayres, sem citar a proibi&ccedil;&atilde;o constitucional &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de oligop&oacute;lios nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Todavia, a imprensa livre a&iacute; est&aacute;, organizada na forma de oligop&oacute;lios, contrariando frontalmente a Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em um aparente esfor&ccedil;o de concess&atilde;o, o ministro reconhece a legitimidade da a&ccedil;&atilde;o de conselhos sociais no campo da comunica&ccedil;&atilde;o, desde que formados a partir da sociedade civil, &ldquo;rigorosamente privados, fora da estrutura do poder administrativo, do poder judicial, do poder legislativo&rdquo;. Para Ayres, o grande mal est&aacute; em um conselho criado pelo poder p&uacute;blico. O que n&atilde;o &eacute; percebido pelo ministro &eacute; que n&atilde;o h&aacute; nada mais nefasto, em uma democracia, do que o controle exercido pela tirania do capital, a partir do interesse privado, &agrave; margem da lei e sem a fiscaliza&ccedil;&atilde;o de qualquer &oacute;rg&atilde;o representativo da sociedade.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><em>Val&eacute;rio Cruz Brittos e Luciano Gallas s&atilde;o, respectivamente, professor titular no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o da Unisinos e mestrando no mesmo programa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O problema &eacute; a confus&atilde;o que as altas c&uacute;pulas diretivas das companhias de  comunica&ccedil;&atilde;o fazem quest&atilde;o de produzir de que qualquer tipo de a&ccedil;&atilde;o fiscalizat&oacute;ria configura  censura pr&eacute;via<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26604"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}