{"id":26584,"date":"2012-02-01T18:08:59","date_gmt":"2012-02-01T18:08:59","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26584"},"modified":"2012-02-01T18:08:59","modified_gmt":"2012-02-01T18:08:59","slug":"a-quem-pertence-a-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26584","title":{"rendered":"A quem pertence a internet?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Press&atilde;o da sociedade e falta de apoio no Congresso estadunidense causaram o adiamento da vota&ccedil;&atilde;o do Sopa (Stop On-line Piracy Act &ndash; Pare com a pirataria on-line, em tradu&ccedil;&atilde;o livre) e do Pipa (Protect IP Act &ndash; Ato pela prote&ccedil;&atilde;o da Propriedade Intelectual) em prazo indefinido. As duas propostas visam bloquear o acesso a sites e aplica&ccedil;&otilde;es na internet que sejam consideradas violadoras da propriedade intelectual estadunidense. Em outros termos, poder&atilde;o influir no pr&oacute;prio car&aacute;ter de compartilhamento livre de informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&ldquo;A sociedade estadunidense est&aacute; insatisfeita com o Congresso e a percep&ccedil;&atilde;o &eacute; que congressistas s&oacute; ouvem o lobby [da ind&uacute;stria do copyright] e n&atilde;o o interesse p&uacute;blico. Hoje apenas 9% dos americanos aprovam o trabalho do Congresso, uma baixa hist&oacute;rica. O Sopa e o Pipa, s&atilde;o exemplos de medidas que justificam essa desaprova&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirma Ronaldo Lemos, da Universidade de Princenton e apresentador do Mod MTV.<\/p>\n<p>No in&iacute;cio de janeiro, em uma entrevista &agrave; TV p&uacute;blica espanhola, o soci&oacute;logo Manuel Castells salientava que &ldquo;conservar o poder requer manter o m&aacute;ximo controle poss&iacute;vel sobre a informa&ccedil;&atilde;o, e assegurar, sobretudo, que os canais de comunica&ccedil;&atilde;o sejam verticais&rdquo;.<\/p>\n<p>A &ldquo;ind&uacute;stria dos copyright (dos direitos autorais referentes a filmes, m&uacute;sicas e livros)&rdquo;, percebeu que n&atilde;o adiantava dizer que &eacute; crime compartilhar informa&ccedil;&otilde;es para manter seu poder, como lembrou Castells. &ldquo;Se eles n&atilde;o conseguem intimidar o cidad&atilde;o, querem criar um tipo de um bloqueio a Cuba no ciberespa&ccedil;o.<\/p>\n<p>Eles perceberam que t&ecirc;m que agir nos provedores da rede, nos provedores de conex&atilde;o&rdquo;, afirma o soci&oacute;logo e consultor em comunica&ccedil;&atilde;o e tecnologia, S&eacute;rgio Amadeu da Silveira.<\/p>\n<p>Apesar do adiamento da vota&ccedil;&atilde;o desses projetos de lei figurar como uma vit&oacute;ria parcial da sociedade civil, o governo de Barack Obama sinalizou que est&aacute; &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do lobby da &ldquo;ind&uacute;stria do copyright&rdquo; ao fechar o site Megaupload. Kim Schmitz, o fundador da empresa, mais tr&ecirc;s executivos foram presos preventivamente no dia 20 janeiro na capital da Nova Zel&acirc;ndia, Auckland, onde vivem, e aguardam a tramita&ccedil;&atilde;o de seus processos de extradi&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos. S&atilde;o acusados de praticar pirataria.<\/p>\n<p><strong>Ultrapassados<\/strong><\/p>\n<p>Por tr&aacute;s de tais leis existe um conjunto de empresas que tentam for&ccedil;ar uma &ldquo;l&oacute;gica do s&eacute;culo 20&rdquo;, que as beneficia. &ldquo;Se um jovem tem 3 mil m&uacute;sicas no pen drive, &eacute; porque ele pode baix&aacute;-las. A ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica faz um c&aacute;lculo err&ocirc;neo de que &lsquo;3 mil multiplicado por uma certa quantia de d&oacute;lares &eacute; o lucro que ela teria&rsquo;. Se ele tivesse que pagar, ele n&atilde;o iria baixar 3 mil m&uacute;sicas&rdquo;, explica Marcelo Branco.<\/p>\n<p>Dessa forma, a &ldquo;ind&uacute;stria do copyright&rdquo;, como a associa&ccedil;&atilde;o dos grandes est&uacute;dios de cinema, a ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica, al&eacute;m da Adobe, Apple e Microsoft defendem uma legisla&ccedil;&atilde;o de acumula&ccedil;&atilde;o de capital levada a cabo no s&eacute;culo 20. Como lembra Marcelo Branco, at&eacute; ent&atilde;o havia um criador, o m&uacute;sico, o compositor ou um desenvolvedor de software, que estavam ligados a todo um processo fabril-industrial e que prensava fisicamente o bem cultural, o vinil, o CD, o livro. E essa produ&ccedil;&atilde;o era extremamente cara, e depois ainda havia a distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O criador e o varejo, as duas pontas da cadeia produtiva do modelo anterior n&atilde;o eram os benefici&aacute;rios, e sim os intermedi&aacute;rios, que tinham a tecnologia para fazer a c&oacute;pia e o monop&oacute;lio da distribui&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Mas no cen&aacute;rio da internet n&atilde;o existe mais o processo fabril. O produto intelectual, seja um livro de poesia ou uma m&uacute;sica n&atilde;o tem mais essa intermedia&ccedil;&atilde;o e se estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre o produtor intelectual com o p&uacute;blico e a internet como passou a ser um obst&aacute;culo no modelo de acumula&ccedil;&atilde;o dessas empresas&rdquo;, assevera Marcelo Branco.<\/p>\n<p><strong>Pr&aacute;tica<\/strong><\/p>\n<p>Com a aprova&ccedil;&atilde;o dessas leis no Congresso estadunidense, a cultura da comunica&ccedil;&atilde;o compartilhada sofreria um retrocesso. &ldquo;Se eu publicar um conte&uacute;do do G1(ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias) no Facebook, protegido pelo copyright, eu e essa rede social seremos os respons&aacute;veis. No caso do Wikipedia, v&aacute;rios links apontam para outros conte&uacute;dos com copyright, mas em vez de prejudicar, beneficiam essas pessoas, pois divulgam seu trabalho&rdquo;, afirma Marcelo Branco, da Associa&ccedil;&atilde;o Software Livre.org.<\/p>\n<p>Fato &eacute; que com o endurecimento da legisla&ccedil;&atilde;o por l&aacute;, nenhuma empresa sediada nos Estados Unidos poder&aacute; permitir o acesso a um n&uacute;mero de IP (protocolo de internet) ou a um dom&iacute;nio de um site acusado de &ldquo;roubar&rdquo; informa&ccedil;&otilde;es protegidas de cidad&atilde;os ou corpora&ccedil;&otilde;es estadunidenses, sob pena de ser considerado c&uacute;mplice.<\/p>\n<p>No caso de sites que abrigam conte&uacute;do protegido por copyright, o projeto de lei exige que, em cinco dias, todas as refer&ecirc;ncias a eles sejam apagadas no Google e o Yahoo, e tamb&eacute;m nos links do Wikipedia. Os provedores de internet, email, blogs, e redes sociais ser&atilde;o for&ccedil;ados a espionar todo conte&uacute;do publicado por seus usu&aacute;rios em busca de material n&atilde;o autorizado e, por ventura, bloque&aacute;-los.<\/p>\n<p>Nessa mesma linha, como refor&ccedil;a S&eacute;rgio Amadeu, se para conter o avan&ccedil;o do software livre em algum lugar do mundo, um laranja dessas grandes empresas acusa o GNU\/Linux de violar algumas patentes, o Source Forge (reposit&oacute;rio de c&oacute;digos-fonte) poder&aacute; bloquear o acesso &agrave;s p&aacute;ginas do projeto e o Google deixar&aacute; de inserir a palavra Linux em suas buscas, a Wikipedia dever&aacute; apagar os links que remetam para os sites vinculados ao sistema operacional livre, e os bancos dever&atilde;o bloquear os recursos financeiros e suspender a conta da comunidade Linux. O destaque &eacute; que o Sopa avan&ccedil;a no campo do vigilantismo ao responsabilizar o intermedi&aacute;rio pelo conte&uacute;do de seu usu&aacute;rio. &ldquo;O papel do provedor, seja Terra, &eacute; justamente garantir a privacidade de informa&ccedil;&atilde;o de seus clientes e n&atilde;o o contr&aacute;rio. A Lei do Azeredo (apelidada de &ldquo;AI-5 digital&rdquo;) era isso, o papel de pol&iacute;cia era transferido ao provedor, de vigiar seus clientes e tirar do ar o site&rdquo;, critica Marcelo Branco.<\/p>\n<p>Na Europa, a Lei Sinde, na Espanha e a Hadopi, na Fran&ccedil;a, j&aacute; s&atilde;o uma realidade que fere os direitos civis. A Hadopi obriga os provedores a desconectar a pessoa que compartilha arquivos sem autoriza&ccedil;&atilde;o e a violou tr&ecirc;s vezes. A Lei Sinde permite ao governo espanhol at&eacute; mesmo atuar contra provedores de conte&uacute;do e acesso.<\/p>\n<p><strong>Geopol&iacute;tica<\/strong><\/p>\n<p>Para Ronado Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas, no Rio de Janeiro, o Sopa e o Pipa v&atilde;o muito al&eacute;m das leis Sinde e Hadopi, pois afetam a pr&oacute;pria estrutura da rede e promove a &ldquo;balcaniza&ccedil;&atilde;o&rdquo; da rede. &ldquo;Se outros pa&iacute;ses seguem na mesma linha, a internet deixa de ser uma rede internacional e se torna uma rede diferente em cada pa&iacute;s. Al&eacute;m disso, a aprova&ccedil;&atilde;o do Sopa &eacute; um exerc&iacute;cio de poder geopol&iacute;tico dos EUA, para proteger uma ind&uacute;stria espec&iacute;fica: Hollywood e as gravadoras. Nesse sentido, um fator que pode evitar que o modelo se espalhe &eacute; que a ado&ccedil;&atilde;o de leis semelhantes ao Sopa por outros pa&iacute;ses seria contr&aacute;ria ao seu pr&oacute;prio interesse e serviria apenas para fortalecer o desbalan&ccedil;o de poder com rela&ccedil;&atilde;o aos EUA&rdquo;, explica Lemos, que tamb&eacute;m &eacute; apresentador do programa de tend&ecirc;ncias em tecnologia digital Mod MTV, e diretor do Creative Commons Brasil.<\/p>\n<p>Assim, essas leis, al&eacute;m de afetar profundamente a liberdade de express&atilde;o na internet, dado que os Estados Unidos concentram a maior parte da infraestrutura da rede e quase todos os servi&ccedil;os e sites utilizados massivamente ao redor do mundo, como Youtube, Facebook, WordPress, Google, Twitter, uma legisla&ccedil;&atilde;o de tal tipo provocar&aacute; um impacto muito mais abrangente. &ldquo;A quest&atilde;o principal &eacute; que se o Sopa for aprovado, a geopol&iacute;tica da rede muda. O poder sobre a internet passa a ficar concentrado nos EUA, que podem decidir unilateralmente pela retirada de sites do ar, sem haver sequer um controle pr&eacute;vio pelo judici&aacute;rio&rdquo;, refor&ccedil;a Lemos.<\/p>\n<p>Uma rea&ccedil;&atilde;o poder&aacute; ser, segundo o diretor do Creative Commons Brasil, o surgimento de redes dentro da rede, criadas por hackers para fugir do controle e dos novos protocolos e infraestruturas mais dif&iacute;ceis de controlar. &ldquo;O problema &eacute; que, com isso, a rede come&ccedil;a a se desintegrar e iniciativas leg&iacute;timas de outros pa&iacute;ses como o Brasil saem prejudicadas, com um fluxo de usu&aacute;rios partindo para essas redes informais. &Eacute; o tipo de medida que n&atilde;o resolve o problema e, ao contr&aacute;rio, piora a quest&atilde;o ao desvirtuar a ideia do que &eacute; a internet&rdquo;, explica Ronaldo Lemos.<\/p>\n<p>Especificamente sobre essa concentra&ccedil;&atilde;o da infraestrutura na internet nos Estados Unidos, o governo brasileiro defende nas C&uacute;pulas de Sociedade da Informa&ccedil;&atilde;o (2003, em Genebra e 2005, em T&uacute;nis) que o servidor-raiz (que distribui os endere&ccedil;os na internet e est&aacute; no estado da Calif&oacute;rnia) seja alocado em um pa&iacute;s neutro e sob a legisla&ccedil;&atilde;o internacional e que a governan&ccedil;a da internet n&atilde;o seja mais submetida ao Departamento de Com&eacute;rcio Americano.<\/p>\n<p><strong>Com&eacute;rcio<\/strong><\/p>\n<p>Tamb&eacute;m do ponto de vista comercial, tal proposta de legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; carregada de malef&iacute;cios que concentram o poder econ&ocirc;mico. &ldquo;Nos &uacute;ltimos 15 anos houve uma explos&atilde;o de inova&ccedil;&atilde;o e novos servi&ccedil;os, do Youtube ao Facebook. Isso foi poss&iacute;vel porque a lei dos Estados Unidos dava a seguran&ccedil;a e prote&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao empreendedor. Se o Sopa for aprovado, a inova&ccedil;&atilde;o sai penalizada: qualquer nova iniciativa na rede vai precisar da autoriza&ccedil;&atilde;o permanente da ind&uacute;stria pr&eacute;-internet, especialmente de Hollywood e das gravadoras, hoje os maiores defensores do Sopa. E nesse sentido, o Sopa n&atilde;o traz nenhum benef&iacute;cio ao usu&aacute;rio, apenas &agrave; ind&uacute;stria&rdquo;, pontua Ronaldo Lemos.<\/p>\n<p>Se aprovada, a competi&ccedil;&atilde;o ficar&aacute; reduzida e pa&iacute;ses como o Brasil, que s&atilde;o justamente o alvo do projeto, ter&atilde;o seus empreendedores impedidos de criarem um novo site voltado para o mercado global e podem ser penalizados pelos EUA e terem seu site removido do ar sem aviso pr&eacute;vio. &ldquo;O Sopa cria um novo tipo de barreira comercial, voltada para a internet, discriminando sites localizados fora dos EUA&rdquo;, conclui Lemos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Press&atilde;o da sociedade e falta de apoio no Congresso estadunidense causaram o adiamento da vota&ccedil;&atilde;o do Sopa (Stop On-line Piracy Act &ndash; Pare com a pirataria on-line, em tradu&ccedil;&atilde;o livre) e do Pipa (Protect IP Act &ndash; Ato pela prote&ccedil;&atilde;o da Propriedade Intelectual) em prazo indefinido. 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