{"id":26533,"date":"2012-01-19T15:45:58","date_gmt":"2012-01-19T15:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26533"},"modified":"2012-01-19T15:45:58","modified_gmt":"2012-01-19T15:45:58","slug":"de-estupros-e-outros-crimes-faz-se-a-rede-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26533","title":{"rendered":"De estupros e outros crimes faz-se a Rede Globo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Aos 31 anos, o modelo Daniel Echaniz alcan&ccedil;ou a fama. Para chegar l&aacute;, n&atilde;o precisou de 15 minutos. Bastaram-lhe sete. Poderia ter brilhado em tradicionais passarelas da moda ou em milion&aacute;rios an&uacute;ncios publicit&aacute;rios. Foi virar celebridade num dos programas televisivos de maior audi&ecirc;ncia no Brasil &ndash; o &ldquo;Big Brother Brasil 12&rdquo;.<\/p>\n<p>O por&eacute;m &eacute; que, para Daniel, a fama veio pelo avesso. Pesa contra o modelo a acusa&ccedil;&atilde;o de ter estuprado a estudante Monique Amin, de 23 anos, em meio a uma madrugada de bebedeiras, de s&aacute;bado para domingo passado, num dos ambientes do reality-show da TV Globo. Daniel teria molestado uma desacordada Monique por 25 minutos, dos quais apenas sete foram transmitidos ao vivo para assinantes do pay-per-view do &ldquo;BBB&rdquo;. Uma grava&ccedil;&atilde;o em v&iacute;deo j&aacute; est&aacute; em poder da Pol&iacute;cia Civil do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A cena do suposto estupro foi vista por centenas de milhares de pessoas em sites de compartilhamento de v&iacute;deos e repercutiu at&eacute; na imprensa internacional. Alvo de crescente execra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica nas redes sociais, Daniel foi eliminado do reality- show nesta segunda-feira (17), &ldquo;devido a um grave comportamento inadequado&rdquo;, conforme a nota oficial da Globo.<\/p>\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o de Daniel Echaniz &eacute; complicada, para dizer o m&iacute;nimo. Seu destino est&aacute; nas m&atilde;os de Monique &mdash; que, ao sair do &ldquo;BBB&rdquo;, poder&aacute; se submeter a exame de corpo de delito e formalizar uma den&uacute;ncia contra o modelo. Aberto o inqu&eacute;rito, Daniel correr&aacute; o risco de ser preso, com reclus&atilde;o de oito a 15 anos. &Eacute; uma reviravolta impens&aacute;vel para um sujeito que, duas semanas atr&aacute;s, mal desconfiava que seria um dos escolhidos para disputar o pr&ecirc;mio de R$ 1,5 milh&atilde;o do programa.<\/p>\n<p><strong>Recorrentes baixarias<\/strong><\/p>\n<p>Dif&iacute;cil &eacute; prever se a Globo sair&aacute; inc&oacute;lume do caso. N&atilde;o que, nos quase 47 anos de hist&oacute;ria da emissora carioca, esse novo epis&oacute;dio pare&ccedil;a raio em c&eacute;u azul. Criada &agrave; margem da lei em 1965 &mdash; e consolidada &agrave; base de in&uacute;meros esc&acirc;ndalos, alguns conhecidos, outros acobertados &mdash;, a Globo nunca considerou a &eacute;tica uma moeda de livre circula&ccedil;&atilde;o em seu territ&oacute;rio. Muito pelo contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>Historicamente, o dia a dia na emissora sempre foi povoado, como diria o fil&oacute;sofo, por artimanhas tais quais &ldquo;o engano, o lisonjear, mentir e ludibriar, o falar-por-tr&aacute;s-das-costas, o representar, o viver em gl&oacute;ria do empr&eacute;stimo, o mascarar-se, a conven&ccedil;&atilde;o dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo&rdquo;. Com o &ldquo;BBB&rdquo;, ano ap&oacute;s ano, &ldquo;essa arte do disfarce chega a seu &aacute;pice&rdquo;.<\/p>\n<p>Que o diga a Comiss&atilde;o de Direitos Humanos e Minorias da C&acirc;mara Federal. Uma &uacute;nica edi&ccedil;&atilde;o do Big Brother &mdash; a d&eacute;cima, exibida de agosto de 2009 a abril de 2010 &mdash; fez chegar &agrave; comiss&atilde;o nada menos que 227 den&uacute;ncias de &ldquo;desrespeito &agrave; dignidade humana, apelo sexual, exposi&ccedil;&atilde;o de pessoas ao rid&iacute;culo e nudez&rdquo;. Na vis&atilde;o da Globo, a perda de audi&ecirc;ncia e de credibilidade era compensada com faturamentos recordes.<\/p>\n<p>A carta branca para a baixaria se incrementou na 11&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, no primeiro trimestre de 2011. Antes mesmo de o programa come&ccedil;ar, o diretor-geral do reality show, J.B. Oliveira, o Boninho, j&aacute; anunciava uma s&eacute;rie de mudan&ccedil;as para &ldquo;esquentar&rdquo; a atra&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Nada &eacute; proibido no BBB, pode fazer o que quiser. Esse ano&#8230; liberado! vai valer tudo, at&eacute; porrada&rdquo;, escreveu ele no &ldquo;Twitter&rdquo;, prometendo ainda &aacute;lcool &agrave; vontade: &ldquo;Vai ser power&#8230; chega de bebida de crian&ccedil;a. Acabou o ICE no BBB, esse ano TUDO vai ser diferente&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Circo de d&eacute;beis mentais&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; nenhum exagero apontar que o epis&oacute;dio do estupro decorre dessa inacredit&aacute;vel escalada de permissividade. &ldquo;Para ser bem franco, eu achava que iria haver um assassinato no &lsquo;BBB&rsquo;, antes de acontecer um estupro. Desde muito tempo que o crit&eacute;rio de sele&ccedil;&atilde;o para o programa tem sido a dem&ecirc;ncia intelectual, o comportamento antissocial, o perfil violento e a falta de car&aacute;ter, tudo isso potencializado em festas regadas a enormes quantidades de &aacute;lcool&rdquo;, sintetizou o jornalista-blogueiro Leandro Fortes.<\/p>\n<p>&ldquo;Que tenha aparecido um idiota para estuprar uma mulher quase em coma alco&oacute;lico n&atilde;o chega a ser exatamente uma surpresa, portanto&rdquo;, emenda. Suas cr&iacute;ticas se dirigem especialmente ao jornalista Pedro Bial, chamado por Leandro de &ldquo;mestre-de-cerim&ocirc;nias desse circo de d&eacute;beis mentais montado pela TV Globo&rdquo;.<\/p>\n<p>Qualquer mestre-de-cerim&ocirc;nias, como se sabe, tem limitada autonomia para fugir do script. Pode-se topar o (digamos assim) &ldquo;desafio profissional&rdquo; por in&uacute;meras raz&otilde;es &mdash; mas n&atilde;o consta que Pedro Bial demonstre algum tipo de rep&uacute;dio &agrave;s aberra&ccedil;&otilde;es do &ldquo;BBB&rdquo;. No caso do suposto &ldquo;estupro&rdquo;, o comportamento de Bial seguiu &agrave; risca a m&aacute;xima da americana Janet Malcolm: &ldquo;Qualquer jornalista que n&atilde;o seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que est&aacute; acontecendo sabe que o que ele faz &eacute; moralmente indefens&aacute;vel&rdquo;.<\/p>\n<p>Na noite de domingo, em sua primeira apari&ccedil;&atilde;o depois da pol&ecirc;mica &mdash; e da repercuss&atilde;o do caso nas redes sociais &mdash;, o apresentador do BBB se limitou a reduzir tudo a um chav&atilde;o: &ldquo;O amor &eacute; lindo&rdquo;. Horas antes, a pedido do departamento jur&iacute;dico da Globo, o v&iacute;deo do suposto estupro foi apagado na p&aacute;gina do &ldquo;BBB&rdquo; na internet e em sites como o &ldquo;YouTube&rdquo;. Boninho chegou a dizer que &ldquo;n&atilde;o rolou&rdquo; crime e que &ldquo;eles (Daniel e Monique) supostamente transaram&rdquo;. Artistas globais que criticaram Daniel ou o programa foram igualmente censurados.<\/p>\n<p><strong>Os &quot;limites&quot;<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; se sabe, a esta hora, que a &ldquo;opera&ccedil;&atilde;o abafa&rdquo; da Globo fracassou rotundamente. Gra&ccedil;as ao corajoso delegado Antonio Ricardo, uma dilig&ecirc;ncia policial foi ao est&uacute;dio do Projac, no Rio, para ouvir Daniel e Monique, por &ldquo;suspeita de abuso sexual&rdquo;. A Secretaria de Pol&iacute;ticas para Mulheres da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, pediu que o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Rio de Janeiro tomasse &ldquo;provid&ecirc;ncias cab&iacute;veis&rdquo; na apura&ccedil;&atilde;o do caso, em considera&ccedil;&atilde;o &agrave;s &ldquo;demandas encaminhadas por cidad&atilde;s de v&aacute;rias cidades brasileiras&rdquo;.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que a expuls&atilde;o de Daniel do &ldquo;BBB&rdquo; ocorreu apenas quando a Globo se viu prestes a ser indiciada por &ldquo;crime de omiss&atilde;o&rdquo; &mdash; o que poderia tirar o programa do ar. Depois de abrir as portas do Projac para a pol&iacute;cia e cortar at&eacute; o &aacute;udio do reality-show, a emissora se deu conta de que uma crise de credibilidade tamb&eacute;m estava em curso.<\/p>\n<p>S&oacute; ent&atilde;o Bial esqueceu que &ldquo;o amor &eacute; lindo&rdquo; e falou em &ldquo;viola&ccedil;&atilde;o do regulamento&rdquo;, enquanto Boninho finalmente admitiu que Daniel &ldquo;passou dos limites do relacionamento com as pessoas&rdquo; e que &ldquo;o comportamento dele foi excessivo&rdquo;. Para todos os efeitos, o crime e a e Globo est&atilde;o, mais uma vez, de m&atilde;os dadas.<\/p>\n<p>Na zona das sombras, a emissora da fam&iacute;lia Marinho prometeu colaborar &ldquo;ao m&aacute;ximo&rdquo; com a investiga&ccedil;&atilde;o e arcar com os custos judiciais do agora ex-BBB Daniel. Falta combinar quem prestar&aacute; assist&ecirc;ncia &agrave; suposta v&iacute;tima, Monique Amin, a quem a Globo n&atilde;o teve nem sequer a dignidade de mostrar a &iacute;ntegra das pol&ecirc;micas imagens. E falta, sobretudo, reconhecer que violar regras, ultrapassar limites e cometer excessos s&atilde;o pr&aacute;ticas consagradas, h&aacute; pelo menos 47 anos, pela pr&oacute;pria Globo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Dif&iacute;cil &eacute; prever se a Globo sair&aacute; inc&oacute;lume do caso.  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