{"id":26471,"date":"2011-12-22T18:31:44","date_gmt":"2011-12-22T18:31:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26471"},"modified":"2011-12-22T18:31:44","modified_gmt":"2011-12-22T18:31:44","slug":"o-impasse-na-democratizacao-da-comunicacao-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26471","title":{"rendered":"O impasse na democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o na Argentina"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Os sinais televisivos que podem ser sintonizados nos bares e vitrines de Buenos Aires foram invadidos no dia 21 de dezembro &agrave;s 10 horas da manh&atilde; por uma chuva de imagens que davam conta da interven&ccedil;&atilde;o da Gendarmeria Nacional nas instala&ccedil;&otilde;es da Cablevisi&oacute;n, a principal empresa do mercado argentino de TV a cabo, propriedade do hegem&ocirc;nico Grupo Clar&iacute;n. Os debates da C&uacute;pula do Mercosul que ocorriam nesse mesmo momento em Montevid&eacute;u foram assim relegados a um segundo plano.<\/p>\n<p>O epis&oacute;dio teve origem em uma ordem judicial assinada por Walter Bento, juiz federal da prov&iacute;ncia de Mendoza, em resposta &agrave; representa&ccedil;&atilde;o feita por outro importante conglomerado midi&aacute;tico privado, UNO, do grupo Vila-Manzano. Mas para entender o que est&aacute; em jogo neste espinhoso evento, &eacute; preciso remontar a uma das principais batalhas pol&iacute;ticas e culturais da &uacute;ltima d&eacute;cada: a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei de Servi&ccedil;os de Comunica&ccedil;&atilde;o Audiovisual (LSCA), mais conhecida como Lei de Meios. N&atilde;o se tratam, de modo algum, de uma &ldquo;viola&ccedil;&atilde;o da liberdade de imprensa&rdquo;, interpreta&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica proposta pelos principais jornais, com base em uma ideologia que consegue convencer cada vez menos gente.<\/p>\n<p><strong>N&oacute; g&oacute;rdio<\/strong><\/p>\n<p>O magistrado de Mendoza pretendia for&ccedil;ar a separa&ccedil;&atilde;o entre as empresas Cablevisi&oacute;n e Multicanal, que juntas controlam 80% da televis&atilde;o a cabo na cidade de Buenos Aires e 40% em n&iacute;vel nacional, por meio de pr&aacute;ticas comerciais que s&atilde;o consideradas como &ldquo;n&atilde;o competitivas&rdquo;. O paradoxo &eacute; que essa fus&atilde;o foi permitida pelo pr&oacute;prio N&eacute;stor Kirchner, um dia antes de entregar a faixa presidencial a sua esposa Cristina, no dia 10 de dezembro de 2007.<\/p>\n<p>O &ldquo;conflito com o campo&rdquo; de 2008 (que colocou em quest&atilde;o a renda agr&aacute;ria e financeira do agroneg&oacute;cio) e a promulga&ccedil;&atilde;o da Lei de Meios um ano depois, selaram a ruptura pol&iacute;tica entre o kirchnerismo e o grupo Clar&iacute;n, outrora aliados. Desde ent&atilde;o, abriu-se a possibilidade de avan&ccedil;ar na democratiza&ccedil;&atilde;o efetiva dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, agenda na qual h&aacute; uma tarefa &oacute;bvia: deve-se desfazer a posi&ccedil;&atilde;o dominante que ocupa o grupo multim&iacute;dia Clar&iacute;n no espectro comunicacional. Neste sentido, o governo de Cristina Fern&aacute;ndez de Kirchner tem sido consequente, apesar da suposi&ccedil;&atilde;o geral de que cedo ou tarde os dois pesos pesados negociariam um pacto de conviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Primeiro foi o programa Futebol para Todos, implementado desde agosto de 2009, que terminou com o controle sobre as transmiss&otilde;es televisivas da primeira divis&atilde;o da Liga Argentina por parte do TyC Sports, TV do grupo Clar&iacute;n. Gra&ccedil;as a essa estatiza&ccedil;&atilde;o virtual, todas as partidas s&atilde;o vistas agora pela televis&atilde;o aberta e de maneira gratuita.<\/p>\n<p>Depois veio a tentativa de regula&ccedil;&atilde;o estatal da principal f&aacute;brica produtora de papel para jornais do pa&iacute;s, Papel Prensa, apropriada de maneira ileg&iacute;tima por uma sociedade entre os jornais Clar&iacute;n e La Naci&oacute;n durante a &uacute;ltima ditadura militar, e utilizada desde ent&atilde;o em benef&iacute;cio pr&oacute;prio por esses grupos. A nova composi&ccedil;&atilde;o do parlamento ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es de outubro de 2011, que definiu uma c&ocirc;moda maioria oficialista, torna iminente uma mudan&ccedil;a de regras nessa empresa chave para o universo gr&aacute;fico local.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda outras frentes onde esta disputa se desenrola com intensidade, incluindo o campo dos Direitos Humanos. Mas &ldquo;a guerra da tv a cabo&rdquo; &eacute; um dos combates decisivos , se levarmos em conta que a Cablevisi&oacute;n representa nada mais nada menos do que 50% das receitas do grupo Clar&iacute;n; e que uma das apostas principais da Lei de Meios consiste em ampliar o espectro televisivo, gra&ccedil;as &agrave; introdu&ccedil;&atilde;o da tecnologia digital, o que obriga a reorganizar o estado atual da distribui&ccedil;&atilde;o radiof&ocirc;nica e audiovisual.<\/p>\n<p><strong>As camadas da cebola<\/strong><\/p>\n<p>Se abandonamos por um momento essa esp&eacute;cie de War (o jogo) midi&aacute;tico, aparecem outras dimens&otilde;es que atingem a Lei de Meios e tem sido relegadas a um segundo plano pelo espetacular enfrentamento antes resenhado. Abrem-se, assim, duas perguntas inc&ocirc;modas que precisam ser abordadas com urg&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Uma delas se refere ao mapa comunicacional que emergir&aacute; uma vez que o grupo Clar&iacute;n tenha perdido sua hegemonia, caso tal coisa finalmente ocorra. A apari&ccedil;&atilde;o do grupo UNO em cena como aliado do governo nacional constitui uma not&iacute;cia preocupante. N&atilde;o s&oacute; porque um de seus donos, Jos&eacute; Luis Manzano, &eacute; um ex-funcion&aacute;rio menemista, neoliberal e corrupto de primeira hora. N&atilde;o s&oacute; porque como organiza&ccedil;&atilde;o empresarial e pol&iacute;tica se op&ocirc;s tenazmente &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o da Lei de Meios. Mas tamb&eacute;m porque em seus empreendimentos comunicacionais s&atilde;o conhecidos pelos maus-tratos e explora&ccedil;&atilde;o aplicados aos jornalistas e t&eacute;cnicos, assim como pelo escasso interesse social de sua programa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Existem outros atores interessados na acelera&ccedil;&atilde;o da aplica&ccedil;&atilde;o da important&iacute;ssima Lei de Meios. Muitos deles s&atilde;o precisamente seus art&iacute;fices, que se reuniram em 2004 em torno da Coaliz&atilde;o por uma Radiodifus&atilde;o Democr&aacute;tica, e formularam os crit&eacute;rios que logo depois seriam recolhidos e promulgados pelo governo. Refiro-me aos milhares de meios comunit&aacute;rios, populares ou alternativos que pululam por todo o pa&iacute;s. Poder&iacute;amos fazer uma longa lista das d&iacute;vidas acumuladas pelo Estado para com esses meios: n&atilde;o h&aacute; nem plano t&eacute;cnico para consolidar sua capacidade emissora, nem uma pol&iacute;tica de subs&iacute;dios consistente, nem funcion&aacute;rios de primeiro n&iacute;vel que os atendam, nem programas de capacita&ccedil;&atilde;o eficazes. No entanto, eles s&atilde;o os sujeitos de uma real democratiza&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o pode ficar encerrada nos estreitos marcos estatais, mas sim caminhar para uma verdadeira reapropria&ccedil;&atilde;o social dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>Tradu&ccedil;&atilde;o: Katarina Peixoto<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Existem outros atores interessados na acelera&ccedil;&atilde;o da aplica&ccedil;&atilde;o da Lei de Meios. 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