{"id":26451,"date":"2011-12-16T19:10:26","date_gmt":"2011-12-16T19:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26451"},"modified":"2011-12-16T19:10:26","modified_gmt":"2011-12-16T19:10:26","slug":"por-que-tanto-medo-de-regular-a-radiodifusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26451","title":{"rendered":"Por que tanto medo de regular a radiodifus\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Existe um tabu na imprensa brasileira: ela n&atilde;o gosta de falar sobre a necessidade de um novo marco legal para as emissoras de r&aacute;dio e TV. Os grandes jornais s&oacute; entram no assunto muito raramente. Os telejornais, ent&atilde;o, quase nunca. N&atilde;o obstante, estamos falando de um d&eacute;ficit que engessa a nossa democracia. &Eacute; quase inacredit&aacute;vel que at&eacute; hoje inexistam regras jur&iacute;dicas modernas para disciplinar o funcionamento da radiodifus&atilde;o. E, quanto a isso, a principal manifesta&ccedil;&atilde;o da nossa imprensa tem sido o mutismo.<\/p>\n<p>H&aacute; exce&ccedil;&otilde;es? &Eacute; evidente que sim. Aqui e ali pipocam refer&ecirc;ncias ocasionais ao tema. Este jornal, por exemplo, &agrave;s vezes toca na ferida. Agora mesmo, h&aacute; pouco mais de uma semana, no dia 4 de dezembro, um editorial do Estado reafirmou: &quot;A necessidade de moderniza&ccedil;&atilde;o do marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es no Pa&iacute;s, defasado em rela&ccedil;&atilde;o aos avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, &eacute; absolutamente pac&iacute;fica&quot;. Exce&ccedil;&otilde;es &agrave; parte, por&eacute;m, o que predomina &eacute; mesmo o sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil entrever as raz&otilde;es desse sil&ecirc;ncio. H&aacute; um receio ancestral, irrefletido, no interior da ind&uacute;stria e do neg&oacute;cio da comunica&ccedil;&atilde;o. Aos olhos e aos ouvidos desse receio, qualquer proposta de revis&atilde;o do modelo vigente &#8211; que j&aacute; &eacute; bastante prec&aacute;rio, todos reconhecem &#8211; amea&ccedil;aria o status quo e at&eacute; mesmo a liberdade de imprensa. Al&eacute;m de inconveniente, portanto, essa pauta poderia erguer um palanque para os que querem simplesmente censurar os notici&aacute;rios. Da&iacute; a conclus&atilde;o &#8211; errada &#8211; de que &eacute; melhor n&atilde;o mexer com isso. Da&iacute;, enfim, o tabu, o triste tabu.<\/p>\n<p>Claro que todos n&oacute;s podemos conviver com tabus, a pr&oacute;pria ideia de civiliza&ccedil;&atilde;o se vincula &agrave; ideia de tabu. No caso presente, contudo, nosso bloqueio n&atilde;o tem nada de civilizado. &Eacute; bem o oposto: estamos falando aqui de um tabu anticiviliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque &eacute; antijornal&iacute;stico. A imprensa &eacute; tanto melhor quanto mais consegue ser independente &#8211; inclusive dos acionistas, sobretudo quando eles s&atilde;o medrosos. As boas reda&ccedil;&otilde;es, ali&aacute;s, educam seus patr&otilde;es. No entanto, se n&atilde;o souberem dedicar-se ao dever da liberdade, elas se apequenam e, no limite, traem seus p&uacute;blicos e prejudicam os pr&oacute;prios acionistas. Se h&aacute; um d&eacute;ficit legal no Estado brasileiro, &eacute; evidente que isso &eacute; not&iacute;cia. N&atilde;o por acaso, esse assunto &eacute; debatido na imprensa do mundo inteiro. Com o advento das novas tecnologias da revolu&ccedil;&atilde;o digital, os par&acirc;metros dos marcos regulat&oacute;rios da m&iacute;dia est&atilde;o na ordem do dia. Menos no Brasil.<\/p>\n<p>Mais do que antijornal&iacute;stico, esse &eacute; um tabu antidemocr&aacute;tico, regressivo e autodestrutivo. Se o Brasil quer realmente ganhar proje&ccedil;&atilde;o internacional, precisa estar em linha com o que h&aacute; de mais avan&ccedil;ado na democracia &#8211; e, nessa mat&eacute;ria, nossa defasagem &eacute; pr&eacute;-hist&oacute;rica. N&atilde;o se pode mais esperar que as concess&otilde;es das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o ainda sejam ordenadas por um c&oacute;digo de 1962, cujas lacunas seriam supostamente sanadas por um cipoal de normas infralegais, formando um Frankenstein incompreens&iacute;vel.<\/p>\n<p>Listemos apenas tr&ecirc;s imperativos que reclamam a moderniza&ccedil;&atilde;o do marco legal:<\/p>\n<p>O Brasil ainda convive com pol&iacute;ticos &#8211; especialmente parlamentares &#8211; que mandam e desmandam em redes ou emissoras, como donos de fato, contrariando clamorosamente o esp&iacute;rito (e o texto) do artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o federal, que veda que senadores e deputados mantenham v&iacute;nculos com empresas concession&aacute;rias de servi&ccedil;o p&uacute;blico. At&eacute; quando?<\/p>\n<p>Vivemos hoje num limbo jur&iacute;dico. A nossa Constitui&ccedil;&atilde;o impede o monop&oacute;lio e o oligop&oacute;lio (artigo 220), mas isso &eacute; letra morta, pois n&atilde;o dispomos de lei que estabele&ccedil;a o que &eacute; monop&oacute;lio e o que &eacute; oligop&oacute;lio. Um novo marco legal deve definir claramente, em n&uacute;meros precisos, qual o limite que separa a pr&aacute;tica do monop&oacute;lio, de um lado, e o regime de concorr&ecirc;ncia saud&aacute;vel, de outro.<\/p>\n<p>O Brasil n&atilde;o pode mais fazer vista grossa &agrave; promiscuidade entre igrejas e partidos pol&iacute;ticos no interior das emissoras. Em alguns canais que est&atilde;o a&iacute;, no ar, n&atilde;o d&aacute; mais para saber onde termina o templo e onde come&ccedil;a o est&uacute;dio, o que tem gerado distor&ccedil;&otilde;es concorrenciais e partid&aacute;rias no espa&ccedil;o p&uacute;blico. At&eacute; onde iremos com isso? Nenhuma democracia funciona bem quando essas tr&ecirc;s esferas se embaralham no n&iacute;vel em que elas se v&ecirc;m embaralhando entre n&oacute;s. Igrejas gozam de benef&iacute;cios fiscais que n&atilde;o podem ser estendidos a emissoras comerciais &#8211; isso se pretendermos de fato viver sob um Estado laico, num regime em que a competi&ccedil;&atilde;o comercial seja justa e a disputa pol&iacute;tica, equilibrada. Para que o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, a diversidade de opini&otilde;es, a liberdade de express&atilde;o e a livre concorr&ecirc;ncia sejam respeitadas, igrejas, partidos pol&iacute;ticos e emissoras n&atilde;o se podem misturar.<\/p>\n<p>Citamos aqui tr&ecirc;s imperativos. H&aacute; outros, todos eles enf&aacute;ticos, mas n&atilde;o precisamos enumer&aacute;-los um a um. Os tr&ecirc;s j&aacute; bastam para demonstrar que o sil&ecirc;ncio em torno do assunto s&oacute; favorece o atraso, j&aacute; bastam para esclarecer que esse debate, se bem feito, n&atilde;o diz respeito &agrave; censura dos conte&uacute;dos, mas apenas &agrave; ordena&ccedil;&atilde;o do mercado. Ao contr&aacute;rio, um bom marco regulat&oacute;rio protege a liberdade.<\/p>\n<p>Repetindo: a reforma da legisla&ccedil;&atilde;o nesse setor &eacute; uma necessidade da democracia e do mercado civilizado. Se, a despeito dessa obviedade clamorosa, prevalecer a raz&atilde;o (irracional) do tabu, os caudilhos autorit&aacute;rios &#8211; de direita ou de esquerda, d&aacute; na mesma &#8211; v&atilde;o monopolizar o tema. Com isso, uma agenda que &eacute; do mais alto interesse nacional ser&aacute; sequestrada pelos que n&atilde;o querem modernidade nenhuma.<\/p>\n<p>Por tudo isso, essa pauta precisa de mais visibilidade. O progresso do Brasil depende da constru&ccedil;&atilde;o de um novo marco regulat&oacute;rio que nos atualize em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras democracias e nos destrave o caminho para o futuro. N&atilde;o dizer uma palavra a respeito &eacute; buscar ref&uacute;gio num atraso insepulto, cujo prazo de validade j&aacute; venceu faz tempo.<\/p>\n<p><em>Eug&ecirc;nio Bucci &eacute; jornalista e professor da Eca-USP e da ESPM<\/em><br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O progresso do Brasil depende da constru&ccedil;&atilde;o de um  novo marco regulat&oacute;rio que nos atualize em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras democracias  e nos destrave o caminho para o futuro.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1620],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26451"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}