{"id":26427,"date":"2011-12-12T11:52:10","date_gmt":"2011-12-12T11:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26427"},"modified":"2011-12-12T11:52:10","modified_gmt":"2011-12-12T11:52:10","slug":"cinquentenario-sem-festa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26427","title":{"rendered":"Cinq\u00fcenten\u00e1rio sem festa"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O ano de 2012 ser&aacute; hist&oacute;rico para a comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. No dia 27 de agosto o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es que, apesar do nome, regula at&eacute; hoje a radiodifus&atilde;o no pais completa 50 anos. Mas n&atilde;o h&aacute; nada a comemorar.<\/p>\n<p>Em 1962, a &ldquo;era do r&aacute;dio&rdquo; havia chegado ao fim e a televis&atilde;o dava os primeiros passos para se tornar o meio de comunica&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nico no mundo.<\/p>\n<p>Naquele momento, no entanto, ainda era fr&aacute;gil no Brasil, com imagens em preto e branco, transmiss&otilde;es atingindo dist&acirc;ncias limitadas e um uso ainda incipiente do v&iacute;deo-tape, rec&eacute;m chegado ao pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Mas as perspectivas comerciais e pol&iacute;ticas do novo ve&iacute;culo eram percebidas com clareza por empres&aacute;rios e pol&iacute;ticos, geralmente as duas coisas ao mesmo tempo. Tanto &eacute; que n&atilde;o perderam tempo.<\/p>\n<p>Os que possu&iacute;am concess&otilde;es de r&aacute;dio obtiveram as de TV sem concorr&ecirc;ncia, alegando tratar-se apenas de uma extens&atilde;o tecnol&oacute;gica e n&atilde;o de um novo meio de comunica&ccedil;&atilde;o. Semelhante ao que ocorreu agora com a distribui&ccedil;&atilde;o de freq&uuml;&ecirc;ncias digitais para os grupos que j&aacute; detinham as anal&oacute;gicas.<\/p>\n<p>Na &eacute;poca, como hoje, tudo isso ocorria sob uma fragilidade legal, conveniente para os empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o. Sentiam-se poderosos, mantinham governos &ndash; o segundo de Vargas e o de Juscelino &#8211; sob constante press&atilde;o. N&atilde;o havia motivo para cogitarem de leis reguladoras de suas atividades.<\/p>\n<p>O alerta soou mais forte diante da instabilidade dos sete meses de poder janista e, principalmente, das propostas reformistas de Jango. Os empres&aacute;rios sentiram que as press&otilde;es populares poderiam chegar &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e trataram de se antecipar.<\/p>\n<p>Elaboraram um C&oacute;digo de acordo com seus interesses e detendo forte poder no Congresso, como agora, conseguiram aprov&aacute;-lo. Fizeram uma lei destinada a privatizar o espa&ccedil;o p&uacute;blico, perpetuando privil&eacute;gios e tirando do Estado sua fun&ccedil;&atilde;o reguladora.<\/p>\n<p>O presidente Jo&atilde;o Goulart sentiu o golpe e vetou 52 artigos da lei aprovada pelo Legislativo. A resposta do Congresso foi fulminante: derrubou todos os vetos presidenciais, revelando a for&ccedil;a pol&iacute;tica do empresariado e a falta de sustenta&ccedil;&atilde;o parlamentar do governo.<\/p>\n<p>Em meio &agrave;s discuss&otilde;es em torno da derrubada dos vetos presidenciais, os radiodifusores reunidos em Bras&iacute;lia fundaram a Abert, a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o, at&eacute; hoje zelosa defensora de seus interesses.<\/p>\n<p>&ldquo;A cria&ccedil;&atilde;o da Abert refletia a mobiliza&ccedil;&atilde;o dos empres&aacute;rios do setor, que haviam se organizado em fun&ccedil;&atilde;o dos debates acerca do C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es e, posteriormente, em oposi&ccedil;&atilde;o aos vetos de Jo&atilde;o Goulart. Posicionavam-se, assim, contrariamente ao fortalecimento da presen&ccedil;a do Estado na radiodifus&atilde;o brasileira&rdquo; (1), ressaltam Pieranti e Martins em artigo acad&ecirc;mico sobre o tema.<\/p>\n<p>Cinq&uuml;enta anos depois a for&ccedil;a da Abert cresceu e o C&oacute;digo, apesar de mutilado, segue em vigor. O principal corte foi realizado durante o governo Fernando Henrique, em 1995, com a retirada da telefonia da lei, separando-a da radiodifus&atilde;o, ato contr&aacute;rio &agrave; tend&ecirc;ncia global de junt&aacute;-las para dar conta do atual processo de converg&ecirc;ncia dos meios.<\/p>\n<p>A raz&atilde;o desse anacronismo brasileiro estava na urg&ecirc;ncia de um marco legal para permitir a privatiza&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es sem mexer no vespeiro pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico da radiodifus&atilde;o. Restou-nos uma lei quase caduca para o r&aacute;dio e a TV, indevidamente chamada de C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Mas se o problema fosse s&oacute; titulo, n&atilde;o seria grave. A quest&atilde;o &eacute; que trata-se de uma lei formulada segundo interesses privados, elaborada em condi&ccedil;&otilde;es culturais e tecnol&oacute;gicas radicalmente diferentes das hoje existentes.<\/p>\n<p>Em 1962, cerca de 70% dos brasileiros viviam no campo. Hoje, segundo o Censo do IBGE de 2010, apenas 18% seguem na zona rural. A p&iacute;lula anticoncepcional e a mini-saia ainda estavam por vir e a tecnologia digital disseminada, um sonho. Mas a lei &eacute; a mesma.<\/p>\n<p>O pouco dela aproveit&aacute;vel n&atilde;o se cumpre. Como o disposto no Artigo 124 que limita em 25% da programa&ccedil;&atilde;o o tempo destinado &agrave; publicidade. Desafiando &agrave; lei, emissoras vendem j&oacute;ias, tapetes e outras mercadorias usando 100% dos seus hor&aacute;rios de programa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Outras fazem o mesmo de forma n&atilde;o t&atilde;o escancarada. Mas se somarmos o tempo dos an&uacute;ncios veiculados nos intervalos, com os dos &ldquo;merchandisings&rdquo;, poucas ficariam dentro dos limites legais.<\/p>\n<p>Em meio s&eacute;culo o setor concentrou-se de maneira brutal exigindo normas modernas para romper com a propriedade cruzada dos meios, talvez o maior obst&aacute;culo ao aprofundamento da democracia brasileira.<\/p>\n<p>Confort&aacute;veis com a fragilidade legal existente hoje, os radiodifusores at&eacute; h&aacute; pouco tempo nem queriam pensar num novo marco regulat&oacute;rio para o setor. Com as teles come&ccedil;ando a produzir conte&uacute;dos audiovisuais mudaram de opini&atilde;o e at&eacute; ap&oacute;iam uma nova regula&ccedil;&atilde;o. Mas bem limitada.<\/p>\n<p>Se em 1962 queriam a lei por temer reformas impulsionadas por um governo popular, hoje voltam a apoi&aacute;-la acuados pelo poder de fogo das empresas de telefonia. E nada mais.<\/p>\n<p>S&atilde;o insens&iacute;veis ao problema da propriedade cruzada dos meios, chegando a dizer em documento recente publicado pela Abert que discutir esse tema &ldquo;significaria um retrocesso&rdquo; (2) sem explicar bem porque.<\/p>\n<p>N&atilde;o querem nem ouvir falar da exist&ecirc;ncia de &oacute;rg&atilde;os reguladores, imprescind&iacute;veis para dar cumprimento &agrave;s leis e estabelecer a ponte necess&aacute;ria entre as emissoras e o p&uacute;blico, comuns em v&aacute;rios pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>A exist&ecirc;ncia de uma lei moderna, com a atua&ccedil;&atilde;o eficaz de um &oacute;rg&atilde;o regulador permitiria, por exemplo, a aplica&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es em casos de m&aacute; utiliza&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o p&uacute;blico de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p>Como ocorreu recentemente, na madrugada de uma segunda-feira, quando a Bandeirantes exibia um cl&aacute;ssico de Fellini: &ldquo;Satyricon&rdquo;. Sem avisar, cortou a &uacute;ltima parte do filme, substituindo-a por um programa de televendas e por um religioso.<\/p>\n<p>Em casa, o telespectador n&atilde;o tem a quem reclamar. E a emissora, certa da impunidade, seguir&aacute; com a mesma pr&aacute;tica exaltando a terra sem lei em que vivemos. H&aacute; quase 50 anos.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>(1) Pieranti, O. P. e Martins, P.E.M. &#8211; &quot;A radiodifus&atilde;o como um neg&oacute;cio: um olhar sobre a gesta&ccedil;&atilde;o do C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es&quot; in Revista de Economia Pol&iacute;tica de las Tecnologias de La Informaci&oacute;n y Comunicaci&oacute;n, S&atilde;o Cristov&atilde;o, vol.IX, n&ordm; 1, jan-abr\/2007.<\/p>\n<p>(2) Abert (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira das Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o) &#8211; Contribui&ccedil;&otilde;es para o Semin&aacute;rio de Comunica&ccedil;&atilde;o do PT in Semin&aacute;rio por um novo marco regulat&oacute;rio para as comunica&ccedil;&otilde;es: o PT convida ao debate &ndash; Partido dos Trabalhadores &ndash; S&atilde;o Paulo, 25\/11\/2011.<\/p>\n<p><em>Laurindo Lalo Leal Filho, soci&oacute;logo e jornalista, &eacute; professor de Jornalismo da ECA-USP. &Eacute; autor, entre outros, de &ldquo;A TV sob controle &ndash; A resposta da sociedade ao poder da televis&atilde;o&rdquo; (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Em casa, o telespectador n&atilde;o tem a quem reclamar. E  a emissora, certa da impunidade, seguir&aacute; com a mesma pr&aacute;tica exaltando a  terra sem lei em que vivemos. 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