{"id":26415,"date":"2011-12-06T16:50:14","date_gmt":"2011-12-06T16:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26415"},"modified":"2011-12-06T16:50:14","modified_gmt":"2011-12-06T16:50:14","slug":"a-distincao-entre-censura-estatal-e-marco-regulatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26415","title":{"rendered":"A distin\u00e7\u00e3o entre censura estatal e marco regulat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Tem sido comum encontrar em jornais e revistas mat&eacute;rias ditas profundas sobre este e aquele assunto. Os profissionais da imprensa falam com familiaridade de tudo, estejam ou n&atilde;o entendendo do que est&atilde;o falando, escrevendo, reverberando, repercutindo. Querem &ndash; e com toda a raz&atilde;o &ndash; o direito de deitar fala&ccedil;&atilde;o sobre qualquer assunto que esteja piscando em suas telas mentais. O trabalho de explicador ainda &eacute; propriedade &ndash; n&atilde;o exclusiva, &eacute; claro &ndash; dos que trabalham com a informa&ccedil;&atilde;o. Da&iacute; a necessidade de destrinchar termos acad&ecirc;micos, siglas pouco mencionadas, conceitos nebulosos e quase sempre expostos, mas n&atilde;o compreens&iacute;veis ao cidad&atilde;o ou cidad&atilde; comum.<\/p>\n<p>Um bom exemplo &eacute; explicitar o que seria h&aacute; menos de tr&ecirc;s anos o Roadrunner e o significado de um petaflop. Pois bem, em 9 de junho de 2008, a IBM veiculou um press release divulgando um supercomputador ultrarr&aacute;pido. Como seu nome sugere, o Roadrunner (&ldquo;corredor de estradas&rdquo;) &eacute; realmente um sistema veloz, processando um petaflop por segundo. O que &eacute; um petaflop? Boa pergunta. &Eacute; um quatrilh&atilde;o de c&aacute;lculos por segundo. A IBM percebeu que o n&uacute;mero n&atilde;o faria sentido para a grande maioria dos leitores e, ent&atilde;o, acrescentou a seguinte descri&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&ldquo;Qual &eacute; a rapidez de um petaflop? Muitos notebooks. Equivale, aproximadamente, ao poder de c&aacute;lculo combinado de 100 mil dos notebooks mais r&aacute;pidos da atualidade. Seria preciso uma pilha de notebooks com 2,4 quil&ocirc;metros de altura para se igualar ao desempenho do Roadrunner.<\/p>\n<p>&ldquo;Seria necess&aacute;rio que cada habitante da Terra &ndash; cerca de 7 bilh&otilde;es de pessoas &ndash; trabalhasse com uma calculadora, &agrave; taxa de um segundo por c&aacute;lculo, por mais de 46 anos, para fazer o que o Roadrunner consegue processar em um &uacute;nico dia. Na &uacute;ltima d&eacute;cada, se fosse poss&iacute;vel que os carros reduzissem seu consumo de gasolina na mesma propor&ccedil;&atilde;o que os supercomputadores melhoraram seu custo e sua efici&ecirc;ncia, eles hoje estariam percorrendo 85 mil quil&ocirc;metros com um litro de combust&iacute;vel.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>A op&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; uma escolha<\/strong><\/p>\n<p>Existem coisas que podem ser explicadas atrav&eacute;s de racioc&iacute;nios simples. E n&atilde;o h&aacute; complexidade que resista a uma boa explica&ccedil;&atilde;o. E existem in&uacute;meras figuras de linguagem e met&aacute;foras que podem fazer um oceano ser contido em simples x&iacute;cara de ch&aacute;. Mas existe um assunto que nunca &eacute; bem explicado pela m&iacute;dia, em especial a grande m&iacute;dia: o que significa mesmo esse tal de Marco Regulat&oacute;rio da M&iacute;dia (MRM)?<\/p>\n<p>A julgar pelo que &eacute; veiculado sobre o assunto nos grandes jornais &ndash; O Globo, Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo &ndash; e atrav&eacute;s das grandes emissoras de televis&atilde;o, com a TV Globo &agrave; frente, o nome do MRM n&atilde;o &eacute; outro que censura em estado bruto, interven&ccedil;&atilde;o do Estado na vida da sociedade, uma viol&ecirc;ncia contra um dos mais fundamentais direitos da pessoa humana &ndash; o direito &agrave; livre express&atilde;o. Mas ser&aacute; que &eacute; isso mesmo?<\/p>\n<p>A ado&ccedil;&atilde;o de MRM n&atilde;o seria uma chamada aos carret&eacute;is do longo novelo de linha que mistura interesses absolutamente privados dentro de uma fachada francamente favor&aacute;vel ou em benef&iacute;cio da sociedade? N&atilde;o teria chegado o momento de entender que somos livres a partir do momento em que estamos aptos a aceitar as consequ&ecirc;ncias de nossa liberdade? Ser&aacute; que ser livre n&atilde;o exige que sejamos conscientes de nossas atitudes e escolhas, pois o ato de escolher infere uma consequ&ecirc;ncia e a op&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o escolher &ndash; por si s&oacute; &ndash; j&aacute; &eacute; uma escolha? Ser&aacute; que estou me aproximando mais de um petaflop livre, leve e solto, e n&atilde;o de um petaflop devidamente apresentado, contextualizado?<\/p>\n<p><strong>As declara&ccedil;&otilde;es de Christine Lagarde<\/strong><\/p>\n<p>Por que &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil entender que existe uma diferen&ccedil;a brutal entre censura estatal e a ado&ccedil;&atilde;o de um marco regulat&oacute;rio da m&iacute;dia? Porque h&aacute; muita m&aacute; vontade de quem se sente no dever e no direito de apontar os erros, pecados, crimes, contraven&ccedil;&otilde;es, ilicitudes e ilegalidades cometidos por terceiros, principalmente se este for governo ou estiver legitimamente representando algum dos poderes Executivo, Legislativo e Judici&aacute;rio. E, tamb&eacute;m, porque n&atilde;o existe qualquer grama de interesse em mostrar, de maneira clara e transparente, que os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existem para manipular a opini&atilde;o p&uacute;blica, nem para instrumentalizar desejos e benef&iacute;cios privados. &Eacute; bem pr&oacute;prio da natureza humana desejar tutelar os demais e resistir a qualquer forma de tutela para si mesmo.<\/p>\n<p>Se os meios de comunica&ccedil;&atilde;o tratassem seus pares, isto &eacute;, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o concorrentes, com o mesmo apetite jornal&iacute;stico com que trata den&uacute;ncia de corrup&ccedil;&atilde;o em uma &aacute;rea governamental, ter&iacute;amos um debate sobre assunto bastante substancial e a sociedade teria a ganhar com isso. Mas n&atilde;o &eacute; assim que as coisas acontecem. O propriet&aacute;rio da revista &ldquo;A&rdquo; fecha neg&oacute;cio milion&aacute;rio com o governo do estado &ldquo;B&rdquo; e, al&eacute;m das assinaturas vendidas, entrega ao governante uma linha editorial auxiliar em que dar&aacute; proje&ccedil;&atilde;o e foco a tudo o que lhe possa melhorar a imagem junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que o elegeu, ao mesmo tempo em que varrer&aacute; para debaixo do tapete todos aqueles sintomas de corrup&ccedil;&atilde;o que ele, o meio de comunica&ccedil;&atilde;o, costuma denunciar com grande estardalha&ccedil;o se ocorrer nas cercanias do governo do estado &ldquo;C&rdquo;.<\/p>\n<p>Reflitamos por alguns minutos sobre o comportamento de nossa grande imprensa na quinta-feira (1\/12\/2011). Nesse dia, os jornais deram imenso destaque a mais uma den&uacute;ncia em desabono &agrave; perman&ecirc;ncia de Carlos Lupi &agrave; frente do Minist&eacute;rio do Trabalho e Emprego. O assunto que n&atilde;o baixar&aacute; a poeira enquanto a demiss&atilde;o de Carlos Lupi n&atilde;o for encontrada no Di&aacute;rio Oficial da Uni&atilde;o, foi manchete na capa do principal jornal do pa&iacute;s e continuou a ter destaque na escalada de not&iacute;cias de nosso telejornal de maior audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&Eacute; &oacute;bvio que o assunto s&oacute; mereceu este tratamento por clara op&ccedil;&atilde;o editorial e n&atilde;o, em absoluto, por conter suma import&acirc;ncia jornal&iacute;stica. &Eacute; que no mesmo dia esteve visitando o Brasil a diretora-gerente do Fundo Monet&aacute;rio Internacional, Christine Lagarde. A executiva-mor do sempre combatido FMI se encontrou, em Bras&iacute;lia, com a presidenta Dilma Rousseff e saiu do gabinete presidencial com frases como &ldquo;o Brasil est&aacute; mais protegido que outras na&ccedil;&otilde;es contra a crise econ&ocirc;mica&rdquo;, &ldquo;a economia brasileira est&aacute; bastante s&oacute;lida, o sistema banc&aacute;rio bem capitalizado&rdquo;, al&eacute;m de outros rasgados elogios &agrave; gest&atilde;o da economia brasileira.<\/p>\n<p>Vindo de quem vem, no momento em que a crise econ&ocirc;mica continua atingindo em cheio nada menos que a nata dos pa&iacute;ses mais desenvolvidos do mundo, incluindo as principais na&ccedil;&otilde;es europeias e os Estados Unidos, chega a ser inimagin&aacute;vel pensar em relegar tais frases (e em tal contexto) a um segundo plano em qualquer escala disso que chamamos valor-not&iacute;cia.<\/p>\n<p><strong>Acelerar o debate<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso aconteceu. E continuar&aacute; acontecendo. E pelo andar da carruagem n&atilde;o tardar&aacute; o dia em que leremos nos jornais a demiss&atilde;o anunciada, um a um, e com v&aacute;rias semanas de anteced&ecirc;ncia, de todos os integrantes do primeiro escal&atilde;o do governo federal. Ser&atilde;o demitidos por v&aacute;rios motivos. E dentre estes devido &agrave; baixa resist&ecirc;ncia da autoridade-alvo ao bombardeio midi&aacute;tico pesado, aquele em que balas de verdade se misturam a torpedos de festim e em que den&uacute;ncias bomb&aacute;sticas costumam se mostrar completamente infundadas e mesmo assim ainda se mesclam a den&uacute;ncias que merecem, no m&iacute;nimo, passar por investiga&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria a ser conduzida pelos &oacute;rg&atilde;os competentes.<\/p>\n<p>O curioso &eacute; que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o receberam um m&iacute;sero voto das urnas, aquele lugar onde a popula&ccedil;&atilde;o costuma se expressar na escolha de seus leg&iacute;timos representantes, mas entende ser seu direito aceitar ou repudiar este ou aquele nomeado por quem de direito &ndash; no caso, a presidenta da Rep&uacute;blica &ndash; para exercer fun&ccedil;&atilde;o elevada na condu&ccedil;&atilde;o dos destinos da na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Enquanto alinhavo esses pensamentos, me v&ecirc;m &agrave; mente algumas declara&ccedil;&otilde;es de Judith Brito, presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais (ANJ) e executiva do grupo Folha, no di&aacute;rio carioca O Globo (18\/3\/2010):<\/p>\n<p>&ldquo;A liberdade de imprensa &eacute; um bem maior que n&atilde;o deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto &eacute; sempre a quest&atilde;o da responsabilidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e, obviamente, esses meios de comunica&ccedil;&atilde;o est&atilde;o fazendo de fato a posi&ccedil;&atilde;o oposicionista deste pa&iacute;s, j&aacute; que a oposi&ccedil;&atilde;o est&aacute; profundamente fragilizada. E esse papel de oposi&ccedil;&atilde;o, de investiga&ccedil;&atilde;o, sem d&uacute;vida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.&rdquo;<\/p>\n<p>Feitas essas considera&ccedil;&otilde;es, expresso estes pensamentos imperfeitos e penso que temos mais &eacute; que acelerar o debate sobre a necessidade de um marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil.<\/p>\n<p>Motivos n&atilde;o faltam.<\/p>\n<p><em>Washington Ara&uacute;jo &eacute; mestre em Comunica&ccedil;&atilde;o pela UnB e escritor; criou o blog Cidad&atilde;o do Mundo.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o existe qualquer grama de interesse em mostrar de maneira transparente que os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existem para manipular a opini&atilde;o p&uacute;blica, nem para instrumentalizar desejos e benef&iacute;cios privados.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26415"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26415\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}