{"id":26414,"date":"2011-12-05T18:41:27","date_gmt":"2011-12-05T18:41:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26414"},"modified":"2011-12-05T18:41:27","modified_gmt":"2011-12-05T18:41:27","slug":"o-governo-nao-quer-comprar-briga-com-a-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26414","title":{"rendered":"&#8220;O governo n\u00e3o quer comprar briga com a m\u00eddia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Na esteira dos debates realizados durante a Confer&ecirc;ncia Nacional da Comunica&ccedil;&atilde;o, em 2009, e de um semin&aacute;rio internacional promovido pela Secretaria da Comunica&ccedil;&atilde;o da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, em 2010, criou for&ccedil;a a ideia de se estabelecer um marco regulat&oacute;rio para as comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil. Tratada pela m&iacute;dia como tentativa de controle da informa&ccedil;&atilde;o, a iniciativa ainda n&atilde;o conseguiu prosperar, embora esteja prevista na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 e normas do g&ecirc;nero sejam comuns em in&uacute;meros pa&iacute;ses da Europa e nos Estados Unidos. Quem aponta &eacute; o jornalista Altamiro Borges, que vem participando ativamente desse debate. Presidente do Centro de Estudos da M&iacute;dia Alternativa Bar&atilde;o de Itarar&eacute;, ele &eacute; autor do livro &ldquo;A ditadura da m&iacute;dia&rdquo;, no qual aborda o tema da concentra&ccedil;&atilde;o e do descompromisso com o interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p><strong>Ciranda &#8211; Como est&aacute; a discuss&atilde;o sobre o marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altamiro Borges &#8211; <\/strong>Essa discuss&atilde;o est&aacute; atrasada no Brasil. Em 2010, a Secretaria da Comunica&ccedil;&atilde;o da Presid&ecirc;ncia, encabe&ccedil;ada na &eacute;poca pelo Franklin Martins, fez um semin&aacute;rio internacional e trouxe ao Brasil representantes de &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos, da It&aacute;lia, da Espanha, do Reino Unido. Esse pessoal estranhou o fato de n&atilde;o haver regula&ccedil;&atilde;o no Brasil, porque isso existe em todo o mundo. Nos Estados Unidos, FCC (Federal Communications Commission) j&aacute; cassou mais de 100 outorgas de r&aacute;dio e televis&atilde;o. A Uni&atilde;o Europeia tem uma comiss&atilde;o s&oacute; para comunica&ccedil;&atilde;o, que avalia, por exemplo, qual a propagando que pode ser veiculada para crian&ccedil;as. Aqui, n&atilde;o tem nada, &eacute; a farra do boi.<\/p>\n<p><strong>Isso embora o tema esteja na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, n&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>O cap&iacute;tulo sobre comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; bom, mas virou letra morta. H&aacute; balizas fundamentais, como o fato de proibir monop&oacute;lios e a propriedade cruzada. Uma mesma empresa n&atilde;o pode ter TV, r&aacute;dio, jornal, revista, internet, teatro, cinema. Mas isso nunca foi regulamentado. Ao contr&aacute;rio, o monop&oacute;lio cresceu. Quando a Constitui&ccedil;&atilde;o foi promulgada, em 1989, havia 12 fam&iacute;lias que controlavam as comunica&ccedil;&otilde;es; hoje s&atilde;o sete. Al&eacute;m disso, deve haver complementariedade do sistema. No caso da radiodifus&atilde;o, a comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ficar s&oacute; no setor privado. &Eacute; a experi&ecirc;ncia do mundo inteiro, que tem redes privadas fortes, mas p&uacute;blicas tamb&eacute;m. O Reino Unido tem a BBC, em Portugal h&aacute; duas TVs p&uacute;blicas fort&iacute;ssimas, na Espanha idem. No Brasil, as TVs educativas s&atilde;o muito fr&aacute;geis porque n&atilde;o houve investimento. S&oacute; muito recentemente come&ccedil;ou com a EBC (Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o). A Constitui&ccedil;&atilde;o estabelece ainda que deve haver produ&ccedil;&atilde;o regional. Isso porque o cidad&atilde;o do Acre ou do Amap&aacute; n&atilde;o tem de falar com os esses do Rio de Janeiro, embora seja muito bonito.<\/p>\n<p><strong>Como funciona o mercado da comunica&ccedil;&atilde;o e que poder tem?<\/strong><\/p>\n<p>A comunica&ccedil;&atilde;o permaneceu um feudo, n&atilde;o chegou nem ao capitalismo. S&atilde;o fam&iacute;lias, verdadeiros senhores feudais, que controlam tudo. E n&atilde;o h&aacute; nenhum mecanismo de participa&ccedil;&atilde;o da sociedade. Esse poder midi&aacute;tico, que hoje inclui informa&ccedil;&atilde;o, entretenimento e cultura, &eacute; extremamente perigoso e se guia por raz&otilde;es econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas. J&aacute; &eacute; conhecido o poder de manipula&ccedil;&atilde;o, que se trata de real&ccedil;ar ou omitir informa&ccedil;&atilde;o. Outro aspecto &eacute; que a m&iacute;dia interfere tanto que gera valores e pode deformar comportamentos. Ao estimular um consumismo exacerbado, j&aacute; que vive de publicidade, estimula o individualismo doentio. Isso do ponto de vista de organiza&ccedil;&otilde;es sociais, como os sindicatos, &eacute; uma trag&eacute;dia porque enfraquece a a&ccedil;&atilde;o coletiva. Embora a Constitui&ccedil;&atilde;o seja precisa quanto &agrave; presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia do cidad&atilde;o, a m&iacute;dia hoje investiga, julga, condena e fuzila. Depois, se estiver errado, d&aacute; uma notinha. Isso &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o do jornalismo e acontece de forma seletiva, ou seja, quando interessa. Corrup&ccedil;&atilde;o no setor p&uacute;blico envolve dinheiro do povo. Portanto, deve ser apurada e punida, mas &eacute; preciso apurar de fato. E h&aacute; tamb&eacute;m os corruptores, que nunca aparecem nas manchetes, talvez porque sejam anunciantes.<\/p>\n<p><strong>Regras para esse setor s&atilde;o comuns nos paises desenvolvidos. Como est&aacute; o debate na Am&eacute;rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; pa&iacute;ses nos quais houve radicaliza&ccedil;&atilde;o do processo pol&iacute;tico. O golpe de 2002 na Venezuela foi feito dentro das reda&ccedil;&otilde;es, que antes paparicavam o Hugo Ch&aacute;vez. Depois disso, instituiu-se a regula&ccedil;&atilde;o e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas mais avan&ccedil;adas. Ch&aacute;vez fez in&uacute;meras r&aacute;dios comunit&aacute;rias, a publicidade p&uacute;blica passou a ser destinada tamb&eacute;m aos ve&iacute;culos pequenos. Se uma TV abusa da concess&atilde;o, fecha. Na Argentina, os dois principais grupos de comunica&ccedil;&atilde;o, El Clarin e La Naci&oacute;n tinham rela&ccedil;&atilde;o de compadrio com Kirchner. No mandato da Cristina, jogaram tudo para controlar o governo. Mais valente que o Ernesto, ela resolveu enfrentar. Acabou por exemplo com o monop&oacute;lio da transmiss&atilde;o dos jogos de futebol, hoje feita pela TV estatal. Essa radicaliza&ccedil;&atilde;o produziu a lei de m&iacute;dia da Argentina, extremamente avan&ccedil;ada. Agora, o setor privado s&oacute; pode deter um ter&ccedil;o da radiodifus&atilde;o, enquanto um ter&ccedil;o &eacute; estatal e outro das organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas.<\/p>\n<p><strong>Enquanto isso, no Brasil houve recuo da decis&atilde;o de regular, embora a discuss&atilde;o sobre o assunto tenha se ampliado.<\/strong><\/p>\n<p>Aqui a luta se radicaliza em per&iacute;odos eleitorais, mas depois aparentemente se suaviza. O governo n&atilde;o quer comprar briga com a m&iacute;dia, porque &eacute; um grande poder. Mas tem coisas muito importantes acontecendo. O movimento sindical, por exemplo, tem percebido que n&atilde;o adianta reclamar do tratamento que recebe da m&iacute;dia, &eacute; preciso lutar pela democratiza&ccedil;&atilde;o. E as entidades v&ecirc;m fortalecendo a sua comunica&ccedil;&atilde;o, percebendo que isso n&atilde;o &eacute; gasto, &eacute; investimento na luta de ideias. Isso permite dar alguns passos. Por exemplo, ter conselhos de comunica&ccedil;&atilde;o nos Estados, que &eacute; uma forma de a sociedade participar. Outro fator &eacute; que a m&iacute;dia &eacute; muito forte, mas tamb&eacute;m est&aacute; vulner&aacute;vel em fun&ccedil;&atilde;o de perda de credibilidade e da mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica trazida pela internet. A Folha tirava um milh&atilde;o de exemplares na d&eacute;cada de 80; hoje, s&atilde;o 289 mil. O JB acabou, o Estad&atilde;o est&aacute; morrendo. E mesmo na televis&atilde;o come&ccedil;a a haver uma migra&ccedil;&atilde;o, na juventude, para a internet. Esse &eacute; um fator que pode ajudar a ter regula&ccedil;&atilde;o. Os radiodifusores tradicionais est&atilde;o sofrendo a concorr&ecirc;ncia de um capitalismo extremamente ousado e agressivo por parte das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es que querem produzir conte&uacute;do. O faturamento da radiofus&atilde;o &eacute; de R$ 14 bilh&otilde;es; o das teles &eacute; de R$ 160 bilh&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Com isso o marco regulat&oacute;rio precisar&aacute; alcan&ccedil;ar tamb&eacute;m as teles.<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, porque &eacute; preciso um marco regulat&oacute;rio at&eacute; para defesa de soberania. Se essa jamanta econ&ocirc;mica entra, vamos ficar obrigados a assistir Bob Esponja de manh&atilde;, &agrave; tarde e &agrave; noite, o que &eacute; pior que a novela com sotaque do Rio de Janeiro. O triste nesses grupos de radiodifus&atilde;o &eacute; que eles sempre foram entreguistas, defenderam a privatiza&ccedil;&atilde;o imaginando que iriam adquirir poderosas empresas de telefonia, mas a&iacute; vieram as estrangeiras e eles dan&ccedil;aram. Poderiam agora denunciar a amea&ccedil;a &agrave; produ&ccedil;&atilde;o cultural brasileira, mas n&atilde;o o fazem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente do Centro de M&iacute;dia Alternativa Bar&atilde;o de Itarar&eacute; fala sobre o novo marco regulat&oacute;rio e as dificuldades encontradas na luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1612],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26414"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26414"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26414\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}