{"id":26406,"date":"2011-12-02T15:25:06","date_gmt":"2011-12-02T15:25:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26406"},"modified":"2011-12-02T15:25:06","modified_gmt":"2011-12-02T15:25:06","slug":"a-classificacao-indicativa-e-o-retrocesso-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26406","title":{"rendered":"A Classifica\u00e7\u00e3o Indicativa e o retrocesso brasileiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">O Brasil est&aacute; diante de um retrocesso hist&oacute;rico. A qualquer momento pode ser votada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a queda de parte de uma das maiores conquistas no que tange &agrave; regula&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil: a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa. Na tarde da &uacute;ltima quarta-feira (30\/11), o STF iniciou o julgamento da A&ccedil;&atilde;o Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que pede o fim da obrigatoriedade de hor&aacute;rios, em conformidade com as faixas et&aacute;rias, para a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa de programas de r&aacute;dio e TV. Apesar de a a&ccedil;&atilde;o questionar especificamente a vincula&ccedil;&atilde;o da programa&ccedil;&atilde;o aos hor&aacute;rios adequados &agrave;s faixas et&aacute;rias, como prev&ecirc;, inclusive, o Art. 220 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, esta medida coloca em risco a efic&aacute;cia de todo o processo da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa para televis&atilde;o e r&aacute;dio. <\/p>\n<p>A a&ccedil;&atilde;o, movida pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), j&aacute; teve o voto favor&aacute;vel de quatro ministros e n&atilde;o houve continuidade da vota&ccedil;&atilde;o ainda na mesma se&ccedil;&atilde;o porque o Ministro Joaquim Barbosa pediu vistas ao processo. A ADIN &eacute; claramente movida pelos interesses das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o, que desde a implementa&ccedil;&atilde;o das Portarias que regulamentam a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa tentam derrub&aacute;-la. Vale a pena lembrar da tentativa de mudan&ccedil;a do fuso hor&aacute;rio do Acre em benef&iacute;cio dessas redes h&aacute; cerca de dois anos e as propagandas criticando o projeto.<\/p>\n<p>O processo que deu origem ao Manual da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa e &agrave;s Portarias (1220\/2006 e 1000\/2007) que regulamentam a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente, assim como o C&oacute;digo Civil, al&eacute;m de outras leis correlatas, foi um processo democr&aacute;tico que contou com a participa&ccedil;&atilde;o de diferentes atores da sociedade. Como resultado deste processo, o Brasil tornou-se refer&ecirc;ncia na regula&ccedil;&atilde;o de uma classifica&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria para conte&uacute;do audiovisual e jogos em todo o mundo. <\/p>\n<p>Explicando rapidamente o processo, visto que at&eacute; os votos dos Ministros demonstram uma clara incompreens&atilde;o ou desconhecimento das Portarias, a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa &eacute; uma norma constitucional processual que resulta do equil&iacute;brio entre o direito de liberdade de express&atilde;o e o dever de prote&ccedil;&atilde;o absoluta de crian&ccedil;as e adolescentes. Em v&aacute;rios processos legais que envolvem direitos e deveres, haver&aacute; colis&otilde;es entre eles e a&nbsp; busca de uma solu&ccedil;&atilde;o para este embate parte da compreens&atilde;o dos direitos e das liberdades individuais e coletivas, bem como da observ&acirc;ncia dos deveres para que se possa viver em sociedade. A Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa &eacute; o resultado poss&iacute;vel de um processo democr&aacute;tico que visa a resolver conflitos. <\/p>\n<p>Neste processo, especificamente, est&atilde;o envolvidos o Estado, a sociedade (e aqui tamb&eacute;m as empresas que produzem conte&uacute;dos) e as fam&iacute;lias. Se h&aacute; uma compreens&atilde;o mundial, inclusive com acordos e tratados assinados pelo Brasil e pela maioria dos pa&iacute;ses democr&aacute;ticos, de que as crian&ccedil;as e adolescentes precisam de prote&ccedil;&atilde;o, o Estado deve garantir as condi&ccedil;&otilde;es da sociedade e da fam&iacute;lia cuidarem desses seres em clara situa&ccedil;&atilde;o de risco e vulnerabilidade. Indubitavelmente, uma das situa&ccedil;&otilde;es em que os pequenos se encontram em vulnerabilidade &eacute; no contato com obras culturais e audiovisuais. Frente &agrave; crescente import&acirc;ncia que estes meios t&ecirc;m na vida e na forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e dos adolescentes, n&atilde;o se pode expor sem cuidado determinados temas abordados nestas obras. <\/p>\n<p><strong>A decis&atilde;o &eacute; da fam&iacute;lia<\/strong><\/p>\n<p>Dentre estes temas e conte&uacute;dos, h&aacute; consenso sobre tr&ecirc;s quest&otilde;es relativas &agrave; prote&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as: a exposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s drogas, &agrave; viol&ecirc;ncia a ao sexo. S&atilde;o apenas a partir destes tr&ecirc;s pontos &#8211; seus atenuantes e agravantes &#8211; que se posiciona a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa. &Eacute; com rela&ccedil;&atilde;o ao percentual de sexo, drogas e viol&ecirc;ncia que uma obra &eacute; classificada etariamente. N&atilde;o h&aacute; em qualquer momento a sugest&atilde;o de que o autor altere a sua cria&ccedil;&atilde;o, mas apenas a adequa&ccedil;&atilde;o a uma determinada classifica&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria. &nbsp;<\/p>\n<p>E para que serve essa classifica&ccedil;&atilde;o? Ao contr&aacute;rio do que se tenta passar, o Estado n&atilde;o interfere, n&atilde;o dita e n&atilde;o resolve nada do que vai ser visto pelo seu filho ou filha. Esta continua sendo uma escolha da fam&iacute;lia e somente dela. A Portaria da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa criou, como resultado de todo processo (do qual participaram advogados, psic&oacute;logos, produtores audiovisuais, professores de comunica&ccedil;&atilde;o etc), o Manual da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa. O Manual diz respeito a todos os produtos, classificando as obras como &ldquo;Especialmente Recomendado&rdquo;, &ldquo;Livre&rdquo;, &ldquo;10, 12, 14,16 e 18 anos&rdquo;. <\/p>\n<p>Quem faz essa Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa? Em primeira inst&acirc;ncia sempre o produtor! No caso do cinema e dos jogos eletr&ocirc;nicos, estes produtos s&atilde;o levados ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, que averigua a adequa&ccedil;&atilde;o da obra aos crit&eacute;rios brasileiros. Na grande maioria dos casos, a classifica&ccedil;&atilde;o &eacute; adequada e apenas em um percentual muito pequeno existe a solicita&ccedil;&atilde;o de readequa&ccedil;&atilde;o. Cabe lembrar que os pais podem optar por autorizar seus filhos para que eles vejam filmes com classifica&ccedil;&atilde;o diferente da indicada para sua idade &#8211; com exce&ccedil;&atilde;o apenas dos filmes de 18 anos &#8211; ou podem comprar jogos de luta, morte, sexo e drogas para os seus filhotes de 8 anos. A decis&atilde;o &eacute; dos pais! O Estado exige apenas que o produtor classifique e averigua tal classifica&ccedil;&atilde;o, caso isso seja do interesse ou curiosidade dos pais. O produtor, por sua vez, faz seu papel de classificar e submeter &agrave; an&aacute;lise do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. E &agrave; fam&iacute;lia cabe escolher o conte&uacute;do a que seus filhos v&atilde;o ter acesso. <\/p>\n<p><strong>Adequa&ccedil;&atilde;o do hor&aacute;rio de exibi&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>No caso da televis&atilde;o, o produto n&atilde;o passa antecipadamente pelo Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. Havendo den&uacute;ncia de inadequa&ccedil;&atilde;o, que pode ser feita pela pr&oacute;pria sociedade ou pelos profissionais do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a que monitoram a programa&ccedil;&atilde;o, o programa &eacute; notificado e &eacute; solicitada a readequa&ccedil;&atilde;o da classifica&ccedil;&atilde;o sugerida. O que h&aacute; de diferente para as empresas de r&aacute;dio e televis&atilde;o &eacute; que a adequa&ccedil;&atilde;o da faixa et&aacute;ria est&aacute; atrelada aos hor&aacute;rios em que as crian&ccedil;as e adolescentes est&atilde;o expostos &agrave; televis&atilde;o. No caso, os pais que trabalham fora de casa o dia inteiro e que n&atilde;o podem exercer diuturnamente a sua fiscaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o correm o risco de chegar em casa e saber que seus filhos assistiram na &ldquo;Sess&atilde;o da Tarde&rdquo; um filme com conte&uacute;do de viol&ecirc;ncia, drogas ou sexo inadequado para a idade deles. <\/p>\n<p>O que as redes de televis&atilde;o querem &eacute; a &ldquo;liberdade&rdquo; de passar a qualquer hora qualquer classifica&ccedil;&atilde;o e voc&ecirc;, que n&atilde;o est&aacute; em casa o dia todo, ou que se ausentou para ir resolver qualquer problema, ou que estava lavando as roupas, trocando as fraldas ou fazendo o almo&ccedil;o, tenha que lidar com a chance de que seus filhos vejam &ldquo;P&acirc;nico na TV&rdquo; ou &ldquo;Cine Prive&rdquo; &agrave; tarde. <\/p>\n<p>O que se est&aacute; discutindo n&atilde;o &eacute; se o Estado vai ou n&atilde;o resolver o que seus filhos v&atilde;o assistir &#8211; j&aacute; est&aacute; claro que o papel do Estado n&atilde;o &eacute; esse. Ele apenas auxilia para que voc&ecirc; saiba o conte&uacute;do e possa escolher, e o que se coloca em quest&atilde;o &eacute; justamente a n&atilde;o possibilidade de&nbsp; que pais, m&atilde;es ou respons&aacute;veis estejam presentes o tempo todo com seus filhos. E a depender do julgamento do STF, &eacute; o mercado quem vai decidir o conte&uacute;do ao qual os seus filhos ter&atilde;o acesso. E, como se sabe, se o programa &ldquo;P&acirc;nico na TV&rdquo; tem elevados &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia passando &agrave;s 23h, vai ter ainda mais passando &agrave;s 17h &ndash; n&atilde;o restam muitas d&uacute;vidas de qual ser&aacute; a op&ccedil;&atilde;o da emissora. Mas voc&ecirc; ainda n&atilde;o chegou do trabalho, ou &eacute; a hora de pegar o outro filho na escola&#8230; problema seu! &Eacute; isso que est&aacute; em jogo. S&atilde;o as leis do mercado se sobrepondo &agrave; realidade das fam&iacute;lias brasileiras &agrave;s leis estabelecidas, como o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente. <\/p>\n<p>H&aacute; tamb&eacute;m que se esclarecer que ao contr&aacute;rio do que declarou em seu voto o Ministro Toffoli, a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa &eacute; presente sim em muitos pa&iacute;ses. Os Estados Unidos, a Argentina, o Chile, a &Aacute;ustria e a Fran&ccedil;a s&atilde;o exemplos de pa&iacute;ses que t&ecirc;m classifica&ccedil;&atilde;o indicativa (www.midiativa.tv\/direitos\/classindimundo.doc). N&atilde;o estamos inventando a roda e ainda estamos muito distantes de pa&iacute;ses democr&aacute;ticos como a Noruega, o Canad&aacute; e tantos outros em que a publicidade para crian&ccedil;as j&aacute; n&atilde;o existe ou &eacute; dirigida apenas aos pais. Isso sim &eacute; proteger as crian&ccedil;as, que s&atilde;o o presente e o futuro de um pa&iacute;s.<br \/>&nbsp;<br \/><strong>Decis&otilde;es problem&aacute;ticas<\/strong><\/p>\n<p>Vale ainda lembrar que esta n&atilde;o &eacute; a primeira decis&atilde;o do STF que privilegia os interesses dos empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o, sem que qualquer a&ccedil;&atilde;o at&eacute; agora movida contra eles tenha logrado &ecirc;xito. H&aacute; pouco tempo, o Tribunal votou a revoga&ccedil;&atilde;o da Lei de Imprensa, por completo, apesar de a mesma j&aacute; ter seus piores artigos vetados. Ocorre que at&eacute; hoje n&atilde;o foi votada no Congresso Nacional a nova Lei de Imprensa e os meios de comunica&ccedil;&atilde;o est&atilde;o funcionando sem nenhuma regula&ccedil;&atilde;o. O mesmo foi feito com a queda da obrigatoriedade do Diploma para o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o de jornalista. Sob o argumento de que este seria um empecilho &agrave; liberdade de express&atilde;o, o Ministro Gilmar Mendes, em seu voto de Relator, t&atilde;o preocupado com a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, esqueceu-se tamb&eacute;m de questionar concentra&ccedil;&atilde;o e os grandes conglomerados de comunica&ccedil;&atilde;o, estes sim o principal empecilho &agrave; liberdade de express&atilde;o. A atualiza&ccedil;&atilde;o da regula&ccedil;&atilde;o da profiss&atilde;o, que independe da exig&ecirc;ncia do diploma, at&eacute; o momento n&atilde;o aconteceu. Al&eacute;m destas, o Supremo tamb&eacute;m considerou improcedente a a&ccedil;&atilde;o contra a consigna&ccedil;&atilde;o de novos canais para os radiodifusores prevista no decreto que criou o Sistema Brasileiro de Televis&atilde;o Digital. <\/p>\n<p>No entanto, outras a&ccedil;&otilde;es movidas para que o Estado fa&ccedil;a cumprir os artigos do cap&iacute;tulo da Comunica&ccedil;&atilde;o Social presentes Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, como a que veta o monop&oacute;lio e o oligop&oacute;lio das comunica&ccedil;&otilde;es, ainda n&atilde;o foram apreciadas pela mesma Corte.<br \/><em><\/p>\n<p>Marina Martins <\/em><em>&eacute; jornalista,  Doutoranda do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia. Professora Substituta da UnB e Membro do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span> <\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> A ADIN &eacute; claramente movida pelos interesses das emissoras de r&aacute;dio e  televis&atilde;o, que desde a implementa&ccedil;&atilde;o das Portarias que regulamentam a  Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa tentam derrub&aacute;-la.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[56],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26406"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26406"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26406\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}